O bibliotecário e a mediação

Posted January 9th, 2010 in Ensaio by ExtraLibris

Iniciativas comunitárias que apostam no poder libertador da leitura são louváveis, mas não eximem os governos de sua responsabilidade de criar uma rede articulada de bibliotecas
Por Ezequiel Theodoro da Silva

Revista Educação – Edição 153

Talvez nenhum lugar em qualquer comunidade seja tão amplamente democrático como a biblioteca pública. A única exigência para entrar é o interesse!” –
Lady Bird Johnson

Por várias vezes, em diferentes lugares do Brasil e do exterior, afirmei que uma revolução qualitativa da leitura brasileira tem de contemplar, necessariamente, questões relacionadas com a existência de uma rede articulada de bibliotecas e pela ampliação pedagógica do trabalho dos bibliotecários.

Neste texto, retomo, reitero e amplifico esse posicionamento mesmo porque os governos continuamente cometem verdadeiros crimes para escamotear as necessidades de trabalho científico, tecnológico e técnico no âmbito da organização e disponibilização de acervos de leitura para as múltiplas comunidades existentes nas regiões brasileiras.

As duas pesquisas nacionais sobre hábitos de leitura do povo brasileiro, publicadas com o nome “Retratos da Leitura” (ver http://www.prolivro.org.br/ipl/publier4.0/texto.asp?id=48), mostram que 34% da população nunca foi a uma biblioteca; nas classes D e E, esse percentual sobe para 49%. Esses indicadores mostram a imensa distância que existe entre a casa do cidadão e os espaços formais onde se tem acesso à cultura escrita.

Inexistentes ou anacrônicas
Tais “retratos”, em verdade, apenas fazem redundar o óbvio no que se refere às bibliotecas: ou elas inexistem ou estão paradas no tempo ou ficaram apenas nas intenções, sem nunca terem sido organizadas e postas a funcionar condignamente. Em que pesem os cursos de biblioteconomia e de ciências da informação, a mostrar, de forma escancarada, que existe profissional graduado e habilitado para atuar na sociedade, a atitude das autoridades tem sido a de fuga ou de esquiva da responsabilidade, deixando que as comunidades “se virem” no que se refere à convivência com livros e outros suportes de escrita.

Recentemente, telefonou-me uma repórter de um jornal curitibano para perguntar o que eu achava de uma experiência de formação de uma biblioteca comunitária. Disse-me ela que os catadores de lixo da cidade tinham “catado” livros e revistas e fundado uma biblioteca para o segmento de catadores de lixo. Louvei a iniciativa, informei que os livros poderiam expandir os horizontes de mundo dos catadores de lixo etc., etc., mas, quando disse que era o governo que deveria organizar e manter as bibliotecas, a repórter entrou em parafuso, achando que não dera a devida importância à iniciativa grandiosa daquela comunidade.

Essa experiência com a “biblioteca catada” não é muito diferente de outras que conheço pelo Brasil, como borracharia-biblioteca, baú-biblioteca, peixaria-biblioteca, boteco-biblioteca, jumento-biblioteca etc., enaltecidas e espetacularizadas pela mídia como soluções absolutas para o problema da nossa vergonhosa situação nessa área. Numa análise mais fria e crítica e sem querer de maneira nenhuma desmerecer as iniciativas do borracheiro, do peixeiro e/ou do dono do jumento, o que vemos, de maneira reiterada, é a escamoteação dos governos, no passar dos anos, com aquilo que é mais do que claro, cristalino e evidente: que sem bibliotecas na real acepção da palavra e sem gente especializada, formada em biblioteconomia, para dinamizá-las profissionalmente, continuaremos incentivando os arremedos e, pior, curvando-nos à fuga de responsabilidade pelas esferas governamentais.

“Melhor isto do que nada”, dirão as más línguas. E talvez a minha própria língua já tenha dito isto à luz das possibilidades libertárias dos processos de leitura em si: o fenômeno de que a leitura autônoma pode levar à emancipação das pessoas e gerar a consciência das necessidades. Esse processo pode ser mais bem conhecido através da leitura do livro O queijo e os vermes – o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido, de Carlo Ginzburg (Companhia das Letras, 1987). Entretanto, o crescimento do número de livros desses acervos comunitários, a diversificação dos suportes da leitura, a organização, preservação e recuperação das obras, a sofisticação dos serviços de apoio aos usuários, a seleção de livros de interesse da comunidade em seus segmentos (infantil, adulto, 3ª idade) impõem, necessariamente, a presença de serviços especializados para fazê-los. E daí a esperança de que o profissional bibliotecário possa ser envolvido para cuidar dessas tarefas e encaminhar os trabalhos de maneira objetiva e embasada nos saberes sistematizados, oriundos da área de biblioteconomia.

Os estereótipos em torno da figura do bibliotecário são também escaramuças para se esquivar da responsabilidade de sua contratação para trabalhos em diferentes tipos de bibliotecas, principalmente as escolares e as comunitárias. De fato, ao longo da nossa história e sendo muito fortalecida após a década de 1960, foi construída a imagem do bibliotecário como um trabalhador insensível, normatizado e normativista, catalogador de livros, controlador do silêncio dos espaços, estafeta dos castigos escolares, que em muito contribuíram para a sua “dispensa” no momento de constituição e de desenvolvimento das bibliotecas.

A briga de Darcy Ribeiro

Recordo-me, por exemplo, das grandes escaramuças entre Darcy Ribeiro, trabalhando para o governo Brizola no Rio de Janeiro (1983-1987), e a classe dos bibliotecários, com aquele afirmando que estes nada tinham a contribuir com a educação pública e com os CIEPs então estruturados. Tal estereótipo, infelizmente, ainda está muito presente no imaginário de muitas autoridades brasileiras, mas convém perguntar a quem esse estereótipo está servindo realmente… No meu ponto de vista, ele também serve à política de esquiva que vem sendo adotada pelos governos em relação à implantação de bibliotecas municipais, escolares e comunitárias neste país. Quer dizer, em se tratando de bibliotecas, sempre se dá um jeitinho e dentro desse jeitinho o bibliotecário nunca está incluído!

Para não colocar o bibliotecário como “vítima” de uma história meio ao contrário, acredito ser também importante uma visada crítica para dentro dos cursos de biblioteconomia ou de ciências de informação, oferecidos por diferentes instituições de ensino superior. Com o fim das habilitações, são raros os cursos que desenvolvem uma base adequada de conhecimentos e práticas para atuação que não seja em centros de informações e/ou empresas. A realidade escolar e as realidades comunitárias não são refletidas e discutidas ou então são tangencialmente tratadas, fechando o círculo vicioso de que o governo não contrata bibliotecários para as escolas e comunidades e, portanto, não existe por que tratá-las durante o período de formação básica. Daí que, quando da necessidade de profissionais para trabalhar nas bibliotecas escolares, ajeita-se, às carreiras, uma oficina rápida para que professores ou membros de uma comunidade recebam dois pingos de biblioteconomia para “tomar conta da biblioteca”.

Em recente visita que fiz a minha cidade natal, cruzei com a filha de um amigo que, sei, possui tão somente o diploma do ensino fundamental. Portanto, sem ensino médio e muito menos o superior. Depois dos apertos de mãos e dos abraços, perguntei o que ela vinha fazendo. Ela me disse que era a responsável pela biblioteca da faculdade local e me pedia, naquele instante, que eu enviasse os meus últimos livros porque os professores e alunos tinham muito interesse nos meus escritos.

Um navio à deriva
Ora, sem querer desmerecer a escolaridade dessa conhecida e sua dedicação à biblioteca, fiquei perguntando se uma biblioteca de ensino superior poderia ser responsavelmente organizada e dinamizada por uma pessoa tão jovem e com formação leiga ou muito precária. Vê-se, aqui, mais um episódio desta comédia tragicômica chamada “biblioteca brasileira”. Sei, também, por exemplo, que falar para muitos prefeitos sobre a necessidade de contratação de bibliotecário é estar disposto a ouvir impropérios de volta.

Finalizando esta reflexão, creio que a melhor imagem da problemática das bibliotecas no Brasil seja a do filme E la nave va, de Federico Fellini. De fato, igual ao infindável problema da leitura no país, “haja paciência” para tanta contradição, para tanto descaso, para tanto cinismo. Se considerarmos uma biblioteca como um lugar para o qual constantemente nos dirigimos a fim de incrementar a nossa humanidade, então cabe indagar se a falta de humanidade em solo nacional, reiterada pela mídia todos os dias, não tem uma relação com a ausência e falta de bibliotecas em solo brasileiro.

