Esta atitude séria e curiosa na procura de compreender as coisas e os fatos caracteriza o ato de estudar. Um texto para ser lido é um texto para ser estudado. Um texto para ser estudado é um texto para ser interpretado. Não podemos interpretar um texto se o lemos sem atenção, sem curiosidade; se desistimos da leitura quando encontramos a primeira dificuldade. Se um texto às vezes é difícil, insiste em compreendê-lo. Estudar exige disciplina. Estudar não é fácil porque estudar é criar e recriar e não repetir o que os outros dizem.
O POVO DIZ A SUA PALAVRA ou a alfabetização em São Tomé e Príncipe (*)
PAULO FREIRE
Primeira parte
Mais uma vez, ao longo dos anos, me ponho em frente de páginas em branco para escrever sobre o processo de alfabetização de adultos. Parece-me interessante salientar que o fato de haver tratado várias vezes este assunto não mata em mim nem sequer diminui um certo estado de espírito, típico de quem discute pela primeira vez um tema. É que, para mim, não há assuntos encerrados. É por isso que penso e re-penso o processo de alfabetização como quem está sempre diante de uma novidade, mesmo que, nem toda vez, tenha novidades sobre o que falar. Mas, ao pensar e ao re-pensar a alfabetização, penso ou re-penso a prática em que me envolvo. Não penso ou re-penso o puro conceito, desligado do concreto, para, em seguida, descrevê-lo.
Neste artigo, falarei da alfabetização de adultos no contexto da República Democrática de São Tomé e Príncipe (1), a cujo governo venho dando, juntamente com Elza Freire, uma contribuição no campo da educação de adultos, hoje menos sistemática do que três anos atrás.
Antes de entrar na discussão de alguns pontos centrais que marcam a experiência de alfabetização de adultos em São Tomé e Príncipe, me parece importante fazer algumas considerações em torno de como venho entendendo e vivendo as relações entre mim, enquanto assessor, e o governo assessorado. Para nós, porque esta é também a posição de Elza, o assessor não é uma figura neutra, fria, descomprometida, disposta sempre a responder tecnicamente às solicitações que lhe sejam feitas. Para nós, pelo contrário, o assessor (ou assessora) é um político e sua prática, não importa no campo em que se dê, é política também. Por isso é que, do nosso ponto de vista, se torna indispensável uma concordância em torno de aspectos fundamentais entre o assessor e o governo assessorado. Me seria impossível, por exemplo, dar uma colaboração, por mínima que fosse, a uma campanha de alfabetização de adultos promovida por um governo antipopular. O meu respeito aos nacionais, a cujo governo assessoro, o meu cuidado para que a minha colaboração não se torne uma invasão disfarçada pressupõem um terreno comum em que caminhamos o governo e eu.
É neste terreno comum, nesta identidade de opções política, com prováveis e salutares divergências, que minha prática vai tornando um companheiro dos nacionais e não um puro aplicador de formular impossivelmente neutras. Eu não poderia assessorar um governo que, em nome da primazia da “aquisição” de técnicas de ler e de escrever palavras por parte dos alfabetizandos, exigisse de mim ou simplesmente sugerisse que eu fizesse a dicotomia entre a leitura do texto e a leitura do contexto. Um governo para quem a “leitura” do concreto, o desvelamento do mundo não são um direito do povo, que, por isso mesmo, deve ficar reduzido à leitura mecânica da palavra.
Todo o esforço que vem sendo feito em São Tomé e Príncipe na prática da alfabetização de adultos como na da pós-alfabetização se orienta neste sentido (2). Os Cadernos de Cultura Popular que vêm sendo usados pelos educandos como livros básicos, quer na alfabetização quer na pós-alfabetização, não são cartilhas nem manuais com exercícios ou discursos manipuladores. Caderno de Cultura Popular é o nome genérico que vem sendo dado a esta série de livros de que o primeiro é o da alfabetização. Este primeiro caderno é composto de duas partes, sendo a segunda uma introdução à pós-alfabetização. Como reforço a este primeiro caderno há um outro de exercícios, chamado Praticar para Aprender.
O Segundo Caderno de Cultura Popular, como o qual se inicia ou se pretende iniciar a pós-alfabetização, é um livro de textos, escritos em linguagem simples, jamais simplista, que trata uma temática ampla e variada, ligada, toda ela, ao momento atual do país. O que se pretende com estes textos – entre os quais serão alguns transcritos na Segunda Parte deste trabalho – é que eles se entreguem à curiosidade crítica dos educandos e não que sejam lidos mecanicamente. A linguagem dos textos é desafiadora e não sloganizadora. O que se quer é a participação efetiva do povo enquanto sujeito, na reconstrução do país, a serviço de que a alfabetização e a pós-alfabetização se acham (3).
Por isso mesmo os cadernos não são nem poderiam ser livros neutros. É que, na verdade, o contrária da manipulação nem é a neutralidade impossível nem o esponteneísmo. O contrário da manipulação, como do esponteneísmo, é a participação crítica e democrática dos educandos no ato de conhecimento de que são também sujeitos. É a participação crítica e criadora do povo no processo de reinvenção de sua sociedade, no caso a sociedade são-tomense, recém-independente do jugo colonial, que há tanto tempo a submetia.
Esta participação consciente na reconstrução da sociedade, participação que se pode dar nos mais diferentes setores da vida nacional e em níveis diferentes, demanda, necessariamente, uma compreensão crítica do momento de transição revolucionária em que se acha o país. Compreensão crítica que se vai gerando na prática mesmo de participar e que deve ser incrementada pela prática de pensar a prática. Neste sentido, a alfabetização e a pós-alfabetização, através das palavras e dos temas geradores numa e noutra, não podem deixar de propor aos educandos uma reflexão crítica sobre o concreto, sobre a realidade nacional, sobre o momento presente – o da reconstrução, com seus desafios a responder e suas dificuldades a superar.
É preciso, na verdade, que a alfabetização de adultos e a pós-alfabetização, a serviço da reconstrução nacional, contribuam para que o povo, tomando mais e mais a sua História nas mães, se refaça na feitura da História. Fazer a História é estar presente nela e não simplesmente nela estar representado (4). Pobre do povo que aceita, passivamente, sem o mais mínimo sinal de inquietação, a notícia segundo a qual, em defesa de seus interesses, “fica decretado que, nas terças-feiras, se começa a dizer boa noite a partir das duas horas da tarde”. Este será um povo puramente representado, já não presente na História. Quanto mais conscientemente faça a sua História, tanto mais o povo perceberá, com lucidez, as dificuldades que tem a enfrentar, no domínio econômico, social e cultural, no processo permanente da sua libertação.
Na medida e que a reconstrução nacional é a continuidade da luta anterior, do esforço anterior em busca da independência, é absolutamente indispensável que o povo todo assuma, em níveis diferentes, mas todos importantes, a tarefa de refazer a sua sociedade, refazendo-se a si mesmo também. Sem esta assunção da tarefa maior – e de si mesmo na assunção desta tarefa –, o povo abandonará a pouco e pouco a sua participação da feitura da História. Deixará, assim, de estar presente nela e passará a ser simplesmente nela representado. Este é um desafio histórico que o período atual de transição coloca, de um lado, ao povo de São Tomé e Príncipe, e, de outro, à lealdade revolucionária de sua liderança, e eu espero que ambos – o povo e sua liderança – respondam corretamente a este desafio.
A mobilização e a organização popular, e termos realmente participatórios, que são em si, já, tarefas eminentemente político-pedagógicas, às quais a alfabetização e a pós-alfabetização não poderiam estar alheias, são meios de resposta àquele desafio. Como meio de resposta a ele, é a informação formadora e não slogalizante, domesticadora, e torno dos mais mínimos problemas que tenham que ver com o destino do país.
A alfabetização de adultos enquanto ato político e ato de conhecimento, comprometida com o processo de aprendizagem da escrita e da leitura da palavra, simultaneamente com a “leitura” e a “reescrita” da realidade, e a pós-alfabetização, enquanto continuidade aprofundada do mesmo ato de conhecimento iniciado na alfabetização, de um lado, são expressões da reconstrução nacional em marcha; de outro, práticas impulsionadoras da reconstrução. Uma alfabetização de adultos que, em lugar de propor a discussão da realidade nacional e de suas dificuldades, em lugar de colocar o problema da participação política do povo na reinvenção da sua sociedade, estivesse girando em volta dos ba-be-bi-bo-bu, a que juntasse falsos discursos sobre o país – como tem sido tão comum em tantas campanhas – estaria contribuindo para que o povo fosse puramente representado na sua História. Em São Tomé e Príncipe, pelo contrário, o que vem interessando é o desvelamento da realidade. A educação com que o governo vem se comprometendo é a que desoculta e não a que esconde em função dos interesses dominantes.
A compreensão do processo do trabalho, do ato produtivo em sua complexidade, da maneira como se organiza e desenvolve a produção, a necessidade de uma formação técnica do trabalhador, formação, porém, que não se esgote num especialismo estreito e alienante; a compreensão da cultura e do seu papel, tanto no processo de libertação quanto no da reconstrução nacional; o problema da identidade cultural, cuja defesa não deve significar a refeição ingênua à contribuição de outras culturas, tudo isso são temas fundamentais que se acham referidos à maioria das palavras que constituem o programa de alfabetização. Temas fundamentais que vêm sendo debatidos, toda vez que possível (5), de forma introdutória, na etapa da alfabetização, e que se acham retomados e propostos de modo problematizador nos textos que compõem os Cadernos de Cultura Popular, empregados na pós-alfabetização.
