Por Meredith Farkas
Tradução de Moreno Barros
Minha mãe me diz que eu era terrível tratando-se de compartilhar quando era pequena. Meus brinquedos eram MEUS brinquedos. Eu era capaz de lamber biscoitos só pra que ninguém me pedisse um pedaço. Meu pai até possui uma filmagem minha com três anos de idade arrancando uns livros meus das mãos de minha melhor amiga Bonnie. Mas em algum momento eu aprendi a compartilhar, apesar de ainda não recomendar chegar muito perto dos meus biscoitos. Todos nós aprendemos a compartilhar quando crianças; dividir canetinhas, livros e outras possessões. Mas nós aprendemos a compartilhar idéias? Na verdade não. Nossos trabalhos normalmente eram compartilhados apenas com os professores e não com os colegas de turma. Em algumas aulas não era permitido colaborar e compartilhar idéias em projetos individuais. Na academia, sim, existe o diálogo acadêmico, mas também existe competição. Na busca pelo ofício, é bom ser o único expert em certos assuntos; ser indispensável. A primeira vez que eu senti uma cultura apaixonada pelo compartilhamento de informação (e não apenas pagando pau para a idéia) foi quando eu me envolvi com a blogosfera.
Compartilhamento é algo que eu tenho pensado muito a respeito ultimamente no trabalho. Tudo o que eu quero é compartilhar idéias o dia inteiro e eu quero criar novas maneiras que nos permitirão compartilhar idéias de um melhor jeito. Se algo que eu sei pode ajudar uma outra pessoa, eu fico ansiosa para ajudar. Eu fiquei tão excitada quando o decano do programa de graduação online me perguntou se eu poderia ensiná-lo sobre wikis, para que pudessem utilizar um para edição colaborativa de documentos. Hoje ele me mandou um e-mail para perguntar sobre o desenvolvimento de um blog para comunicação interna. Legal! Eu prefiro conferir a uma pessoa habilidades tecnológicas para que possa fazer coisas para ela mesma ao invés de tê-la em uma posição de dependência onde constantemente requisitaria minha ajuda.
Mas eu percebi que a academia não funciona dessa maneira. Parece que em muitas escolas, o departamento de TI controla todas as escolhas tecnológicas. Ao invés de educar os professores a como criar wikis e blogs e utilizar outras tecnologias interessantes em sala de aula, eles mantêm nos docentes uma coleira apertada. E talvez exista uma boa razão para isso. Talvez não se deva confiar nos professores porque o que eles vão fazer é estragar tudo. Mas essa não tem sido minha experiência ainda. Eu estou na estranha posição de ser uma bibliotecária e uma informata e a pessoa que é responsável em servir às necessidades do programa de graduação online. Como uma bibliotecária de educação à distância, meu trabalho não é na verdade de todo diferente do que pessoas na computação acadêmica fazem (além do trabalho de suporte e referência). Eles criam manuais e constroem websites. Eu também. Eu freqüentemente questiono quais são os limites do meu trabalho. Os caras do programa de graduação online sabem que eu sei muito sobre software social, então eles geralmente pedem minha opinião sobre algumas coisas. Eles também pediram que eu fizesse alguns projetos e apresentações tecnológicas pra eles. Isso tem causado uma certa tensão entre mim e o TI, especialmente porque eu estou fornecendo aos docentes ferramentas pra que eles criem suas próprias coisas (blogs e wikis). E algumas pessoas não gostam disso. Eu realmente não sei o que fazer em relação a isso. Será que eu deveria não fazer o que eu fui contratada para fazer? Será que eu deveria bancar a idiota? Será que eu deveria negar explicação sobre wikis quando as pessoas solicitam? O reitor da universidade acredita que o talento de todos os funcionários deve ser explorado ao máximo. E se os meus “talentos” são interessantes para um grupo e inconvenientes para outro? Eu não quero pisar no pé do chefe, mas também não quero sentir como se eu não pudesse dar conta do meu trabalho.
