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Reinventando a publicação acadêmica online. Parte I: Rigor, relevância e prática

Posted September 5th, 2009 in Artigos e Estudos by ExtraLibris

por Brian Whitworth e Rob Friedman

tradução colaborativa de Isadora Garrido, Gustavo Henn e Moreno Barros

Artigo original publicado no First Monday, Volume 14, Número 8 – Agosto 2009

Traduzido com autorização dos autores.


O papel do intercâmbio de conhecimento acadêmico

Introdução

Caveat lector: iterações anteriores do que você está prestes a ler foram descartadas por editores e revisores de sistemas de informações (SI), desde o primeiro esboço escrito em 1999, após uma discussão sobre rigor/relevência no ISWorld. Muitos anos de rejeição o confirmam como impublicável no SI. Isso se dá, em uma parte, porque artigos de alto nível sempre apresentam falhas, e em outra parte porque sugerir aos seu alfaiates que o imperador da publicação acadêmica está vestindo apenas o tapa-sexo do rigor é imprudente. Se você acredita que o sistema de publicação acadêmica está “perfeitamente vestido”, não precisa continuar lendo esse artigo, pois aqui nós argumentamos que existem problemas sérios em relação a isso e que precisam ser abordados. Os nossos alvos não são os diversos bons autores, sábios revisores e editores de nossa área, muitos dos quais são nossos amigos pessoais. O nosso alvo é o sistema de troca de conhecimento feudal sob o qual eles atualmente trabalham. Enquanto a academia abrange muitas disciplinas, o nosso processo evidencial é o campo de uso tecnológico – o leitor deve julgar por si mesmo em sua área. Ainda que muito do mesmo processo já tenha sido realizado no campo da física quântica (Smolin, 2006), nossas conclusões podem beneficiar outros campos.

A parte I argumenta que o atual modelo de entraves [gate-keeping] da publicação acadêmica está funcionando pobremente enquanto o conhecimento se abrange e interage, e que a publicação acadêmica precisa se reinventar para se tornar inclusiva e democrática em vez de exclusiva e plutocrática. A parte II sugere um modelo para alcançar isso utilizando ferramentas sócio-técnicas bem sucedidas.

Sistemas de Intercâmbio de Conhecimento

Seguindo o modelo troca de conhecimento de Willinsky (2000) um sistema de intercâmbio de conhecimento (SIC) tem a intenção de produzir conhecimento humano de qualidade através de:

1. Desenvolvimento: Criar novos conhecimentos que não existiam antes. O sistema prevê hoje as idéias importantes de amanhã? A pesquisa está no estado da arte?

2. Discriminação: Discriminar a boa qualidade do conhecimento através da avaliação por pares. O conhecimento parece ser verdadeiro? Os argumentos são lógicos e as afirmações válidas?

3. Disseminação: Disseminar e apresentar bem o conhecimento. Os leitores são educados? O conhecimento é útil, bem escrito, claro e atual?

Um sistema de intercâmbio de conhecimento é bem sucedido se ele produz bons conhecimentos, seja fisica ou electronicamente. Essa definição inclui sistemas não-acadêmicos como a Wikipedia, caso eles criem, discriminem e disseminem conhecimentos. Certamente é esperado que uma revista acadêmica incentive novas pesquisas, separe as boas pesquisas das pesquisas ruins e eduque seus leitores (Paul, 2005).

Nós vislumbramos um SIC (sistema de intercâmbio de conhecimento) como um pomar cujo “frutos” de pesquisa surgem a partir dos seus papéis:

1. Desenvolvimento: novas idéias entram no mundo acadêmico como sementes, inicialmente pequenas e frágeis, necessitando de tempo e apoio para crescer. Da mesma forma quealguém pode não saber o que uma semente se tornará até que ela brote, uma nova idéia pode ser pouco clara até que se desenvolva. Assim como um pomar que não é regado ou adubado produz apenas frutos atrofiados, aos artigos precisam de revisão para se desenvolver. Assim como um pomar que não planta novas sementes logo terá somente plantas velhas, um SIC que não planta novas teorias logo se tornará intelectualmente improdutivo.

2. Discriminação: Esse papel é como cortar o mato ou podar galhos doentes das árvores, sem os quais o pomar crescerá demais e a doença pode se espalhar. Da mesma forma, um SIC que não discrimina uma má pesquisa pode crescer em falso, uma vez que erros reproduzem erros, assim como o mato reproduz mato.

3. Disseminação: Esse papel compara-se a empacotar e entregar as frutas ao consumidor. Como as frutas devem parecer boas na loja, da mesma forma os trabalhos publicados devem parecer profissionais, e assim como a fruta deve sair do pomar para a loja antes de apodrecer, os periódicos devem publicar um artigo enquanto ele ainda é relevante.

A visão alternativa, e dita estabelecida, é de que os acadêmicos são os mantenedores dos “canais guardados do conhecimento” [1], que protegem o conhecimento de alta qualidade como soldados guardam um castelo. Por conta disso, não é com surpresa que vários periódicos hoje tem a mentalidade de estar “sob cerco” semelhante aos donos de castelos [2]. Socialmente falando, aqueles que administram os “memes” de conhecimento aceito construiram em torno de si mesmos muros de conhecimento protecionistas que contêm jargões e costumes tão fortes que apenas as pessoas de dentro são capazes de cruzá-los. O conhecimento acadêmico tornou-se o monopólio de uma classe ou casta protecionista, que zelozamente guarda seu acesso[3].

Enquanto a ciência uma vez já consistiu de amadores cultivando jardins de conhecimento privado, hoje ela é organizada em feudos especialistas que defendem-se vigorosamente. Os acadêmicos são agora guardiões dos castelos do conhecimento feudal, e não humildes jardineiros do conhecimento. Eles têm por mais de um século organizado, especializado e construído com sucesso os muros contra erros. Entretanto o problema com os castelos, sejam físicos ou intelectuais, é que eles dominam a paisagem, fazem com que a maioria seja subserviente e apática, e luta para que seu poder reduza a produtividade. Enquanto a pesquisa cresce, o feudalismo do conhecimento, assim como a sua vertente física, é um avanço social que já teve o seu momento.

A divisão entre teoria e prática

Apesar dos progressos da pesquisa parecerem contínuos e racionais, na realidade eles são marcados por frequentes descontinuidades (Bryson, 2003) e revoluções ocasionais (Kuhn, 1970). É fácil esquecer como invenções “óbvias” como o celular e o email estiveram além do zeitgeist de seus tempos (Smith, et al., 2002). As previsões de 1995 para o futuro do software por exemplo não incluiram o desenvolvimento do código aberto, embora o Linux estivesse lá para todos verem (Campbell-Kelly, 2008). Avanços como salas de chat, blogs, mensagens instantâneas e wikis não são altamente noticiados, ainda que esses simples sistemas distribuídos sejam “aplicações sensacionais”, enquanto os tão falados sistemas centralizados como os da IBM estavam fadados à irrelevância (Nunamaker, et. al., 1991).

O Google, com sua simplória tela branca e um retângulo para inclusão de texto “dominou” o mercado dasmáquinas de busca, e não o Yahoo, com seus gráficos multimídia. Pessoas que investiram em banda larga esperando um aumento da demanda por multimídia perderam dinheiro, assim como aqueles que investiram em capacetes multimídia para jogos de realidade virtual. Os videofones não estão varrendo o mundo, apesar da tecnologia e do marketing, mas ao contrário, já que as mensagens de texto se tornam mais populares do que as conversas telefônicas.

Certamente a riqueza da mídia é importante, mas quem previu os jogos em rede, onde a “riqueza” é criada pela interação humana e não o meio em que ocorre? As teorias de usabilidade daquela época, junto com 25.000 horas de testes de usuários, previram que os gráficos amigáveis do Mr. Clippy [o boneco em forma de clipe no Microsoft Word] seriam um enorme sucesso (Horvitz, 2004), mas na verdade foi um dos maiores fracassos dos softwares em 2001 (PC Magazine, 2001). Quando perguntados por que produtos baseados em texto como os blogs e e-mail foram bem sucedidos enquanto produtos multimídia e amigáveis como o Mr. Clippy falharam, os principais expoentes teóricos dos SI se mantêm estranhamente silenciosos. A Microsoft ainda parece não estar ciente ser do problema (Pratley, 2004) de que o Mr. Clippy é socialmente indesejado (Whitworth, 2005).