Ezequiel Theodoro da Silva é professor colaborador voluntário junto à Faculdade de Educação da Unicamp. Foi Presidente da Associação de Leitura do Brasil (ALB) de 1982 a 1986 e de 2007 a 2008. Foi secretário municipal de Cultura, Esportes e Turismo e secretário municipal de Educação de Campinas na década de 1990.

Transporte de livros em bibliotecas – projeto de produto

Posted October 22nd, 2009 in Especial by ExtraLibris

Univesidade de São Paulo

AIMEÊ DA SILVA FERREIRA
ANDRÉ NOBORU SIRAIAMA
DEBORA MIDORI SUGURI MOTOKI

Trabalho apresentado ao Professor Doutor João Bezerra de Menezes e à Professora Doutora Denise Dantas da disciplina AUP 2410 – Projeto de Produto 5 – Transporte da turma 2 do curso de Design da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.


Definição da Proposta

O presente projeto apresentado à matéria AUP 2410 Projeto de Produto V – Transporte tem com objetivo atender às necessidades de uma definida problemática, seja ela na área doméstica ou de trabalho, por intermédio de um transporte movido a força humana.

Para definir-se a problemática, um processo de brainstorming foi aplicado, perguntando-se quais situações do dia-a-dia ofereciam algum tipo de dificuldade ou afim que pudesse ser solucionada com um transporte. A opção escolhida pelos alunos em conjunto com os professores foi a de transporte de livros dentro da biblioteca.

A partir da problemática formulada, começamos a pesquisar em diversas bibliotecas dentro e fora da USP. Conversamos com funcionários e percebemos muitos aspectos parecidos, inclusive sobre o sistema de funcionamento, explanados a seguir:

Atualmente, no processo de devolução dos livros aos seus respectivos lugares, o funcionário deve colocá-los no carrinho e, quando sente que o acúmulo é suficiente, transportá-los até as estantes. O acúmulo é feito em um carrinho estacionário junto à recepção, para os livros emprestados que são devolvidos pelos alunos. Já no caso dos livros em consulta, o funcionário passa em certos momentos propícios para recolhê-los de uma vez em todas as mesas. Neste último processo, vimos em nossa pesquisa certas preferências: como a de não esperar-se por um alto volume de livros a serem recolhidos (para não haver grande acúmulo de livros, já que esse pode dificultar a procura por títulos e sobrecarregar muito um único funcionário); o uso praticamente nulo da última prateleira do carrinho (por ser muito baixa e prejudicar a coluna de quem a utiliza); e a pré-organização dos livros por seus códigos, para facilitar o passo seguinte.

Após isso, o funcionário deve distribuir os livros em mais carrinhos estacionados; estes, parados ao lado de cada estante da biblioteca, funcionam como um ponto de espera dos livros. Ao final do dia, cada funcionário responsável por uma seção tira os livros desse carrinho estacionado e os coloca em seus devidos lugares.
Além das questões ergonômicas mal resolvidas, o que chamou nossa atenção nessa problemática foi o número de passos necessários para concluir a tarefa. Pretendíamos diminuir este número.

Sendo assim, nosso projeto se estende ao próprio sistema da biblioteca, pois, com o sistema atual, a melhora que conseguiríamos fazer seria tão somente ergonômica, não englobando outros aspectos do uso, e nem atendendo à premissa de projetarmos algo novo.

Vimos que o modo como o código é colocado não é eficiente pelos seguintes motivos: ele é complicado, pois determina as seções por meio de muitos números (o que pode causar certa confusão – principalmente aos usuários, que não são familiarizados a eles como os funcionários). Ele é extenso, pois cada grupo de números remete a algum tema ou subtema do livro; e isso acaba fazendo com que o código seja escrito numa fonte pequena, uma vez que deve caber no espaço da lombada.

Pensamos em formas de tornar a assimilação mais imediata. Tendo isso em mente, pensamos que a solução mais fácil e eficiente seria a de juntar cores aos códigos.

A classificação mais utilizada atualmente é o Decimal Universal (CDU), baseado no conceito de que “… todo o conhecimento pode ser dividido em dez classes principais, e estas podem ser infinitamente divididas numa hierarquia decimal. (…) As principais divisões da CDU são:
· 0 – Generalidades. Informação. Organização.
· 1 – Filosofia. Psicologia.
· 2 – Religião. Teologia.
· 3 – Ciências Sociais. Economia. Direito. Política. Assistência Social. Educação.
· 4 – Classe vaga.
· 5 – Matemática e Ciências Naturais.
· 6 – Ciências Aplicadas. Medicina. Tecnologia.
· 7 – Arte. Belas Artes. Recreação. Diversões. Desportos.
· 8 – Linguagem. Lingüística. Literatura.
· 9 – Geografia. Biografia. História.

Os documentos são classificados de acordo com o assunto principal que determina a cota que lhes é colocada na lombada e são arrumados na estante com o número de classe atribuído. (…) Se tomarmos uma classe principal, por exemplo, 6 – Ciências Aplicadas. Medicina. Tecnologia., podemos ver como se subdivide:
· 61 – Ciências médicas.
· 62 – Engenharia. Tecnologia em Geral.
· 63 – Agricultura. Silvicultura. Agronomia. Zootecnia.
· 64 – Ciência Doméstica. Economia Doméstica.
· 65 – Organização e Administração da Indústria, do Comércio e dos Transportes.
· 66 – Tecnologia Química. Indústrias Químicas.
· 67 – Indústrias e Ofícios Diversos.
· 68 – Indústrias, Artes e Ofícios de Artigos Acabados.
· 69 – Construção Civil. Materiais de Construção. Prática e Processos de Construção.

A subclasse 62 – Engenharia. Subdivide-se por sua vez em:
· 620 – Engenharia em Geral. Testes dos Materiais. Energia.
· 621 – Engenharia Mecânica.
· 622 – Engenharia de Minas.
· 623 – Engenharia Naval e Militar.
· 624 – Engenharia Civil e Estruturas em Geral. Infra-estruturas. Fundações. Construção de Túneis e de Pontes. Superestruturas.
624 – Engenharia Civil divide-se em áreas diferentes que podem por sua vez ser divididas novamente em áreas ainda mais especializadas:
· 624.01 – Estruturas e Elementos Estruturais Segundo o Material e o Processo de Construção.
o 624.011 – Estruturas e Materiais de Origem Orgânica.
o 624.012 – Estruturas de Alvenaria.
624.012.45 – Estruturas de Betão Armado.
· 624.1 – Infra-estruturas das construções. Fundações. Construção de Túneis.
· 624.2/8 – Construção de Pontes, etc.

E assim infinitamente…” (retirado de http://www.bib.ualg.pt/bibliotecas/cdu.htm)

Sendo assim, separamos a biblioteca em 10 cores diferentes, cada uma referente a uma seção diferente. Dessa forma, a assimilação é muito mais imediata. Juntamente a isso, seria necessária uma forte comunicação visual, ou seja, sinalização em cada prateleira sobre quais cores, ou seja, seções, ali se encontram.

Dependendo do tamanho da biblioteca – aqui nesse projeto pensamos principalmente nas de médio porte – a sinalização se faria necessária em diferentes formas, podendo haver placas fixadas ao teto para indicar melhor os assuntos e etc. Não entramos muito nesse mérito uma vez que devíamos nos dedicar ao projeto do transporte.

Além das cores, projetamos a etiqueta fixada no livro de forma diferente da utilizada atualmente. Achamos que essa é muito pequena, e que, portanto, dificulta muito a leitura do código. Assim, aumentamos a área da etiqueta (sua altura é de 7 centímetros).

Testamos isso em alguns livros e percebemos que em alguns, o nome da editora e/ou o nome do autor e/ou o título do livros ficaram comprometidos. Pensando nisso, uma parte da etiqueta adentraria à capa em 3 centímetros; nessa parte estariam escritos o título, o autor e a editora. Dessa forma, não comprometemos nenhuma informação contida na parte exterior do livro.

Leia o projeto da íntegra – download pdf 13MB

Alguns croquis e imagens do projeto:

Uma biblioteca para sempre

Posted October 22nd, 2009 in Ferramentas e Recursos by ExtraLibris

por Sergey Brin, co-fundador e o presidente de tecnologia do Google. sergey

Tradução colaborativa de Sibele Fausto, Isadora Garrido, Moreno Barros, Fabíola Pinudo, Jacqueline Cunha e Ana Patricia Guimarães.

