Crítica da informação: onde está?

Publicado em 29|04|2009 por ExtraLibris

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Crítica da informação: onde está?

CRÍTICA DA INFORMAÇÃO: ONDE ESTÁ?

JACK ANDERSEN
Progressive Librarian 25, summer 2005

Diz-se que os praticantes da crítica literária são os críticos de literatura; isso é, aqueles que revisam e criticam trabalhos de ficção. Mas onde estão, alguém pode perguntar, os críticos da funcionalidade e legitimidade dos sistemas de organização do conhecimento? Estes são, por exemplo, bibliografias, sistemas de classificação, tesauros, enciclopédias e máquinas de busca – todos os sistemas que de uma maneira ou outra são os mediadores da parte registrada da sociedade e da cultura. Tais sistemas de organização do conhecimento são também as ferramentas profissionais dos bibliotecários. Por essa razão, nós deveríamos imaginar que os bibliotecários possuem muito a dizer sobre o papel e utilidade desses sistemas na mediação da sociedade e cultura, mas é difícil dentro da arena pública encontrar e escutar as vozes críticas de bibliotecários argumentando sobre os sistemas de organização do conhecimento. Nós estamos acostumados a ler e escutar as vozes dos críticos culturais, sociais e literários debatendo assuntos de ordem social e cultural – os tipos de crítica com histórias bem-estabelecidas e aderentes que existem na sociedade. Jürgen Habermas (1996) argumentou, em seu livro sobre a transformação cultural da esfera pública burguesa, que a crítica de arte, crítica social e crítica literária se desenvolveram em espaços públicos como bares, cafés e clubes, e se tornaram escolas do pensamento estabelecidas em gêneros de escrita como jornais e revistas. Elas se tornaram organizadas no senso de que a crítica desenvolveu formas particulares de comunicação para que pudesse falar e escrever sobre assuntos sociais, políticos e culturais da sociedade. Esses modelos de comunicação particulares se mantiveram devido ao seu apelo e crença na discussão racional dentro da esfera pública. As formas de comunicação e a esfera pública eram dialéticas por natureza. A esfera pública constituía o lugar e o espaço para formas particulares de comunicação, enquanto as formas particulares de comunicação contribuíam para materializar e dar forma à esfera pública. A noção de esfera pública burguesa, como argumentou Habermas (1996), recai na suposição de que os cidadãos possuem acesso livre e igualitário à esfera pública.

Os bibliotecários públicos incorporam essa noção de que eles fornecem ao público geral livre acesso à “informação” e conseqüentemente identificam as bibliotecas públicas como parte da esfera pública. Esse é um truísmo amplamente aceito, mas nós raramente ouvimos sobre a participação de bibliotecários na esfera pública através da escrita ou fala sobre assuntos que são relacionados com essa suposta liberdade de acesso à informação.

Considerando que os sistemas de organização do conhecimento exercem um papel na nossa sociedade moderna, nós poderíamos esperar que os críticos que soubessem disso pudessem estar interessados em discutir tais sistemas na esfera pública, revelando suas conseqüências sociais, políticas e culturais. Mas qualquer evidência explícita de tal crítica é, entretanto, invisível, isto é, ainda há de se desenvolver uma maneira de se falar e escrever sobre o papel dos sistemas de organização do conhecimento na sociedade e na cultura. Por falta de um nome mais apropriado, eu devo chamar tal pessoa de crítico da informação (ou “intelectual público”, ver Weisser, 2002) e tal atividade de crítica da informação. Assim, neste artigo eu vou argumentar para uma concepção de bibliotecário como crítico da informação. Começando com uma crítica sobre a falta de crítica da informação, a seguir aponto como deve parecer um crítico da informação, porque ele é necessário e como bibliotecário moderno pode cumprir essa função.