No momento em que, escrevendo este artigo, a pouco e pouco, vou enchendo as páginas em branco à minha disposição, não posso deixar de pensar em São Tomé, sobretudo porque é a seu contexto que o que escrevo agora se acha referido. Me revejo, sem nenhum esforço de memória, visitando os Círculos de Cultura, da zona rural ou urbana, acompanhado sempre de meus amigos, os coordenadores da campanha ou do programa de alfabetização de adultos (6). São visitas em que, juntos, vamos anotando os aspectos mais positivos da prática político-educativa dos animadores, ao lado, também, de algumas falhas, em que vamos observando o desenvolvimento intelectual dos grupos, sua capacidade de ler os textos e de compreender a realidade, sua curiosidade.
Entre as inúmeras recordações que guardo da prática dos debates nos Círculos de Cultura de São Tomé, gostaria de referir-me agora a uma que me toca de modo especial. Visitávamos um Círculo numa pequena comunidade pesqueira chamada Monte Mário. Tinha-se como geradora a palavra bonito, nome de um peixe, e como codificação um desenho expressivo do povoado, com sua vegetação, as suas casas típicas, com barcos de pesca ao mar e um pescador com um bonito à mão. O grupo de alfabetizandos olhava em silêncio a codificação. Em certo momento, quatro entre eles se levantaram, como se tivessem combinado, e se dirigiram até a parede em que estava fixada a codificação (o desenho do povoado). Observaram a codificação de perto, atentamente. Depois, dirigiram-se à janela da sala onde estávamos. Olharam o mundo lá fora. Entreolharam-se, olhos vivos, quase surpresos, e, olhando mais uma vez a codificação, disseram: “É Monte Mário. Monte Mário é assim e não sabíamos”. Através da codificação, aqueles quatro participantes do Círculo “tomavam distância” do seu mundo e o re-conheciam. Em certo sentido, era como se estivessem “emergindo” do seu mundo, “saindo” dele, para melhor conhecê-lo. No Círculo de Cultura, naquela tarde, estavam tendo uma experiência diferente: “rompiam” a sua “intimidade” estreita com Monte Mário e punham-se diante do pequeno mundo da sua quotidianidade como sujeitos observadores.
No Círculo de Cultura, enquanto contexto que costumo chamar teórico, esta atitude de sujeito curioso e crítico é o ponto de partida fundamental a começar na alfabetização. O exercício desta atividade crítica, na análise da prática social, da realidade em processo de transformação possibilita aos alfabetizandos, de um lado, aprofundar o ato de conhecimento da pós-alfabetização; de outro, assumir diante de sua quotidianidade uma posição mais curiosa. A posição de quem se indaga constantemente em torno da própria prática, em torno da razão de ser dos fatos em que se acha envolvido.
Na etapa da alfabetização, o que se pretende não é ainda uma compreensão profunda da realidade que se está analisando, mas desenvolver aquela posição curiosa referida acima; estimular a capacidade crítica dos alfabetizandos enquanto sujeitos do conhecimento, desafiados pelo objeto a ser conhecido. É exatamente a experiência sistemática desta relação que é importante. A relação do sujeito que procura conhecer com o objeto a ser conhecido. Relação que inexiste toda vez que, na prática, o alfabetizando é tomado como paciente do processo, puro recipiente da palavra do alfabetizador. Neste caso, então, não diz a sua palavra.
Obviamente, nem tudo são flores no desenvolvimento de um trabalho como este, num país pobre, pequeno, recém-independente do jugo colonial, tendo seu povo e sua liderança de enfrentar um sem-número de dificuldades, entre elas as decorrentes da flutuação do preço internacional do seu principal produto, o cacau; tendo de superar legados fortemente negativos de séculos de colonialismo, entre os quais a escassez de quadros nacionais, hoje ainda quantitativamente insuficientes para as tarefas que a reconstrução nacional demanda. A escassez de quadros e de recursos materiais, refletindo-se necessariamente no plano da alfabetização de adultos, teria de constituir-se em obstáculo não apenas a sua programação mas também a seu desenvolvimento. Não foi por outra razão que a ex-ministra da Educação, Maria Amorim, optou por um programa humilde mas realista, à altura das reais possibilidades do país. Um programa a ser posto em prática durante quatro anos, dentro dos quais se fará a superação do analfabetismo em São Tomé e Príncipe, com o povo dizendo a sua palavra.
Ao longo da Primeira Parte deste artigo foi dito várias vezes que os materiais elaborados quer para a fase de alfabetização quer para a de pós-alfabetização se caracterizavam por serem materiais desafiadores e não domesticadores. Numa tentativa de exemplificar o afirmado, serão transcritas aqui partes do Caderno de Exercícios, Praticar para Aprender, da fase de alfabetização, e alguns textos do segundo Caderno de Cultura Popular, da etapa de pós-alfabetização (7).
A primeira página de Praticar para Aprender é composta de duas codificações (duas fotografias): uma, de uma das lindas enseadas de São Tomé, com um grupo de jovens nadando; a outra, numa área rural, com um grupo de jovens trabalhando. Ao lado da fotografia dos jovens nadando está escrito: “É nadando que se aprende a nadar”. Ao lado da fotografia dos jovens trabalhando está escrito: “É trabalhando que se aprende a trabalhar”. E, no fim da página: “Praticando, aprendemos a praticar melhor”.
Não me parece necessário, aqui, insistir demasiado no que esta primeira página do Caderno de Exercícios, que começa a ser usado quando os alfabetizandos já são capazes de ler pequenas sentenças, pode oferecer a educadora e educandos como reflexão em torna da importância da prática para o ato de conhecimento. Este momento é mais um em que se pode reforçar a idéia fundamental de que o povo tem um saber na medida mesma em que, participando de uma prática que é social, faz coisas.
Reforçando a importância da prática, se diz na segunda página do Caderno:
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“Se é praticando que se aprende a nadar, Se é praticando que se aprender a trabalhar, É praticando também que se aprender a ler e a escrever. Vamos praticar para aprender E aprender para praticar melhor.
Vamos ler
Povo
Saúde
Matabala (8)
Rádio
Vamos escrever”
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O espaço que se segue, em branco, é para o uso dos alfabetizandos. Cabe ao educador, aproveitando a própria maneira como o Caderno foi concebido, desafiar os educandos a que escrevam o que queiram e o que possam com as palavras sugeridas. Na página 7, em um texto um pouco maior, se volta à questão da prática:
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“Antônio, Maria, Pedro e Fátima sabem ler e escrever. Aprenderam a ler praticando a leitura. Aprenderam a escrever praticando a escrita. É praticando que se aprende. Vamos escrever”
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Mais uma vez, o espaço em branco como convite aos alfabetizandos para que se arrisquem a escrever. Em todo o Caderno, do começo ao fim, se problematiza constantemente os alfabetizandos para que escrevam e leiam praticando a escrita e a leitura. Se, em lugar nenhum, é possível escrever sem praticar a escrita, numa cultura de memória preponderantemente oral como a são-tomense, um programa de alfabetização precisa, de um lado, respeitando a cultura como está sendo no momento, estimular e oralidade dos alfabetizandos nos debates, no relato de estórias, nas análises dos fatos; de outro, desafiá-los a que comecem também a escrever. Ler e escrever como momentos inseparáveis de um mesmo processo – o da compreensão e o do domínio da língua e da linguagem. Na página 11 se propõe um texto mais complexo, mas não extenso, que trata de aspectos da vida colonial e do momento atual da reconstrução nacional. O texto é precedido de algumas palavras que envolvem temas centrais da reconstrução nacional. A página começa assim:
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“Vamos ler
Escola
Roça (9)
Terra
Plantar
Produto
Antes da Independência, a maioria de nosso Povo não tinha escolas. As roças, com suas terras de plantar, pertenciam aos colonizadores. O produto de nosso trabalho era deles também. Com a Independência, tudo está ficando diferente. Temos mais escolas para nossas crianças e o Povo começou a estudar.
Vamos escrever”
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Considerando ainda o caráter oral da cultura, no estado em que se encontra, sugere-se aos animadores que, não apenas com relação a este texto, mas com relação a todos, façam uma leitura primeira, em voz alta, pausadamente, que deve ser seguida silenciosamente pelos alfabetizandos. Em continuação, que estes prossigam na sua leitura silenciosa durante um certo momento após o qual se começará, de um a um, a leitura em voz alta. Qualquer que seja o texto, terminada a sua leitura, é indispensável a discussão em torno dele.
No esforço de continuar desafiando os alfabetizandos a ler criticamente e a escrever, ao mesmo tempo que se prossegue no estímulo à sua oralidade, se lhes propõe o seguinte exercício, na página 12:
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“Praticar sempre para aprender
e
aprender para praticar melhor.