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“As razões fundamentais pelas quais o carro elétrico não tenha atingido a popularidade que merece são (1) O fracasso dos fabricantes em educar de maneira adequada o público em geral a respeito da maravilhosa utilidade do carro elétrico;  (2) O fracasso das [empresas de energia] em tornar mais fácil para manter e operar o carro elétrico por meio de uma distribuição adequada de postos de recarga e abastecimento. A velocidade, alcance e utilidade limitados dos primeiros carros elétricos produziram impressões populares que ainda permanecem. ”

Essa citação dificilmente surpreenderia qualquer pessoa que entende de veículos elétricos. Mas pode ser surpreendente saber que no ano em que foi escrita milhares de carros elétricos foram produzidos e esse ano foi há quase um século atrás. Isso apareceu numa edição de 1916 da revista Electrical World (Mundo Elétrico), que encontrei no Google Books, nosso repositório de busca de milhões de livros. Pode parecer estranho voltar o olhar cem anos atrás num assunto que é tão contemporâneo, embora eu ainda ache que o passado tenha lições valiosas para o futuro. Nesse caso, eu tive sorte – veículos elétricos foram estudados e têm uma literatura extensa no início do século XX, e existem vários livros sobre o assunto para se escolher. Como os livros publicados antes de 1923 estão em domínio público, eu posso vê-los facilmente.

Mas a grande maioria dos livros produzidos não é acessível a ninguém, exceto os pesquisadores mais tenazes nas grandes bibliotecas acadêmicas. Os livros escritos depois de 1923 desaparecem rapidamente em um buraco negro literário. Com raras exceções, é possível comprá-los apenas por um pequeno período de anos enquanto estão sendo impressos. Depois disso, eles são encontrados somente em um número ínfimo de bibliotecas e sebos. Com o passar dos anos, os contratos se perdem ou são esquecidos, autores e editoras desaparecem, os detentores dos direitos se tornam impossíveis de rastrear.

Inevitavelmente, as poucas cópias remanescentes de livros são deixadas à lenta deterioração ou perdem-se em queimadas, enchentes e outros desastres. Enquanto eu estava em Stanford em 1998, enchentes prejudicaram ou destruíram dezenas de milhares de livros. Infelizmente, tais eventos não são incomuns – uma enchente similar aconteceu em Stanford há 20 anos atrás. Você poderia ler sobre isso no Relatório da Inundação da Biblioteca Stanford-Lockheed Meyer (The Stanford-Lockheed Meyer Library Flood Report), publicado em 1980, mas esse livro não está mais disponível.

Em razão dos livros serem uma parte tão importante do conhecimento coletivo do mundo e do patrimônio cultural, Larry Page, co-fundador do Google, propôs pela primeira vez  uma década atrás que todos os livros fossem digitalizados, quando ainda éramos principiantes. Na época o projeto foi visto como muito ambicioso e desafiador, o que tornou impossível atrair gente para trabalhar nele. Mas cinco anos depois, em 2004, o Google Books (então chamado de Google Print) nasceu, permitindo aos usuários pesquisar centenas de milhares de livros. Hoje, eles contam com mais de 10 milhões de títulos.

No ano seguinte, fomos processados pela Associação de Autores e a Associação de Editores Americanos por causa do projeto. Embora tenhamos tido divergências, temos um objetivo comum – liberar o conhecimento preso a um enorme número de livros que não são mais impressos (esgotados), enquanto compensamos de forma justa os detentores dos direitos. Como resultado, fomos capazes de trabalhar juntos para desenvolver um acordo que atendesse nossa visão compartilhada. Embora este acordo seja uma vitória para autores, editores e Google, os verdadeiros vencedores são os leitores que agora terão acesso a um mundo muito maior de livros.

Temos tido alguns debates sobre o acordo, e vários grupos mostraram suas opiniões, tanto a favor como contra. Eu gostaria de aproveitar essa oportunidade para dispersar alguns mitos sobre o acordo e partilhar de por que de eu ter orgulho deste projeto. Esse acordo tem a finalidade de tornar disponíveis milhões de livros que não são mais produzidos, mas que ainda estão sob direitos autorais, seja por meio de um taxa, ou grátis em função da veiculação de anúncios, com a maioria da renda decorrente sendo revertida para os detentores dos direitos, sejam eles autores ou editores.

Alguns alegam que este acordo é uma forma de licença compulsória, pois,  como na maioria dos acordos em ações coletivas, a decisão se aplica a todos os membros que não optarem por uma determinada data. A realidade é que os titulares de direitos podem a qualquer momento definir preços e direitos de acesso para suas obras ou retirá-los do Google Books definitivamente.  Para os livros cujos detentores de direitos não tenham se posicionado, padrões razoáveis de preços e políticas de acesso serão definidos. Isso permite o acesso à muitas obras órfãs, cujos proprietários ainda não foram encontrados e acumulam receitas para os detentores de direitos, dando-lhes um incentivo para tomar partido.

Outros questionam o impacto do acordo sobre a concorrência, ou têm afirmado que ele limitaria a escolha do consumidor no que se refere aos livros esgotados. Na realidade, nada nesse acordo impede qualquer companhia ou organização de se empenhar em esforços semelhantes. O acordo limita a escolha do consumidor por livros esgotados tanto quanto limitaria sua escolha por unicórnios. Hoje, se você quer acessar um típico livro que não é mais publicado, você tem apenas uma escolha – voar para uma das poucas bibliotecas de ponta no país e esperar achá-lo entre as prateleiras.

Eu gostaria que existissem cem serviços com os quais eu pudesse facilmente olhar para tal livro; pouparia-me muito tempo, e pouparia ao Google uma tremenda quantidade de esforço. Mas apesar de um número de importantes esforços de digitalização hoje (o Google até mesmo ajudou a fundar outros, incluindo alguns da Library of Congress), nenhum esteve em uma escala comparável, simplesmente porque ninguém mais optou por investir os recursos necessários. Pelo menos um serviço como este terá que existir para que algum dia existam centenas deles.

Se o Google Books for bem sucedido, outros seguirão seu exemplo. E eles terão um caminho mais fácil: esse acordo cria um registro de direitos autorais que irá encorajar os detentores de direitos a aparecerem e irá prover uma forma conveniente para que outros projetos obtenham permissões. Apesar de novos projetos não obterem imediatamente os mesmos direitos a obras órfãs, o acordo será um sinal de compromisso em caso de um processo similar, e servirá como um precedente para a legislação de obras órfãs, a qual o Google sempre apoiou e continuará apoiando.

Por fim, houve objeções aos aspectos específicos do produto Google Books e o seu serviço futuro como previsto no acordo, incluindo questões sobre a qualidade da informação bibliográfica, nossa escolha pelo sistema de classificação e detalhes a respeito da nossa política de privacidade. Todos esses questionamentos são válidos, e sendo uma empresa obcecada ao extremo pela qualidade dos nossos produtos, estamos trabalhando bastante para respondê-los – melhorando a informação bibliográfica e a categorização e ainda, detalhando nossa política de privacidade. E se nós não nos sairmos bem com o nosso produto, outros conseguirão. Mas uma coisa certa é que impedir tal progresso é o mesmo que não se chegar a nenhum acordo.

Nos Anais de Seguros de 1880-1881, que eu achei no Google Books, Cornelius Walford registra a destruição de dezenas de bibliotecas e milhões de livros, na esperança que tal registro irá “deixar clara a necessidade de que algo precisa ser feito” para preservá-los. A famosa biblioteca de Alexandria foi destruída por incêndios três vezes em 48 A.C., 273 D.C 273 e 640 D.C., bem como a Library of Congress, onde um incêndio em 1851 destruiu dois terços da coleção.

Espero que tal destruição nunca aconteça de novo, mas a história sugere o contrário. E mais importante, mesmo que a nossa herança cultural permaneça intacta nas melhores bibliotecas do mundo, ela é efetivamente perdido se ninguém pode acessá-la facilmente. Muitas empresas, bibliotecas e organizações desempenharão um papel em salvar e tornar disponíveis as obras do século XX. Juntos, autores, editores e o Google estão dando apenas um passo em direção a esse objetivo, mas é um passo importante. Não vamos perder essa oportunidade.

Artigo original: A Library to Last Forever, publicado como editorial no NYT

Os bibliotecários estão completamente obsoletos?

