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Não publicar e não perecer

Tecnologias web e a dinâmica das redes sociais online são capazes de reverter a máxima do “publicar ou perecer” tradicional, no sensu strictu de que não seria mais obrigatoriamente necessário tornar público idéias em periódicos qualis para ser considerado autoritativo dentro de uma determinada comunidade científico-profissional. Neste ensaio advoga-se novas metodologias de validação qualitativa do conhecimento, ao mesmo tempo em que evita-se comparações equivocadas entre a publicação independente e a publicação tradicional acadêmica. Por fim, critica-se algumas dinâmicas de consolidação da autoridade.

Palavras-chave: comunicação científica, revisão por pares, autoridade, redes sociais, mídias sociais.

Abstract:
Web technologies and the dynamics of online social networks are capable of reversing the traditional wisdom of “publish or perish” in the strictest sense that would not be a requirement to make ideas public in academic qualified journals to be considered authoritative within a certain scientific and professional community. This essay advocates new methods for the validation of qualitative knowledge, while avoiding mistaken comparisons between the independent publishing and traditional academic publishing. Finally, it criticizes some of the dynamics of authority consolidation.

artigo publicado originalmente na revista Informação e Universidade

disponível para download – arquivo pdf em formato de impressão

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É possível não ter um artigo sequer publicado em periódicos acadêmicos e ainda assim ser considerado relevante para a área do conhecimento ou profissional em que atua? É possível não publicar e não perecer?

Eu sustento o argumento que, em 2009, um indivíduo é capaz de alcançar notoriedade e garantir legitimidade científico-profissional por meio unicamente da web. Isto é, fazendo uso de tecnologias web e da dinâmica das redes sociais online, reverter a máxima do “publicar ou perecer” tradicional, no sensu strictu de que não seria mais obrigatoriamente necessário tornar público idéias em periódicos qualis para ser considerado autoritativo dentro de uma determinada comunidade científico-profissional.

Esta idéia simples não é original e talvez já soe saturada. Ela só se justifica porque nosso modelo de públicação de idéias permanece altamente balizado nas noções clássicas da comunicação de massa e da autoridade científica. Por essa razão, este tópico deverá ser discutido até que não se ignore mais que a web atual requer uma nova compreensão no que concerne à sua capacidade de oferecer à qualquer indivíduo condições de tornar idéias públicas e garanti-las autoridade e legitimidade com base nas ferramentas que a própria web oferece.

Com aporte de ferramentas web e da dinâmica das redes sociais online, eu sou capaz de produzir, mesmo estando fora da círculo acadêmico; posso ser avaliado por diversos outros mecanismos de refino e validação que não exatamente um grupo restrito de pares pesquisadores ou especialistas de uma área do conhecimento; e posso publicar em diversos veículos de comunicação e disseminação que não exclusivamente um periódico acadêmico.

Em qual momento, é obrigatoriamente necessário que eu siga as regras estabelecidas pelas sociedades científicas tradicionais, para garantir os mesmos resultados que elas oferecem? A minha resposta é nenhum momento. Você consegue não publicar (nos veículos tradicionais) e não perecer.

A questão da comunicação

A comunicação científica clássica se sustenta em cânones desde os primórdios do Journal des sçavans e do Philosophical Transactions da Royal Society e vem funcionando perfeitamente bem há mais de três séculos. Por que haveria de se preocupar com uma nova frente de circulação de idéias que em um primeiro momento não vê necessidade de fazer parte do seu modelo secular?

Para as instituições de publicação científica tradicionais, seria muito fácil simplesmente ignorar que um grupo de indivíduos, mesmo publicando boas idéias livremente na web, não esteja disposto a compactuar com o seu modelo. Se um profissional autônomo ou pesquisador independente não deseja fazer parte desse sistema, o problema é unicamente de si próprio.

Não há dúvidas que o sistema de avaliação por pares é um conceito central da comunicação científica clássica. Além de prevenir plágios, a avaliação por pares garante o mérito da publicação da produção científica de qualidade.