Vamos ler
Enxada
Sementeira
Fonte
Conhecimento
O trabalho produtivo é fonte de conhecimento. Com a enxada preparamos os campos para a sementeira e ajudamos a construir um país novo. Nossos filhos e filhas devem aprender trabalhando. Nossas escolas devem ser escolas de trabalho. Tente escrever sobre o texto que acaba de ler. Escreva igual a como fala. É praticando que se aprende.”
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Depois de alguns exercícios que introduzem os verbos ser, estar e ter, no tempo presente do modo indicativo, mas sem nenhuma definição do que é verbo e nenhuma consideração teórica a propósito de seus modos e de seus tempos e pessoas, se chega à página 17 com mais um desafio à criticidade dos alfabetizandos.
Se se observa bem o Caderno de Exercícios, de que venho agora transcrevendo partes, se nota como o desafio à percepção crítica dos alfabetizandos gradualmente cresce, página a página, bem como o chamamento a que se experimentem na escrita. Se, porém, a palavra escrita é estranha ou quase estranha em um dado momento de uma cultura, introduzi-la antes de, ou concomitantemente a transformações infra-estruturais que, com o tempo, passariam a exigi-la, não é tarefa fácil. Às vezes, contudo, inadiável.
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“Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso, aprendemos sempre (10).
Vamos ler, pensar e discutir
Trabalhando com afinco, produzimos mais. Produzindo mais, nas terras que são nossas, criamos riquezas para a felicidade do Povo. Com o MLSTP (11) estamos a construir uma sociedade em que todos participam para o bem-estar de todos. Precisamos estar vigilantes contra aqueles que pretendem começar de novo o sistema de exploração das maiorias por uma minoria dominante. Agora tente escrever sobre o que leu e discutiu.”
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Nas páginas 20 e 21, há textos que exemplificam o uso de pronomes pessoais subjetivos
e objetivos sem que se faça, contudo, nenhuma alusão a princípios gramaticais. Página 20:
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“Vamos ler
Eu me preocupo com o nosso País. Carlos deu um livro a Maria e outro a mim.
Dois dias depois, Carlos veio à roça falar comigo. Eu sou teu amigo, gosto de ti. Leva contigo este livro que te dou. Ele desperta cedo para o trabalho. Às vezes, fala consigo mesmo, de si para si. Ela também fala consigo mesma. Ele e ela pensam no futuro de seu povo ao mesmo tempo que trabalham para fazer o futuro. Todas às vezes em que o vejo e em que a vejo lhes falo dos estudos.
Eu – me – a mim – de mim – para mim – comigo
Tu – te – a ti – de ti – para ti – contigo
Ele – Ela – se – a si – de si – para si – consigo – lhe – o – a
Escreva frases com Me – te – comigo – a ti – a mim”
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Página 21:
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“Vamos ler
Nós nos tornamos independentes à custa de muitos sacrifícios. Com unidade, disciplina e trabalhos estamos a consolidar nossa independência. Repelimos quem está contra nós e acolhemos aqueles e aquelas que demonstram sua solidariedade conosco. Vós, colonialistas, vos enganastes, ao pensar que vosso poder de explorar era eterno. Para vós, era impossível que a fraqueza dos explorados se tornasse força na luta contra vosso poder. Levastes convosco quase tudo o que era nosso, mas não pudestes levar convosco a nossa vontade determinada de ser livres. Maria, Julieta, Jorge e Carlos, eles e elas se esforçam no trabalho para aumentar a produção. Trazem sempre consigo a certeza da vitória.
Nós – nos – conosco Vós – vos – convosco
Eles – elas – se – a si, de si – para si – consigo – lhe – os – as
Escreva frases com Nos – lhes – conosco”
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Na página 22, se encontra integralmente transcrita uma das muitas estórias populares que, em culturas cuja memória está sendo ainda preponderantemente oral, passam de geração a geração e têm um papel pedagógico indiscutível. Parte do que se pode considerar a dimensão teórica da educação que se dá nessas culturas se realiza através dessas estórias em cujo corpo o uso das metáforas é uma das riquezas da linguagem popular.
A educação popular não pode estar alheia a essas estórias que não refletem apenas a ideologia dominante, mas, mesclados com ela, aspectos da visão de mundo das massas populares. Na verdade, esta visão de mundo não é pura reprodução daquela ideologia. Depois da leitura da estória da página 22, com que se reconhece, na forma escrita, o que já se conhecia na oralidade, se propõe, na página 23, como desafio aos alfabetizandos, para que escrevam também o seguinte texto:
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“O camarada ou a camarada pode agora fazer mais do que já fez. Pode também escrever pequenas estórias. Mas, antes de escrever, pensa primeiro na sua prática. Pense no trabalho lado a lado com outros camaradas. Pensem como lavram a terra, como semeiam e como colhem. Pense nos instrumentos que usam nas roças ou nas fábricas. Se o camarada pesca, pense nas horas que leva dentro do mar, nas águas de navegar, longe da praia, longe das terras de cultivar. Pense nas estórias dos pescadores. Pense nas estórias que ouviu contar do tempo de nossos avós. Depois, tente escrever igualzinho a como fala. Quando escrever a primeira estória, vai ver que pode escrever a segunda, a terceira, etc.
É praticando que se aprende. Vamos praticar. Escreva sua Primeira Estória”
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Na página seguinte se volta a insistir junto aos alfabetizandos que escrevam e sugere-se a criação,
no caso em que o façam, de antologias de estórias populares. Veja-se o texto:
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“Se os camaradas e as camaradas escreverem muitas estórias, um dia vamos fazer um livro grande com estórias contadas por nosso Povo. Estórias que falam do nosso passado, da luta do nosso povo, de nossa resistência aos colonizadores. Estórias que falam de nossas tradições, das danças, das músicas, das festas. Estórias que falam da luta de hoje, da reconstrução nacional. Estórias que são pedaços de nossa História.”
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Finalmente, o Caderno de Exercícios chega a seu término com o seguinte texto:
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“Os camaradas e as camaradas chegaram ao fim deste Caderno de Exercícios.
E chegaram ao fim também do Primeiro Caderno de Cultura Popular.
Praticando a leitura e praticando a escrita os camaradas e as camaradas aprenderam a ler e a escrever ao mesmo tempo em que discutiram assuntos de interesse de nosso Povo. Não aprenderam a ler decorando ou memorizando ba-be-bi-bo-bu; ta-te-ti-to-tu, para depois simplesmente repetir. Por isso, enquanto aprendiam a ler e a escrever, os camaradas e as camaradas discutiram sobre a reconstrução nacional, sobre a produção, sobre a saúde; discutiram sobre a unidade, a disciplina e o trabalho do nosso povo na reconstrução nacional. Conversaram sobre o MLSTP, sobre o seu papel de vanguarda do Povo.
Agora, juntos novamente, vamos dar um passo em frente na procura de saber mais, sem esquecer nunca que é praticando que se aprende. Vamos conhecer melhor o que já conhecemos e conhecer outras coisas que ainda não conhecemos. Todos nós sabemos algumas coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso, aprendemos sempre. A busca de conhecer mais continua na luta que continua. A vitória é nossa.
Vejamos agora o Segundo Caderno de Cultura Popular
Nosso Povo Nossa Terra. Textos para Ler e Discutir. (Iniciação à Gramática)”
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Antes de iniciar a análise ou mais precisamente a transcrição de textos deste Caderno com alguns comentários, me parece importante salientar como a prática alterou os planos que tínhamos com relação ao Caderno de Exercícios e ao Segundo Caderno de Cultura Popular. Enquanto o primeiro tinha sido concebido como um auxiliar do alfabetizando, reforçando o Primeiro Caderno na fase de alfabetização, o Segundo Caderno fora pensado como o livro básico da primeira etapa da pós-alfabetização. Com o tempo se percebeu que este último papel caberia ao Caderno de Exercícios, enquanto o Segundo Caderno passaria a ser usado num nível mais adiantado da pós-alfabetização, ao lado dos outros Cadernos referidos no pé da página 4 (12). O Segundo Caderno começa com a seguinte
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” Introdução
Com o Primeiro Caderno de Cultura Popular e com o Caderno de Exercícios aprendeste a ler na prática da leitura. Aprendeste a escrever na prática da escrita. Praticaste a leitura e a escrita ao mesmo tempo que tiveste também a prática de discutir assuntos de interesse do nosso Povo. Para nós, não tinha sentido ensinar ao nosso Povo um puro b-a-bá. Quando aprendemos a ler e a escrever, o importante pe aprender também a pensar certo. Para pensar certo devemos pensar sobre a nossa prática no trabalho. Devemos pensar sobre a nossa vida diária. Quando aprendemos a ler e a escrever, o importante é procurar compreender melhor o que foi a exploração colonial o que significa a nossa independência. Compreender melhor a nossa luta para criar uma sociedade justa, sem exploradores nem explorados, uma sociedade de trabalhadores e trabalhadoras. Aprender a ler e a escrever não é decorar “bocados” de palavras para depois repeti-los.
Com este Segundo Caderno de Cultura Popular vais poder reforçar o que já sabes e aumentar os teus conhecimentos, que são necessários à luta de reconstrução nacional. Para isto, é preciso que te esforces e que trabalhes com disciplina. Se não sabes o significado de uma ou de outra palavra que encontres nos textos, consulta o vocabulário no fim deste Caderno. Se a palavra procurada não estiver lá, pergunta a um camarada ou fala com o animador cultural, tu camarada também.”