Posted October 18th, 2009 in Ensaio by ExtraLibris

33 razões por que as bibliotecas e bibliotecários ainda se mantêm extremamente importantes
artigo de Will Sherman

tradução colaborativa de:

Moreno Barros
Isadora Garrido

Fabíola Pinudo
Sibele Fausto

Viviane Neves
Polyanha Hudson
Aline Gonçalves
Gustavo Henn

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33 razões por que as bibliotecas e bibliotecários ainda se mantêm extremamente importantes

Muitos acreditam que a era digital irá acabar com as estantes públicas e extinguir permanentemente a era centenária das bibliotecas. A desconcertante proeza e progresso da tecnologia fez até um bibliotecário prever a queda da instituição.

Ele pode estar certo.

Porém, se estiver, então a perda será irreparável. Conforme a relevância das bibliotecas entra em questão, elas encaram uma crise existencial em uma época onde elas talvez sejam mais necessárias. Apesar de sua percebida obsolescência em uma era digital, tanto bibliotecas – quanto bibliotecários – são insubstituíveis por várias razões. 33, de fato. Nós as listamos aqui:

1. Nem tudo está disponível na Internet

O incrível volume de informação útil na Web tem, para alguns, engendrado a falsa premissa de que tudo pode ser encontrado online. Isso simplesmente não é verdade. O Google Book Search reconhece isso. Por isso eles tomaram a tarefa monolítica de digitalizar milhões de livros das maiores bibliotecas do mundo. No entanto, mesmo que o Google consiga com sucesso digitalizar toda a soma dos conhecimentos humanos ela é diferente da soma dos autores e editores contemporâneos que não permitem que suas obras sejam gratuitamente acessíveis na Internet. Já é proibido por lei disponibilizar livremente no Google Book Search os livros com direitos autorais vigentes; apenas partes. E levará muito tempo antes que o bestseller recomendado pelo New York Times seja disponibilizado gratuitamente na Internet: as leis de direitos autorais atuais protegem as obras por 70 anos após a morte do autor. Mesmo algumas obras sob domínio público sofrem algumas restrições. Se uma cópia sem copyright incluir prefácio, introdução ou apêndices que ainda estejam sob copyright, a obra toda fica sob o status de copyright.

2. Bibliotecas digitais não são a Internet

Um entendimento fundamental do que a Internet é – e do que ela não é – pode ajudar mais claramente a definir o que uma biblioteca é e por que bibliotecas ainda são extremamente importantes. A Elmer E. Rasmuson Library da Universidade do Alaska em Fairbanks deixou clara a diferença entre “Coleções Online” e “Fontes Web”.  A Internet, seu site explica, é uma massa larga de materiais não publicados produzidos por organizações, empresas, indivíduos, projetos experimentais, webmasters, etc. “Coleções Online”, todavia, são diferentes. São tipicamente oferecidas por bibliotecas e incluem materiais que foram publicados por meio de rigoroso processo editorial. Trabalhos selecionados para inclusão em um catálogo de bibliotecas passaram pelo veto de uma equipe qualificada. Os tipos de materiais incluem livros, periódicos, documentos, jornais, revistas e relatórios que foram digitalizados, armazenados e indexados em uma base de dados de acesso limitado. Mesmo que alguém use a Internet ou um motor de busca para encontrar estas bases de dados, o acesso mais avançado requer registro. Você ainda está online, mas não vai muito lontg na Internet. Você está em uma biblioteca.

3. A internet não é livre
Embora o Projeto Gutenberg alardeie 20.000 e-books para download gratuito em sua homepage, somos imediatamente lembrados que esses livros são acessíveis apenas porque eles não estão mais sob direitos autorais. E os livros são apenas a ponta do iceberg. Numerosos trabalhos de pesquisa acadêmica, revistas e outros materiais importantes são praticamente inacessíveis para alguém tentar obtê-los de graça na web.  Em vez disso, o acesso é restrito a assinaturas caras, que são normalmente pagas por bibliotecas. Visitar a biblioteca, pessoalmente, ou acessar a biblioteca por meio de sua conta de membro, é, portanto, a única maneira de se obter acesso a recursos documentais essenciais.

4. A internet complementa as bibliotecas, mas não as substitui

Para orientar as pessoas a achar informação, a Universidade de Long Island fornece uma explicação útil de quais tipos de recursos podem ser acessados por meio da biblioteca. Estes incluem notícias, periódicos, livros e outros recursos. Curiosamente, a World Wide Web está entre estes recursos como mais um meio para encontrar informações. Mas não é uma substituta. A página diferencia e explica as vantagens das bibliotecas em relação à busca pela internet. Cita os benefícios da internet, includindo “amostras de opinião pública”, uma coletânea de “fatos rápidos” e “uma ampla gama de idéias”. De forma geral, o ponto é bem correto: bibliotecas são instituições completamente diferentes da web. Sob essa ótica, falar sobre uma substituindo a outra começa a parecer absurdo.

5. Bibliotecas escolares e bibliotecários melhoram as pontuações médias dos estudantes em testes
Um estudo de 2005 das Bibliotecas Escolares do Illinois mostra que os estudantes que visitam frequentemente bibliotecas escolares com acervos bem abastecidos e com boa equipe terminam com pontuações mais altas em testes ACT e um melhor desempenho em exames de leitura e escrita.
Interessantemente, o estudo aponta que a tecnologia de acesso digital desempenha um papel importante nos resultados dos testes, observando que “escolas com computadores que se conectam aos catálogos de bibliotecas e bases de dados obtêm uma média de 6,2% de melhora nas pontuações de testes ACT”.

6. Digitalização não significa destruição

A avidez com que as bibliotecas investiram na parceria com o Google Book Search não é o trabalho de uma mentalidade impulsiva. Bibliotecas incluindo a Universidade de Oxford, da Universidade de Michigan, Harvard, da Universidade Complutense de Madri, a Biblioteca Pública de Nova York, a Universidade do Texas, da Universidade da Califórnia e muitos outros se uniram ao projeto do Google, em vez de evitá-lo. Na abertura de seus acervos, essas bibliotecas terão todos os seus livros eletronicamente disponíveis para seus usuários. Embora se possa esperar que livros sem direitos autorais, que em muitas ocasiões são totalmente disponíveis ao público, os materiais protegidos por direitos autorais – incluindo assinaturas de periódicos – ainda serão mantidos sob acesso restrito. A razão para isto é, em parte, porque as cláusulas indenizatórias do Google Book Search não chegam muito longe; o Google Book Search não isenta as bibliotecas de qualquer responsabilidade que possa incorrer caso elas ultrapassem os limites do direito autoral. E há uma causa real para esta cautela – o Google Book Search está enfrentando atualmente dois processos importantes de autores e editores.

7. Na verdade, digitalização significa sobrevivência

Daniel Greenstein da Universidade da Califórnia cita uma razão prática para a digitalização de livros: em formato eletrônico os livros não estão vulneráveis aos disastres naturais ou à “pulverização” causada pelo tempo. Ele ainda cita a destruição de bibliotecas pelo furacão Katrina como um importante lembrete da vulnerabilidade da “memória cultural”.

8. A digitalização levará algum tempo. Um bom tempo.

Enquanto a digitalização desenvolveu um ar de movimento incessante rapidamente acabando com as paredes das bibliotecas e expondo tesouros intocados, ela está bastante longe de alcançar seu objetivo. Com um número estimado de 100 milhões de livros impressos desde a invenção da imprensa, o processo dificilmente fez progresso. Digitalizar é caro e complicado, e até então o milhão de livros digitalizados do Google é apenas uma gota no oceano. “A maior parte da informação”, diz Jens Redmer, o diretor europeu do Google Book Search, “está fora da internet”.

Mas quanto tempo levará para indexar o conhecimento do mundo todo? Em 2002, Larry Page disse que o Google poderia digitalizar aproximadamente sete milhões de livros em seis anos. Desde 2004 o Google Book Search tem lidado com uma série de encaixes e começos. Em 2007, eles conseguiram indexar um milhão de livros. Então, numa média de aproximadamente meio milhão de livros por ano, digitalizar 100 milhões de livros levaria cerca de 200 anos. Assumindo que o Google saberia lidar com os desafios logísticos e legais e finalizasse 7 milhões de livros a cada 6 anos, o ano mais aproximado do término ainda seria 2092. No meio tempo, uma base usuária mais ampla se apoiará em bibliotecas, ou coleções online do que já foi digitalizado. Jogar fora bibliotecas físicas antes da digitalização ser completa deixaria os clientes da biblioteca no limbo.