Por isso que é interessante perceber a dicotomia na academia. As bibliotecas todas têm na essência o compartilhamento, mas isso não parece funcionar tão naturalmente no resto da academia. Algumas pessoas se sentem ameaçadas pela idéia de todo mundo possuir as mesmas habilidades que elas possuem. Eles preferem ser especialistas, ao invés de compartilhar suas habilidades. Eu acho que a academia funciona na base das limitações. É por isso que ocorre toda a competição entre os bibliotecários. É importante fazer parte do clube, porque senão você não vai garantir o mesmo nível de acesso à informação. A cultura parece criar um sistema de castas com os que possuem informação e os que não possuem. É tudo uma besteira pra mim.
Eu fui para um encontro na Biblioteca Acadêmica de Vermont ontem, onde discutimos a possibilidade de desenvolver algumas atividades de consórcio. Na manhã os palestrantes (todos membros de outro consórcio) falaram sobre empréstimo dentro do consórcio e negociações coletivas para bases de dados. De tarde, nós nos separamos em oito grupos para discutir as três coisas que nós achamos que é mais importante a serem feitas como um grupo e quais são os primeiros passos a tomar para fazer isso acontecer. Obviamente, as duas questões discutidas na parte da manhã eram importantes para todos os grupos. Foi levantada por muitos grupos a necessidade de educação continuada e compartilhamento de habilidades. A maioria das bibliotecas em Vermont é de pequeno porte. Com aproximadamente 2.000 alunos, Norwich é considerada uma universidade de médio porte em Vermont. Algumas universidades possuem apenas 3 bibliotecários trabalhando na biblioteca acadêmica inteira! Obviamente, os bibliotecários acadêmicos em Vermont devem ser muito versáteis e eles não devem ter necessariamente todas as habilidades para fazer tudo o que são obrigados a fazer. Existem bibliotecas em Vermont sem catálogo online ou bases de dados e ninguém que sabe lidar com tecnologia. Apenas uma das bibliotecas do estados possui um profissional da área de preservação. No lado positivo, todos nós possuímos diferentes habilidades e diferentes áreas de especialidade. Talvez nós pudéssemos compartilhar essas habilidades. Talvez eu pudesse ajudar as pessoas em uma biblioteca a criar um blog e eles poderiam nos ajudar com os nossos manuais de treinamento profissional. Nós poderíamos conseguir mais verba para treinamento e trazer mais especialistas que podem nos ajudar com todos os problemas com que estamos preocupados. Nós somos muito mais fortes juntos do que separados. Então eu fiquei ansiosa quando ouvi as pessoas sugerindo a construção de uma comunidade online onde nós pudéssemos compartilhar informação e oferecer nossas habilidades para outras bibliotecas da região. Alguém até sugeriu um wiki (não eu!). Eu acho que em breve vou criar um wiki para a comunidade das bibliotecas acadêmicas de Vermont. Acho que nós precisamos de um espaço online onde podemos manter a comunicação. É bom participar desses encontros onde nós todos ficamos excitados com as coisas que podemos fazer. Mas as pessoas voltam aos seus trabalhos e as centenas de emails em suas caixas e a colaboração acabam se perdendo nas tarefas do dia-dia. Apesar da atividade de consórcio beneficiar todos nós, é difícil mobilizar pessoas para trabalhar e fazer acontecer. Então talvez um wiki ajudaria as pessoas a manter as idéias na cabeça. Pelo menos eu espero.
Como que nós fazemos as pessoas compartilharem? Não é tão fácil como no jardim de infância, não é? E criar um wiki e pedir pras pessoas compartilharem não vai atingir o centro do problema – a cultura. Dave Pollard tem algumas idéias interessantes sobre a razão das pessoas não compartilharem informação e como modificar isso no ambiente empresarial. Muitas de suas observações são aplicáveis a qualquer organização. Eu estou interessada em ouvir a sugestão de qualquer pessoa para avançar sobre as barreiras psicológicas e culturais do compartilhamento de informação e habilidades, ou como eu deveria lidar com a estranha posição em que me encontro no trabalho.
Texto original em Information wants to be free – remeber to share and play nice
Traduzido e publicado com autorização da autora
Translated and published with permission of the author

Publicado em 13|04|2009 por ExtraLibris
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