A falta da crítica da informação: a falta de uma disciplina

Os bibliotecários, a biblioteconomia e estudos da informação em geral, sempre tiveram um paradoxal auto-entendimento ou ideologia. Por um lado, eles se vêem como promotores da, por exemplo, democracia, acesso livre e público a informação, coragem civil e alfabetização. Black (2001, p.64; itálico do autor) escreve que

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Bibliotecários públicos são especialmente histéricos para exaltar uma correlação natural, como eles vêem, entre sua missão histórica de democratizar a disseminação do conhecimento e a expansão do acesso que a digitalização da informação promete trazer.
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Mas a aparente falta de bibliotecários ativos e críticos implica que eles não podem ser vistos como advogados da democracia porque a democracia como uma categoria histórica demanda constante análise e crítica para que evolua e se torne estável. A democracia não é uma dada condição, não importa o quanto de acesso à informação os cidadãos possuem.

Por outro lado, os bibliotecários normalmente promovem a imagem de si próprios como agentes neutros na comunicação social e cultural. Isto é, os bibliotecários afirmam que fazem diferença, mas são neutros a como essa diferença deve ser entendida. Uma razão para invocar neutralidade é, de acordo com Agre (1995, p.225), a ideologia da informação, na qual

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serve para posicionar a biblioteconomia como uma profissão neutra, em dois sentidos: (1) bibliotecários minimizam sua participação nas disputas internas de outras comunidades; e (2) biblioteconomia não se define em relação à ideologia de qualquer comunidade particular de usuários.
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Se os bibliotecários se orientassem para as literaturas e não a informação, argumenta Agre (1995), eles deveriam estar participando “nas disputas internas de outras comunidades” já que estas fazem uso das literaturas, e a literatura possui uma história e uma estrutura. Com as comunidades sendo constituídas pelas literaturas, elas fazem uso da literatura com sua história e estrutura em mente. Evocando a “informação”, os bibliotecários transcendem a história e estruturas das literaturas e, conseqüentemente, os são incapazes de se definirem “em relação à ideologia de qualquer comunidade particular de usuários”. Será que, se os bibliotecários tivessem que definir eles mesmos em relação à ideologia de comunidades particulares, eles sairiam do armário, se tornando agentes ativos, discutindo em favor de sua posição e ideologia em relação a outras ideologias?

O que tem contribuído para essa atitude supostamente superiora entre os bibliotecários? Partindo deste ponto nós podemos verificar de que tipo de tradição “acadêmica” os bibliotecários são parte ou produto.

A biblioteconomia [*] é o campo que educa os bibliotecários. Generalizando, a biblioteconomia se preocupa com a produção, distribuição e uso do conhecimento registrado, e o papel dos sistemas de organização do conhecimento nessa atividade. A maneira como os bibliotecários pensam, falam, escrevem, lêem e entendem seu campo é, claro, dependente do discurso hegemônico no qual eles estiveram inseridos durante sua educação. Isso é, o discurso prevalecente e escolas de pensamento nos cursos de biblioteconomia formam a ideologia dos bibliotecários. Em grande escala, os currículos e literatura profissional da biblioteconomia são hoje cheios de linguagem técnica e gerencial, e perspectivas e escritas técnicas e gerenciais. Então, Pawley (2003, p.246) diz que “…o estilo prevalecente do discurso da biblioteconomia usa linguagem técnica-administrativa para situar problemas técnicos e de gerenciamento”. Esse estilo de discurso é difundido na literatura na literatura acadêmica e inibe a habilidade do campo de atuar em compartilhamento com outras disciplinas acadêmicas. Cornelius (2003, p.612, ênfase adicionada) entre outros, comenta sobre isso quando diz que

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Se a biblioteconomia deve ser reconhecida como um membro constituinte de, digamos, as ciências sociais, então em algum nível nós devemos utilizar a mesma linguagem e casar com os mesmos debates teóricos. Não é como se não houvesse discurso da teoria, método e filosofia nas ciências sociais, ou que tais discussões são irrelevantes para a biblioteconomia.
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É vital para a biblioteconomia que se conecte discursivamente com outros campos acadêmicos de modo que isso pavimente o caminho para a biblioteconomia discutir sua relação com a, e papel na sociedade e cultura. Senão, a biblioteconomia se torna um campo flutuante sem significância.