9. Bibliotecas não são só livros

A tecnologia está se integrando aos sistemas de bibliotecas, e não os intimidando. Levando esse assunto ao seu extremo lógico (embora isso seja pouco provável de não acontecer), nós poderíamos eventualmente ver prateleiras inteiras de bibliotecas relegadas a bases de dados, e ter livros apenas acessíveis digitalmente. Então como isso deixa os bibliotecários? Eles estão sendo dominados pela tecnologia, a inimiga sem fim do trabalho? Não dessa vez. Na verdade, a tecnologia está revelando que o verdadeiro trabalho dos bibliotecários não é apenas colocar os livros na estante. Ao invés disso, seu trabalho envolve guiar e educar visitantes em como encontrar informação, independente se estiver em livros ou em formato digital. Tecnologia provê melhor acesso a informação, mas é uma ferramenta mais complexa, geralmente requerindo know-how especializado. Essa é uma especialidade do bibliotecário, uma vez que eles se dedicam a aprender as técnicas mais avançadas para ajudar visitantes a acessarem a informação efetivamente. Isso está em sua descrição de trabalho.

10. Dispositivos móveis não são o fim dos livros ou das bibliotecas

Previsões sobre o fim do livro são uma resposta previsível para a digitalização e outras tecnologias, e a bola de cristal de alguns que são pró-papel parecem também revelar um concomitante desmoronamento da civilização. Uma das últimas ameaças obscuras ao papel (e à sociedade) parece ser o plano do Google de tornar e-books disponíveis para download para dispositivos móveis. A versão iPod do romance chegou. O Google já escaneou um milhão de livros. Usuários dos trens japoneses estão lendo bestsellers inteiros em seus celulares. O fim está próximo. Mas se o e-book movel é um hit e um fenômeno duradouro, é improvável que eles serão uma transição para todos os tipos de leitores.  O rádio continuou a viver apesar da TV, o cinema ainda tem alta demanda apesar do vídeo, as pessoas ainda falam no telefone apesar do e-mail. Pessoas que gostam de livros de papel continuarão a ler livros de papel mesmo se downloads móveis induzir a maioria dos editores a liberarem e-books ao invés de papel. Afinal, uma imensa reserva de livros impressos ainda será acessível aos leitores. Aonde quer que as bibliotecas se enquadrem ao supor que e-books móveis realmente substituam os livros impressos, a presença da biblioteca digital continuará a ser extremamente importante, seja baseada em papel ou eletronicamente.

11. O hype de repente é só hype

Os livros impressos não estão exatamente condenados, mesmo anos depois da invenção do e-book. Na verdade, ao se contrastar os méritos do e-book com os de um livro impresso, poderia-se argumentar que os livros em papel são de fato um produto melhor. Seria prematuro apagar as bibliotecas os seus livros grátis em função das previsões sobre a eminente proeminência dos e-books. A sociedade poderia perder um valioso acesso a um meio confiável – mesmo se os e-books vingarem.

12. O atendimento das bibliotecas não está fracassando – é apenas mais virtual agora

Com aproximadamente 50,000 visitantes por ano, a visitação aos Arquivos da História Americana (American History Archives) na Sociedade Histórica de Wisconsin (Wisconsin Historical Society) caiu 40% desde 1987. Essa estatística, quando colocada sozinha, pode se provar suficiente para qualquer pessoa que casualmente prevê o colapso das bibliotecas. Mas é apenas metade da história. Os arquivos também foram digitalizados e disponibilizados online. Todo ano a biblioteca recebe 85,000 visitantes únicos online. O número de escolas online oferecendo graduações online está constantemente aumentando também. Várias dessas escolas estão melhorando também suas bibliotecas virtuais.

13. Como as empresas, as bibliotecas digitais ainda precisam de recursos humanos
Mesmo as empresas online contam com suporte de qualidade para as melhores vendas e satisfação do cliente. A disponibilidade de e-mail, telefone e chat ao vivo melhoram a experiência de pessoas que procuram produtos e serviços. O mesmo vale para as pessoas que procuram informações. Em troca do pagamento de impostos ou taxas da biblioteca embutidos nas mensalidades da universidade, os membros da biblioteca devem esperar um confiável “suporte ao cliente” em troca de seus pagamentos. Os bibliotecários são de fato muito importantes no atendimento aos seus visitantes. E ainda hoje não há nenhum substituto equivalente para a biblioteca, que fornece acesso a montanhas de conteúdo que não está disponível através de motores de busca ou mesmo o Google Books Search, que só oferece trechos e links para lojas onde os livros podem ser comprados.

14. Nós simplesmente não podemos contar com bibliotecas físicas desaparecendo
Bibliotecas físicas nunca irão desaparecer. Mesmo que o Google Book Search pegue o ritmo e as bibliotecas financiem seus próprios projetos de digitalização, o futuro do espaço físico das bibliotecas continua a ser necessário.
Isso ocorre porque muitas bibliotecas ainda não estão digitalizando e muitas nunca poderão digitalizar. Há uma boa razão: este processo é caro. Numa estimativa baixa de 10 dólares por livro (e provavelmente muito mais para obras mais antigas, mais delicadas), digitalizar uma biblioteca inteira de, digamos, mais de 10.000 livros – bem, é bastante caro. E para muitos usuários da biblioteca, eles ainda dependem da tradicional abordagem eficaz para localizar informações com computadores no local ou bibliotecários disponíveis para ajudá-los.

15. O Google Book Search “não funciona
Se a indexação ao estilo do Google para os livros de todo o mundo espelhasse o bem conhecido serviço de busca da empresa, isto valeria como um forte argumento contra a manutenção das bibliotecas. Afinal, o Google tem uma grande tecnologia para pesquisar na web, certo? Nós não poderíamos simplesmente ignorar as bibliotecas?
Mas os especialistas lembram que o Google Book Search está longe de garantir tais facilidades como é experienciado com o serviço de busca na internet da companhia. Os elevados ideais da informação-para-todos são impedidos não só por conta das ações judiciais, mas pelo próprio desejo do Google de ser o poderosos chefão. Eles não estão prestes a entregar o seu índice para os outros concorrentes, como a Microsoft, Yahoo, Amazon e outros projetos independentes de digitalização. O usuário perde por não ser capaz de acessar tudo através do seu serviço preferido de busca por livros digitalizados.
Ao não conceder os arquivos digitais aos seus concorrentes, as empresas que assumem esta abordagem competitiva e corporativa em relação ao processo de digitalização, arriscam a sumirem do mapa, para bem longe da filosofia da biblioteca pública. Enquanto isso, as bibliotecas devem permanecer intactas e disponíveis ao público em geral.

16. Bibliotecas físicas podem se adaptar às mudanças culturais

A Comissão Nacional de Bibliotecas e Serviços de Informação dos Estados Unidos (NCLIS) é uma entre os muitos grupos que estudam e debatem a função das bibliotecas físicas na era digital. Em um simpósio da NCLIS, no ano de 2006, foi criado um relatório que clama por uma redefinição do que é o espaço físico da biblioteca. Menos como “depósitos”, foi uma das conclusões, e mais como uma junção de trabalho, aprendizado, ensino e novos tipos de programas.

17. As bibliotecas físicas estão se adaptando à mudança cultural
Qualquer pessoa subscrevendo as teorias do pensador do século 20 Marshal McLuhan poderia dizer que, junto com as mudanças no padrão de vida provocadas pelas tecnologias eletrônicas, o conhecimento que já foi encerrado em livros e compartimentado em áreas temáticas, está agora a ser livremente divulgado em uma explosão de democracia, tornando obsoleto a austeridade do solitário, ecoando os corredores da Biblioteca. Curiosamente McLuhan, que morreu em 1980, ainda disse certa vez: “O futuro do livro é a sinopse”.

Na verdade, esta mudança cultural antecede o uso generalizado da internet, bem como o Google Book Search. Por décadas a sociedade vem buscando uma compreensão mais holística do mundo, e maior acesso à informação. A busca por novos métodos de organização das estruturas educativas (incluindo as  bibliotecas) tem sido ativa. E apesar de as bibliotecas não estarem em muitas das listas pessoais de “10 Mais Inovadoras”, elas têm se adaptado.

A diretora de bibliotecas da Washington State University, Virginia Steel, por exemplo, é uma defensora de maximizar a natureza social e interativa do espaço físico da biblioteca. Grupos de estudo, exposições de arte, lanchonetes e cafés – falar, e não sussurrar; esta é a nova biblioteca. Não é obsoleta, é apenas mudanças.