Este sistema tende a funcionar bem ou mal dependendo da área de pesquisa. Suas falhas, critérios e limitações já foram questionados de várias formas possíveis, porém, mesmo casos polarizados como os de Sokal e dos irmãos Bogdanov, não seriam necessários para ilustrar melhor as presunções que levanto.

Então considere o seguinte: é perfeitamente possível que um pesquisador independente encontre a cura para uma doença rara. Diante da necessidade de tornar público o mais rápido possível seu achado, e não se sujeitar a uma eventual demora no processo de submissão a um periódico científico da área, ele decide publicar os resultados de suas pesquisas em um blog, ou no twittter. O que ele publicou deixa de ser ciência simplesmente porque publicou em um blog ou no twitter o resultado de suas pesquisas? Evidente que não, pois ciência é sobre método, não sobre o formato de divulgação da ciência.

O que advogo aqui não é simplesmente não publicar e não perecer. Já que a ciência é sobre método, acredito serem necessárias novas metodologias de validação qualitativa do conhecimento, considerando que os métodos clássicos já não são mais compatíveis com o modus operandi que temos hoje na “sociedade da informação”.

Os novos serviços e redes sociais que recentemente emergiram causaram uma série de transformações na web, extrapolando seus domínios. A transformação no modus operandi, entretanto, não é baseada apenas em mudanças tecnológicas, mas principalmente, em uma mudança de mentalidade.
Percebe-se uma singularidade no que concerne à necessidade de visibilidade e de se fazer ouvir. Há de se considerar que desde tempos antigos os indivíduos têm necessidade de expressar e disseminar suas idéias e experiências. Porém, a voz normalmente ouvida na memória informacional era de pessoas que alcançaram projeção pública.

Hoje, a web permite que pessoas comuns (ainda que somente aquelas situadas em um lado da divisão digital) expressem suas próprias vozes com regularidade, e em alguns casos, alcançar reconhecimento. Nesse sentido, plataformas como blogs e as redes sociais online enquanto sistemas de produção e difusão de informação podem ser entendidos como uma marca de emancipação.

A busca por expressão por parte daqueles marginalizados no espaço informacional é facilitada por blogs e redes sociais que permite centenas de milhares de pessoas a publicarem e compartilharem sobre suas vidas, seus trabalhos, suas dúvidas e achados, independente das suas motivações para tanto, e da forma em que esse tipo de conteúdo é difundido.

Comparações equivocadas

Coloco em evidência dois segmentos distintos. Compará-los utilizando a mesma metodologia de medição seria um erro primário, porque suas características não são similares. Deixar que se isolem em seus mundos de cânones e rituais seria um erro maior ainda.

Para alguém que não vêm acompanhando as discussões em torno de descentralização e colaboração, discussões revigoradas com o advento de dinâmicas sociais na web, os argumentos que levanto podem parecer descompromissados.

A própria diferenciação entre termos como legitimade, relevância, validez, autoridade, fator de impacto, notoriedade, não creio ser necessária pois, ainda que completamente distintos etimologica e lexicalmente, qualquer um destes poderia servir como palavra-referência para os propósitos deste texto.

Uma das minhas preocupações é como um texto como este pode ser interpretado por alguém que não está a par de toda a discussão acerca de diversos pontos que são mencionados implicitamente. Conveniente seria um pouco de empirismo para aumentar o poder da argumentação no texto opinativo.

Eu poderia inclusive gastar algumas linhas citando pensadores e autores que vêm lidando diretamente com o problema (Michael Jensen, Andrew Keen, Don Tapscott, James Surowiecki, Clay Shirky, Cass Sunstein, David Weinberger, Jeff Howe, Henry Jenkins, Jimmy Wales) e explicando como funcionam redes sociais online como Twitter, Orkut, Linkedin, Facebook, Flickr, Ning, que nada mais são do que evoluções dos colégios invisíveis precursores da Royal Society, ou os métodos de ranking, fator de impacto, referências cruzadas e citações de sistemas como PageRank, Digg, Delicious, StumbleUpon, trackbacks de blogs, entre outros, que nada mais são do que evoluções do próprio sistema de comunicação científica tradicional.