Uma área principal de estudos da biblioteconomia é a organização do conhecimento, uma área cheia de discurso técnico e gerencial. Por exemplo, Andersen (2004, p.41-47) indica a tensão que procedimentos em conferências da sociedade profissional para a organização do conhecimento, ISKO, eram dominados, desde o começo das conferências em 1990, por problemas técnicos e práticos. Recentemente, Mcllwaine (2003) realizou levantamento sobre as tendências na pesquisa sobre organização do conhecimento. Essas “tendências” eram largamente técnicas, preocupadas com sistemas universais, mapeamento de vocabulários, preocupações de interoperabilidade, problemas de fontes, tesauro e representação visual. O levantamento claramente revelou que “tendências” recentes não discutiam ou mesmo questionavam o papel das atividades de organização do conhecimento na sociedade e cultura. A organização do conhecimento não pode agora engajar nesse nível, já que ainda não desenvolveu um discurso que privilegia as necessidades de informação da sociedade e cultura. É a natureza técnica e gerencial do discurso prevalecente da biblioteconomia que torna difícil o engajamento no discurso público. A falta de um discurso socialmente engajado resulta no que Andersen (2004, p.218-219) tem referenciado como “cirurgia informacional”:

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Se nós falarmos apenas no senso de técnicas, princípios ou métodos, nós corremos o perigo de apresentar uma imagem da organização do conhecimento para estudantes, pesquisadores e o público que a faz parecer o que poderia ser chamado de “cirurgia informacional”. Isto é, enxergar a organização do conhecimento como uma “cura intelectual” para a sociedade e seus membros e sua interação com sistemas de organização do conhecimento.
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Tal visão (“cirurgia informacional”) oculta toda atividade crítica e remove atenção da significância postulada das necessidades culturais e sociais.

Ainda, livros como os de Harter (1986), Lancaster (2002), Large, Tedd e Hartley (2001) e Svenonius (2000) podem ser caracterizados como textos que solidificam o uso da linguagem técnica e gerencial na biblioteconomia no senso de que estes são livros como-fazer, constantemente referindo a técnicas, padrões, princípios, métodos e regras. Se o conhecimento profissional de um indivíduo tem como base tais textos, nenhuma atitude crítica é desenvolvida ou demandada porque estes livros não questionam em nenhum momento o papel da busca por informação ou dos sistemas de organização do conhecimento na cultura e sociedade. Eles não fornecem aos estudantes uma linguagem, um entendimento, um conhecimento que os torna capazes de participar no discurso público, debatendo a funcionalidade e legitimidade desses sistemas. Estes livros apresentam, na melhor das hipóteses, uma ilusão aos estudantes enquanto promovem a impressão de que uma vez que o estudante de especializa em tais técnicas e princípios, ele/a se tornará indispensável para a sociedade. Mas alguém só se torna indispensável quando outros reconhecem a vital relação entre fornecedores de serviços de informação e usuários. Ninguém liga se um bibliotecário se especializou em técnicas particulares ou princípios, porque isso não significa que eles podem fazer diferença na vida do usuário. Para “fazer diferença”, receber o status de ser “indispensável”, é necessário um argumento e argumentar significa estar engajado no discurso. Mas compactuando com tal linguagem técnica desengajada, a biblioteconomia comunica uma atitude para os estudantes que diz: vocês não tem nada a ver com isso; vocês não são participantes desse discurso, simplesmente porque não existe discurso. Ainda, simplesmente invocar técnicas, padrões, princípios e regras para que se justifique uma certa prática não justifica essa prática, e sim esconde atrás da própria da prática. Técnica não é uma identidade, e se você não possui uma identidade, quem poderá identificá-lo para que veja se você faz diferença, que é realmente indispensável? Eu acredito que tal identidade reconhecida só pode ser alcançada quando se participa e direciona questões dentro do contexto de uma esfera pública.