Se serve de consolo, a máxima que diz “a prática floresce aonde a teoria enfraquece” tem uma longa história na computação. Mais de 25 anos atrás críticos proclamaram que o papel estava morto e que seria trocado pelo “escritório sem papel” eletrônico (Toffler, 1980), mas apesar disso hoje nós usamos mais papel do que nunca. James Martin previu que os geradores de programa tornariam os programadores obsoletos, e apesar disso a programação permanece como uma próspera indústria. Supôs-se que uma semana com só três dias de trabalho se tornaria real na “sociedade do ócio” no momento em que as máquinas realizassem todo o trabalho humano, mas os trabalhadores de hoje estão muito mais ocupados do que jamais estiveram (Golden and Figart, 2000). Supôs-se que o e-mail serveria apenas para tarefas de rotina, que a Internet entraria em colapso sem um controle central e que a Inteligência Artificial tomaria o lugar das pessoas, e por aí vai.

Cada caso tem um grão de verdade, mas para o uso da tecnologia o poder de previsão da teoria tem sido fraco e a distância entre a teoria e a prática está se ampliando. Na analogia de Eric Raymond (1997), o bazar da prática tecnológica está “bombando” enquanto a catedral da teoria tecnológica está em declínio, já que uma encontra-se aberta e a outra, fechada.

Reduzindo a distância

Dado o distanciamento entre ambas, pode a teoria ou a prática seguirem seus caminhos sozinhas (Kock, et al., 2002)? A teoria sozinha oferece especulações metafísicas sobre o número de anjos na cabeça de um alfinete, enquanto a prática sozinha significa uma dolorosa evolução de tentativas e erros. A teoria e a prática devem trabalhar juntas, apontando dois caminhos para o progresso:

1. O caminho da prática: encontrar o que funciona por meio de tentativa intuitivas e erros, e então explicar o processo com teorias. Aqui, a teoria é aplicada depois de um avanço prático ter sido concluído.

2. O caminho da teoria: desenvolver uma nova visão teórica e então desenvolvê-la na prática. Aqui, a teoria é usada antes do progresso ocorrer.

No primeiro caminho, a prática inova e então a teoria explica, enquanto que no segundo caminho, a teoria visiona e então a prática constrói. Programas bem sucedidos normalmente envolvem os dois caminhos, por exemplo, os foguetes foram construídos inicialmente sem uma base teórica, mas agora a teoria é primordial para que um foguete espacial decole. Nenhuma das abordagens é “melhor” já que o progresso necessita de ambas. No campo da tecnologia da informação, todavia, a relação teoria/prática parece quebrada, como se os construtores do foguete achassem que quanto menos soubessem sobre a ciência dos foguetes seria melhor para que seu foguete decolasse.

Os pesquisadores de hoje normalmente constroem primeiro um novo website, uma interface ou ferramenta, e depois procuram por uma teoria conveniente para publicá-la, isto é, a teoria agora meramente assessora a prática. De fato a abordagem “todo poder para o artefato de TI” (Benbasat e Zmud, 2003) leva acadêmicos a teorizarem sobre como os artefatos de TI são construídos, como são usados e como eles impactam organizações, de maneiro que primeiro se cria um artefato e então, a teoria. Contraditoriamente os teóricos de SI/TI cada vez mais dão uma resposta à suas idéias do tipo “mostre-me, não fale”.

O que é uma teoria senão a destilação da prática prévia? Se os físicos tivessem tratado Einstein desse jeito ele teria que construir um acelerador de partículas para ser ouvido. No casamentos da teoria e prática nos SI os parceiros raramente falam um com o outro – a prática acha que a teoria é improdutiva e a teoria reclama que a prática nunca a escuta (Klein e Hirschheim, 2003).

Entretanto, uma abordagem pragmática do tipo “tentar e analisar” trabalhando sozinha tem sérios limites. Apesar de os frutos iniciais da árvore do conhecimentos aparecem facilmente nos galhos mais baixos, percebe-se rapidamente que a árvore não oferece grandes frutos com muita frequênca. É necessário usar a escada da teoria para alcançar aos frutos mais altos. A abordagem da caixa de ferramentas esbarra em sistemas complexos os quais por definição possuem mais chances dar errado do que certo, por exemplo, imagine gerenciar o programa espacial ou o programa nuclear por tentativa e erro!

Criar uma nova sociedade online global é um sistema tecno-social tão complexo quanto qualquer programa espacial, já que os sistemas tecno-sociais precisam tanto da performance social quanto técnica para serem bem sucedidos (Whitworth and Moor, 2009c). Nós não podemos esperar progredir apenas por “tentativa e erro”. Se a teoria e a prática são as duas pernas do progresso científico, uma perna teórica machucada é um problema grave. Nós agora vamos apontar a principal causa deste rigor desequilibrado.

A questão do rigor

Se o trabalho rigoroso é menos propenso a apresentar erros, então nos parece que quanto mais rigor, inevitavelmente melhor o trabalho será. Todavia, a pesquisa teórica possui dois tipos de erros, e não um:

1. Tipo I. Erros de comissão: coisas realizadas que estão erradas.

2. Tipo II. Erros de omissão: coisas não realizadas que poderiam ter dado certo.

O erro do Tipo I considera um resultado falso como verdade, enquanto o erro do Tipo II rejeita um resultado verdadeiro, dizendo-o ser falso.(Rosenthal and Rosnow, 1991) [4]. Assim, os periódicos podem errar de duas maneiras:

I. Publicando o que depois se mostra errado (erro de comissão)

II. Não publicando o que depois se mostra certo (erro de omissão)

Enquanto o segundo caso normalmente é negligenciado, os custos de oportunidade (o valor perdido pelas oportunidades perdidas) são uma das principais causas do insucesso desse modelo (Bowman, 2005). O WordPerfect não domina mais o processamento das textos não por conta das falhas cometidas, mas por perder a oportunidade de usabilidade que o Microsoft Word tomou pra si. Do mesmo modo, a comunidade acadêmica do hipertexto subestimou a idéia de World Wide Web de Berners-Lee, vendo o HTML como uma linguagem de marcação muito simples, mas não conseguiu perceber o seu enorme potencial (Berners-Lee, 2000). Rejeitar a ideia por trás da World Wide Web foi um erro do tipo II cometido por essa comunidade acadêmica, que perdeu a chance de fazer parte daquele progresso. O ponto em questão é que os erros do tipo II são erros verdadeiros com consequências reais.

Esses erros se equiparam, de modo que a redução de um aumenta o outro, por exemplo, um jornal pode reduzir os erros de Tipo I a 0% simplesmente rejeitando todas as submissões, mas isso também faz com que os erros de Tipo II aumentem para 100 por cento uma vez que nada útil é publicado. O príncipio do senso comum é que para ganhar na loteria (ser valorizado) você tem que fazer alguma jogada (arriscar). Nas publicações acadêmicas, o problema de rigor ocorre quando a redução do erro de Tipo I aumenta os erros de Tipo II, isto é, quando mais rigor representa a diminuição da performance do SIC.

Um bom intercâmbio de conhecimento reduz os tipos I e II de erros, evitando falhas e garantindo oportunidades. Ou seja, rejeitar um artigo com nove boas idéias e um ruim em nome do rigor seria o mesmo que trocar nove oportunidades por um risco. Considerando o objetivo geral do SIC de ampliar o conhecimento, essa pode ser uma má idéia.

A “ladeira” uni-dimensional do rigor não é o caminho para melhores pesquisas (Davenport and Markus, 1999). Se o rigor é meramente um fator higiênico para a relevância, ele apenas tem valor se estiver combinado a ela. Enquanto a comida sem higiene pode nos deixar doentes e nos levar a morte, a higiene sem comida nos leva a morte certa. Da mesma maneira, embora reduzir rigorosamente os erros de Tipo I melhora a saúde dos periódicos, evitar os erros de relevância Tipo II é crítico para a sua sobrevivência.

