Ontologias são Superestimadas: Categorias, Links e Etiquetas

Posted June 12th, 2010 in Artigos e Estudos by ExtraLibris

Esse texto é baseado em duas palestras que dei na primavera de 2005 — uma na conferência O’Reilly ETech em março, intitulada “Ontologias são superestimadas” e outra no IMCExpo em abril entitulada “Folksonomias & Etiquetas: a emergência da classificação desenvolvida por usuários”. A versão escrita é uma grande edição destas duas palestras.

Hoje eu quero falar sobre categorização e quero convencê-los de que muito do que pensamos saber sobre categorização está errado. Em particular, quero convencê-los de que várias das tentativas de aplicar a categorização ao mundo eletrônico são na verdade inadequadas, porque adotamos hábitos mentais que são frutos de estratégias antigas.

Também quero convencê-los de que o que vemos na Web é na verdade uma ruptura radical com as estratégias prévias de categorização, em vez de uma extensão delas. A segunda parte da palestra é mais especulativa, por que geralmente acontece de os velhos sistemas se quebrarem antes mesmo que as pessoas saibam o que tomará o seu lugar. (Qualquer pessoa que observa a indústria musical pode ver isso acontecendo hoje). Isso é o que eu acho que está acontecendo com a categorização.

O que acho que está por vir são modos muito mais orgânicos de organização da informação – do que os nossos atuais esquemas de categorização permitem – baseado em duas unidades: o link, que pode apontar para qualquer coisa, e a tag (etiqueta), que é uma forma de anexar marcações em links. A estratégia de etiquetagem (tagging) — uma forma livre de marcação, sem levar em conta restrições de categorias — parece ser uma receita para o desastre, mas como a Web tem nos mostrado, você pode extrair uma quantidade surpreendente de valor de conjuntos de informações completamente bagunçados.

PARTE I: Classificação e seus (Des)Conteúdos

Q: O que é Ontologia? A: Depende de qual o significado de “é” é.

Preciso fornecer algumas definições rápidas, começando com ontologia. É uma rica ironia que a palavra “ontologia”, que tem a ver com esclarecer e explicitar afirmações sobre entidades num domínio particular, tenha tantas definições conflitantes. Oferecerei duas definições gerais.

A principal definição de ontologia no sentido filosófico é o estudo das entidades e suas relações. A questão que a ontologia pergunta é: quais tipos de coisas existem ou podem existir no mundo, e que tipo de relações essas coisas podem ter umas com as outras? Ontologia está menos preocupada com o que é do que com o que é possível.

As comunidades de gestão do conhecimento e inteligência artificial tem uma definição relacionada — eles pegaram a palavra “ontologia” e aplicaram-na mais diretamente ao seu problema. O sentido de ontologia é algo como “uma especificação explicita de uma conceitualização”.

O ponto comum entre as duas definições é a essência, o qualidade/capacidade de ser. Em um domínio particular, quais tipos de coisas nós podemos dizer que existem naquele domínio e como nós podemos dizer que essas coisas relacionam-se entre si?

O outro par de termos que preciso definir é categorização e classificação. Esses são os atos de organizar uma coleção de entidades, sejam coisas ou conceitos, em grupos relacionados. Embora existam algumas distinções de campo para campo, os termos são usados em geral de forma intercambiável.

E então há a categorização ou classificação ontológica, que é organizar um conjunto de entidades em grupos, baseados em suas essências e possíveis relações. Um catálogo de biblioteca, por exemplo, entende que para cada livro novo, seu lugar lógico já existe dentro do sistema, mesmo antes de o livro ser publicado. Essa estratégia de designação de categorias para cobrir possíveis casos antecipadamente é o que me preocupa, pois é tanto amplamente usado quanto totalmente ultrapassado em termos de valor no mundo digital.

Agora, qualquer pessoa que lide com categorização em sua profissão irá dizer que nunca se pode conseguir um sistema perfeito. Em sistemas de classificação que funcionam, o sucesso não é “Conseguimos o arranjo ideal?” mas “O quão perto chegamos e em que medidas?”. A idéia de um esquema perfeito é simplesmente um ideal platônico. Entretanto, quero argumentar que mesmo o ideal ontologico é um erro. Até mesmo usar perfeição teórica como medida de sucesso prático leva a má aplicação de recursos.

Agora, aos problemas da classificação.

Dividindo a natureza em suas articulações

[ A Tabela Periódica de Elementos ]

A tabela periódica de elementos é o meu voto para “Melhor Classificação de Todos os Tempos”. Parece que ao organizar elementos pelo número de prótons no núcleo, você tem todo esse valor fantástico, tanto descritivo quanto previsível. E já que o que você está fazendo é organizar coisas, a tabela periódica está tão próxima de fazer afirmações sobre essência tanto quanto for fisicamente possível. Esse é um esquema realmente poderoso, quase perfeito. Quase.