18. Eliminar bibliotecas representaria um corte no processo de evolução cultural
A biblioteca que estamos mais familiarizados hoje – uma instituição pública ou acadêmica que empresta livros gratuitamente – é um produto da democratização do conhecimento. Anteriormente, os livros nem sempre eram tão acessíveis, e as bibliotecas privadas ou os clubes do livro, eram um privilégio dos ricos. Isso começou a mudar durante o século XVII, com mais bibliotecas públicas surgindo e a invenção do sistema de Classificação Decimal de Dewey para padronizar os catálogos e índices.
As bibliotecas começaram a florescer sob o olhar do presidente Franklin Roosevelt, em parte como uma ferramenta para diferenciar os Estados Unidos dos nazistas queimadores de livros. Este aumento do interesse na construção de uma sociedade mais perfeita e liberal culminou em 1956 com o Ato dos Serviços de Bibliotecas, que introduziu o financiamento federal pela primeira vez. Hoje, existem dezenas de milhares de bibliotecas públicas nos Estados Unidos.

19. A internet não é “faça você mesmo”

É possível dizer que a internet presenteou a sociedade com um senso vertiginoso de independência. Acesso a informação do mundo todo – e máquinas de buscas gratuitas para poder pesquisar – traz a tona a questão da necessidade de bibliotecários, moderadores e outros mediadores; a rede, como parece, é um meio “faça você mesmo”.

Mas uma rápida olhada nas forças motrizes da internet de hoje em dia nos mostra algo diferente. A internet é intensamente social e interativa, e criou comunidades de usuários que geralmente são bem organizadas e integradas uma vez que são grandes. A internet está servindo como ferramenta para que humanos preencham seus instintos naturais de criação de comunidades – compartilhando, interagindo e fazendo negócios.

A economia online é dirigida em grande parte pela filosofia da web 2.0 de interação humana, revisão por pares e a democratização de conhecimento e análise. Máquinas de buscas fazem o ranking de páginas baseados em popularidade, plataformas de redes sociais atraem milhões de visitantes por dia e a enciclopédia mais popular da internet é escrita pelas mesmas pessoas que a lêem.

Como a Wikipedia, as terras online de encontro mais populares são geralmente as mais bem moderadas. Uma vez que bobagens e spammers são uma parte inevitável de qualquer sociedade (física ou virtual), o controle de qualidade ajuda a contribuir à melhores experiências online. Boa cidadania entre comunidades online (contribuição inteligente para a discussão e não spam) é um modo muito seguro de melhorar sua reputação como um membro útil do grupo. Para ser adotado, esse tipo de ambiente deve ser moderado.

Interessantemente, o papel do moderador é muito paralelo ao do bibliotecário: para salva-guardar um ambiente no qual o conhecimento pode ser acessado e idéias possam ser partilhadas.

A noção de que bibliotecas são algo do passado e que a humanidade abriu suas asas e vôou para uma nova era de verdade auto-guiada nada mais é do que ridícula.  Infelizmente, é esta mesma noção que levaria ao desmembramento das bibliotecas como bagunçadas e datadas. Na realidade, a qualidade da rede depende da direção de um modelo acadêmico, um modelo de biblioteca. Enquanto os moderadores tem como melhorarem o novo e selvagem cenário cibernético, os bibliotecários já trilharam partes significantes desta viagem.

20. A sabedoria das multidões não é confiável, por causa do ponto de desequilíbrio

A alta visibilidade de certos pontos de vista, análises e mesmo fatos encontrados online através dos sites de redes sociais e wikis é construída – idealmente – para ser o resultado do consenso do grupo. O algoritmo do Google também se baseia nesse princípio coletivo: no lugar de um expert arbitrariamente decidir qual recurso é o mais “importante”, deixe que  a web decida. Sites com alta popularidade de links tendem a ser os primeiros do ranking nos motores de busca. O algoritmo é baseado no princípio de que o consenso do grupo revela uma melhor e mais acurada análise da realidade do que um único expert poderia fazer. O escritor James Surowieki chamou isso de “sabedoria das massas”.

Em um vácuo, as multidões são provavelmente muito sábias. Mas muitas vezes nós percebemos a advertência da sabedoria das multidões de James Surowiecki no “ponto de desequilíbrio” de Malcolm Gladwell, que, neste contexto, explica que os grupos são facilmente influenciados pela sua vanguarda – aqueles que são os primeiros a fazer alguma coisa e que têm automaticamente influência extra, mesmo que o que estejam fazendo não seja necessariamente a melhor idéia.
A natureza altamente social da web, portanto, torna altamente suscetível, por exemplo, o sensacionalismo, a informação de baixa qualidade, com o único mérito de ser popular. Bibliotecas, em contrapartida, fornecem controle de qualidade na forma de um substituto a esta questão. Apenas a informação que é cuidadosamente analisada é permitida. As bibliotecas são propensas a permanecer separadas da Internet, mesmo que elas possam ser encontradas online. Portanto, é extremamente importante que as bibliotecas continuem vivas e bem, como um contraponto ao populismo frágil da web.

21. Bibliotecários são as contrapartes insubstituíveis dos moderadores da  web
Os indivíduos que, voluntariamente, dedicam o seu tempo para moderar fóruns e wikis estão desempenhando um papel semelhante aos bibliotecários que supervisionam as estantes – e aqueles que visitam as estantes.
A principal diferença entre os bibliotecários e os moderadores é que, enquanto os primeiros guiam os usuários através de um conjunto de obras altamente autoritativas, publicadas, o moderador é responsável por tomar o leme quando o consenso é criado. Apesar de os papéis serem distintos, cada um está evoluindo junto com o crescimento rápido da Internet e a evolução das bibliotecas. Ambos moderadores e bibliotecários terão muito a aprender uns com os outros, por isso é importante que ambos se aproximem.

22. Ao contrário dos moderadores, os bibliotecários devem delimitar a linha entre bibliotecas e a Internet
Evidentemente, as bibliotecas já não são tanto do ponto de partida e término de toda a pesquisa acadêmica. A Internet está efetivamente puxando os alunos para longe das estantes e revelando uma riqueza de informações, especialmente para quem está equipado com as ferramentas para encontrá-la. Na verdade, o sonho de eliminar o intermediário é possível de atingir. Mas a que preço?
A literacia mediática, apesar de ser um ativo extremamente importante para os estudiosos e pesquisadores, está longe de ser universal. Quem vai realizar a educação midiática? Muitos argumentam que os bibliotecários são os mais indicados para educar as pessoas sobre a web.
Afinal, os moderadores da web estão preocupados principalmente com o ambiente que eles supervisionam e menos com o ensino de habilidades web para estranhos. Os professores e os pesquisadores estão ocupados com suas disciplinas e especializações. Os bibliotecários, portanto, devem ser os únicos que atravessam a internet para tornar a informação mais facilmente acessível. Em vez de eliminar a necessidade de bibliotecários, a tecnologia está a reforçar a sua validade.

23. A internet é uma bagunça
Como um website pró-bibliotecário coloca, “A internet em pouquíssimas maneiras se assemelha a uma biblioteca. A biblioteca oferece um conjunto claro e padronizado de recursos facilmente recuperáveis”.
Apesar da natureza um pouco combativa desta frase, sua premissa é essencialmente correta. Apesar das melhorias na tecnologia de pesquisa e a criação de sites surpreendentemente abrangentes como a Wikipedia, a internet ainda é, em muitos aspectos, um vale-tudo. Inundada com sites provenientes de todos os tipos de fontes que, inexplicavelmente, definham ou galopam por posições no topo dos rankings, a web é como um velho oeste super populoso. Muitas pessoas confrontam este caos com exemplos populares de sites de redes sociais ou grandes, complexos e altamente bem sucedidos esforços de organização da informação(Google, Wikipedia, et al). Mas, apesar desses esforços, um volume de páginas questionáveis ainda tende a ser oferecido em muitos resultados de pesquisa, e a credibilidade de cada fonte inerentemente acessada deve ser questionada.
Não que isso seja uma coisa ruim. Os oceanos da informação, a incerteza e a espontaneidade na web pode proporcionar uma experiência excitante e enriquecedora. Mas se você precisa limitar a sua pesquisa aos recursos logicamente indexados que foram publicados e avaliados por uma equipe de profissionais, a biblioteca ainda é a melhor aposta.