Nós acreditamos em rigor, mas enxergamos a performance do sistema como um misto de vários critérios (Whitworth, et al., 2008), que “contra-atacam” se um critério é exclusivamente reverenciado à custa de outros (Tenner, 1996). O melhor modelo de performance de intercâmbio de conhecimento é o de uma fronteira eficiente – uma linha de vários pontos que define o melhor que se pode conseguir de rigor dado um valor de relevância (Keeney and Raiffa, 1976). Buscar o rigor por si só produz rigor mortis na vertente teórica do progresso científico.

O papel da pesquisa

Se o excesso de rigor reduz a inovação e faz com que a teoria se distancie da prática, pelo menos no SI, por que não mudar a estratégia? Certamente acadêmicos preferem fazer parte da onda de tecnologia do que correr atrás dela.

Esses problemas tem sido aparentes por algum tempo (Szajna, 1994; Robey and Markus, 1998; Davenport and Markus, 1999). A falta de mudança real sugere que este é um problema social e não informacional. Originalmente, o objetivo principal da academia era produzir, assessorar e disseminar o conhecimento, e seu papel secundário era ajudar a alocar recursos de investimentos. Hoje pode-se discutir que o papel de alocação de investimentos supera o papel do crescimento de conhecimento.

No grande negócio da administração de universidades, rankings de departamentos, fundos para pesquisa, bolsas de estudo e alocações de bibliotecas, todos dependem das publicações (Rainer and Miller, 2005). Enquanto o objetivo principal da pesquisa é buscar a verdade, as publicações hoje são o primeiro mecanismo para agendas acadêmicas, verbas e promoções (Katerattanakul, et al., 2003). Dizer que o objetivo das publicações acadêmicas é desenvolver, selecionar e difundir conhecimento é ingênuo quando as revistas acadêmicas direcionam todas as contratações e demisssões de uma universidade (Lowry, et al., 2007).

Quando um sistema se torna o mecanismo para o poder, enriquecimento e controle, os objetivos idealizados, como a busca pela verdade, podem facilmente ficar em segundo plano. Autores podem não querer que seu trabalho fique trancafiado em revistas caras que apenas universidades ocidentais financiadas podem comprar, mas a exclusividade do negócio exige isso. Autores podem pessoalmente ver os outros como colegas em uma jornada de pesquisa cooperativa, mas o sistema os coloca como competidores por empregos e financiametos. Uma vez que a academia se torna um negócio, novas idéias tornam-se ameaças ao poder, ao invés de oportunidades para o crescimento do conhecimento. As revistas se tornam guardiãs do poder acadêmico ao invés de cultivadoras do conhecimento, e as teorias se tornam armas de batalha em arenas de promoção, ao invés de aradores em campos de conhecimento.

Que a maioria dos periódicos populares de SI agora aceitam em porcentagem de apenas um dígito ilustra o quão longe nós nos movemos da publicação para o aumento do conhecimento à publicação para relocar recursos. Pode um sistema onde a rejeição é a norma clamar que seu objetivo principal é produzir valor de conhecimento? Os cursos universitários também objetivam trocar conhecimento, mas um curso com 90% de reprovações seria moralmente inaceitável. No entanto, o intercâmbio de conhecimento acadêmico popular no SI funciona dessa forma. Simplesmente não é verdade que mais de 90% dos artigos rejeitados pelos “principais” periódicos tenham um valor mínimo. Na verdade nós sugerimos que são precisamente as novas idéias que são bloqueadas. Essa exclusividade já apresentou em seu nível máximo, nós argumentamos, um efeito tóxico na criatividade em pesquisas acadêmicas. A troca de conhecimento acadêmico tornou-se um sistema de autoridade e controle.

Pode-se justificar a distribuição de recursos financeiros excassas para os poucos, já que não há muito para distribuir, mas não se pode justificar distribuir o conhecimento desta forma, uma vez que distribuir conhecimento não o diminui. Enquanto os recursos físicas são distribuídos através de um modelo de soma zero, as fontes de informação seguem um modelo de soma não-zero (Wright, 2000), onde quanto mais se distribui, mais sinergia é criada (Whitworth, 2009a). A escassez esconomica não é argumento para a exclusividade do conhecimento.

Treinando o conformismo

O sistema acadêmico moderno se tornou praticamente um campo de treinamento para o conformismo. Estudantes de PhD [doutorado] passam de três a seis anos como aprendizes sob orientação, depois passam outros 3 a 6 anos buscando a segurança de um cargo estável. Em ambos estágios, criticar o establishment é arriscado, se você quiser uma carreira. Não é surpresa que seis a doze anos de treinamento produzam pessoas que seguem o decoro de suas frentes políticas. Ainda que se espere que jovens pesquisadores realizem avanços, um artigo escrito após um debate sobre rigor/relevância no ICIS 2005 os adverte:

“Por ora, infelizmente, eu não recomendaria aos estudantes de PhD ou graduação a buscar por uma “pesquisa no SI que realmente importa”. Minha recomendação seria…. atenham-se aos caminhos de suas carreiras…. poucas pesquisas que realmente importam parecem ser publicáveis”. (Desouza, et al., 2006)

Em função da pressão por publicação, os líderes sêniors do SI explicitamente advertem os novos acadêmicos a não inovarem se eles desejam uma carreira! Como a palavra “infelizmente” sugere, eles não assumem responsabilidade por um sistema que ativamente leva os inovadores a realizarem seus avanços na prática, por exemplo, o movimento de indexação automática surgido nas universidades e transformado em empresas comerciais como o Google (Arms, 2008).

Enquanto a estratégia de evitar riscos – “risco-baixo, ganho-baixo” – pode funcionar para tarefas como a produção de rotina de uma fábrica, ela falha desastrosamente em áreas como o desenvolvimento de novas tecnologias, onde o sucesso requer uma estratégia de “risco-alto, ganho-alto”. Se a academia escolhe a segurança do rigor, isso reduzirá o seu valor percebido externamente:

“A síndrome publicar ou perecer desvalorizou o propósito original da pesquisa na universidade… levou líderes políticos e empresários a duvidar se o valor esperado das pesquisas em defesa, saúde e progresso realmente tem ocorrido.” [5]

Paradoxalmente, enquanto motivos acadêmicos como a verdade fazem da academia um bom negócio, os motivos “de negócios” como buscar o progresso tornam a academia falida. Quando um sistema acadêmico se torna um sistema de negócios ele perde ambos valores acadêmico e de negócio, e quando os objetivos de negócios superam os objetivos acadêmicos, ambos falham.

Mudando o sistema

Pode este sistema mudar a si mesmo? Pesquisadores IS tradicionalmente julgam a importância de um periódico por medidas como as percepções dos experts internos, o número de citações e o número de publicações (Hamilton e Ives, 1982). Todas estas medidas geradas internamente e auto-alimentadas favorecem o status quo. Como observa uma publicação acadêmica: “o que dá esse ambiente sua peculiar casta é o fato dos produtores do conhecimento serem também seus consumidores primários“. [6]

Sugestões para fazer os sistemas de avaliação de periódicos mais relevantes, acrescentando critérios como idade da publicação (Rainer and Miller, 2005), o tempo que leva para aprovação dos artigos (Snodgrass, 2003), o tamanho do público leitor e a avaliação da utilidade da publicação pelos leitores (Nerur, et al., 2005) tiveram pouco efeito.

Pesquisas atuais sobre a qualidade dos periódicos ilustram o contraste entre a ciência em busca de lucros e a ciência em busca pela verdade. Apesar de aceitar que “a ciência pode ser percebida como uma rede social que acumula, distribui e processa novos conhecimentos” [7], elas vêem a “qualidade” dos periódicos em termos de lucros dos atores:

1. De forma que os autores possam publicar em periódicos de qualidade (para melhor impacto na carreira);

2. De forma que os leitores possam selecionar periódicos de qualidade (para poupar tempo);

3. De forma que os comitês de promoção e decanos possam escolher sua equipe (mais facilmente); e,

4. De forma que as bibliotecas possam mais facilmente escolher as publicações de qualidade.[8].

A análise não contém nenhuma menção para o bem da comunidade que a descoberta da verdade proporciona, nem alguma realidade além dos ganhos individuais. A “qualidade” é assumida para se igualar ao rigor:

“É sabido que os periódicos de maior qualidade tendem a ter uma revisão mais exigente e maior controle de qualidade; então, os resultados contidos em seus artigos normalmente tem maior validade e autenticidade do que aqueles publicados em jornais de menor qualidade.” [9]

Ou seja, como arguido, igualar qualidade com rigor é um erro, posto que a qualidade necessita tanto de rigor quanto de relevância. Quando a academia incestuosamente avalia a si mesma por estudos de citação e avaliação de especialistas ela pode facilmente se tornar um sistema auto-sustentado desconectado da realidade externa (Kerattanakul, et al., 2003).

