Já que foi levantada a discussão sobre a avaliação dos cursos de pós-graduação em ciência da informação, compartilho com vocês algumas inquietações. Desde já, esclareço que falo em meu nome e não em nome da Universidade onde trabalho.
Tenho percebido que a qualidade das dissertações e teses tem diminuído ao longo do tempo. Entendo que este decréscimo em qualidade seja decorrente de alguns fatores que a seguir enumero.
1) O tempo de 2 anos para fazer um mestrado é, na maioria dos casos, insuficiente. Vejo por todo lado pessoas (orientadores e orientados) perturbados com o prazo da CAPES, são noites sem dormir, muito estresse geral. Muitas vezes até mesmo o orientador reconhece que a dissertação não está adequada, mas “os tempos são outros”. O orientando precisa defender a dissertação para não prejudicar o Programa, para que a nota não seja rebaixada, com todo o impacto de recursos e credibilidade que possam advir deste rebaixamento. Assim, nossa produção intelectual em ciências humanas está escrava de um tempo insuficiente para reflexão e amadurecimento de idéias, de amplas revisões de literatura, de trocas mais frutíferas no ambiente acadêmico. As temáticas estão cada vez mais locais e talvez até mesmo menos significativas para a produção epistemológica das humanidades.
2) A condição econômica e conhecimentos do pós-graduando… Até pela impossibilidade de se viver com a bolsa de mestrado ou doutorado, o pós-graduando, geralmente, tenta simultaneamente trabalhar e estudar…. Ou seja, a dedicação exclusiva à pós é cada vez mais rara – tenho esta impressão. Agrega-se a isto,o fato de muitos pós-graduandos serem oriundos de áreas afins e necessitarem de um tempo para entender o “o campo conceitual” da ciência da informação… Na pressa, uma “pseudo-interdisciplinaridade” tem vencido. Fato que, a meu ver, resulta em muitos trabalhos híbridos: nem enfocam a ciência da informação propriamente dita, nem a área de origem do pós-graduando… Por outro lado, os egressos oriundos dos cursos de graduação em biblioteconomia, por exemplo, possuem falhas graves em sua formação. Não é raro ver-se apresentações de trabalhos sem uma mínima construção conceitual e o uso de conceitos deslocados de suas teorias de origem… E vê de tudo, até egressos que não sabem ligar o computador ou escrever uma redação de uma página. Estou citando estes casos para refletirmos.
3) Neste terceiro item, retorno ao anterior, que é a desconexão entre os cursos de pós-graduação e graduação. Quer queiramos ou não, estamos amarrados ao currículo mínimo de biblioteconomia que se de um lado dá uma uniformidade na formação na graduação, deixa-nos ligados em terminologias e conteúdos que precisam ser revistos e atualizados. Sem falar nesta separação entre biblioteconomia, arquivologia e museologia existente no Brasil.
4) Outra questão que julgo de extrema importância é a falta de uma política intensa e efetiva do Governo Brasileiro em disponibilizar bolsas de mestrado e doutorado para alunos que desejam fazer sua formação em Ciência da Informação no exterior. As necessidades informacionais brasileiras são gigantescas e históricas. E embora, tenhamos muitos cursos de pós-graduação no Brasil, parece que não estamos conseguindo atender a demanda por mestres e doutores….
E, finalmente, uma última inquietação..Enquanto pesquisadora iniciante, minha grande preocupação de médio e longo prazo, com a pós-graduação em ciência da informação, é saber quem e em quais condições substituirá os docentes que se aposentarem nos próximos anos…
Não sei se estes apontamentos são úteis em alguma medida, mas é fato que me inquietam.
Prof.Dr. Maria Cristiane Barbosa Galvao
USP

Gustavo
2 years ago
Dura realidade. Como esse pessoal consegue se formar?
Nilzete(Belém/Pa)
8 months ago
Realmente Moreno, isto me inquieta muito também, entendo que a formação continuada deve ser essencial para os profissionais da área da Biblioteconomia, mas como criar esta cultura, se não temos tantos incentivos? Entendo que a formação discente deveria ser primordial para tal situação, mas não temos nem mesmo a Iniciação Científica em uma grande parte das universidades como base na formação discente e isto na minha opinião é uma falha gravissíma. Eu tratei no meu TCC do tema “Pesquisa Científica na formação discente no curso da UFPA” em 2007 e desde então passei a me inquietar com tal situação.
Um abraço!!!!