Ali na coluna do lado direito, a coluna rosa, estão os gases nobres. Bem, gás nobre é uma categoria estranha, porque hélio não é mais gás do que mercúrio é um líquido. Hélio não é fundamentalmente um gás, é só um gás nas temperaturas mais altas, mas as pessoas que o estudavam na época não sabiam isso, porque elas não eram capazes de fazê-lo frio o suficiente para ver que hélio, como qualquer outra coisa, tem estados diferentes da matéria. Sem as medidas corretas, eles assumiram que a gasosidade era um aspecto essencial – literalmente, parte da essência – destes elementos.

Mesmo num esquema de categorização quase perfeito, existem esses tipos de erro de contexto, onde as pessoas estão colocando algo que é meramente verdade em temperatura ambiente, e é absolutamente não relacionado à essência, bem no centro da categorização. E a categoria ‘gás nobre’ permaneceu lá desde o dia em que a colocaram, por que nós todos nos acostumamos a essa anomalia como se fosse um acidente congelado.

Se é impossível criar uma categorização completamente coerente, mesmo quando você está fazendo algo fisicamente relacionado a essência como química, imagine os problemas encarados por qualquer um que esteja lidando com um domínio onde a essência é ainda menos óbvia.

O que me leva ao assunto das bibliotecas.

Sobre fichas e catálogos

A tabela periódica leva meu voto para melhor esquema de categorização de todos os tempos, mas as bibliotecas tem os melhores esquemas de categorização conhecidos. A experiência do catálogo de biblioteca é provavelmente o que as pessoas conhecem melhor como uma visão altamente ordenada do mundo, e esses sistemas de catalogação contém todos os tipos de mapeamentos estranhos entre as categorias e o mundo que eles descrevem.

Aqui está a categoria de primeiro nível nos sistemas de biblioteca soviéticos:

A: Marxismo-Leninismo
A1: Trabalhos clássicos de Marxismo-Leninismo
A3: Vida e trabalho de K.Marx, F.Engels, V.I.Lenin
A5: Filosofia Marxista-Leninista
A6: Economia Política Marxista-Leninista
A7/8: Comunismo Científico

Algumas dessas categorias estão começando a parecer um pouco datadas.

Ou, a minha favorita — essa é a categorização do sistema decimal de Dewey para religiões do mundo, que está na categoria 200.

Dewey, 200: Religião
210 Teologia Natural
220 Bíblia
230 Teologia cristã
240 Moral cristã & teologia de devoção
250 Ordens cristãs e igrejas locais
260 Teologia social cristã
270 História da igreja cristã
280 Divisões cristãs e denominações
290 Outras religiões

O quanto essa não é o tipo de categorização que queremos no século 21?

Esse tipo de parcialidade existe muito em sistemas de categorização. Aqui está a categorização de história da Biblioteca do Congresso. Essas são todas as categorias de primeiro nível — todas essas são apresentadas como sendo de mesmo nível.

D: História (geral)
DA: Grã Bretanha
DB: Áustria
DC: França
DD: Alemanha
DE: Mediterrâneo
DF: Grécia
DG: Itália
DH: Países Baixos
DJ: Holanda DK: Antiga União Soviética
DL: Escandinávia
DP: Peninsula Ibérica
DQ: Suíça
DR: Península Balcânica
DS: Ásia
DT: África
DU: Oceania
DX: Ciganos

Eu gostaria de chamar atenção para os que estão em negrito: a Península Balcânica. Ásia. Africa.
E só, enfim, reveja a geografia:

[ Viu a diferença? ]

Porém, por toda a esquisitice de colocar a Peninsula Balcã e a Ásia no mesmo nível, isso é ainda mais difícil de rir do que o exemplo de Dewey, por ser tão intrigante. A Biblioteca do Congresso — não há folgados no departamento de inteligência, fundado por Thomas Jefferson — tem um staff de pessoas que não fazem nada a não ser pensar em categorização o dia inteiro. Então o que está sendo otimizado aqui? Não é geografia. Não é a população. Não é o PIB regional.

O que está sendo otimizado é o número de livros na estante. É isso o que o esquema de categorização está categorizando. É tentador pensar que os sistemas de classificação que as bibliotecas otimizaram no passado podem ser estendidos de forma descomplicada para o mundo mundo digital. Isto subestima horrivelmente, no meu ponto de vista, o quanto aquilo que as bibliotecas têm organizado historicamente se configura em um problema completamente distinto.

A musculatura do esquema de categorização da Biblioteca do congresso parece se basear em conceitos. É organizado em categorias que não se sobrepõem, ficando mais detalhadas em níveis menores — qualquer conceito deve encaixar-se em uma categoria e em nenhuma outra categoria. Mas vez e outra, o esqueleto transparece, e esse esqueleto, a estrutura de apoio na qual o sistema é realmente construído, é designado para minimizar o tempo de busca nas estantes.

A essência de um livro não são as idéias que ele contém. A essência de um livro é “livro”. Pensar que catálogos de biblioteca existem para organizar conceitos confunde o recipiente por aquilo que ele contém.