O caso dos Sistemas de Informação (SI)

A disciplina de sistemas de informação, que ensina como as pessoas e organizações usam tecnologia para processar, transmitir e armazenar informação, fornece um caso interessante.

A diáspora SI

Conforme as pessoas usam computadores para mais tarefas alguém pode achar que SI é um disciplina em rápido crescimento, mas esse não é o caso. Ainda que a prática tenha inovado na década passada sistemas como eBay, Wikipedia e YouTube, o SI da  academia, enfraquecido pelo rigor, tem rastejado o melhor que pode. Conforme foi encarando a inevitabilidade do deserto de irrelevância, seu valor passou a ser questionado, e os financiamentos das pesquisas em SI começaram a secar (Robey e Markus, 1998):

“Devido à descontinuidade na transferência do conhecimento criada pelo SI acadêmico para todos os praticantes do SI, as fontes de financiamento para os esforços de pesquisas em IS são poucas e também estão em perigo”[10]

A pesquisa em SI combina contructos técnicos, humanos e sociais, requer métodos, medidas e análises mais complexas, que levam mais tempo para se realizarem. Quando disciplinas “lentas” como o SI rigorosamente se auto-sacrificam, o status de suas publicações sofre queda relativa a disciplinas mais especializadas em níveis de rigor comparáveis (Valacich, et al., 2006), causando diminuição da promoção, da segurança e das avaliações de peso para o campo do SI em comparação a outros campos (Kozar, et al., 2006). Seguir a exclusiva religião do rigor trouxe fome em vez de prosperidade para o SI.

Consequentemente, apesar de o crescente uso de tecnologias ao redor de mundo ter criado mais trabalhos, oportunidades e pesquisas, os docentes e pesquisadores do SI tem sido demitidos ou sub-utilizados. A disciplina de SI, por sua própria estratégia, conseguiu reduzir a si mesmo dentro de um mercado em expansão. O crescimento no número de alunos, funcionários e pesquisas foi absorvido por disciplinas vizinhas como a administração, engenharias, saúde, educação e computação, que adicionaram grupos de TI (Klein e Hirschheim, 2003); exemplificando, a computação médica e a informática emergiram para realizar um trabalho que a pesquisa estéril de SI falhou ao tentar.

Apesar da “diminuição do corpo docente de SI ter sido uma realidade durante anos” [11], refúgiados da debandada dos grupos de sistemas de informação agora existem em enclaves de disciplinas distintas, da engenharia a psicologia, quase sempre sob o nome de TI; por exemplo, o primeiro autor está em uma escola de ciências enquanto o segundo está nas artes liberais. O originalmente trans-disciplinar “sistemas de informação” é cada vez mais o negócio sub-disciplinar da gestão de sistemas de informação (GSI). Ao mesmo tempo que “… os conceitos pelos quais SI eram focados estão se tornando cada vez mais similares aos das outras disciplinas de administração.” (Hovorka, et al., 2009). Desde 1990 a função do SI no currículo de computação tem minguado e o currículo de TI tem se expandido em seu lugar  [12].

Esta diáspora disciplinar cresceu parcialmente através de uma tomada de assalto vinda de fora mas também através de uma visão interna míope preocupada em encontrar o santo graal da “identidade do SI”, seguindo estritamente a religião do rigor (Benbasat e Zmud, 2003). Esta visão umbigo-cêntrica focou a disciplina dentro de si mesma, quando ela deveria estar olhando para fora de si. Houve uma falha estratégica principal da visão e da liderança em SI, já que uma crescente disciplina acadêmica deveria ser um “pote de ouro” de novas idéias, e não uma piscina estagnada de velhas idéias.

Como o rigor restringe

Mesmo editores respeiados de Periódicos de SI reconhecem que há um problema: “Publicações de pesquisa em SI parecem não publicar o tipo ou conteúdo certo de pesquisa.”[13]. A causa que nós sugerimos está em conformidade social com velhas teorias. Por exemplo, duas teorias bem conhecidas em SI são:

1. Modelo de aceitação de tecnologia (TAM), que sugere avaliação dos usuários de tecnologia pela facilidade de uso e usabilidade (Davis, 1989).

2. Teoria da riqueza midática (MTR), que liga mídia “rica” a interações ricas (Daft, et al., 1987).

Essas teorias dominam o arcabouço teórico em SI, apesar delas terem mais de 20 anos e estarem mostrando sua idade – por exemplo, a “riqueza” da MRT sugere que pessoas não usarão mídia “tendênciosa” como o e-mail em relações sociais “ricas”, mas os amigos de hoje com frequência usam texto e chat. Ou o e-mail texto plano é uma “multimídia” rica ou a MRT hiper-simplifica a comunicação humana (Whitworth, 2009b). Similarmente, a premissa do TAM de que a facilidade de uso e usabilidade definem a aceitação de tecnologia é válida, mas omite critérios como segurança, confiabilidade e privacidade – críticos na Internet de hoje.

Certamente a TAM foi “extendida” por muitos fatores, como usabilidade, credibilidade, atratividade, auto-eficácia, controle comportamental, satisfação do usuário, aproveitamento e confiança (Moon e King, 2001;Heijden, 2003; Ong, et al., 2004; Taylor and Todd, 1995; Shih, 2004; Yu, et al., 2005; Pavlou, 2003).  Há um sabor de TAM para cada paladar ou necessidade, mas como todas essas variações trabalham juntas não está claro, já que nenhuma das que se enraizaram na árvore TAM de fato “pegou”. Esses vários pequenos “ajustes” para um modelo principal tem cancelado uns aos outros, levando a: “…um estado de caos teórico e confusão no qual não está claro qual versão das muitas versões de TAM é a versão comumente aceita.” [14]

A teoria unificada de aceitação e uso de tecnologia (UTAUT) (Venkatesh, et al., 2003) objetivou autoritariamente “atualizar” a TAM. Mesmo que repleta de detalhes acadêmicos, ela meramente renomeou o construto de usabilidade do TAM para uma expectativa de performance, renomeou o construto facilidade de uso para esforço de expectativa, e então combinou essa “maquiagem” TAM com 8 outros igualmente antigos construtos psico e sociológicos para criar um “novo” modelo. Tais tentativas de reanimar velhas teorias produzem teorias zumbis que vivem brevemente e então morrem sem “alarde”. Um exemplo antigo era a “teoria do processo de ganhos” (Nunamaker, et al., 1991; Vogel, 1993), que adaptou e com breve sucesso ressuscitou a antiga teoria do processo de perdas (1972) de Steiner.

Os praticantes de computadores não são tolos:

“Apesar de seus clamores de tentar acabar com problemas futurísticos, vários acadêmicos da ciência da computação continuam a possuir avenidas infrutíferas de pesquisa e resolvem problemas para, bem, ninguém. Numa tentativa constante de criar uma fachada de relevância e atrair fundos, eles reinventam sua pesquisa simplesmente mudando a terminologia usada em artigos antigos para refletir as novas tendências da indústria. É um modo fácil de publicar artigos que ninguém vai ler.” [15]

O problema não está nas “velhas mas boas” teorias mas sim em um sistema que parece incapaz de fazer crescer novas teorias ao seu redor. Dadas as enormes mudanças na computação desde a década passada, a falta de inovações teóricas nesse mesmo período é no mínimo perturbadora.