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As palavras com que se introduz o vocabulário são igualmente palavras de desafio e não de acomodação:
Neste vocabulário encontras o significado de algumas palavras e de grupos de palavras que aparecem nos diferentes textos deste Caderno. Ela é uma ajuda de que te podes servir no teu esforço de compreensão dos textos que foram escritos para ser estudados e não para ser simplesmente lidos, como se fossem puras “lições de leitura”. O vocabulário sozinho não resolve as tuas dificuldades. Tu tens de trabalhar para compreender o próprio vocabulário. Não é por acaso que o primeiro tema tratado no Segundo Caderno de Cultura Popular é o ato de estudar, apresentado em duas partes, como ocorre com a maioria deles, entre os quais alguns são discutidos em três partes. Parecia necessário começar este Caderno provocando um debate em torno do ato de estudar cuja significação pudesse ser apreendida do relato de uma estória simples e de trama provável.
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“O ato de estudar A
Tinha chovido muito toda a noite. Havia enormes poças de água nas partes mais baixas do terreno. Em certos lugares, a terra, de tão molhada, tinha virado lama. Às vezes, os pés apenas escorregavam nela. Às vezes, mais do que escorregar, os pés se atolavam na lama até acima dos tornozelos. Era difícil andar. Pedro e Antônio estavam transportando numa camioneta cestos cheios de cacau para o sítio onde deveriam secar. Em certa altura, perceberam que a camioneta não atravessaria o atoleiro que tinham pela frente. Pararam. Desceram da camioneta. Olharam para atoleiro, que era um problema para eles. Atravessaram os dois metros de lama, defendidos por suas botas de cano longo. Sentiram a espessura do lamaçal. Pensaram. Discutiram como resolver o problema. Depois, com a ajuda de algumas pêras e de galhos secos de árvores, deram ao terreno a consistência mínima para que as rodas da camioneta passassem sem se atolar. Pedro e Antônio estudaram. Procuraram compreender o problema que tinham a resolver e, em seguida, encontraram uma resposta precisa. Não se estuda apenas na escola. Pedro e Antônio estudaram enquanto trabalhavam. Estudar é assumir uma atitude séria e curiosa diante de um problema.”
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“O ato de estudar B
Esta atitude séria e curiosa na procura de compreender as coisas e os fatos caracteriza o ato de estudar. Não importa que o estudo seja feito no momento e no lugar do nosso trabalho, como no caso de Pedro e Antônio, que acabamos de ver. Não importa que o estudo seja feito noutro local e noutro momento, como o estudo que fazemos no Círculo de Cultura. Em qualquer caso, o estudo exige sempre esta atitude séria e curiosa na procura de compreender as coisas e os fatos que observamos.
Um texto para ser lido é um texto para ser estudado. Um texto para ser estudado é um texto para ser interpretado. Não podemos interpretar um texto se o lemos sem atenção, sem curiosidade; se desistimos da leitura quando encontramos a primeira dificuldade. Que seria da produção de cacau naquela roça se Pedro e Antônio tivessem desistido de prosseguir o trabalho por causa do lamaçal?
Se um texto às vezes é difícil, insiste em compreendê-lo. Trabalha sobre ele como Antônio e Pedro trabalharam em relação ao problema do lamaçal. Estudar exige disciplina. Estudar não é fácil porque estudar é criar e recriar e não repetir o que os outros dizem. Estudar é um dever revolucionário!”
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Parecem óbvias as preocupações que este texto sobre o ato de estudar revela – a de combater, por exemplo, a posição ideológica, por isso mesmo nem sempre explicitada, de que só se estuda na escola. Daí que seja ela, a escola, considerada, deste ponto de vista, como a matriz do conhecimento. Fora da escolarização não há saber ou o saber que existe fora dela é tido como inferior sem que tenha nada que ver com o rigoroso saber do intelectual. Na verdade, porém, este saber tão desdenhado, “saber de experiência feito”, tem de ser o ponto de partida em qualquer trabalho de educação popular orientado no sentido da criação de um conhecimento mais rigoroso por parte das massas populares. Enquanto expressão da ideologia dominante, este mito penetra as massas populares provocando nelas, às vezes, autodesvalia por se sentirem gente de nenhuma ou de muito pouca “leitura” (13). Se faz preciso, então, enfatizar a atividade prática na realidade concreta (atividade a que nunca falta uma dimensão técnica, por isso, intelectual (14), por mais simples que seja) como geradora de saber. O ato de estudar, de caráter social e não apenas individual, se dá aí também, independentemente de estarem seus sujeitos conscientes disto ou não. No fundo, o ato de estudar, enquanto ato curioso do sujeito diante do mundo, é expressão da forma de estar sendo dos seres humanos, como seres sociais, históricos, seres fazedores, transformadores, que não apenas sabem mas sabem que sabem.
É necessário salientar também que esta curiosidade séria em face do objeto ou do fato em observação, ao exigir de nós a compreensão do objeto, que não deve ser só descrito em sua aparência, nos leva à procura da razão de ser do objeto ou do fato. Uma outra preocupação que se encontra neste texto sobre o ato de estudar e acompanha o Caderno inteiro é a que se refere ao direito que o Povo tem de conhecer melhor o que já conhece em razão de sua prática (compreensão mais rigorosa dos fatos parcialmente apreendidos e explicados) e de conhecer o que ainda não conhece. Neste processo, não se trata propriamente de entregar ou de transferir às massas populares a explicação rigorosa ou mais rigorosa dos fatos como algo acabado, paralisado, com a capacidade de fazer, de pensar, de saber e de criar das massas populares.
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“Se está persuadido de que una verdad es fecunda, diz Gramsci, solo cuando se ha hecho un esfuerzo para conquistarla. Que ella no existe en si y por si, sino que ha sido una conquista del espíritu, que en cada individuo es preciso que se reproduzca aquel estado de ansiedad que ha atravesado el estudioso antes de alcanzarla. (…) Este representar en acto a los oyentes la serie de esfuerzos, los errores y los aciertos a través de los cuales han pasado los hombres par alcanzar el conocimiento actual, es mucho más educativo que la exposición esquemática de este mismo conocimiento. (…) La enseñanza, desarrollada de esa manera, se convierte en un acto de liberación.” (15)
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O próximo tema tratado é a
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“Reconstrução nacional A
A reconstrução nacional é o esforço no qual nosso Povo está empenhado para criar uma sociedade nova. Uma sociedade de trabalhadores. Mas, repara, se dissemos que temos de criar a sociedade nova é porque ela não aparece por acaso. Por isso, a reconstrução nacional é a luta que continua. Produzir mais nas roças e nas fábricas, trabalhar mais nos serviços públicos é lutar pela reconstrução nacional. Ninguém em São Tomé e Príncipe tem o direito de cruzar os braços e esperar que os outros façam as coisas por ele. Sem produção nas roças e nas fábricas, sem trabalho dedicado nos serviços públicos, não criaremos a nova sociedade.”
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“Reconstrução nacional B
Vimos, no texto anterior, que produzir mais nas roças, nas fábricas e trabalhar mais nos serviços públicos é lutar pela reconstrução nacional. Vimos também que a reconstrução nacional, para nós, significa a criação de uma sociedade nova, sem explorados nem exploradores. Uma sociedade de trabalhadores e de trabalhadoras. Por isso, a reconstrução nacional exige de nós:
Unidade,
Disciplina,
Trabalho e
Vigilância.
- Unidade de todos, tendo em vista um mesmo objetivo: A Criação de uma Sociedade nova.
- Disciplina na ação, no trabalho, no estudo, na vida diária. Disciplina consciente, sem a qual nada se faz, nada se cria. Disciplina na unidade, sem a qual se perde o trabalho.
- Trabalho. Trabalho nas roças. Trabalho nas fábricas. Trabalho nos serviços públicos. Trabalho nas escolas.
- Vigilância, muita vigilância, contra os inimigos internos e externos, que farão tudo o que puderem para deter a nossa luta pela criação da nova sociedade.”
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Um texto, por mais simples que fosse, colocando o problema da reconstrução nacional e jogando com as palavras unidade, disciplina, trabalho e vigilância, pareceu absolutamente necessário. Obviamente, o tema da reconstrução nacional ou da reinvenção da sociedade são-tomense se impõe pela sua atualidade. O jogo feito com as palavras unidade, disciplina, trabalho e vigilância foi introduzido para, aproveitando estas palavras que aparecem em grande número de slogans, apresentá-las num texto dinâmico preservando ou recuperando a sua significação mais profunda, ameaçada pelo caráter acrítico dos clichês. Ficou claro, desde o começo da Segunda Parte deste artigo, que não era intenção minha transcrever nela todo o Segundo Caderno de Cultura Popular, mas alguns de seus textos em consonância com afirmações feitas na Primeira Parte.