O esquema de categorização é uma resposta às restrições físicas de armazenamento e à incapacidade das pessoas de manterem a localização de mais de uma centena de coisas em suas mentes de uma vez. Uma vez que você tem mais de uma centena de livros, você tem que organizá-los de alguma forma. (Minha mãe, que era uma bibliotecária de referência, disse que ela queria reorganizar toda a biblioteca universitária por cor, porque os estudantes chegavam nela e diziam “Estou procurando por um livro verde de sociologia…”). De qualquer maneira que você faça isso, a fragilidade da memória humana e o fato físico de livros tornarem algum tipo de esquema organizacional um requisito, e a hierarquia, é um bom modo de administrar objetos físicos.

O tipo de desequilibrio “Península Balcânica/Ásia” é simplesmente um subproduto de restrições físicas. Não são as idéias em um livro que tem que estar em um lugar — o livro pode ser de várias coisas ao mesmo tempo. É o livro em si, o fato físico do objeto relacionado, que tem que estar em um lugar, e se está em um lugar, não pode estar em outro. E isso significa que um livro tem que declaradamente ser sobre uma coisa principal. Um livro que é igualmente sobre duas coisas quebra o requerimento de ‘estar em um lugar’, então cada livro precisa ser declarado ser sobre uma coisa mais que outras, independente de seu conteúdo de fato.

As pessoas tem se assustado com a virtualidade das informações por décadas e você pensa que nós internalizamos a verdade óbvia: não existem prateleiras. No mundo digital, não existem restrições físicas que nos obrigam a esses tipos de organização. Nós podemos fazer sem ele, e você acha que já deveríamos ter aprendido uma lição até então.

E ainda…

A parábola do ontólogo, ou, “Não existem estantes”

Um pouco mais de 10 anos atrás, alguns caras da Stanford lançaram um serviço chamado Yahoo que oferecia uma lista de coisas disponíveis na Web. Foi a primeira tentativa realmente significativa de tentar trazer ordem à Web. Como a Web expandiu-se, a lista do Yahoo se desenvolveu numa hierarquia de categorias.Como a Web expandiu-se mais ainda eles perceberam que, para manter o valor no diretório, eles teriam que sistematizar, então eles contrataram um ontólogo profissional e desenvolveram suas próprias categorias de alto nível, agora familiares, que tem subcategorias e cada subcategoria contém links para ainda outras subcategorias, e assim por diante. Agora temos essa lista ontologicamente administrada sobre o que existe por aí.

Aqui estamos em uma das categorias de alto nível do Yahoo, Entretenimento.

[ Categoria de Entretenimento do Yahoo ]

Você pode ver o que as sub-categorias de entretenimento são, tenham ou não novas adições, e quantos links ficam embaixo dessas subcategorias. Exceto, no caso de Livros e Literatura, aquela sub-categoria não te diz quantos links tem abaixo dela. Livros e Literatura não terminam com um número de links, mas com um sinal de “@”. Esse sinal está te dizendo que a categoria de Livros e Literatura não é ‘na realidade’ na categoria de entretenimento. O Yahoo está dizendo “Nós colocamos esse link aqui para sua conveniência, mas isso é apenas pra te levar onde Livros e Literatura ‘realmente’ estão”. Ao que podemos apenas responder — “O que é real?”

O Yahoo está dizendo “Nós entendemos melhor que você como o mundo é organizado, por que nós somos profissionais treinados. Então se você pensar erroneamente que Livros e Literatura são entretenimento, nós colocaremos um sinalzinho para que você entenda mas para ver esses links, você terá que ‘ir’ onde eles ‘estão’”. (Meus dedos irão cair por causa de todas essas apóstrofes). Quando você vai para Literatura — que é parte de Humanidades e não Entretenimento — dizem pra você, similarmente, que os vendedores de livros não estão ‘realmente’ ali. Por serem um serviço comercial, vendedores de livros estão ‘na verdade’ em Negócios.

[ 'Literatura' no Yahoo ]

Veja o que aconteceu aqui. O Yahoo, encarando a possibilidade de que eles poderiam organizar coisas sem restrições físicas, adicionaram de volta a estante. Eles não poderiam imaginar a organização sem as limitações das estantes, então eles as adicionaram de volta. É perfeitamente possível para qualquer número de links estar em qualquer número de lugares numa hierarquia, ou em várias hierarquias, ou em nenhuma hierarquia sequer. Mas o Yahoo decidiu privilegiar um modo de organizar os links sobre todos os outros, por que eles queriam fazer afirmações sobre o que é “real”.

Uma explicação caridosa para isso é que eles pensaram nesse tipo de organização a priori como seu trabalho e como algo que seus usuários valorizariam. A explicação não caridosa é que eles pensaram que existia valor de negócios em determinar a visão que o usuário teria de adotar para usar o sistema. Ambas explicações podem ter sido verdade em tempos diferentes e em medidas diferentes, mas o efeito foi sobrepor a conclusão dos usuários sobre onde as coisas deveriam estar e insistir na visão do Yahoo.