Estaria a incapacidade de criar novas idéias para uma nova geração computacional acontecendo por que não existem idéias disponíveis? Por que os autores novos acreditam que a única forma de obter uma nova idéia além dos atuais gatekeepers é associando-a a uma idéia antiga, como o TAM? O processo é implícito para que não saibamos, mas na experiência direta do primeiro autor um experimento validando uma teoria alternativa à TAM foi editorialmente rejeitado por JAIS em 2005 pela razão de que artigos que criticam a TAM nunca passavam da revisão. Essencialmente o mesmo artigo foi enviado e publicado em um boa via não-SI (Whitworth, et al., 2008). Incrívelmente, em 2007, uma série de artigos da JAIS se perguntavam se a TAM tinha “sobre-conquistado” o SI (Benbasat and Barki, 2007; Straub, 2007; Venkatesh, et al., 2007). Para ser claro, quando teorias idosas negam as luzes da publicação para novas, não se trata de uma conquista, e sim de uma exclusão.

Os periódicos de SI dizem que aceitam novas teorias mas na verdade as rejeitam em nome do rigor? MISQ recentemente rejeitou ediorialmente uma latente análise de método de categorização de 180 periódicos americanos e europeus que concluiu que fatores de comunidade estão por trás das publicações em SI  (Larsen, et al., 2008). Logo após isso, MISQ publicou um mesmo artigo com o método usando apenas 3 dos maiores periódicos americanos – que descobriur que o artefato de TI era central para a pesquisa em SI [16], seguindo uma teoria do editor senior (Benbasat and Zmud, 2003).

Os leitores podem julgar por si mesmos por que um amplo estudo com uma nova conclusão foi rejeitado mas um estudo limitado com uma velha conclusão foi aceito. O futuro do SI se baseia em artefatos ou comunidades? O leitor pode novamente decidir, mas artefatos são o nível mais baixo de tecnologia e comunidades são o nível mais alto do social, e conforme os sistemas sócio-tecnicos evoluem, os níveis mais altos são os que cada vez mais dirigem o progresso (Whitworth, 2009b)

A verdade é que é difícil publicar uma nova teoria num SI popular, se o “novo” não representa apenas um ajuste na teoria antiga e a “teoria” significa mais do que conjecturas especulativas. Inovação não é um termo que vem a mente quando alguém revisa a teoria do uso tecnológia, entretanto, na prática do uso tecnológico a verdade é precisamento o oposto. O fato de o progresso advir da prática – e não da teoria – sugere que as prioridades da teoria estão equivocadas.

Tendências feudais de intercâmbio de conhecimento

Nós descrevemos um sistema de intercâmbio de conhecimento feudal administrado por poucos voltado para poucos, apoiado ideologicamente pela igreja do rigor, financiado pelas fábricas universitárias de conhecimento, cujos objetivos são dominar e defender a pureza de feudos intelectuais especializados. Agora nós apontamos algumas tendências inevitáveis de tal sistema, novemente para o caso do SI.

Exclusivo

Um sistema de intercâmbio de conhecimento (SIC) é exclusivo quando o seu fluxo de informação dominante é restrito em escopo e contribuição. Numa economia competitiva, a escassez requer demanda, então taxas altas de rejeições em periódicos se tornam indicadores de qualidade. Isso cria um sistema auto-reforçante, onde periódicos exclusicos que rejeitam mais atraem mais, uma vez que sua exclusividade os faz mais atraentes. Quando o “fator de impacto” de um periódico é o número de citações dividido pelo número de publicações, publicar vários papers dilui o ranking de citação de um periódico (Lamp, et al., 2007). Quando a exclusividade é baseada no rigor, evitar erros se torna mais importante do que ter novas idéias. Aceitar erroneamente um paper com falhas oferece consequencias às reputações, enquanto erradamente rejeitar um papel útil não deixa evidência alguma, uma vez que não chega a ver a luz do dia.

Enquanto o campo de SI mudou consideravelmente na última década, seus rankings de periódicos permaneceram extraordinariamente estáticos ao longo do tempo (Rainer and Miller, 2005), e tentativas de criar mais periódicos “A” enfrentaram dificuldades (Avison, et al., 2006; Gallivan and Benbunan–Fich, 2007; Paul, 2007b). Ainda que uma pequena parcela dos principais periódicos seja a reponsável pela maior parte do “impacto” em artigos de SI, digamos, cerca de 60 papers por ano, representa pobremente um campo com potencialmente mais de 10.000 pesquisadores. Além disso,  MISQ e ISR geralmente apresentam contribuintes repetidos, geralmente professores seniors que editam ou fazem revisões para esses periódicos e conhecem as normas. O fato de revisores serem convidados, a maioria a partir de conexões informais entre os editores, clama criticas a uma “panelinha” que replica em sua própria imagem (Furnham, 1990).

A tendência é de alguns poucos periódicos exclusivos dominarem o cenário teórico. A alternativa proposta na Parte II, é um sistema mais democrático.

Datado

Um SIC é datado quando os seus fluxos de informação reportam principalmente assuntos que não são mais atuais. A falta de frequência em função da lentidão da publicação é uma perda de oportunidade do Tipo II. Qual é a utilidade da qualidade quando ela está atrasada o bastante para afetar as coisas, enquanto outros ou já resolveram ou ultrapassaram o problema? MISQ recentecem indicou que a lista de espera de artigos aceitos se extendeu por mais de um ano (Saunders, 2005). Hoje em dia tais demoras não são incomuns. Acrescente a isso um ou dois anos de revisão e um ou dois anos de coleta de dados e composição do artigo, e então os artigos “recém nascidos” já tem três-cinco anos de idade – um período de gestação extraordinariamente longo em qualquer definição. Muitos artigos de periódicos estão desatualizadas antes mesmo de serem publicados.

O rigor é mais fácil de ser mantido em relação a conteúdo conhecido. Uma revisão descobriu que os pesquisadores de SI em 1990 focaram nas questões que os praticantes da área enfrentaram uma década antes (Szajna, 1994), e a situação permanece a mesma nos dias de hoje. Quando os periódicos acadêmicos buscas os tópicos que interessam seus conselhos editoriais, eles se tornam registros do passado do conhecimento em vez de criadores de conhecimento.

A justificativa do rigor de que os artigos realmente bons serão publicados de alguma maneira em algum lugar, de forma que nada seja perdido por erros do Tipo II simplesmente não é verdadeira. No mundo glacial da publicação acadêmica, uma rejeição pode representar um atraso na publicação por cerca de dois-quatro anos. Dos bons artigos rejeitados, alguns desistem, outros se mudam para campos mais férteis, mas a maioria apenas se conforma com as “sugestões” dos revisores. Se os rejeitados não tentam novamente, publicação atrasada, como a jutiça, é publicação rejeitada, o que faz alguns sairem da academia por bem:

“Para jovens estudantes uma rejeição constante os deixa desiludidos e desapaixonados, especialmente se eles percebem que o processo de revisão é errôneo e destrutivo. Alguns deixam o jogo acadêmico depois de investir tanto de suas vidas equipando-se para jogá-lo”. [17]

O oposto de datado é atual, e apenas um sistema eletrônico de acesso aberto, como descrito na parte II, pode acompanhar os passos da mudança moderna.

Conservador

Um SIC é conservador se ele resiste à mudança e à inovação. Uma barra de rigor em crescimento significa que novas teorias enfrentam com uma carga de refutação maior do que as teorias antigas (Avison, et al., 2006). Que as novas teorias respeitem as antigas é sensato, mas quando elas enfrentam críticas que as antigas teorias também não respondem, então essas tomaram um atalho ao subir a árvore do conhecimento. Novas teorias raramente emergem do oceano como Venus, perfeitamente formadas e isenta de falhas. Geralmente, as novas idéias surgem imperfeitas e se desenvolvem apenas ao longo do tempo com a ajuda de outras. Então de qualquer modo, a presunção deveria ser ao contrário. Quando novas teorias precisam ser inteiramente provadas antes mesmo de serem propostas como questões de pesquisa, então nós temos a ciência ao avesso. Como Einstein disse (dizem): “Se nós soubessemos o que estamos fazendo, não seria chamado pesquisa, seria?”