O que está apresentado acima aponta para as razões por que os bibliotecários não se enxergam, e conseqüentemente não atuam, como críticos da informação. O discurso de sua bagagem disciplinar, a biblioteconomia, se preocupa mais com problemas prescritos do que problemas descritivos e analíticos. Durante seu treinamento, os bibliotecários não são introduzidos às teorias, escolas de pensamento, disciplinas acadêmicas e conhecimento necessário para engajar no discurso público simplesmente porque a biblioteconomia se coloca distante da sociedade e da cultura através de seu discurso técnico e gerencial, apesar de o campo claramente não hesitar em expor sua significância social e cultural. Dessa maneira, a biblioteconomia falha em produzir críticos da informação e, conseqüentemente, também falha em desenvolver uma posição crítica em razão dos objetos da disciplina. Na seção, argumentarei para a educação de um novo crítico da informação.

Construindo um crítico da informação

A sociedade é a unidade básica da organização do conhecimento. Possui estruturas e esferas particulares organizadas de acordo com interesses particulares e atividades (Habermas, 1996). Essas têm sido desenvolvidas e moldadas historicamente por um variedade de agentes humanos, e as estruturas e esferas em retorno, moldaram a atividade humana. Então, a sociedade consiste de formas de conhecimento organizado e mediado, que é produzido, distribuído e utilizado por humanos.

Sociedade e sua mediação textual

Organização social GERA
Religião, direito, política, ciência, economia, educação, arte, comércio, indústria e administração, que GERA
Documentos e informação afiliada com instituições que sustentam e mantêm estruturas sociais, poder e influência, que GERA
Produção e distribuição, através de uma variedade de gêneros: livros, artigos, jornais, leis, reportes, memorandos, propaganda, noticiários, panfletos e diferentes situações comunicativas, que GERA
Sistemas de organização do conhecimento

A representação da geração textual e organização na sociedade no esquema acima ilustra as formas do conhecimento organizado e mediado na sociedade. Apesar de o esquema ser apenas um esboço, ele mostra que formas amplas de conhecimento organizado constituem sistemas de organização do conhecimento. A parte da sociedade que mais importa para os bibliotecários é aquela onde o conhecimento ou a informação, materializados em uma variedade de gêneros, circula, e qual papel os sistemas de organização do conhecimento possuem em relação a essa circulação, que implica preocupação com o impacto que a circulação do conhecimento exerce sobre a sociedade. Se esse for o caso, significa que qualquer análise e crítica dos sistemas de organização do conhecimento devem ser direcionadas e compreendidas em relação às formas do conhecimento organizado na sociedade. Os bibliotecários não podem oferecer uma visão dos sistemas de organização do conhecimento isolados das estruturas de comunicação totais da sociedade. A prática da biblioteconomia precisa ser condicionada por um entendimento de como o conhecimento e documentos são organizados socialmente, porque essa organização social estrutura e influencia as possibilidades de organização do conhecimento. Atuando como críticos da informação, os bibliotecários devem demonstrar o que Warnick chamou de “aptidão crítica”, que é

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a habilidade de compreender textos, visualizando-os criticamente dentro de um contexto social e textual mais amplo… incluindo a capacidade de olhar sob a superfície do discurso entendendo ideologias e comprometimentos implícitos… (Warnick, 2002, p.6).
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Sistemas de organização do conhecimento são também um tipo de texto, pelo menos no senso de que fazem uso de características textuais para representarem e organizarem documentos. Isso significa que eles também estão circulando “dentro de um contexto social e textual mais amplo”. Esse contexto social e textual é o que constitui a funcionalidade dos sistemas de organização do conhecimento enquanto são desenvolvidos como uma resposta para outras atividades textuais organizadas da sociedade, ou seja, os críticos da informação devem se preocupar com a análise de que tipo de influência os sistemas de organização do conhecimento exercem sobre a sociedade, comparados com outros modos de organização do conhecimento expressados através de atividades textuais. A crítica da informação precisa olhar por trás das formas de conhecimento organizado e mediado na sociedade, “a superfície do discurso”, como Warnick (2002) chama, para apontar para como sistemas de organização do conhecimento particulares funcionam, e ver o que motiva formas particulares de conhecimento organizado. Isso deve fornecer aos cidadãos um entendimento de como eles podem aplicar tais sistemas quando procuram por informações ou conhecimento, ou sobre o que eles podem esperar desses sistemas de organização do conhecimento, ou seja, o que cada sistema pode ou não pode fazer.