Sistemas de Arquivos e Hierarquia

É fácil ver como a hierarquia do Yahoo mapeia as restrições tecnológicas bem como as físicas. As restrições no diretório do Yahoo descrevem tanto um esquema de categorização da biblioteca e, obviamente, um sistema de arquivo – o sistema de arquivo é tanto uma ferramenta poderosa quanto uma metáfora poderosa, e estamos tão acostumados a ela que parece natural.

[ Hierarquia ]

Há um nível no topo e os subdiretórios ficam abaixo dele. Subdiretórios contém arquivos ou outros subdiretórios e assim por diante, até embaixo. Tanto bibliotecários e cientistas da computação chegam à mesma idéia similar, que é “Bem, não faz mal adicionar alguns poucos links secundários aqui” — links, aliases e atalhos simbólicos, como quiser chamá-los.

[ Mais Links ]

A biblioteca do congresso tem algo similar em sua categorização de segunda ordem — “Esse livro é principalmente sobre a Península Balcânica, mas também é sobre arte, ou é principalmente sobre arte, mas também sobre a Península Balcânica”. A maioria das tentativas hierárquicas de subdividir o mundo utilizam algum sistema assim. Então, no início dos anos 90, uma das coisas que o Berners-Lee nos mostrou é que você poderia ter vários links. Você não precisa ter só alguns poucos links, você poderia ter vários deles.

[ Mais Vários Links ]

Foi aqui que o Yahoo entrou na contramão. Eles disseram “Saiam daqui com essa conversa maluca. Uma URL pode apenas aparecer em três lugares. Essa é a regra do Yahoo”. Eles fizeram isso em parte por que eles não queriam receber spam, uma vez que eles estavam fazendo um diretório comercial, então eles colocaram um limite no número de links simbólicos que pudessem interferir em sua visão de mundo. Eles perderam o final dessa progressão, que é, se você tem links o suficiente, você não precisa mais de hierarquia. Não existem estantes. Não existem sistemas de arquivos. Links por si sós são suficientes.

[ Apenas Links (Não há Sistemas de Arquivos) ]

Um motivo pelo qual o Google foi adotado tão rapidamente quando ele apareceu foi porque ele compreendeu que não existem estantes e que não existem sistemas de arquivos. O Google pode decidir o que vai com o que depois de ouvir o usuário, ao invés de tentar prever antecipadamente o que você precisa saber.

Vamos dizer que eu preciso de todas as páginas da web com as palavras “incontrolável” e “Minnesota”. Você não pode perguntar antes a um catalogador para dizer “Bem, essa será uma categoria útil, então deveríamos codificar isso antecipadamente”. Ao invés disso, o que o catalogador dirá é “Incontrolável mais Minnesota! Esqueça, nós não vamos otimizar coisas assim”. Google, por outro lado diz, “Quem se importa? Não iremos dizer ao usuário o que fazer, por que a estrutura de links é mais complexa do que podemos ler, exceto em resposta a uma busca de um usuário”.

Navegação versus busca é um aumento radical na confiança que colocamos na infraestrutura de link, e no grau de poder derivado dessa estrutura de links. Navegar ou “dar uma olhada” diz às pessoas que estão fazendo a ontologia, às pessoas fazendo a categorização, que elas tem a responsabilidade de organizar o mundo antecipadamente. Dado esse requisito, os pontos de vista dos catalogadores necessariamente sobrepõem-se às necessidades dos usuários e às suas visões de mundo. Se você quer algo que ainda não tenha sido categorizado na forma que você pensou, azar o seu.

O paradigma da busca diz o inverso. Diz que ninguém pode dizer a você antecipadamente o que você precisa. A busca diz que, no momento em que você procura, nós faremos nosso melhor para servi-lo baseado nessa estrutura de link, por que nós acreditamos que podemos construir um mundo onde não precisamos de hierarquia para coexistir com a estrutura de link.

Muito das conversas que estão acontecendo agora sobre categorização têm início em uma segunda etapa — “Uma vez que a categorização é uma boa forma de organizar o mundo, nós deveríamos…” Mas o primeiro passo é se fazer a pergunta crítica: a categorização é mesmo uma boa idéia? Nós podemos ver, através do exemplo Yahoo versus Google que existe um número de casos onde você pode extrair valor significante da não categorização. Até o Google adotou o DMOZ, a versão aberta do diretório do Yahoo e depois eles diminuíram sua presença no site porque quase ninguém o usava. Quando as pessoas tiveram o serviço de busca e categorização lado a lado, menos e menos gente estava usando categorização para achar as coisas.

Quando a classificação ontológica funciona bem?

A classificação ontológica funciona bem em alguns lugares, claro. Você precisa de um catálogo de fichas se você estiver trabalhando numa biblioteca física. Você precisa de uma hierarquia para a gestão de um sistema de arquivos. Então o que você quer saber, quando pensa em como organizar qualquer coisa, é se esse tipo de classificação é uma boa estratégia.