Os docentes enfrentam longos períodos de tempo de revisão e baixos índices de aceitação, mas não há nada mais vital para sua sobrevivência do que mais publicação. Já que os membros dos comitês universitários geralmente classificam seus candidatos além de suas especialidades, a maneira mais fácil de garantir a aprovação é contabilizando o número de artigos publicados em periódicos qualis. Tais comitês raramente consideram o conteúdo diretamente, lendo os artigos de fato. Os números são ostensivamente mais “objetivos”, e também, convenientemente, poupam tempo.

Entretanto, para os autores, um artigo inovador envolvendo anos de trabalho, que transforma um campo e oferece uma pequena mudança em um artigo previamente publicado são considerados apenas como “um”. Quando o que é mensurado são as “visualizações” e não o valor do conhecimento, cabe aos autores elevar as visualizaçãos em vez do valor do conhecimento, publicando em grupos e “liberando aos poucos” as descobertas em vez de explorar outros tópicos – em outras palavras, se especializando.

Autores que inovam arriscam suas carreiras, mesmo que suas grandes inovações não tenham chance de florescer antes da decisão acerca dos seus vínculos com uma universidade. Não deveria ser assim. Os inovadores são os “agitadores” da academia – eles desafiam afirmações falsas de progressos no conhecimento. Um sistema que rejeita seus próprios agentes de mudança rejeita seu próprio progresso.

Novas idéias por definição contradizem a norma convencional, então há de se esperar que elas polarizem os revisores. Uma proposta que não ofenda alguém provavelmente não mudará nada. Porém, nas contratações acadêmicas, uma referência negativa pode acabar com um canditato[18], e em submissões à periódicos e preenchimentos de editais de financiamento, uma candidatura “perfeita” garante a pontuação máxima se ninguém se opor. Entretanto, se ninguém se opor ao seu trabalho você provavelmente não está fazendo nada de relevante. Uma marca da inovação é que ela polariza as pessoas – algumas amam, outras odeiam. O sistema de pontos da maioria das revisões despacha a criatividade.

Cem anos atrás Einstein inventou a relatividade especial trabalhando no escritório de patentes da Suíca, porque nenhuma universidade aceitou sua indicação. Entretanto, ele revolucionou a física. O sistema acadêmico de hoje é de alguma maneira mais convidativo aos não-ortodoxos? Será que o Einstein seria capaz hoje de conseguir um emprego e conseguir publicar? Se sim, a comunidade da ciência é a perdedora. Escolher a conformidade atraente em vez da inovação controversa é um erro estratégico do mais alto grau. Essa é a política que já produziu uma recessão no SI. Deve a academia em geral seguir o mesmo caminho? Como anotou o presidente da Academia Nacional de Ciência em 2003:

“Nós desenvolvemos um sistema de incentivos para jovens cientistas que é avesso aos riscos… os pares afiram que admiram quem assume riscos, mas geralmente investem em pesquisas seguras na hora de alocar recursos… isso ajuda a explicar porque muitos dos nossos melhores jovens estão fazendo a ciência do ‘eu também’”. [19]

A Parte II explora como mudar isso.

Não lido

Um SIC é considerado não-lido quando a maior parte de seu fluxo de informação não é lido ou compreendido. A leitura assídua de periódicos como o MISQ tem entrado em um agudo declínio há algum tempo (Benbasat and Zmud, 1999). Um levantamento entre 476 leitores de 130 periódicos sobre gestão indicou que 90 por cento dos artigos acadêmicos não são nem mesmo lidos pelos assinantes dos periódicos (Siggelkow, 2001). Como um antigo presidente da ACM nota “… cerca de dois milhões de artigos acadêmicos na ciência e nas engenharias são publicados a cada ano por 72.000 periódicos; a vasta maioria desses papers são lidos por algumas centenas de pessoas no máximo; na maioria das disciplinas, cerca da metade dos papers nunca são citados por nenhum outro autor”. [20]

A apatia de conteúdo é ilustrada quando os periódicos acadêmicos fazem convites para publicação, mas o editor não recebe nenhum. O “publicar ou perecer” produz acadêmicos interessados em seu próprio trabalho mas não no trabalho de outros? Por exemplo, autores que publicam em conferências, mas não participam delas, ou autores despreocupados se você acha que suas idéias estão erradas – contanto que você as cite. Por outro lado, por que tantos tentam publicar se tão poucos lêem seu trabalho? É uma crença ingênua de que outros se importam ou uma visão cínica de que contanto que você seja publicado/a, quem se importa se vão ler ou não?

Os leitores querem valores de conhecimento em troca pelo seu esforço de leitura. Mais rigor significa que artigos mais complexos requerem mais esforço para ler por geralmente o mesmo valor. Se os periódicos se sentem obrigados a publicar o artigo rigoros n+1 acerca de um tópico, esteja ele agregando valor ou não, os leitores recebem menos impacto semântico pelo seu investimento cognitivo, uma vez que autores reciclam as mesmas idéias em formas ainda mais sofisticadas. Se o rigor aumenta a complexidade do artigo e reduz as novas idéias por artigo, então os leitores podem se adequar a esse desequilíbrio reduzindo o esforço de leitura; por exemplo, passar os olhos sobre títulos ou resumos ao invés de todo o artigo. A moda do rigor faz com que os leitores criem seus “macetes” de leitura, ao invés de digerirem, o que depõe contra novas idéias.

Se o SIC democrático enunciado na Parte II permite que todos publiquem, isso não pioraria o problema da não-leitura, uma vez que teremos mais coisas pra ler? Sim – apenas se a motivação não mudasse, mas ela mudará. Enquanto em um sistema em que se evita o risco mais artigos representam mais erros a serem evitados, em um sistema que busca valores mais artigos representam mais valor potencial. Leitores usarão ferramentas eletrônicas como o Google Scholar, para fazer pesquisas positivas. Enquanto a literatura parece imensa, uma busca em um tópico específico pode produzir apenas um punhado de papers relevantes. Até mesmo papers imperfeitos podem ter partes boas ou estimular novas idéias. Quando o motivo move-se de seguir idéias normativas para a busca pelo conhecimento útil, mais pessoas lerão uma ainda maior variedade de papers.

O oposto de apatia é envolvimento e participação, e na Parte II nós sugerimos que ferramentas sócio-tecnicas possam transformar leitores de recipientes passivos de “qualidade” pré-selecionada para participantes ativos na geração de valor.

Inacessível

Um SIC é inacessível quando a maioria dos seus usuários potenciais não podem escrever para ele ou lê-lo. Na academia, para contribuir alguém tem que passar pelo firewall do revisor. Ainda assim, os revisores, que trabalham sem reconhecimento e sem remuneração, são também demasiadamente atribulados. Quando fazem a revisão, uma escolha é aceitar o paper, mas se outros revisores encontrarem erros isso pode ser profissionalmente embaraçoso. Em um ambiente onde admira-se o rigor, a opção segura é achar erros, e enquanto aclamar quando outros condenam supõe ingenuidade, uma revisão contundente entre aclamações é considerado um rigor louvável.

Para um revisor anônimo, gastar tempo avaliando um artigo representa não apenas um grande consumo tempo, mas é também um processo invisível. Se o conselho de um revisor é ignorado, eles perdem o tempo deles, e se for acatado, os autores recebem créditos pelas idéias dos revisores. Um presidente da AIS resumiu essa tendência há uma década atrás: “As alegações feitas geralmente são as de que os revisores não são velozes, que sua qualidade é baixa, que eles não estão apoiando e afirmando os autores, e que eles refletem os preconceitos de uma “elite” que controla os periódicos… Baseado nas minhas próprias experiências, eu acredito que as alegações tem algum fundamento“. [21] A moda do rigor sugere revisões com tendências negativas baseadas na negação dos erros em vez do crescimento do valor. Em contraste, o SIC democrático sugerido na Parte II pode reportar contribuições de revisão e ainda respeitar o anonimato, que aumenta o incentivo para uma revisão de qualidade.