As bibliografias fornecem um exemplo aqui. A mudança do registro e distribuição do conhecimento impresso para o eletrônico contribui para o desvencilhamento da bibliografia da ampla história de documentos e o seu papel na sociedade. Isso causou uma falta de aviso sobre o papel da bibliografia na sociedade, já que as bases de dados eletrônicas parece ser basear em uma ideologia de desvencilhamento que suplantou a fundação social das bibliografias como documentos com histórias específicas embasadas em atividades sóciopolíticas. Se essa atividade do passado da biblioteconomia não é mais reconhecida e compreendida, se torna difícil conceitualizar, muito menos discutir, o papel dos sistemas de organização do conhecimento em geral, na sociedade e na cultura.

Atuando como críticos da informação, os bibliotecários poderiam contribuir para a desmistificação dos sistemas de organização do conhecimento na esfera pública, discutindo e justificando por que os sistemas de organização do conhecimento, e sua funcionalidade são importantes para o público. Ou seja, a biblioteconomia precisa argumentar que esses sistemas fazem uma diferença dentro da sociedade, e também mostrar como eles afetam nossas atividades profissionais e diárias. Bibliotecários podem e deveriam fazer isso ativamente, atuando como críticos das estruturas de comunicação textualmente mediadas da sociedade.

Uma maneira de fazer isso é revisar e escrever sobre tais sistemas em revistas e jornais públicos, não apenas na literatura de pesquisa. Mas para que isso aconteça, os bibliotecários precisam desenvolver um vocabulário, um discurso, que não é técnico ou gerencial. Os bibliotecários como críticos da informação precisam direcionar e discutir os sistemas de organização do conhecimento na luz sobre o que estes fazem e não fazem na vida das pessoas. Esse diálogo pode contribuir para o desenvolvimento de uma concepção popular de que os sistemas de organização do conhecimento são uma importante – talvez até indispensáveis – parte da sociedade e da cultura. Quando algum dia isso for alcançado, os críticos da informação poderão fazer uma importante contribuição para o entendimento público de como as muitas atividades de organização do conhecimento existentes na sociedade funcionam, e como estas, ao longo do tempo, serviram ou oprimiram os propósitos democráticos. Essa tarefa deverá ser, claro, condicionada por como as atividades de organização do conhecimento são vistas pelos cidadãos os quais ações sociais dependem do acesso ao conhecimento materializado em documentos. Uma maneira de torna-los visíveis é falar sobre eles em um discurso público (ou esfera), para relacionar problemas dos sistemas de organização do conhecimento diretamente com problemas sociais e culturais. Só dessa maneira o público em geral conseguirá reconhecer o valor potencial e funções dos sistemas de organização do conhecimento. Se as pessoas puderem ver que a funcionalidade dos sistemas de organização do conhecimento está conectada com problemas sociais e culturais, então eles poderão compreender porque tais sistemas funcionam da maneira que funcionam, e assim, as pessoas poderão ver que como outros tipos de informação, os sistemas de organização do conhecimento estão sempre fundados em ideologias particulares. Possui uma ideologia particular não é necessariamente ruim. O problema é não ter ciência da presença da ideologia. A responsabilidade social e cultural básica do crítico da informação deve ser informar a sociedade sobre a existência de ideologias implícitas nos sistemas do conhecimento.