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“Trabalho e transformação do mundo A (16)
Pedro e Antônio derrubaram uma árvore. Tiveram uma prática. A atividade prática dos seres humanos tem finalidades. Eles sabiam o que queriam fazer ao derrubar a árvore. Trabalharam. Com instrumentos, não só derrubaram a árvore mas a desbastaram, depois de derrubá-la. Dividiram o grande tronco em pedaços ou toros, que secaram ao sol. Em seguida, Pedro e Antônio serraram os troncos e fizeram tábuas com eles. Com as tábuas, fizeram um barco. Antes de fazer o barco, antes mesmo de derrubarem a árvore, eles já tinham na cabeça a forma do barco que iam fazer. Eles já sabiam para que iam fazer o barco. Pedro e Antônio trabalharam. Transformaram com o seu trabalho a árvore e fizeram com ela um barco. É trabalhando que os homens e as mulheres transformam o mundo e, transformando o mundo, se transformam também.”
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“Trabalho e transformação do mundo B
Pedro e Antônio fizeram o barco com as tábuas. Fizeram as tábuas com os pedaços do tronco da árvore grande que derrubaram. Quando a árvore grande foi dividida em pedaços, deixou de ser árvore. Quando os pedaços do tronco viraram tábuas, deixaram de ser pedaços de tronco. Quando Pedro e Antônio construíram o barco com as tábuas, elas deixaram de ser tábuas. Viraram barco. A árvore pertence ao mundo da natureza. O barco, feito por Antônio e Pedro, pertence ao mundo da cultura, que é o mundo que os seres humanos fazem com o seu trabalho criador. O barco é cultura. A maneira de utilizar o barco é cultura. A dança é cultura.”
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“Trabalho e transformação do mundo C
O trabalho que transforma, nem sempre dignifica os homens e as mulheres. Só o trabalho livre nos dá valor. Só o trabalho com o qual estamos contribuindo para a criação de uma sociedade justa, sem exploradores nem explorados, nos dignifica. Na época colonial, o nosso trabalho não era livre. Trabalhávamos para os interesses dos colonialistas que nos exploravam. Eles se apropriaram das nossas terras e da nossa força de trabalho e enriqueceram à nossa custa. Quanto mais ricos ficavam eles, tanto mais pobres ficávamos nós. Eles eram a minoraria exploradora. Nós éramos a maioria explorada. Hoje, somos independentes. Já não trabalhamos para uma minoria. Trabalhamos para criar uma sociedade justa. Temos muito o que fazer ainda.”
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Quanto à introdução à gramática se fez, até esta altura e com apoio nos textos vistos,
um estudo simples mas bastante completo dos verbos.
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“A luta pela libertação A
O MLSTP (17) guiou a luta do nosso Povo.
O PAIGC guiou a luta de libertação do Povo da Guiné e Cabo Verde.
O MPLA, Partido do Trabalho, guiou a luta de Libertação do Povo angolano.
A FRELIMO guiou a luta de libertação do Povo de Moçambique.
A independência de todos nós, Povo de São Tomé e Príncipe, guineenses, caboverdianos, angolanos e moçambicanos, não foi presente de colonialistas. A nossa independência resultou da luta dura e difícil. Luta da qual todos nós participamos, como Povos oprimidos, buscando a libertação. Cada um desses Povos travou a luta que pôde lutar, e a soma das suas lutas derrotou os colonialistas. A nossa luta na África foi decisiva para a vitória do Povo português contra a ditadura que o dominava. Sem a nossa luta, não teria havido o 25 de abril em Portugal. Mas a nossa luta não foi feita contra nenhuma raça nem contra o Povo português. Lutamos contra o sistema de exploração colonialistas, contra o imperialismo, contra todas as formas de exploração. A reconstrução nacional é a continuação desta luta, para a criação de uma sociedade justa.”
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Ponto importante sobre que refletir, constantemente, na discussão do problema da luta de libertação e da reconstrução nacional é o da posição das massas populares como sujeito, também, da sua história. O da sua presença política atuante, o da sua voz no processo da própria reconstrução, a que fiz referência na Primeira Parte deste trabalho.
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“A luta de libertação B
O sacrifício da nossa luta contra o colonialismo seria inútil, se a nossa independência significasse apenas a substituição dos colonialistas por uma minoria privilegiada nacional. Se fossem assim, o nosso Povo continuaria explorado pelas classes dominantes dos países imperialistas através da minoria nacional. Por isso é que a reconstrução nacional significa para nós a criação de uma sociedade nova, uma sociedade de trabalhadores e de trabalhadores, sem explorados nem exploradores.
Não deixemos para amanhã o que podemos hoje. A Luta continua!”
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Sociedade nova, homem novo, mulher nova, todas estas eram – e continuam a ser – expressões incorporadas à linguagem da transição revolucionária. Parecia, como continua a me parecer, importante chamar a atenção para o fato de que o surgimento da sociedade nova – como do homem novo e da mulher nova – não resulta de um ato mecânico. A sociedade nova é partejada, não aparece por decreto ou automaticamente.
E o parto, que é processo, é sempre mais difícil e complexo do que simples e fácil.
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“A sociedade nova
O que é uma sociedade sem exploradores nem explorados? É a sociedade em que nenhum homem, nenhuma mulher, nenhum grupo de pessoas, nenhuma classe explora a força de trabalho dos outros. É a sociedade em que não há privilégios para os que trabalham com as mãos, nas roças e nas fábricas. Todos são trabalhadores a serviço do bem de todos. Não se cria uma sociedade assim da noite para o dia. Mas é preciso que o Povo comece a ter na cabeça, hoje, esta forma de sociedade, como Pedro a Antônio tinham na cabeça, antes de derrubar a árvore, a forma do barco que fizeram.
Estás a recordar-te de como Pedro e Antônio fizeram o barco? Derrubaram uma árvore. Desbastaram a árvore. Cortaram o seu tronco em pedaços ou toros. Com os pedaços, fizeram tábua e com as tábuas fizeram o barco. Mas, antes mesmo de derrubar a árvore, Pedro e Antônio já tinham na cabeça a forma do barco que iam fazer e já sabiam para que iam fazer o barco. Pedro e Antônio trabalharam, transformaram a natureza.
Para fazer a sociedade nova, precisamos também de trabalhar, precisamos de transformar a sociedade velha que ainda temos. É mais fácil, sem dúvida, fazer o barco do que criar a nova sociedade. Mas, se Pedro e Antônio fizeram o barco, o Povo de São Tomé e Príncipe, com unidade, disciplina, trabalho e vigilância, criará a nova sociedade, com a sua vanguarda, o MLSTP.”
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No próximo texto se volta a insistir mais uma vez, de um lado, em que não há absolutização da ignorância
e, do outro, em o Povo tem o direito de saber melhor o que já sabe e de saber o que ainda não sabe.
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“Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo.
Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo.
Todos nós sabemos alguma coisa.
Todos nós ignoramos alguma coisa.
Pedro, por exemplo, sabe colher cacau muito bem. Aprendeu, na prática, desde menino, como colher a cápsula do cacau sem estragar a árvore. Basta olhar e Pedro já sabe se a cápsula está em tempo de ser colhida. Mas Pedro não sabe imprimir jornal. Antônio aprende na prática, desde muito cedo, como se deve trabalhar para imprimir jornal. Antônio sabe imprimir jornal, mas não sabe colher cacau. Colher cacau e imprimir moral são práticas igualmente necessárias à reconstrução nacional.
Os conhecimentos que Pedro ganhou da prática de colher cacau não bastam. Pedro precisa conhecer mais. Pedro tem o direito de conhecer mais. Pedro pode conhecer mais. A mesma coisa podemos dizer de Antônio. Os conhecimentos que Antônio ganhou da prática de imprimir jornal não bastam. Antônio precisa conhecer mais. Antônio tem o direito de conhecer mais. Antônio pode conhecer mais.
Estudar para servir ao Povo não é só um direito mas também um dever revolucionário. Vamos estudar!”
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“Trabalho manual – Trabalho intelectual
Os homens e as mulheres trabalham, quer dizer, atuam e pensam. Trabalham porque fazem muito mais do que o cavalo que puxa o arado a serviço do homem. Trabalham porque se tornaram capazes de prever, de programar, de dar finalidades ao próprio trabalho. No trabalho, o ser humano usa o corpo inteiro. Usa as suas mãos e a sua capacidade de pensar. O corpo humano é um corpo consciente. Por isso, está errado separar o que se chama trabalho manual do que se chama trabalho intelectual. Os trabalhadores das roças são intelectuais também. Só nas sociedades em que menospreza o maior uso das mãos em atividades práticas, colher cacau ou imprimir jornal são práticas consideradas inferiores.
Na sociedade que estamos criando, não separamos a atividade Manuel da intelectual. Por isso, as nossas escolas serão escolas do trabalho. Os nossos filhos e as nossas filhas aprenderão, desde cedo, trabalhando. Vai chegar um dia em que, em São Tomé e Príncipe, ninguém trabalhará para estudar nem ninguém estudará para trabalhar, porque todos estudarão ao trabalhar.”
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“A prática nos ensina
Não podemos duvidar de que a nossa prática nos ensina. Não podemos duvidar de que conhecemos muitas coisas por causa de nossa prática. Não podemos duvidar, por exemplo, de que sabemos se vai chover, ao olhar o céu e ver as nuvens com uma certa cor. Sabemos até se é chuva ligeira ou tempestade a chuva que vem.