Especializado

O rigor é mais fácil de ser mantido para o conteúdo restrito, então vale a pena levantar e defender castelos de conhecimento especializado. A pesquisa inter-disciplinar, onde os acadêmicos cruzam em outros campos, raramente sobrevive a crítica especializada, da mesma maneira quando os pesquisadores se movimentam em campos relacionados: “Não importa o quão original e útil seja seus insights, seu trabalho não impressionará tecnicamente os especialistas da área”. Entretanto, é nas áreas inter-disciplinares que historicamente o conhecimento se expande; por exemplo, a computação se desenvolveu da intersecção entre a matemática e a engenharia. A abordagem SIC feudal favorece mais a especialização do que a integração, uma vez que seus castelos são cosntruídos para excluir, não para conectar. Apesar de novas áreas começarem a abrir, logo também construirão muros do conhecimento para excluir e dominar seu campo.

Que a abertura do intercâmbio do conhecimento melhora a performance acadêmica é um fato ilustrado por um quasi “experimento” realizado em 1999 quando a Associação para Sistemas de Informação (AIS) iniciou dois periódicos online, o primeiro um rigoroso e tradicional periódico baseado em revisão por pares duplamente anônimo [double-blind peer review] (JAIS) e o segundo “mais leve”, Communications of the AIS (CAIS), sobre o qual Paul Gray deu aos autores a escolha de uma revisão leve feita por uma pessoa, ou completa feita por três. Estranhamente, em 2001, o CAIS foi avaliado como significantemente melhor (18) do que a JAIS (30) em rankings de impactos de periódicos (Barnes, 2005; Mylonopoulos and Theoharakis, 2001). É digno de nota que em 2003 o CAIS publicou 95 artigos enquanto o JAIS publicou 16. Pode-se concluir que reduzir o rigor aumenta a performance de publicação acadêmica.

Uma vez que mais “especialidades” rigorosas e exclusivas emergem, a tendência esperada é um sistema de publicação acadêmica que produz mais e mais sobre menos e menos. A alternativa proposta na Parte II é acabar com os muros para ao invés disso permitir mais e mais sobre mais e mais.

O ponto final

Sob uma tendência de rigor os grandes periódicos serão exclusivos em participação, avessos à inovação, poucos em números, terão conteúdos desatualizados, serão restritos em seu escopo, amplamente não lidos e cada vez mais especializados. Autores irão duplicar, imitar e suplicar ao invés de inovar. Eles irão reciclar velhas teorias com novos nomes, desenvolver pequenas atualizações para teorias canonizadas e nunca irão modificar a forma como encaram a opinião recebida. Revisores irão negar, criticar e se opor as tentativas dos autores de publicar, enquanto que os leitores irão apenas passar os olhos sobre as velhas idéias em novas roupas que forem publicadas – se eles lerem tudo. A resposta feudal a mais pessoas escrevendo é mais rejeições e mais pessoas não lendo. O ponto final esperado serão periódicos mais rigorosos do que relevantes, autores mais prolíficos do que produtivos, revisores negando e não inspirando e leitores lendo superficialmente mas não digerindo. O leitor pode decidir se isso se aplica ao campo deles.

Essa visão final de periódicos como castelos exclusivos e isolados de conhecimento, capitaneados por editores-soberanos e revisores-barões, levantando a barricada do rigor contra um assalto em massa por parte dos autores-camponeses que buscam posses de nobreza, não é inspirador.

No feudalismo uma pequena parte da elite administra as fontes de valor. Quando a fonte é o conhecimento a “verdade” se torna o que seus guardiões internos dizem o que é, e a inovação é rejeitada juntamente com os erros. Não é “Deixem que publiquem em qualquer outro lugar” o conhecimento equivalente ao de Maria Antonieta “que comam brioches”? Um sistema onde poucos escolhem o que é melhor para vários lerem não pode ser sustentado uma vez que no final as pessoas devem escolher por si mesmas.

No feudalismo os rostos mudam mas o sistema continua o mesmo, como no mote do sistema feudal “O rei está morto. Vida longa ao rei”. Com as publicações acadêmicas acontece o mesmo. Um artigo de Fred Davis na TAM foi rejeitado uma vez para uma conferência mas hoje é parte do sistema que rejeita as teorias de amanhã. Por que cada geração de inovação acadêmica deve quebrar a “Bastilha” de seus predecessores? Por que não transferir o poder de conhecimento como as democracias transferem poder econômico – por uma pacífica decisão da maioria? As democracias mudam de poder por consenso comum e não por meio de caras batalhas políticas, então por que não um SIC não pode fazer o mesmo?

A preocupação de que a abertura dos portões da cidadela do conhecimento deixará que uma enchente de erros tome conta, confunde democracia com anarquismo. O governo feito pelas pessoas não significa ausência de regras, apenas significam novas regras. Não destrói hierarquias, apenas as abre para todos por mérito. Para os acadêmicos realistas de hoje que fazem o jogo das publicações, este é “o jeito que é”, e idéias de conhecimento e democracia são um idealismo irreal. O mesmo poderia ter sido dito sobre a democracia física na idade média. A mudança social emerge uma vez que os indivíduos evoluem.

As falhas no sistema atual já estão mostrando e a First Monday pode ser uma delas. Uma economia democrática do conhecimento irá ultrapassar seu equivalente feudal pela mesma razão que as economias físicas democráticas ultrapassaram as feudais – que as pessoas produzem mais quando o controle é compartilhado. Uma força motriz desta mudança será a amplitude e velocidade do intercâmbio de conhecimento requerido pela pesquisa interdisciplinar.

Pesquisa inter-disciplinar

Na pesquisa acadêmica multi-disciplinar especialistas trabalham lado a lado com a sua crença de que idéias especializadas irão inter-fertilizar, mas o aumento da especialização reduz essa probabilidade. Em contraste, a pesquisa inter-disciplinar usa os pesquisadores treinados em mais de uma disciplina para fundir conhecimento entre especialidades. Equipes inter-disciplinares tem tanto generalistas inter-treinados e especialistas de disciplinas.

O viés do uso tecnológico

Nós identificamos a pesquisa inter-disciplinar no cerne do uso da tecnologia como uma área de expansão do conhecimento. Termos como Web science (Fischetti, 2006), sistemas sócio-tecnicos (Whitworth and Moor, 2009c), tecnologias da informação e comunicação (TICs), sistemas de informação, computação social, ciência da informação, informática e ciência 2.0 (Shneiderman, 2008) todos apontam para uma “flor do conhecimento” crescendo nas encruzilhadas do uso da tecnologia (Figura 1).

Se o conhecimento cresce na intersecção de disciplinas então ele deveria crescer no ponto de uso da tecnologia, já que várias disciplinas se interseccionam aqui. Uma década atrás alguém escolheria o SI para essa novo campo inter-disciplinar, mas uma sub-disciplina de administração é improvavel de capturar o ponto central de várias disciplinas. Ainda que a evolução dessa encruzilhada de conhecimento seja incerta, não há dúvida que ela irá se expandir. Para capturar o núcleo deste conhecimento em expansão é requerida uma meta-disciplina que entrecorta outras disciplinas.

Para criar pessoas inter-disciplinares a academia precisa de centros inter-disciplinares, para apoiar a criatividade em pesquisa e atrair pesquisadores qualificados e estudantes buscando viajar entre as bordas do conhecimento. Várias universidades já tem centros inter-disciplinares para desenvolver melhores concessões. Um currículo de uso de tecnologia inter-disciplinar combinaria um núcleo tecnologico com outra disciplina principal, por exemplo, música e computação, contabilidade e computação, etc. Tal “disciplina das disciplinas” atrairia gente e estudantes de campos externos como a psicologia, engenharia, ciência da computação, ciência da informação, ciências da saúde, educação, negócios e matemática, diferente da SI que se difundiu em disciplinas vizinhas. Um “portal do conhecimento eletrônico” inter-disciplinar se tornaria a “Cingapura” do intercâmbio de conhecimento acadêmico – o lugar em que as pessoas vão para alcançar outros ambientes de conhecimento.

flor

flor

Figura 1: A “flor do conhecimento” inter-disciplinar do uso da tecnologia. 

