Em uma reflexão selvagem a estrutura de informação nos documentos lineares se relaciona a composição dos mitos como uma narrativa de um pensamento semanticamente autônomo, mas com referência ao seu próprio mundo, a sua interna esfera de verdade. Em seu enunciado ritualista, marcado pelo seu caráter de sagrada de realização repetitiva, o mito, assim como, o documento linear se conta e se reconta sempre em um mesmo sentido da narração; a ele só se acrescenta o imaginário do outro quando na recontagem, mas sempre conserva uma representação que procura ser fiel ao enunciado original.
Um texto digital, considerado como uma estrutura de informação aberta é um enredo com trajetória vagante e livre criando incertezas em seu caminho, pois textos entrelaçados e direcionados ao infinito não respondem, apontam sem uma definição estrita sem linhas formais ou formas previamente demarcadas. Não tem nem mesmo uma única realidade por norma ou forma. Pode ser um percurso de passos delirantes sem destino certo e explicações fáceis: é como um percorrer de enunciados em labirintos de saídas entrelaçadas.
Nesse sentido estas escrituras digitais se assemelham as lendas. Lenda porque aos textos que se entrelaçam se agregam pedaços únicos formatados pela narração de diferentes leitores, seguindo caminhos alternativos e com diferentes intenções. O hipertexto é lendário, pois, qualquer seja o seu núcleo de intenção, será sempre a soma do que dele se diz (ou se pensa) de acordo com os diferentes percursos.
A escritura digital sendo lenda pode aludir no seu andamento a enunciados de proezas notáveis ou maledicências perversas; em condições subjetivas levará o receptor a reunir tópicos de heróica exaltação ou ao contrário críticas fabulosas de diálogos maledicentes. A estrutura digital percorre a sua própria odisséia criada no real e passa a ser independente do autor. Diferente do mito que só possui uma representação simbólica no real, a lenda possui um núcleo de verdade e uma bricolagem de atributos que lhe são adicionados pela soma do que dela se diz.
Mitos, discursos, lendas e famílias de textos: todos habitam a linguagem de criação na mente do escritor e refletem na linguagem a composição da nova informação: “Assim se recicla o ser total da escrita: um texto é feito de escritas múltiplas, saídas de várias culturas e que entram umas com as outras em diálogo, em paródia e em contestação; mas há um lugar em que esta multiplicidade se reúne, e esse lugar não é o autor é o leitor: no leitor está o espaço exato em que se inscrevem, sem que nenhuma se perca, todas as citações de uma escrita” (Roland Barthtes)
Aldo Barreto

Publicado em 04|02|2009 por ExtraLibris
0