Aqui está uma lista parcial de características que ajuda a fazer isso:

Domínio a ser organizado

* Pequeno corpus
* Categorias formais
* Entidades estáveis
* Entidades restritas
* Limites claros

Essas são todas as coisas de domínio-específico que você gostaria que fossem verdades, se você está tentando fazer uma classificação transparente. A tabela periódica de elementos tem todas essas coisas – existem apenas cem elementos ou quase isso; as categorias são simples e deriváveis; prótons não mudam por causa de circunstâncias políticas; apenas elementos podem ser classificados, não moléculas; existem elementos mesclados; e assim por diante. Quanto mais dessas características forem verdade, melhor adequada a ontologia será.

Outra questão chave, além das características do próprio domínio, é “Como são os participantes?”. Aqui estão algumas coisas que, se verdadeiras, ajudam a fazer com que a ontologia seja uma estratégia de classificação que funcione:

Participantes

* Catalogadores experientes
* Fonte autoritativa de julgamento
* Usuários coordenados
* Usuários experientes

DSM-IV, a quarta versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Psiquiatria, é um exemplo clássico de um esquema de classificação que funciona por causa dessas características. DSM IV permite que os psiquiatras de todo os EUA, em teoria, façam o mesmo julgamento sobre uma doença mental, quando apresentada com a mesma lista de sintomas. Existe uma fonte de autoridade para o DSM-IV, a Associação Americana de Psiquiatras. A APA diz quais sintomas levam à psicose. Eles tem tanto catalogadores especialistas quanto usuários especialistas. A quantidade de ‘infraestrutura pessoal’ que está por trás de um sistema de trabalho como o DSM IV é uma grande parte o que faz esse tipo de categorização funcionar.

Essa ‘infraestrutura pessoal’ é muito cara, no entanto. Um dos problemas que os usuários tem com as categorias é que quando estamos fazendo exames cara a cara – descrevemos algo e então questionamos usuários para que adivinhem como descrevemos – os resultados são bastante discrepantes. Usuários tem muitas dificuldades tentando adivinhar como algo que eles querem foi categorizado, a menos que eles tenham sido educados sobre essas categorias também, e quanto maior a base do usuário, mais funcional é a educação desse usuário.

Você também pode inverter essa lista. Você pode dizer “aqui estão algumas características onde a classificação ontológica não funciona bem”:

Domínio
* Amplo corpus
* Sem categorias formais
* Entidades instáveis
* Entidades irrestritas
* Sem limites claros

Participantes
* Usuários sem coordenação
* Usuários amadores
* Catalogadores ingênuos
* Sem autoridade

Se você em um corpus amplo e mal definido, se você tem usuários amadores, se seus catalogadores não são especialistas, se não há ninguém com autoridade para dizer o que está acontecendo, então a ontologia será uma má estratégia.

A lista de fatores que faz com que a ontologia seja uma aplicação ruim é, também, uma descrição quase perfeita da Web – maiores corpus, usuários mais ingênuos, nenhuma autoridade global e assim por diante. Quanto mais você empurra a direção de escala, amplitude, fluidez, flexibilidade, o mais difícil se torna para lidar com o custo de iniciar um sistema de catalogação e o esforço de mantê-lo, para não falar da quantidade de domínio que você deve ter sobre os usuários para que eles desistam de suas próprias visões de mundo em favor da sua.

O motivo de sabermos que as SUVs são um tipo de camionete leve ao invés de um carro, é que o Governo diz que eles são um camionete leve. Isso é categorização vodu, onde a ação no modelo muda o mundo – quando o Governo diz que uma SUV é uma camionete, ela é uma camionete por definição. Muito do apelo de categorização surge deste tipo de vodu, onde as pessoas que fazem a categorização acreditam, mesmo que inconscientemente, que nomear o mundo pode mudá-lo. Infelizmente, a maioria do mundo não está isento da categorização vodu.

A razão pela qual não sabemos se Buffy, A caça vampiros, é ficção científica ou não, por exemplo, é por que ninguém pode dizer definitivamente sim ou não. Em ambientes em que não há autoridade e nenhuma força pode ser aplicada ao usuário, é muito difícil apoiar o estilo vodu de organização. Meramente nomear o mundo não cria nenhuma mudança efetiva, nem no mundo, nem na mente dos potenciais usuários que não entendem o sistema.

Leitura de mentes

Um dos maiores problemas em categorizar as coisas antecipadamente é que isso força os categorizadores a lidarem com dois trabalhos que tem sido historicamente bem difíceis: leitura de mentes e previsão do futuro. Isso força os categorizadores a adivinharem o que seus usuários estão pensando, e fazerem previsões sobre o futuro. O aspecto de leitura de mente aparece em conversas sobre vocabulários controlados. Sempre que é concedida permissão aos usuários para etiquetar coisas, alguém sempre diz “Ei, eu sei! Vamos fazer um tesauro, porque se você etiquetar algo como ‘Mac’ e eu etiquetar ‘Apple’ e alguém mais etiquetar como ‘OSX’, nós todos acabamos procurando pela mesma coisa!” Eles apontam para a perda de sinal sobre o fato que usuários, embora usando diferentes etiquetas, estejam falando sobre a mesma coisa.