Dentro desta discussão também estará o número de estudantes. Tópicos “difíceis” como a computação tem tradicionalmente lutado para atrair mulheres, que são agora a maioria dos estudantes universitários. Isso não é por que as mulheres não conseguem aprender tecnologia, mas por que elas geralmente escolhem por não aprendê-la. O problema de poucas mulheres no campo da tecnologia será resolvido mudando a natureza da tecnologia, não mudando a natureza das mulheres. Uma vez que a tecnologia se transforma em socio-tecnologia, a escolha tradicional de social ou técnica, modelo ou geek, dará caminho a uma nova opção: social e técnica, como é ilustrado por sistemas de redes sociais como o Facebook. Conforme a computação reconhece o valor do conhecimento social, jovens mulheres com habilidades irão cada vez mais escolher estudar computação humanizada.

Explosão inter-disciplinar

Como o número de especialidades do conhecimento aumenta, o número de conexões inter-disciplinares aumenta geometricamente. A Figura 1 bi-dimensional não pode ilustrar isso, pois com oito disciplinas deveriámos ter 256 potenciais sobreposições, não apenas oito como mostrado. Uma ciência com centenas de disciplinas distintas tem dezenas de milhares de intersecções do conhecimento, cada uma potencialmente uma outra especialidade.

Deveria cada uma desenvolver seu próprio grupo de interesse especial, conferências e periódicos? De fato, nós já vemos uma nova indústria de periódicos de intersecção, liderados por IGI, com titulos como International Journal of Computational Models and Algorithms in Medicine (IJCMAM) (ciência da computação mais medicina), ou o  International Journal of Adult Vocational Education and Technology (IJAVET) (tecnologia mais educação). Essa expansão do conhecimento satisfaz as necessidades da maioria de publicar, mas retém a tradição de dividir o conhecimento em artificial e feudos desconectados; por exemplo, ele meramente adiciona mini-castelos em volta dos grandes.

A explosão inter-disciplinar ocorrerá quando o conhecimento gerado nas intersecções disciplinares excederem aqueles gerados pelos pólos especializados. Quando o progresso criado em campos abertos entre castelos excede os gerados dentro dos castelos, como no uso da tecnologia hoje, os castelos serão desnecessários a todos, menos àqueles que estão dentro deles. Como o sistema feudal de conhecimento isola e purifica, será visto como a maioria das pessoas vê as aristocracias feudais hoje – símbolos de uma era que já se foi. Quando a banda larga do intercâmbio de conhecimento inter-disciplinar exceder o do intercâmbio de conhecimento especializado, o sistema acadêmico de conhecimento feudal entrará em colapso.

A expansão do conhecimento na intersecção das disciplinas é mais uma chance para o progresso evolucionário, do que um sinal de fracasso. Construir muros para proteger o conhecimento é necessário numa terra de bandidos e ladrões, mas numa terra de artesãos honestos apenas reduz as sinergias beneficiais e força cada especialidade a reinventar as rodas intelectuais de outras.

Um diagrama de rede social baseado nas citações de 120 periódicos de SI em 2003 mostram claramente que hoje existem mais conexões do que pólos [23]. Enquanto o generalista Communications of the ACM é centralizado e influente, o rigoroso cluster “puro” do SI é centralizado em volta do MISQ “… é amplamente isolado de outros periódicos na rede”. [24] Para uma rede de conhecimento interconectada a necessidade motriz é o intercâmbio de conhecimento e não o seu estoque, que criará novas formas de busca por máquinas “cyber-acadêmicas” (Arms, 2008).

Conclusões

A demanda por pesquisas inter-disciplinares sugere que a academia deveria:

1. Substituir o mito de que rigor é excelência com a pesquisa como um misto de risco e oportunidade;
2. Reduzir a influência dos negócios baseados na idéia que a verdade acadêmica é um bom negócio; e,
3. Reinventar a publicação acadêmica como um sistema de intercâmbio democrático de conhecimento aberto.

As tecnologias sociais como wikis mostram o que é possível quando as comunidades são ativas, mas os wikis não são a resposta acadêmica uma vez que eles não atribuem ou alocam contabilizações, nem oferecem revisão anônima. As opções mais simples na publicação acadêmica já foram tentadas, então a Parte II deste papel sugere um híbrido sócio-tecnico.

Um SIC democrático reafirmaria o objetivo original da academia de publicar conhecimento livremente para a crítica e benefício mútuo. A busca por conhecimento deveria ser aberta e não fechada, dinâmica e não estática, inclusiva e não exclusiva, atual e não datada, afirmativa e não negativa, inovadora e não conservadora e acima de tudo, viva não morta. Para alcançar esse objetivo os acadêmicos devem ter em mente o objetivo do crescimento do conhecimento. Se fizermos nosso dever como outros fazem os deles, o progresso ocorrerá naturalmente. Não deixar que academia esqueça que sua principal razão de existir é para ampliar o conhecimento, não para guardá-lo, e nem lucrar com isso.

Sobre os autores

Brian Whitworth é professor da Massey University (Albany), Auckland, Nova Zelândia. Possui gradução em matemática, bacharel em psicologia, mestrado em neuro–psicologia e Ph.D. em sistemas de informação. Ele publicou em periódicos como Small Group Research, Group Decision & Negotiation, Database for Advances in IS, Communications of the AIS, IEEE Computer, Behavior and Information Technology (BIT), Communications of the ACM e IEEE Transactions on Systems, Man and Cybernetics. Tópicos incluem a geração de acordos online, votação antes de discussão, legitimidade pelo design, spam e o abismo sócio-técnicno, e a web de performance de sistemas. Junto com Aldo de Moor, editou o Handbook of Research on Socio–Technical Design and Social Networking Systems (Hershey, Pa.: Information Science Reference, 2009). Visite http://brianwhitworth.com.

Rob Friedman é professor de humanidades e tecnologia da informação e dirige o programa de ciência, tecnologia e sociedade na New Jersey Institute of Technology. Sua pesquisa examina a ciência e a culutra, design de sistemas sócio-técnicos e o papel da tecnologia na educação. Ele é autor de uma obra de referência no tópico de teoria e pesquisa de suporte ao campo da tecnologia e gestão da inovação Principle Concepts of Technology and Innovation Management: Critical Research Models, publicada em agosto de 2008 pela IGI Publishing. Friedman trabalha como edito-chefe da newsletter SIGITE (Special Interest Group for Information Technology Education) da ACM. Ele leciona em cursos de gradução e pós-graduação sobre sistemas sócio-técnicos em seus contextos culturais.

Agradecimentos

Agradecimentos a Paul Gray por uma crítica penetrante, a Marilyn Tremaine por insights, a Karen Patten e Elizabeth Whitworth por uma breve ajuda, a Jeff Axup por comentários úteis, a Peter Denning por um re-direcionamento valoroso, aos nossos revisores no First Monday por insights críticos e para os colegas IIMS primeiros autores por conselhos, comentários e tolerância.

Notas

1. Lyytinen, et al., 2007, p. 317.

2. Grudin, 2004, p. 20.

3. Csikszentmihalyi, 1999, p. 320.

4. Ver http://researchroadmap.org/content/Element/ErrorType para detalhes.

5. Denning, 1997, p. 132.

6. PHER, 1998, p. 3.

7. Lowry, et al., 2007, p. 358.

8. Lowry, et al., 2007, p. 352.

9. Ibid.

10. Bakshi, et al., 2007, p. 139.

11. Darroch and Toleman, 2007, p. 1072.

12. Denning, 2008, Figure 1.

13. Paul, 2007a, p. 194.

14. Benbasat and Barki, 2007, p. 2.

15. Gorton, 2008, p. 99.

16. Sidorova, et al., 2008, Figure 4.

17. Weber, 1999, p. 4.

18. Smolin, 2006, p. 342.

19. http://video.nationalacademies.org/ramgen/news/042803.rm.

20. Denning, 1997, p. 132.

21. Weber, 1999, p. 1.

22. Smolin, 2006, p. 343.

23. Polites and Watson, 2008, Figure 1, p. 97.

24. Polites and Watson, 2008, p. 98.

Referências

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S. Bakshi and S. Krishna, 2007. “Crisis in the information systems discipline: A reflection,” Proceedings of the 18th Australasian Conference on Information Systems (5–7 December, Toowoomba), pp. 132–141, and at http://www.acis2007.usq.edu.au/assets/papers/32.pdf.

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One Response so far.

  1. Mrs. Cunha passou um artigo quadradinho da Targino sobre Comunica

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