Tudo isso diz que analisar os sistemas de organização do conhecimento é muito mais do que meramente “avaliar”, por exemplo, bases de dados ou máquinas de busca e suas capacidades técnicas. Significa colocar a discussão sobre essas entidades em uma crítica da cultura e sociedade atual. Essa não é a primeira vez que tais discussões são propostas. Já foram sugeridas por Campbell (2002), por exemplo, em sua revisão para o livro de Richard Smiraglia A natureza de “um trabalho”: implicações para a organização do conhecimento (2001). Smiraglia argumenta que “o trabalho” é uma construção cultural. Campbell concorda, mas enfatiza que isso implica uma sensibilidade maior “…para os processos sociais que fabricam nossa concepção de “trabalho” (Campbell, 2002, p.109). Entretanto, esses processos não são, Campbell argumenta, articulados em catálogos. Eles são “…encontrados em, ou derivados de , leituras mais profundas e compreensivas da teoria social e cultural…” (Campbell, 2002, p. 109, ênfase adicionada). A chamada de Campbell para leituras da teoria social e cultural para que se entenda o que sistemas de organização do conhecimento como os catálogos articulam, isto é, o que os catálogos fazem, representa outra maneira de enfatizar a significância de estudos conectadas sobre a organização do conhecimento para expandir horizontes teóricos de modo que faça crescer a consciência sobre suas atividades.

O bibliotecário moderno visionado como um crítico da informação é extremamente necessário porque os sistemas de organização do conhecimento, em particular com o crescimento da internet, fazem parte da nossa vida e atividades humanas do cotidiano. Isso significa que nós estamos mais do que nunca dependentes destes sistemas, mas ao mesmo tempo, nós precisamos de uma percepção crítica sobre como tais sistemas funcionam e por que. Senão, nossa dependência se torna uma participação de escravidão, e não ativa. Assim, análises críticas e a crítica sobre a tendência desses sistemas à pretensão de agir como ferramentas naturalizadas são constantemente necessárias, porque eles dão forma à sociedade e cultura, e em retorno, são moldados pela sociedade e cultura. O bibliotecário moderno deve fornecer a crítica das bibliografias, catálogos, enciclopédias, etc. porque essas são suas ferramentas de trabalho, utilizadas diariamente quando se media sociedade e cultura. Dessa maneira, nós podemos considerar o bibliotecário moderno um crítico da informação.

Conclusão

A discussão acima focou na crítica da informação e nos críticos da informação. Eu tenho dito que os bibliotecários não devem ser penalizados por não apresentar uma atitude crítica frente aos sistemas de organização do conhecimento. A raiz está em sei treinamento profissional: a biblioteconomia [LIS]. Esse campo não pode se caracterizado como um campo que participa fortemente junto de outras disciplinas acadêmicas preocupadas com problemas sociais e culturais. Conseqüentemente, a biblioteconomia não compartilha um vocabulário com disciplinas relacionadas. A biblioteconomia se preocupa em criar seu próprio discurso “metafísico” que tende a favorecer o uso da linguagem técnica e gerencial. Tal linguagem não estimula consciência e análise crítica já que se mantêm distante do objeto sobre o que fala. De fato, a linguagem técnica e gerencial se mantêm normalmente em oposição às necessidades básicas humanas, e é mais preocupada em como fazer as coisas, ao invés de descrever e discutir criticamente como essas coisas (por exemplo, sistemas de organização do conhecimento) funcionam ou não. Nesse sentido, os bibliotecários não podem atuar como críticos da informação porque eles não possuem o vocabulário apropriado. A estrutura discursiva dos bibliotecários precisa mudar se eles buscam uma significância social e cultural, que sempre proclamaram possuir. Em outras palavras, se os bibliotecários atuarão como críticos da informação, eles devem engajar e direcionar seus problemas profissionais em relação ao discurso público. Só assim sua significância apropriada poderá ser estimada e reconhecida.

Referêcias

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Tradução de Moreno Barros
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[*] O texto original refere-se a LIS, Library and Information Studies. [EL]

Original: ANDERSEN, Jack. Information criticism: where is it? Progressive librarian, 2005. Disponível em: <http://libr.org/pl/25_Andersen.html>. Acesso em: 09 maio 2006.

* Imagem: Information desk tokyo Tokyo International Forum

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