O entendimento é que nós tanto podemos e deveríamos ler as mentes das pessoas, que nós podemos entender o que elas querem dizer quando elas usam uma etiqueta em particular, e, entendendo isso, nós podemos começar a restringir essas etiquetas, ou ao menos mapeá-las facilmente uma nas outras.

Isso parece relativamente simples com o exemplo Apple/Mac/OSX, mas quando começamos a expandir a outros grupos de trabalhos relacionados, como filmes, filmagens e cinema, o caso para tesauro se torna muito mais claro. Aprendi isso com o design de Brad Fitzpatrick para o LiveJournal, que permite que o usuário liste seus próprios interesses. LiveJournal não faz absolutamente nenhuma tentativa de reforçar solidariedade ou um tesauro ou um conjunto mínimo de termos, nenhum check-box, nenhum drop-box, apenas texto livre. Algumas pessoas dizem que têm interesse em filmes. Algumas dizem que estão interessadas em filmagens. Algumas pessoas dizem que estão interessadas em cinema.

A primeira reação dos catalogadores a isso é “Meu deus, isso significa que você não estará apresentando as pessoas dos filmes para as pessoas do cinema!” para qual a resposta óbvia é “Bom. As pessoas dos filmes não querem se relacionar com as pessoas do cinema”. Esses termos na verdade codificam coisas diferentes, e a afirmação que restrição de vocabulário melhora o sinal assume que não há sinal na diferença em si, e nenhum valor em proteger o usuário de vários sinônimos.

Quando falamos sobre termos realmente controversos como bicha/gay/homossexual, nesse ponto, toda a perda de sinal está no colapso, não na expansão. “Oh, as pessoas falando sobre ‘políticas públicas GLBT’ e as pessoas falando sobre a ‘agenda homossexual’, eles estão falando na verdade sobre a mesma coisa”. Oh não, não estão. Se você achava que as pessoas dos filmes e do cinema poderiam ter uma briga, espere até você colocar as pessoas dos políticas GLBT e agenda homossexual no mesmo lugar…

Você não pode fazer isso. Você não pode colapsar categorizas sem alguma perda de sinal. O problema é que, uma vez que os catalogadores assumem que sua classificação deveria ter força no mundo, eles subestimam a dificuldade de compreender o que os usuários estão pensando, e eles superestimam a quantidade de usuários que irão concordar, sejam entre si mesmos ou com os catalogadores, sobre a melhor forma de categorização. Eles também subestimam a perda de apagar a diferença de expressão, e eles superestimam a perda da falta de um tesauro.

Previsão do Futuro

O outro grande problema é que prever o futuro pode vir a ser difícil, e ainda qualquer sistema de classificação feito para ser estável por muito tempo coloca o categorizador na posição de previsor do futuro. Leitores atentos serão capazes de notar a diferença entra a frase A e a frase B.

A: “Eu te amo.”

B: “Eu sempre irei te amar.”

Ai da pessoa que profere a frase B quando o que eles quiseram dizer foi a frase A. A frase A é uma afirmação. A frase B é uma previsão. Mas este é o dilema ontológico. Considere as seguintes afirmações:

A: “Este é um livro sobre Dresden.”

B: “Este é um livro sobre Dresden,

e ele fica na categoria ‘Alemanha Oriental.”

Essa segunda frase parece tão óbvia, mas a Alemanha Oriental na verdade tornou-se uma categoria instável. Cidades são reais. Elas são fatos físicos, reais. Países são ficções sociais. É muito mais fácil para um país desaparecer do que uma cidade desaparecer, então quando você está dizendo que a pequena coisa está contida pela coisa grande, você está na verdade misturando radicalmente tipos diferentes de entidades. Nós fingimos que ‘país’ refere-se a uma área física da mesma forma que ‘cidade’ o faz, mas não é verdade, como podemos saber de lugares como a antiga Iugoslávia.

Existe uma categoria de nível máximo, você pode ter visto ela mais cedo no esquema da Biblioteca do Congresso, chamada Antiga União Soviética. O melhor que eles puderam fazer foi apenas adicionar “antiga” em toda aquela zona que eles previamente categorizaram como União Soviética. Não por que eles achassem que isso fosse a verdade sobre o mundo, mas por que eles não tinham staff suficiente para reorganizar todos os livros na estante. Essa é a restrição.

Parte II: O único grupo que pode categorizar tudo é todo mundo

“Meu Deus. Está cheio de links!”

Quando nós re-examinamos a categorização sem assumir as restrições físicas nem de hierarquia em disco ou em hierarquia no mundo físico, nós temos respostas muito diferentes. Digamos que você quer mesclar duas bibliotecas – a minha e a Biblioteca do Congresso. (Você pode dizer que a Biblioteca do Congresso é a da direita, por que eles tem alguns livros a mais que eu).

[ Duas Coleções Categorizadas de Livros ]

Então como fazermos isso? Eu preciso sentar com a Biblioteca do Congresso e dizer, “Bem, no meu mundo, Python in A Nutshell é um trabalho de referência, e eu mantenho todos os meus livros sobre criatividade juntos”. Eu preciso evidenciar a diferença entre o meu esquema de categorização e o deles antes que a Biblioteca do Congresso seja capaz de levar meus livros?