24. A internet está sujeita à manipulação
Ao mesmo passo que as mentes brilhantes por trás do Google estão vindo acima com um algoritmo de busca melhor, as mentes brilhantes de otimizadores de motores de busca continuarão a burlá-lo. Isto poderia envolver estar em conformidade com as normas de qualidade do Google, ou, em muitos casos, contornando-as. É importante que o usuário tenha em mente as limitações do Google. Em muitos casos, o gigante das buscas é bem sucedido ao servir boa informação. Mas em muitos casos, ainda está aquém.
Em contraste, é extremamente difícil penetrar nos índices das bibliotecas. Livros, periódicos e outros recursos devem ser nada menos do que material publicado de alto calibre. Se não forem, eles simplesmente não entram.
Além disso, o incentivo econômico para manipular as coleções de bibliotecas é muito menos intenso do que na internet. Estima-se que apenas 4% dos títulos de livros sejam rentabilizados.
Enquanto isso, o Google sozinho consegue ganhos incríveis com publicidade online, para não mencionar todos os outros se posicionando por um pedaço da torta da Internet.
Mas as bibliotecas simplesmente não estão enfrentando esse tipo de pressão. Sua maneira de fornecer informações, portanto, será menos influenciada por interesses corporativos.

25. As coleções de bibliotecas empregam um sistema bem formulado de citações
Livros e revistas encontrados em bibliotecas foram publicados sob diretrizes rigorosas de citação e precisão e, assim, são permitidos em coleções das bibliotecas.
Estes padrões simplesmente não são impostos aos sites. Eles podem aparecer nos resultados de pesquisa independente de fornecerem citação. Com bastante pesquisa, a precisão dos recursos da web muitas vezes podem ser determinados. Mas perde-se muito tempo. As bibliotecas realizam pesquisas muito mais eficientes.

26. Pode ser difícil isolar informações concisas na internet
Determinadas áreas, como condições médicas ou aconselhamentos financeiros são muito bem mapeados na web. Sites de qualidade para áreas mais marginais, no entanto, são menos fáceis de encontrar através de pesquisa na web. Seria preciso saber qual site se deseja visitar, e o Google não vai necessariamente servir exatamente o que você está procurando.
A Wikipedia, que possui um bom ranking para uma ampla variedade de áreas especializadas, está melhorando a concisão da web. Mas a Wikepedia é apenas um site, que qualquer pessoa pode editar, e sua veracidade não é garantida. Bibliotecas mantêm coleções indexadas de materiais de pesquisa muito mais abrangentes e concisas.

27. As bibliotecas podem preservar a experiência do livro
Consumir 900 páginas sobre a história intelectual da Rússia é uma experiência única para o livro. Em geral, o livro fornece um foco de estudo, porém abrangente, que resume anos de pesquisa de um autor – ou a equipe de autores – que dedicaram sua vida acadêmica a uma área temática específica.
Através do Google Book Search, a internet pode ser uma ferramenta para descobrir onde comprar um livro. Resultados da buscas normais revelam também uma variedade de revendedores de livros, cursos acadêmicos ou projetos web a serem apresentados.
Mas mesmo quando a internet oferece conteúdo real (como em uma pesquisa sobre a história da Rússia) a informação é muitas vezes pequena ou superficial – uma espécie de consulta de referência rápida. O conhecimento pode ser encontrado, mas a experiência de mergulhar em um livro de centenas de páginas não acontece online. A preservação das estantes, consequentemente, ajudará a preservar o acesso a esta forma de aprendizagem e a forma mais tradicional de aprendizagem pode continuar lado a lado com a novo.

28. Bibliotecas são estáveis, enquanto a Web é transitória
Em um esforço para melhorar o seu serviço e derrotar os spammers, os motores de busca estão constantemente atualizando seus algoritmos. Muitas vezes, porém, os danos colaterais irão nocautear sites inocentes, incluindo, talvez, recursos autoritativos. Além disso, sites comumente saem do ar ou alteram seus endereços. Outros sites que apontam para esses recursos (que eram bons) podem facilmente e sem querer agrupar um sem número de “links quebrados”. Esses sites podem permanecer sem qualquer edição por anos. As bibliotecas, por outro lado, tem um estoque seguro de recursos disponíveis e um sistema de indexação padrão que oferece resultados estáveis e confiáveis de forma consistente.

29. As bibliotecas podem ser surpreendentemente úteis para as coleções e arquivos de notícias
Em muitos aspectos, as bibliotecas ficam aquém da Internet quando se trata de agregar conteúdo de notícias. A TV, rádio e jornais online – para não mencionar a abundância de blogs referenciando e comentando sobre os acontecimentos diários em todo o mundo – muitas vezes pode saciar qualquer pessoa.
Enquanto isso, as bibliotecas continuam a assinar e armazenar uma determinada lista de jornais, e arquivam as edições anteriores. Este esforço pode parecer humilde ao lado dos longas listas de agregadores de notícias online e acesso instantâneo a artigos publicados em tempo real.

No entanto, a catalogação de notícias por uma biblioteca pode fornecer uma série de vantagens. Para começar, muitas publicações continuam a existir offline. Para quem procura um artigo específico de um jornalista específico, uma biblioteca poderia render melhores resultados – mesmo que a publicação tenha que ser rastreada através de empréstimo entre bibliotecas.
Bibliotecas frequentemente fornecem livremente exemplares de periódicos importantes que de outra maneira exigem assinaturas on-line, como muitas seções do New York Times.
Além disso, normalmente os arquivos desaparecem offline, ou tornam-se cada vez mais caros online. (Experimente a busca do Google News Archive). Isto pode deixar as bibliotecas com as únicas cópias acessíveis.

30. Nem todo mundo tem acesso à internet

Nas nações menos desenvolvidas ou mesmo nas regiões mais pobres dos Estados Unidos, acessar a biblioteca é quase sempre o único jeito de um indivíduo realizar uma pesquisa séria. Há pelo menos duas principais razões pelas quais a internet talvez não seja sequer uma alternativa ilusória às bibliotecas. Primeiramente, acesso online pode ser muito mais difícil do que o acesso à biblioteca. Uma biblioteca pública  pode ter pelo menos um computador, enquanto outros pontos de acesso à internet podem cobrar  alguém que simplesmente não possui meios de pagar  pelo acesso. Em segundo lugar, mesmo se o acesso à internet for obtido, o lapso de educação tecnológica nas áreas pobres do mundo irá deixar a tecnologia muito menos útil do que seria para uma pessoa com mais experiência de navegação na web.

31. Nem todos podem pagar pelos livros
Fora dos países desenvolvidos, os livros são mais raros e muitas vezes mais caros do que suas contrapartes de primeiro mundo. Compondo o problema está um incrivelmente baixo salário mínimo, tornando o custo real dos livros astronômicos. A biblioteca pública, sempre que ela existe, portanto, torna-se muito mais crucial para a democratização da informação.
Como os Estados Unidos tende a ser um líder de tendências, especialmente em termos tecnológicos, deve ressaltar a importância das bibliotecas, mesmo quando a tecnologia avança. Divulgar a cultura de aparelhos eletrônicos sobre os livros pode colocar em risco a existência de bibliotecas tradicionais, deixando os pobres sem livros ou estas tecnologias.

32. As bibliotecas são um substituto para o anti-intelectualismo
Não é que a internet seja anti-intelectual; suas raízes acadêmicas e a imensa quantidade de sites acadêmicos com certeza atestam que seja um meio inteligente. Mas para alguns, o imediatismo sedutor da internet pode levar à falsa impressão de que apenas a discussão imediata, interactiva e simultânea possui valor. Livros empoeirados em prateleiras altas parecem então representar o conhecimento estagnado, e seus curadores (bibliotecários), ultrapassados. Os livros e a leitura fácilmente são considerados elitistas e inativos, enquanto o blog torna-se o aqui e agora.
Mas, como mencionado anteriormente, nem tudo está na internet. O acesso aos livros e teorias de centenas de anos de história cultural é essencial para o progresso. Sem isso, a tecnologia poderá se tornar a ferramenta irônica das tendências culturais sensacionais e retrógradas. Preservar bibliotecas para armazenar o conhecimento e ensinar as limitações da tecnologia pode ajudar a evitar a arrogância e o narcisismo da novidade tecnológica.

33. Livros antigos são valiosos
A idéia de uma biblioteca se tornar um “museu de livros” na era da digitalização é, às vezes, lançada como um discurso apocalítico. Isso é um pesadelo real para os bibliotecários. O termo insinua que, ao invés de se tornar contemporânea e útil, as bibliotecas poderiam se transformar em fetiches históricos como discos de vinil ou máquinas de escrever. Em vez de se manterem como profissionais de pesquisa, os bibliotecários seriam forçados a se tornar “curadores de museus” – ou, mais provavelmente, perderiam seus empregos. Mas se a evolução da biblioteca caminha no sentido de se tornar um lugar interativo para eventos culturais e troca de idéias, a preservação e exibição de relíquias literárias poderiam ser mais uma faceta da sua importância (e também, intriga). De fato, livros antigos não têm somente valor momenetário, mas são parte da memória cultural e histórica que não deve ser perdida para a digitalização.