Entretanto, prefiro resumir explicando que muitas das discussões em torno desses tópicos revelam-se desnecessárias já que comparam equivocadamente meios distintos para que se atinja os mesmos fins. Mesmo que inicialmente, e somente na intenção de tornar esse texto mais chamativo, eu tenha sugerido a idéia de que a publicação independente é capaz de garantir os mesmos resultados que os veículos tradicionais de comunicação científica, esta comparação só seria válida se a publicação independente fosse sujeita aos mesmo critérios de validação impostos pela comunicação científica tradicional.

A questão da validade

Pode-se acreditar que em um universo de abundância de informação, a importância dos periódicos científicos e da revisão por pares é garantir a manutenção qualitativa da tríade produção-avaliação-publicação.

Casos de descobertas científicas simultâneas eram bastante comuns no séc. XVII, mas o número dessas disputas reduziu progressivamente a medida que a prioridade sobre a originalidade das descobertas era tornada pública por meio dos periódicos científicos. Ficou claro que a ciência só progridiria através de uma circulação transparente de idéias, sujeitas à critérios estabelecidos de validação e relevância.

Mas existe informação falsa e irrelevante em diversos formatos. A diferença é que as instituições tradicionais estabeleceram-se para padronizar e definir critérios de qualidade e consequentemente garantir certa autoridade, credibilidade e confiança em relação a produção do conhecimento. Evidente que tais instituições não estão isentas de corrupção – em especial quando tratam-se de instituições que lidam com problemas de pesquisa sociais.

A minha defesa para uma melhor compreensão e sensibilidade para o que é publicado livremente na web, não é necessáriamente que o sistema de revisão por pares termine, mas que a web possa se sustentar como uma espécie de camada ou selo editorial independente da permissão para publicação.

Ao invés de uma universidade ou grupo de professores e estudantes defenderem a criação de repositórios, de periódicos institucionais, deveriam estimular cada vez mais a responsabilidade individual dos pesquisadores em publicar as suas pesquisas em sites pessoais, por exemplo (uma versão do Currículo Lattes, em que a produção intelectual não esteja somente referenciada ali, mas que todo o volume possa ser publicado e associado a um currículo pessoal).

Então, revistas, associações, poderiam divulgar e ressaltar os materiais que foram avaliados por determinado grupo, segundo determinados critérios, para a massa na web. Ou seja, esta discussão crítica que os pesquisadores e profissionais estebelecem em canais informais (twitter, blogs, msn, rodinhas de conversa, e-mails entre colegas, etc) poderia ser melhor evidenciada através da web.

Discussões acerca de disponibilização pré-print, técnicas de captura de literatura cinzenta e iniciativas open-access acontecerem exaustivamente no passado. Mas elas ainda possuem laços bastante próximos com os preceitos e critérios da comunicação científica tradicional. Diferentemente, as redes sociais emergentes na web serviriam para definir critérios inteiramente novos de reputação e qualificação da produção de idéias (e não exclusivamente científicas).

Enquanto na academia julga-se mais importante na pesquisa científica a publicação de artigos em periódicos Qualis A, a disseminação em eventos científicos e a troca entre pares e outros interessados, incluída aí toda a sociedade, a metodologia que eu suponho ser coerente para publicação autoritativa dentro das mídias sociais online é exatamente o inverso: divulgação para o sociedade em geral, público leigo; troca entre interessados; disseminação em eventos; publicação em periódicos.

Me parece até mesmo que este seria um processo mais criterioso, pois uma idéia tornada pública deverá passar por vários estágios de compartilhamento antes que seja determinada como definitiva.