Desde muito pequenos aprendemos a entender o mundo que nos rodeia. Por isso, antes mesmo de aprender a ler e a escrever palavras e frases, já estamos “lendo”, bem ou mal, o mundo que nos cerca. Mas este conhecimento que ganhamos de nossa prática não basta. Precisamos de ir além dele. Precisamos de conhecer melhor as coisas que já conhecemos e conhecer outras que ainda não conhecemos. Seria interessante se os camaradas escrevessem numa folha de papel algumas das coisas que gostariam de conhecer. Faríamos um outro Caderno tratando os assuntos que os camaradas e as camaradas nos sugerissem.
Estudar é um dever revolucionário!”
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“O processo educativo A
A madeira para as tábuas com que se fazem portas, janelas, mesas e barcos se acha, em seu estado bruto, nas árvores das florestas. O ferro de fazer martelos, enxadas, foices se acha, em seu estado bruto, debaixo da terra. Os seres humanos, com o seu trabalho, transformam as matérias brutas, fazendo com elas matérias-primas. As matérias brutas (como o ferro debaixo da terra, como a madeira nas árvores) e as matérias-primas (como o ferro já trabalhando e a madeira já preparada) se chamam objetos de trabalho.
A terra a ser preparada para o cultivo do arroz é um objeto de trabalho.
As árvores a serem derrubadas para com elas se fazerem tábuas são objetos de trabalho.
As tábuas a serem transformadas em mesas, cadeiras, portas e janelas são objetos de trabalho.”
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“O processo produtivo B
Para transformar a matéria bruta em matéria-prima e para produzir algo com a matéria-prima, precisamos de instrumentos. Precisamos de máquinas, de ferramentas variadas, de transporte. Estas coisas de que precisamos para produzir, isto é, os instrumentos, as ferramentas, as máquinas, os transportes, se chamam meios de trabalho. O conjunto das matérias brutas, das matérias-primas e dos meios de trabalho se chamam meios de produção. Assim, são meios de produção de uma roça:
- as terras de cultivo,
- as matérias brutas,
- as matérias-primas,
- os instrumentos, as ferramentas, os transportes.”
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“O processo produtivo C
Já vimos que, se não fosse o trabalho humano, a árvore não se transformaria em tábuas nem o ferro, em estado bruto, viraria lâmina. Isso tudo se faz por causa do trabalho humano, por causa da força de trabalho. Os meios de produção e os trabalhadores constituem o que se chama forças produtivas de uma sociedade.
A produção resulta da combinação entre os meios de produção e a força de trabalho. Para compreender uma sociedade é importante saber de que modo se organiza o seu processo produtivo. É preciso saber como se combinam os meios de produção e a força de trabalho. É preciso saber a natureza das relações sociais que se dão na produção: se são relações de exploração ou se são relações de igualdade e de colaboração entre todos. Na época colonial, as relações sociais de produção eram de exploração. Por isto, tinham de ser violentas. Os colonialistas se apoderavam dos meios de produção e de nossa força de trabalho. Eram donos absolutos das terras, das matérias brutas, das matérias-primas, das ferramentas, das máquinas, dos transportes e da força de trabalho dos trabalhadores. Nada escapava ao seu poder e ao seu controle.
Quando falamos, hoje, em reconstrução nacional para criar uma sociedade nova, estamos falando de uma sociedade realmente diferente. De uma sociedade em que as relações sociais de produção já não serão de exploração, mas de igualdade e colaboração entre todos.”
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No texto seguinte se volta a falar no caráter não-mecanicista da transformação social.
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“A ação de transformar
Estamos nesta sala. Aqui funciona um Círculo de Cultura. A sala está organizada de uma certa maneira. As cadeiras, a mesa, o quadro-negro, tudo ocupa um certo lugar na sala. Há cartazes nas paredes, figuras, desenhos. Não seria difícil para nós organizar a sala de forma diferente. Se sentíssemos necessidade de fazer isso, em pouco tempo, juntos, poderíamos mudar completamente a posição das cadeiras, da mesa, do quadro-negro. A reorganização da sala, em função das novas necessidades reconhecidas, exigiria de nós um pouco de esforço físico e o trabalho em comum. Deste modo, transformaríamos a velha organização da sala e criaríamos uma nova, de acordo com outros objetivos.
Reorganizar a sociedade velha, transformá-la para criar a nova sociedade não é tão fácil assim. Por isso, não se cria a sociedade nova da noite para o dia, nem a sociedade nova aparece por acaso. A nova sociedade vai surgindo com as transformações profundas que a velha sociedade vai sofrendo.”
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Seguem-se dois textos que tratam do problema da cultura e da identidade cultural,
tema da mais alta importância, sobretudo numa sociedade até bm pouco ainda colônia.
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“Povo e cultura
Os colonialistas diziam que somente eles tinham cultura. Diziam que antes da sua chegada à África nós não tínhamos História. Que a nossa História começou com a sua vinda. Estas afirmações são falsas, são mentirosas. Eram afirmações necessárias à prática espoliadora que exerciam sobre nós. Para prolongar ao máximo a nossa exploração econômica, eles precisavam tentar a destruição da nossa identidade cultural, negando a nossa cultura, a nossa História. Todos os Povos têm cultura, porque trabalham, porque transformam o mundo e, ao transformá-lo, se transformam. A dança do Povo é cultura. A música do Povo é cultura, como cultura é também a forma como o Povo cultura a terra. Cultura é também a maneira que o Povo tem de andar, de sorrir, de falar, de cantar, enquanto trabalha.
O calulu (18) é cultura como a maneira de fazer o calulu é cultura, como cultural é o gosto das comidas. Cultura são os instrumentos que o Povo usa para produzir. Cultura é a forma como o Povo entende e expressa o seu mundo e como o Povo se compreende nas suas relações com o seu mundo. Cultura é o tambor que soa pela noite adentro. Cultura é o ritmo do tambor. Cultura é o gingar dos corpos do povo ao ritmo dos tambores.”
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“A defesa da nossa cultura
Uma das preocupações do nosso Movimento e nosso Governo é a defesa da nossa cultura. Por isso, o Presidente Pinto da Costa disse: “Ao liquidarmos a cultural colonial, temos de criar no nosso País uma cultura nova, baseada nas nossas tradições. Esta cultura nova que iremos criar no nosso País aproveitará os aspectos positivos das nossas tradições, banindo todos os aspectos negativos da mesma. Naturalmente que a nova cultura não deve fechar as portas às influências positivas das culturas estrangeiras. Ela estará aberta à cultura de todos os outros povos, mas preservando sempre o seu cunho nacional”. Para isso, precisamos de produzir, precisamos de criar e de recriar. Precisamos de estudar sem esmorecer. Precisamos de desenvolver a ciência e a técnica. Não podemos parar ao primeiro obstáculo que encontremos.”
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A preocupação em torno de uma crítica de pensar volta a manifestar-se nos dois textos sobre
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“Pensar certo A
A nossa finalidade principal ao escrever os textos deste caderno é desafiar os camaradas e as amaradas a pensarem certo. Que queremos dizer com desafiar os camaradas e as camaradas a pensar certo? Desafiar é um verbo (19) que significa não só chamar para a luta, mas também problematizar, quer dizer, pôr problemas, estimular, provocar. Assim como na alfabetização não nos interessa ensinar ao Povo um puro b-a-bá, não nos interessa também, na pós-alfabetização, transferir ao Povo frases e textos para ele ir lendo sem entender. A reconstrução nacional exige de todos nós uma participação consciente e a participação consciente, em qualquer nível da reconstrução nacional, exige ação e pensamento. Exige prática e teoria sempre em unidade. Não há prática sem teoria nem teoria sem prática. Pensar certo significa procurar descobrir a entender o que se acha mais escondido nas coisas e nos fatos que nós observamos e analisamos. Descobrir, por exemplo, que não é o “mau olhado” o que está fazendo Pedrinho triste, mas a verminose. Não será, portanto, somente com as benzeduras que devolvemos a alegria a Pedrinho, mas com a orientação médica. Volta, agora, aos textos anteriores do teu Caderno. Em casa, quando tenhas um tempo disponível, lê um, lê outro. Pensa bem em cada linha, em cada afirmação e procura entender melhor o que já leste.”
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“Pensar certo B
Pensar certo, descobrir a razão de ser dos fatos e aprofundar os conhecimentos que a prática nos dá não são um privilégio de alguns mas um direito que o Povo tem, numa sociedade revolucionária. O nosso Governo, de acordo com a orientação política do nosso movimento, vem procurando atender a este direito do nosso Povo. Ao lado da reorientação do modo de produzir, ao lado do estímulo à produção, o nosso Governo se preocupa com a educação sistemática do Povo. Teta agora um exercício, procurando penar certo. Escreve, numa filha de papel, como tu vês este problema:“A educação das crianças e dos adultos, depois da Independência do nosso país, pode ser igual à educação que tínhamos antes da Independência?” Se pensar que pode ser igual, deves dizer por quê. Se pensar que não pode, deves dizer por quê. Se, para ti, a educação atual deve ser diferente da educação que tínhamos antes da Independência, aponta alguns aspectos da diferença.”
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Parece interessante agora, antes de concluir este trabalho com a transcrição de mais alguns textos, fazer considerações em torno de um ou dois pontos, pelo menos, no campo do estudo da língua e da linguagem.