Não, claro que não precisamos fazer nada do tipo. Eles são capazes de levarem meus livros enquanto ignoram minhas categorias, por que todos os meus livros tem ISBN. Eles não estão mesclando num nível categórico. Eles estão mesclando ao nível de item globalmente único. Minhas entidades, meus livros unicamente etiquetados, entram no esquema da Biblioteca do congresso trivialmente. A presença de etiquetas únicas significa que mesclar bibliotecas não requere a mescla de esquemas de categorização.

[ ISBNs Mescladas ]

Agora imagine um mundo onde tudo pode ter um identificador único. Isso deveria ser fácil, uma vez que é o mundo em que atualmente vivemos – a URL nos arranja um modo de criar uma ID globalmente única para o que quer que precisemos apontar. Às vezes os apontadores são diretos, como quando uma URL aponta para os conteúdos de uma Web page. Às vezes são indiretas, quando você usa um link da Amazon para apontar para um livro. Às vezes existem camadas de indireção, como quando você usa uma URI, uma fonte identificadora uniforme, para nomear algo que tem uma localização indeterminada. Mas o esquema básico nos dá modos de criar um identificador único globalmente pra tudo.

E uma vez que você faça isso, qualquer um pode etiquetar esses apontadores, pode etiquetar essas URLs, de modos que os façam mais valorosos, e tudo sem requerir esquemas top-down de organização. E isso — uma explosão da livre forma de etiquetagem de links, seguido por todos os tipos de busca de valor dessas etiquetas — é o que eu acho que está ocorrendo agora.

Grandes mentes não pensam parecido

Este é o del.icio.us, o serviço social de bookmarking (favoritos) de Joshua Shachter. É para pessoas que querem cuidar de suas URLs sozinhos, mas que querem compartilhar globalmente uma visão do que estão fazendo, criando uma visão agregada de todos os favoritos dos usuários, bem como uma visão pessoal para cada usuário.

[ Página Inicial do del.icio.us ]

Como você pode ver aqui, as características de uma entrada no del.icio.us são um link, uma descrição estendida opcional, e um conjunto de tags, que são palavras ou frases que os usuários anexam a um link. Cada usuário que adiciona um link ao sistema pode dar a ele um conjunto de tags – alguns o fazem, outros não. Anexadas a cada link na página inicial estão as tags, o nome do usuário que a colocou, o número de outras pessoas que adicionaram o mesmo link e o tempo.

As tags são simplesmente etiquetas para URLs, selecionadas para ajudar o usuário na recuperação posterior dessas URLs. As tags tem o efeito adicional de agruparem URLs relacionadas. Não há um conjunto fixo de categorias ou escolhas oficialmente aprovadas. Você pode usar palavras, acrônimos, números, o que fizer sentido pra você, sem se preocupar com as necessidades, interesses ou requerimentos de ninguém mais.

A adição de algumas simples etiquetas dificilmente parece tão momentânea, mas a surpresa aqui, bem como geralmente é com a Web, é a surpresa da simplicidade. Tags são importantes principalmente pelas coisas que elas deixam de fora. Por ir além da classificação formal, as tags permitem uma grande quantidade de valor organizacional produzido pelo usuário, a um custo impressionantemente pequeno.

Existe uma comparação útil entre o gopher e a Web, onde o gopher era melhor organizado, melhor mapeado a práticas institucionais existentes, e intrínsecamente inadequado para se trabalhar numa escala de internet. A web, em contraste, foi e é uma completa bagunça, com apenas uma marca de apontador, a URL, e nenhum mecanismo para organização global ou fontes. A web é geralmente notável por duas coisas – a forma que ignorou a maioria das teorias de hipertexto e metadados ricos, e como funciona melhor do que qualquer uma das alternativas propostas. (As estratégias Yahoo/Google que mencionei mais cedo também entram nessas linhas).

Com essas mudanças em andamento, aqui estão algumas das coisas que eu acho que estão aparecendo, como vantagens de sistemas de tags:

Lógica de Mercado – Como nos acostumamos à falta de restrições físicas, enquanto internalizamos o fato de que não existem prateleiras e não existem discos, nós estamos indo em direção à lógica de mercado, onde você lida com motivação individual, mas valor de grupo.

Como o Schachter diz do del.icio.us, “Cada esquema de categorização individual vale menos do que um esquema de categorização profissional. Mas existem vários, vários outros deles”. Se você achar um modo de fazer que a etiquetagem seja valorosa para os indivíduos, você gerará muito mais dados sobre qualquer objeto do que se você pagasse um profissional para etiquetar uma vez apenas. E se você pode encontrar qualquer modo de criar valor de combinar uma miríade de classificações amadoras ao longo do tempo, eles serão mais valorosos do que esquemas de categorizações profissionais, particularmente com relação à robustez e custo de criação.