Conclusão

A sociedade não está pronta para abandonar a biblioteca, e provavelmente nunca estará. Bibliotecas podem adaptar-se as mudanças sociais e tecnológicas, mas elas não são substituíveis. Enquanto que as bibliotecas são distintas da internet, os bibliotecários são os melhores profissionais para guiar acadêmicos e cidadãos para um melhor entendimento de como encontrar informação de valor online. Certamente, existe muita informação online. Mas ainda existe muita informação em papel. Ao invés de taxar as bibliotecas como obsoletas, os governos estaduais e federais deveriam aumentar os recursos para garantir melhores funcionários e tecnologias. Ao invés de galopar cegamente através da era digital, guiado apenas pelos interesses corporativos da economia da web, a sociedade deveria adotar uma cultura de guias e sinalizações. Hoje, mais do que nunca, as bibliotecas e os bibliotecários são extremamente importantes para a preservação e melhoria da nossa cultura.

Artigo original: Are Librarians Totally Obsolete?
Disponível em: degreetutor.com

Análise da construção de identidades de marcas a partir de suas dinâmicas informacionais

Posted October 18th, 2009 in Especial by ExtraLibris

artigo de Vladimir Sibylla Pires1

THE ANALYSIS OF BRAND IDENTITIES DEVELOPMENT FROM AN INFORMATIONAL DYNAMIC PERSPECTIVE2

1 Museólogo (UNIRIO), com especializações em Sociologia Urbana (UERJ) e Marketing (UCAM), MBKM em Gestão do Conhecimento e Inteligência Empresarial (CRIE/COPPE/UFRJ) e mestrado em Ciência da Informação (UFF/IBICT). e-mail: vladimir@osklen.com.br.

2 Este artigo é baseado na dissertação “Estratégias empresariais, dinâmicas informacionais e identidade de marca na economia criativa”, defendida em abril de 2009 sob orientação da professora-doutora Sarita Albagli no âmbito do PPGCI do convênio UFF/IBICT.

RESUMO
Este artigo visa refletir sobre a construção de identidades de marca na indústria da moda a partir das dinâmicas informacionais de seus atores. Propõe um modelo de análise baseado em uma nova metáfora organizacional e na opção por uma abordagem em diferentes níveis daquela dinâmica. Demonstra sua aplicabilidade a partir do exemplo de uma empresa atuante no setor.

Palavras-chave: Indústria da moda, centrais de criatividade, dinâmicas informacionais.

ABSTRACT
This article aims to reflect on the development of brand identities in the fashion industry from the point of view of its actors’ informational dynamics. It proposes a model of analysis based on a new organizational metaphor and on a multi levels approach of that dynamic. It also demonstrates its applicability using the example of an acting company of that sector.

Key-words: Fashion industry, creativity centrals, informational dynamics.

INTRODUÇÃO
Este artigo visa refletir sobre a construção de identidades de marca na indústria da moda sob a ótica da dinâmica informacional de seus atores. Propõe, assim, um modelo de análise baseado na emergência de uma nova metáfora organizacional (centrais de criatividade) e em uma abordagem em diferentes níveis (poliepistêmica) desse processo. A pesquisa que o embasou partiu de uma estreita relação entre a economia criativa e as identidades de marcas na contemporaneidade.

Desse pressuposto, derivamos outros dois: (a) as centrais de criatividade emergem para lidar com as transformações que vêm ocorrendo no ambiente empresarial; (b) a compreensão do fenômeno informacional nesses ambientes não pode se restringir à sua dimensão física (documental), devendo abordar também suas dimensões relacional e performativa. Veremos, a seguir, os principais aspectos do modelo sugerido e, mais adiante, sua aplicabilidade a partir de uma representante da indústria da moda.

O QUE SÃO CENTRAIS DE CRIATIVIDADE?
As empresas que constroem suas identidades de marcas a partir de idéias-força demandam, a nosso ver, uma conformação própria à qual demos o nome de central de criatividade, em alusão às centrais de cálculo de Bruno Latour (2000). O cerne de uma central de cálculo é o fato de a ciência ser feita por ciclos de acumulação e pela conformação de redes. As condições que possibilitam esse ciclo constituem um movimento sempar em prol da atuação à distância de um ponto – transformado em centro – sobre outros pontos (a periferia). Porém, mais importante do que compreender o que se acumula nesses centros é compreender como atuar à distância sobre eventos, lugares e pessoas pouco conhecidos. Assim, a questão passa a ser: como trazê-los para casa se estão distantes? Inventando meios que: (a) os tornem móveis para serem trazidos; (b) os mantenham estáveis para que não se distorçam, decomponham ou deteriorem; e (c) sejam combináveis de tal modo que, qualquer que seja sua matéria, possam ser acumulados, agregados ou embaralhados. Os meios que possibilitam isso são expedições, coleções, sondas, observatórios, pesquisas, etc. Na verdade, os cientistas “transitam pelo interior de uma rede [onde] aperfeiçoam a circulação de traçados de todo tipo, e a capacidade de se combinarem” (LATOUR, 2000, p. 377). A construção, a ampliação e a manutenção dessas redes tornam possível a ação à distância fazendo, nesses centros, certas coisas que lhes permitem dominar espacial e cronologicamente a periferia.

Entendemos que essas noções também se aplicam ao fazer de base artística: as centrais de criatividade emergem focadas na importância assumida pela captação de idéias-força dispersas na sociedade e transformadas em identidades de marcas. Tais centrais lidam com conteúdos dispersos em redes sociais oriundas das interações estabelecidas entre suas equipes e a sociedade. Interações mediadas pela linguagem, mais do que por recursos tecnológicos; redes sociocriativas, mais do que sociotécnicas. E é isto que dá sustentação aos esforços de captação e 3 Vale frisar que é necessário também compreender o movimento de volta, do centro para a periferia, se quisermos seguir os cientistas até o fim. interpretação dessas idéias-força, bem como de outras fontes de inspiração, informação e conhecimento.


O QUE É A ABORDAGEM POLIEPISTÊMICA DO FENÔMENO INFORMACIONAL?

Em tais centrais de criatividade impera uma noção relacional do fenômeno informacional. As dinâmicas desse fenômeno são conformadas pela cultura organizacional e pelas estratégias empresariais, e extrapolam os limites de áreas e departamentos para se valerem das referidas redes sociais, onde se retro-alimentam.

Compreender isso é considerar que: (a) informação é processo; (b) ações de informação (WERSIG; WINDEL, 1985; GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 2000) articulam, em contextos concretos, a linguagem, os sistemas sociais de inscrição de significação e os sujeitos que a geram/ usam (GONZALEZ DE GÓMEZ, 2000); e (c) conhecimento se constrói em meio a interações comunicacionais e pela mediação da linguagem. Com isso, a ênfase recai sobre as relações humanas, o intercâmbio de informações e o agir comunicativo. Postura mais adequada para uma compreensão da informação enquanto objeto da cultura, no processo gerador das ações de informação. Estas articulam os extratos acima citados (item b) em três dimensões: a infraestrutural refere-se às redes sociais oriundas da interação entre as equipes internas às empresas e os grupos e atores sociais externos a elas. A meta-informacional refere-se às regulamentações, normas e contratos que conformam o ambiente informacional, estabilizando suas práticas. Neste modelo refere-se à cultura organizacional e à memória empresarial. Por fim, a semântico-discursiva associa-se à significação e às definições socioculturais de geração, transmissão, recepção e adesão das informações. Relaciona-se aqui com as interações comunicacionais e as estruturas discursivas dos grupos de trabalho diante das fontes de informação, conhecimento e inspiração: é o território da pragmática. Vejamos como tudo isso contribui para a leitura aqui sugerida tomando como base a grife carioca Osklen.

leia o artígo na íntegra – download pdf


REFERÊNCIAS

BOURDIEU, Pierre. Reprodução cultural e reprodução social. In _____. A economia das trocas simbólicas. 5.ed. São Paulo: Perspectiva, 1999. p.295-336.

GONZÁLEZ DE GÓMEZ, Maria Nélida. Metodologia de pesquisa no campo da Ciência da Informação. In DataGramaZero – Revista de Ciência da Informação, Rio de Janeiro, v. 1, n. 6, dez. 2000.

GORZ, André. O imaterial: conhecimento, valor e capital. São Paulo: Annablume, 2005.

LATOUR, Bruno. Centrais de cálculo. In _____. A ciência em ação. São Paulo: UNESP, 2000. p.349-420.

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