Nesse Caderno, a introdução gramática não ultrapassa a análise das chamadas categorias gramaticais, nunca, porém, feita de maneira formal ou mecânica. Pelo contrário, sempre dinamicamente.
Uma das preocupações nossas, considerando a necessidade que terão – e que seria funesto se não viessem a ter – os participantes dos círculos de pós-alfabetização de ler documentos do Movimento, de ler o jornal A Revolução, de ler documentos oficiais do Governo, etc., era introduzir ouso do pronome relativo que. A razão desta necessidade está em que é exatamente este pronome um dos que possibilitam o emprego mais comum, e às vezes até abusivo, no discurso não-popular, das orações intercaladas.
Quanto mais estas orações distanciam o sujeito da oração principal de seu verbo, tanto menos fácil fica a compreensão do discurso. Não é assim, na verdade, que falam os grupos populares. Diante desta constatação, não me parece que se deva simplesmente esquecer o fato, mas instrumentar os grupos populares para que dominem esta forma de linguagem que revela outra estrutura de pensar que não a sua. Assim, na página 51 do Caderno se diz:
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“Entre outros tipos de pronomes, vamos conhecer agora mais um, muito importante. Mas vamos conhecê-lo com exemplos. O livro que comprei é bom. Observa: antes da palavra que, nós temos a palavra livro. Livro, como sabes, é um substantivo masculino, comum, singular. Se agora substituíres a palavra que por o qual, verás que o sentido do pensamento é o mesmo. Tanto faz dizer O livro que eu comprei é bom como O livro o qual eu comprei é bom. Outro exemplo: A roça que visitei é bonita. Neste exemplo, antes da palavra que temos a palavra roça. Roça, como tu sabes, é um substantivo comum, feminino, singular. Se agora substituíres a palavra que, que vem depois de roça, por a qual, verás que o sentido do pensamento é o mesmo. Tanto faz dizer A roça que eu visitei é bonita como A roça a qual eu visitei é bonita. Presta atenção: todas as vezes que a palavra que pode ser substituída por: o qual, a qual, os quais, as quais, a palavra que é pronome. Outros exemplos: O texto que eu li é bom. Compreendi as páginas que escreveste. A roça que produz mais é esta.”
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Na página 53 do Caderno:
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“Vamos aprender a usar a palavra cujo, outro pronome muito importante. Vejamos alguns exemplo:
1. O menino cujo pai chegou de Angola é este. 2. Venho de uma roça cuja produção de cacau este ano é muito elevada.
3. O Círculo de Cultura cujos participantes mais trabalharam recebeu uma carta de estímulo do Camarada Presidente. 4. Trabalhamos seriamente na leitura deste Livro, cujas páginas mais difíceis receberam profunda atenção.
No primeiro exemplo, cujo é igual a do qual. Observa como não se altera em nada o sentido da frase substituindo-se cujo por do qual: O menino do qual o pai chegou de Angola é este. No segundo exemplo, cuja é igual a da qual, por causa do substantivo roça, feminino, que vem antes: Venho da roça da qual a produção etc. No terceiro exemplo, cujos é igual a do qual, por causa de Círculo de Cultura: O Círculo de Cultura do qual os participantes mais trabalharam etc. No quarto exemplo, cujas é igual a do qual, por causa de Livro: Trabalhamos seriamente na leitura deste Livro do qual as páginas etc. Agora, uma série de exemplo com o pronome que constituindo orações adjetivas. Aqui temos dois montes de palavras com sentido completo: Comprei hoje este livro. Ele é bom. O primeiro monte de palavras é: Comprei hoje este livro. O segundo monte de palavras é: Ele é bom. Organizando agora de forma diferente estes montes de palavras, podemos dizer o mesmo que dissemos antes. Para este efeito, vamos usar o pronome que, que já conhecemos. Repara como vai ficar: Este livro que comprei hoje é bom.
Outro exemplo: Estes homens participaram ativamente no trabalho voluntário. Eles acabam de chegar felizes da roça. De novo, temos dois montes de palavras. Primeiro monte: Estes homens participaram ativamente no trabalho voluntário. Segundo monte: Eles acabam de chegar felizes da roça. Vamos ver agora como podemos dizer o mesmo com o pronome que: Estes homens, que participaram ativamente no trabalho voluntário, acabam de chegar felizes da roça. Mais outro exemplo: Os camaradas se defenderam do tétano. Os camaradas estavam vacinados contra ele. Primeiro monte de palavras: Os camaradas se defenderam do tétano. Segundo monte de palavras: Os camaradas estavam vacinados contra ele. Agora com o pronome que: Os camaradas, que se defenderam do tétano, estavam vacinados contra ele.”
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Vejamos agora os últimos textos que, somando-se aos que já foram transcritos,
nos dão uma visão geral do Caderno.
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“A avaliação da prática
Não é possível praticar sem avaliar a prática. Avaliar a prática é analisar o que se faz, comparando os resultados obtidos com as finalidades que procuramos alcançar com a prática. A avaliação da prática revela acertos, erros e imprecisões. A avaliação corrige a prática, melhor a prática, aumenta a nossa eficiência. O trabalho de avaliar a prática jamais deixa de acompanhá-la.
As camaradas e os camaradas têm uma prática neste Círculo de Cultura. Trabalharam com o animador cultural, seguem um programa com vistas a certos fins. Estão no Círculo de Cultura envolvidos na prática de ler cada vez melhor, de interpretar o que lêem, de escrever, de contar, de aumentar o que lêem, de escrever, de contar, de aumentar os conhecimentos que já têm e de conhecer o que ainda não conhecem. A reconstrução nacional precisa de que nosso Povo conheça mais e melhor a nossa realidade. Nosso Povo precisa de preparar-se para dar solução a nossos problemas.
A Comissão Coordenadora dos Círculos de Cultura Popular é o setor do Ministério de Educação encarregado de organizar, de preparar, de planejar e de executar uma parte de nossa política educacional. A que se desenvolve, com os adultos, nos Círculos de Cultura. A Comissão Coordenadora não pode deixar, assim, de avaliar as práticas que se dá nestes Círculos. Mas os camaradas devem também avaliar a sua própria prática. Devem examinar constantemente os avanços que está dando e procurar vencer as dificuldades que encontram. Se os camaradas analisarem sua própria prática estarão participando com o camarada animador e com A Comissão Coordenadora na procura de melhores instrumentos de trabalho.
A prática precisa de avaliação como os peixes precisam da água e a lavoura da chuva.”
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“Planificação da prática
Já vimos que não há prática sem avaliação. Mas a prática exige também seu planejamento.
Planejar a prática significa ter uma idéia clara dos objetivos que queremos alcançar com ela. Significa ter um conhecimento das condições em que vamos atuar, dos instrumentos e dos meios de que dispomos. Planejar a prática significa também saber com quem contamos para executá-la. Planejar significa prever os prazos, os diferentes momentos da ação que deve estar sempre sendo avaliada. Podemos planejar a curto prazo, a médio prazo e a longo prazo. Às vezes a avaliação nos ensina que, se os objetivos que tínhamos era corretos, os meios que escolhemos não eram os melhores. ÀS vezes, percebemos também, através da prática da avaliação, que os prazos que havíamos determinado não correspondiam às nossas reais possibilidades. Todas as atividades do nosso país precisam de ir sendo cada vez melhor planejadas e executadas. Que seria da nossa economia se, chegado o momento da primeira colheita do cacau, não estivéssemos organizados para fazê-la? O cacau se perderia e seria um desastre para todos. É importante que o nosso Povo entenda cada vez mais a necessidade de avaliar a sua prática e a necessidade de participar nos planos da reconstrução nacional.”
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“O homem novo e a mulher nova
O homem novo e a mulher nova não aparecem por acaso. O homem novo e a mulher nova vão nascendo na prática da reconstrução revolucionária da sociedade. Mas, de qualquer maneira, podemos pensar em algumas qualidades que caracterizam o homem novo e a mulher nova. O compromisso com a causa do Povo, com a defesa dos interesses do povo é uma destas qualidades. A responsabilidade no cumprimento do dever, não importa a tarefa que nos caiba, é um sinal do homem novo e da mulher nova. O sentido da correta militância política, na qual vamos aprendendo a superar o individualismo, o egoísmo, é um sinal, também, do homem novo e da mulher nova. A defesa intransigente da nossa autonomia, da liberdade que conquistamos marca igualmente o homem novo e a mulher nova. O sentido da solidariedade, não somente com o nosso Povo, mas também com todos os Povos que lutam pela sua libertação, é outra característica do homem novo e da mulher nova. Não deixar para fazer amanhã o que se pode fazer hoje e fazer aa cada dia melhor o que devemos fazer é próprio do homem novo e da mulher nova. Participar, conscientemente, nos esforços da reconstrução nacional é um dever que o homem novo e a mulher nova exigem de si mesmos.
Estudar, com um dever revolucionário, pensar certo, desenvolver a curiosidade diante da realidade a ser melhor conhecida, criar e recriar, criticar com justeza e aceitar as críticas construtivas, combater as atividades antipopulares são características do homem novo e da mulher nova. Participando mais e mais na luta pela reconstrução nacional, vamos fazer nascer em nós mesmos o homem novo e a mulher nova.”