De qualquer forma, mesma que frente às novas tecnologias colaborativas na web a avaliação por pares tradicional pareça superestimada e desatualizada, ela é apenas a ponta do iceberg de um problema maior, que existia antes, mas hoje é possível de se resolver: o mecanismo de consolidação de autoridade.

Crítica mais apurada

Muitas vezes as críticas à democratização das massas em relação à utilização de ferramentas como blogs, twitter, é nada menos do que uma crítica que confunde controle da informação com a produção de conhecimento e inovação.

A Ciência é o melhor exemplo de como uma grande comunidade de agentes independentes consegue, através de critérios simples, produzir conhecimento.

Infelizmente, o modelo científico é mal compreendido pela sociedade em geral. É importante ressaltar que a ciência não é hierárquica, fechada e autoritária. Mas que a hierarquia é uma manifestação natural da autoridade. Imagine, por exemplo, se um especialista tivesse que sempre tentar explicar e justificar para um leigo a natureza do seu trabalho.

Mas o que é preciso ter como perspectiva, é que em certas comunidades de pesquisas (ditas as pós-modernas principalmente), a autoridade é consolidada por outro tipo de dinâmica em que a titulação confunde-se com autoridade e competência.

O que pretende-se defender muitas vezes, é uma maior transparência em relação a algumas dinâmicas de consolidação da autoridade. No caso de um pesquisador ou profissional independente, quando ele tenta manifestar sua competência sobre determinado assunto nos canais tradicionais de comunicação, dificilmente ele é reconhecido pela comunidade.

Na visão do leigo em ciência (e diga-se, grande parte dos estudantes), uma pessoa com uma titulação acima da dele teria mais autoridade para abordar o mesmo assunto – o que necessariamente não precisa ser verdadeiro.

Mas o problema é quando acadêmicos fazem críticas a um modelo pela sua forma, não pelo conteúdo. Insisto em evitar comparações entre meios distintos, mas é uma lástima o pior artigo publicado em um periódico científico, ter mais autoridade do que um artigo crítico excelente publicado em uma revista informal ou um blog.

Prefiro acreditar que esse infortúnio se deve à ausência de metodologias específicas aplicáveis aos novos modelos de produção independentes e emergentes, e não simplesmente porque existe a crença de que o que é publicado em desconformidade com os padrões tradicionais acadêmicos, não é autoritativo e o que não passa pelo crivo de pares, não possui valor.

O que define qualidade do que é publicado em um periódico especializado vai evidenciar de uma maneira muito interessante a cultura por trás dessa comunidade. Como em algumas áreas técnico-científicas não temos critérios para avaliar o impacto do que é publicado em veículos tradicionais na formação do indivíduo, ou de que forma o que é escrito pode melhorar o intelecto ou atuação profissional de uma pessoa, ou determinar avanços concretos para a área do conhecimento, o que é de impacto no final das contas é a política.

Este maniqueísmo só serve para a manutenção de um modelo de status muitas vezes baseado em titulações. Mas não na consolidação da autoridade através de uma dinâmica honesta e responsável em relação a produção do conhecimento.

E por mais irônico que possa parecer a veiculação deste texto em uma publicação quasi-acadêmica, adicionada à ironia de ter solicitado opiniões à amigos próximos durante a maturação das idéias aqui expostas (peer-review), o que está no cerne deste texto não é uma argumentação inflamada em pról de um movimento revolucionário.

Apesar do entusiasmo com as tecnologias web e com o que as redes sociais online podem nos oferecer, o discurso é moderado. Pessoas que vestem ideologias e paradigmas em sua totalidade, acabam por perder a capacidade de avaliação. Os conceitos de publicar (em periódicos científicos tradicionais) ou perecer, e publicar por conta própria, talvez não venham a substituir um ao outro. Se o mais provável e mais coerente é que eles coexistam, solucionando problemas específicos, então devemos concentrar esforços para isso.

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As discussões com Fabiano Caruso, Gustavo Henn, Alex Lennine e Leandro Cianconi contribuiram diretamente para a construção deste texto. Meus agradecimentos.

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