A escrita, o autor e a ética

Publicado em 06|05|2008 por ExtraLibris

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Tem circulado nas redes  da Internet  comentários  sobre o artigo “Entre fetichismo e sobrevivência: o artigo científico é uma mercadoria acadêmica?” publicado pelos Cadernos de Saúde Pública.23 n.12 Rio de Janeiro dez. 2007. (Resumo abaixo)

Não concordo com colocações do artigo. Só não publica quem não pesquisa e o docente e pesquisador atuante em uma universidade ou outra instituição de pesquisa se não esta pesquisando não esta cumprimdo corretamente sua função e está comprometendo a visibilidade social de sua função.

O que valoriza um artigo, enquanto possibilidade de ser mercadoria,  é o valor de uso. Tal valor so’ pode ser atribuído pela demanda dos usuários para sua leitura. Nada tem a ver com condições de  fomento ou outras variáveis aleatórias. Se o fomento é enganado pela mídia e pelos estudos bibliográficos feitos em base de dados incerta isso nada tem a ver com a obrigação ética do pesquisador de relatar a sua pesquisa.

Um segundo problema apontado no artigo é a qualidade da publicação. Revistas científicas apoiadas por fomento do Estado e classificadas na Capes devem ter  pelo menos 80 % de seu conteúdo como fruto de pesquisa inédita na área. A única forma de validar uma pesquisa realizada é pela aprovação de seus pares. Esta aprovação so’ se dá pelos meios formais de comunicação cientifica o que implica na divulgação formal pela produção de um artigo.

O que vemos hoje são revistas ditas científicas publicando simples trabalhos de final de curso de graduação ou pós-graduação muitas vezes  endossadas por co-autoria docente. Não discutimos a qualidade  destes artigos mas sua colocação e autoria em um periódico científico

Em terceiro lugar não se pode confundir a publicação de um trabalho de pesquisa, de um professo que recebeu fomento do Estado e deve prestar contas a sociedade do trabalho que realizou com CITAÇÕES que  sua publicação obteve  somadas através de controles  bibliométricos.

As bases de dados dos estudos bibliotecários produzidas, principalmente,  por firma privada no exterior, não são confiáveis e seus dados questionáveis. A principal delas define como base para esta contagem um núcleo de periódicos que estabelece como “quentes”. Tal núcleo obedece  mais a interesses editoriais que a verdade das citações. Este núcleo de contagem esconde, ainda, a co-cotação e a auto-citação. Mas este é um problema da base de dados, de seus produtores e da ingenuidade de quem as utiliza como arcabouço para conclusões de estudos bibliométricos.

Em quarto lugar tem a questão da múltipla  autoria. Entendo  que a geração de idéias nas ciências humanas e sociais possui um discurso de criação  personalizado. Isto que torna muito difícil indicar na estrutura do artigo qual foi a participação de cada um dos autores. Diferente das áreas de exatas onde na bancada do laboratório  pode-se qualificar a participação de cada um no processo que resultou a escrita. Nestas áreas aceita-se como autor até o gerador de dados.
A autoria de que falo destaca-se do “Painel” de pesquisa em rede onde a própria autoria individual desaparece e o “Painel” passa a ter o mérito da autoria, como foi o caso recente do Prêmio Nobel da Paz e o Painel de Aquecimento Global.

O que faz de um indivíduo único um autor é o fato de, através de seu nome  delimitarmos e caracterizarmos os textos que lhes são atribuídos.  Uma área  de conhecimento,  quer por interesses operacionais  da academia ou de seu hábitos, não pede  infllar o número de autores em um artigo . Isto compromete a  própria qualidade do artigo. O discurso de um campo do conhecimento e de seus enunciadores definem a qualidade da área  e a vulgarização da autoria a enfraquece.
Caso haja  uma rede de autores, a individualidade do autor é perdida e é concedida ao nome do grupo que gerou a escrita participativa.

Mas o problema da autoria é definido pelo publicador e pela normas de um periódico ou revista, pela ética de um grupo. Nada tem a ver com a responsabilidade social do pesquisador em prestar contas de seu trabalho.

Resumo, abaixo, realizado por  Rogério Mugnaini  e publicado  na Lista da Ancib:

Os autores analisam o rumo tomado na avaliação da produção científica, que valoriza a produtividade de cientistas e grupos de pesquisa, podendo-se classificar tal fenômeno como “publicacionismo”, ao qual associa-se o “citacionismo”. Estes fenômenos, claramente identificados na urgência que permeia o fazer científico, mais especificamente na publicação do artigo científico, segundo os autores, “pode assumir determinados traços como se fossem mercadorias que estarão disponibilizadas em revistas científicas”. Tais mercadorias servem para negociação na busca de financiamento, que segundo um estudo citado pelos autores, vem apresentando maior participação do setor privado.
Neste contexto os autores questionam a “fertilidade” da avaliação, tendo em vista o processo de construção do conhecimento em saúde pública, que parece não produzir melhorias de mesma proporção nos quadros sanitários. Ao primar-se pela quantidade, desconfia-se de uma diminuição de qualidade, notada num conjunto de artigos com conteúdo semelhante, e adicionalmente, num crescente aumento do número de autores por artigo.
Concluem alertando sobre o perigo de se depender de parâmetros excessivamente simplificados, como os rankings baseados em indicadores bibliométricos, e sugerem a consideração de outras características associadas ao processo de produção do artigo, “além de seu conteúdo acadêmico explícito”, como “por exemplo, estudos etnográficos das negociações que ocorrem no processo editorial de uma revista desde a chegada de um artigo até o destino final, seja de recusa, seja de publicação”.

Artigo completo em http://tinyurl.com/yrj8f5

Aldo Barreto