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“O homem novo, a mulher nova e a educação
Uma das qualidades mais importantes do homem novo e da mulher nova é a certeza que têm de que não podem parar de caminhar e a certeza de que cedo o novo fica velho se não se renovar. A educação das crianças, dos jovens e dos adultos tem uma importância muito grande na formação do homem novo e da mulher nova. Ela tem de ser uma educação nova também, que estamos procurando pôr em prática de acordo com as nossas possibilidades. Uma educação completamente diferente da educação colonial. Uma educação pelo trabalho, que estimule a colaboração e não a competição. Uma educação que dê valor à ajuda mútua e não ao individualismo, que desenvolva o espírito crítico e a criatividade, q não a passividade. Uma educação que se fundamente na unidade entre a prática e a teoria, entre o trabalho manual e o trabalho intelectual e que, por isso, incentive os educando a pensar certo.
Uma educação que não favoreça a mentira, as idéias falsas, a indisciplina. Uma educação política, tão política quanto qualquer outra educação, mas que não tentar passar por neutra. Ao proclamar que não é neutra, que a neutralidade é impossível, afirma que a sua política é a dos interesses do nosso Povo.”
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Com o último texto, que fecha o Caderno, parece que posso também
concluir este trabalho, sem mais comentários.
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“Camarada,
Chegaste ao fim deste segundo caderno de Cultura Popular. Esperamos que tenhas gostado da experiência que ele te proporcionou. A experiência de aumentar os conhecimentos que já tinhas, por causa da tua prática, antes mesmo de aprenderes a ler e a escrever; a experiência de consolidar e aprofundar, em grupo, os conhecimentos que obtiveste na primeira fase de teus estudos e a de ganhar outros conhecimentos. A experiência de discutir mais organizadamente um maior e variado número de temas, a partir da leitura de textos. Mas, sobretudo, esperamos que tenhas percebido a importância de pensar certo, de refletir. Esperamos que tenhas percebido que a nossa tarefa revolucionária não poderia ser a de simplesmente dar informações. A nossa tarefa revolucionária exige de nós não apenas informar corretamente mas também formar. Ninguém se forma realmente se não assume responsabilidades no ato deformar-se. O nosso Povo não se formará na passividade, mas na ação sempre em unidade com o pensamento. Daí a nossa preocupação em jamais sugerir aos camaradas que memorizassem mecanicamente as coisas. Daí a nossa preocupação em desafiar os camaradas a pensar, a analisar a realidade. Esta é a orientação que caracteriza todos os Cadernos de Cultura Popular que os camaradas estão conhecendo e os que virão a conhecer.”
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(*) Este artigo, que foi primeiramente publicado num número especial da Harvard Educational Review, em fevereiro de 1981, número que tratou do tema: “Education as Transformation: Identity, Change and Development”, aparece agora entre nós acrescido de uma segunda parte.
(1) Recentemente independe do jugo colonial português, as ilhas de São Tomé e Príncipe ficam no golfo da Guiné, na costa ocidental da África. A superfície total do país é 1001 km2, tendo a ilha de São Tomé 859 km2 e a de Príncipe 142 km2. A distância entre uma ilha e outra é de 140 km. Em 1970, calculava-se a população do país em 73.811 pessoas. A ilha de Príncipe com 4.662 e a de São Tomé com 69.149. A capital do país, cuja população é de 17.400 habitantes, é a cidade de São Tomé, na ilha do mesmo nome. A independência do país se deu a 12 de julho de 1975.
(2) Isto não significa, porém, que seja fácil viver, em termos críticos, uma tal relação entre a leitura da palavra e a “leitura” da realidade, numa sociedade que se experimenta historicamente como São Tomé e Príncipe. A forte tradição colonial, que não poderia deixar de estar presente à sua prática social, bem viva ainda em muitos aspectos, é um obstáculo àquele tipo de “leitura”.
(3) Há um Terceiro Caderno de Cultura Popular, sobre o ensino de aritmética; um Quarto, sobre Saúde; um Quinto, que se constitui por uma série de textos com os quais se aprofundam as análises de alguns temas discutidos no Segundo, já referido. No momento, dois mais estão sendo impressos. Um deles é um repertório de estórias, de lendas, que expressam a alma popular. O outro, uma introdução ao estudo das riquezas naturais do país. O Quinto e o Sexto cadernos, este último sendo impresso, são de autoria do professor chileno Antonio Faúndez, que vem dando sua contribuição ao país através do Conselho Mundial de Igrejas.
(4) Saliente, com satisfação, que as expressões estar presente na História e nela simplesmente estar representado, no sentido usado no texto, escutei de meu amigo Maurício Tragtemberg, num debate de que participei na PUC, em 1981.
(5) É importante sublinhas o toda vez que possível, no texto, no sentido de chamar a atenção do leitor para as limitações, de resto compreensíveis, dos animadores culturais no desenvolvimento de uma tarefa como esta.
(6) De acordo com informações recentes que me foram dadas pela jovem educadora paulista Kimiko Bakamo, que vem dando uma excelente contribuição ao país, no quadro do IDAC estão funcionando 394 círculos de cultura com a participação de perto de 14 mil alfabetizandos. Trabalhadores rurais e urbanos, com 704 animadores culturais e 25 coordenadores do departamento de alfabetização de adultos. O programa prevê a superação do analfabetismo em quatro anos.
(7) Matabala é uma espécie de batata bastante apreciado na dieta do povo são-tomense.
(8) Unidade de produção. Fazenda de cacau. Havia ao todo, antes da independência, umas 75 roças, cujos proprietários em regra viviam em Lisboa. O primeiro ato do governo independente foi, em praça pública, nacionalizar as roças.
(9) No rosto da página 16 está escrito: “Ninguém ignora tudo – Ninguém sabe tudo”.
(10) Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe.
(11) A este propósito, ver o excelente artigo de Swert, D. Merril, “Proverbs, Parables and Metaphors – Aplying Freire’s concept of Codification to África”. In: Convergence, v. XIV, n. 1, 1981. Na Internationl Journal of Adult Education. PO. Box 250, Station F. Toronto. Canadá – M 4y 2L 5.
(12) Sobre como trabalhar com este Caderno, mais uma vez ver Freire, Paulo, “Quatro Cartas aos Animadores de Círculos de Cultura de São Tomé e Príncipe”. In: Brandão, Carlos (org.). A Questão Política da Educação Popular. Brasiliense, São Paulo, 1980.
(13) A autodesvalia tende a ser superada por um sentimento de segurança e confiança na medida em que largos setores populares, mobilizando-se em torno de reivindicações que lhe são fundamentais, se organizam para concretizá-las. A partir daí se sabem sabendo e exigem saber mais. Mesmo em situações como esta, como em parte, pelo menos, é o caso de São Tomé e Príncipe, propor uma reflexão sobre o tema é indispensável.
(14) “(…) en cualquier trabajo físico aunque se trate del más mecánico y degradado, siempre existe un mínimo de calidad técnica, o sea un mínimo de actividad intelectual creadora”. Gramsci, Antonio, Cuadernos del Cárcel: Los intelectuales y la organización de la cultura. México D. F., Juan Pablos Editor, 1975, p.14.
(15) Gramsci, Antonio, citado por Brócoli, Angelo. In: Antonio Gramsci y la Educación como Hegemonia. México, Editorial Nueva Imagen S.A., 1979, p.47.
(16) A leitura e discussão deste texto num dos cursos de pós-graduação que coordeno na PUC provocou análises e observações realmente interessantes por parte dos participantes. “Nunca se deve perder de vista, disse um deles, Cristiano Amaral Giorgi, algo essencial para a proposta educativa: que o ponto inicial de discussão seja o trabalho tal como de fato é percebido e interpretado pelo grupo de trabalhadores envolvidos no processo. Assim, a idéia de transformação humana, no transformar-se a natureza através do trabalho, é percebida pelo trabalhador rural como claramente consistente com o que vê de sua ação. A percepção do trabalhador urbano, especialmente do setor terciário, não necessariamente a mesma. A discussão deve, neste caso, ser apresentada em novos termos, incluindo uma série de mediações outras.”
(17) MLSTP – Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe. PAIGC – Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde. (A tentativa de unidade entre a Guiné e Cabo Verde, sugerida no próprio nome do Partido, foi rompida a partir de novembro de 1980 com as alterações políticas que se verificavam na Guiné-Bissau.) MPLA – Movimento para a Libertação de Angola. FRELIMO – Frente de Libertação de Moçambique.
(18) Um prato à base do azeite de dendê. Pode ser feito com galinha, peixe ou mão de vaca.
(19) Os verbos foram estudados desde o começo do Caderno.
Paulo Freire
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FREIRE, Paulo. O povo diz a sua palavra ou a alfabetização em São Tomé e Príncipe. ExtraLibris, 2005. Disponível em: <http://academica.extralibris.info/letramento/o_povo_diz_a_sua_palavra_paulo.html>. Acesso em: 19 out. 2005.
Original: O povo diz a sua palavra ou a alfabetização em São Tomé e Príncipe. In: _____________. A importância do ato de ler: em três textos que se completam. 3.ed. São Paulo: Autores Associados: Cortez, 1983. (Coleção Polêmicas do nosso tempo.) p.42-96.
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Publicado em 19|10|2005 por ExtraLibris