O outro valor essencial da lógica de mercado é que as diferenças individuais não precisam ser homogenizadas. Busque pela palavra “gay” em quase qualquer categoria de nível alto. Você não irá achá-la, mesmo, como um princípio de organização para um grande grupo de pessoas, essa palavra importe muito. Usuários não participam desse tipo de discussões sobre esquemas tradicionais de categorização, mas com a etiquetagem, qualquer um é livre para usar as palavras que ele ou ela pensa que sejam apropriadas, sem ter de concordar com ninguém mais sobre como algo “deveria” ser etiquetado. A lógica de mercado permite que vários pontos distintos de visão co-existam, por que permite que indivíduos preservem seu ponto de vista, mesmo em face de um desacordo geral.

Usuário e Tempo são Atributos centrais – Isso é absolutamente essencial. A atitude do ontologista do Yahoo e de sua equipe foi — “Nós somos o Yahoo, nós não temos preconceitos. É assim que o mundo funciona. O mundo é organizado em uma dúzia de categorias”.

Aqui, por que você pode derivar ‘isso é quem esse link é foi etiquetado por’ e ‘isso é quando foi etiquetado, você pode começar a fazer inclusão e exclusão acerca de pessoas e tempo, não apenas tags. Você pode começar a fazer agrupamento. Você pode começar a decair. “Deixe-me ver as tags desse grupo de usuários, eu queria ver sobre o que eles estão falando” ou “Me dê todas as tags com essa assinatura, mas qualquer coisa que seja mais velho do que uma semana ou um ano”.

Isso é etiquetagem em grupo – não toda a população e não apenas eu. É como permissões do Unix – agora mesmo temos tags para usuário e mundo, e esta é a base na qual estaremos inventando etiquetas de grupos. Nós vamos começar a ser capazes de fazermos subconjuntos de nossos esquema de categorização. Ao invés de ter categorizações massivas e então categorização especializada, nós teremos um espectro entre elas, baseado no tamanho e feitura de vários grupos de etiquetagem.

Perda de Sinal da Expressão – A perda de sinal em esquemas de categorização tradicionais vem da compressão de coisas em um número restrito de categorias. Com a etiquetagem, quando há perda de sinal, ele vem de pessoas que não tem nada em comum ao falar de determinado assunto. A perda é da multiplicidade de pontos de vista, ao invés de compressão em torno de um único ponto de vista. Mas num mundo onde pontos de vista suficientes podem prover algum tipo de comundade, a perda de sinal agregado cai em escala em sistemas de etiquetagem, enquanto cresce em escala em sistemas com únicos pontos de vista.

A solução para este tipo de perda de sinal é o crescimento. Esquemas bem administrados bem organizados ficam piores com escala, tanto por que os custos em apoiar tais esquemas em largos volumes são proibitivos, e, como notei mais cedo, a escala ao longo do tempo é também um problema sério. Etiquetagem, ao contrário, fica melhor em larga escala. Com uma multiplicidade de pontos de vista a questão não é mais “Está todo mundo etiquetando os links ‘corretamente’”, mas “Está todo mundo etiquetando como eu?”. Ao longo que pelo menos uma pessoa etiquete algo do mesmo modo que você, você achará – usando um tesauro para forçar as etiquetas de todo mundo em uma sincronicidade mais afiada na verdade pioraria o ruído que você conseguiria com seu sinal. Se não existem estantes, então mesmo imaginar que existe um modo certo de organizar as coisas é um erro.

A filtragem é feita Post Hoc – Existe uma analogia aqui com cada jornalista que já olhou a Web e disse “Bem, isso precisa de um editor”. A web tem um editor, e é todo mundo. Num mundo onde publicações são caras, o ato de publicar é também um atestado de qualidade – o filtro vem antes da publicação. Num mundo onde publicação é barato, colocar algo a mostra não diz nada sobre sua qualidade. É o que acontece depois que é publicado o que importa. Se as pessoas não apontam pra ele, outras pessoas não lerão. Mas a idéia que a filtragem seja depois da publicação é incrívelmente forasteira para os jornalistas.

Similarmente, a idéia de que a categorização é feita depois de as coisas serem etiquetadas é incrívelmente estranha para catalogadores. Muito do gasto de sistemas de catalogação existentes está na tentativa de prevenir categorias únicas. Com etiquetagem, o que você diz é “Contanto que várias pessoas estejam etiquetando qualquer link, as tags raras podem ser usadas ou ignoradas, com o gosto do usuário. Nós não precisaremos nem aumentar o custo para prevenir que as pessoas o usem. Nós só ajudaremos outros usuários a ignorá-las se quiserem”.

Novamente, escala vem salvar o sistema de um modo que simplesmente quebraria os esquemas de catalogação tradicionais. A existência de uma etiqueta esquisita ou incomum é um problema se é a única forma que um determinado link possa ser etiquetado, ou se não há outra forma de um usuário evitar esta tag. Uma vez que o link foi etiquetado mais de uma vez, no entanto, usuários podem ver ou ignorar as tags esquisitas como bem querem, e a decisão sobre quais tags a serem usadas surgirão após os links já terem sido etiquetadas, não antes.

Mesclados de URLs, não Categorias – Você não mescla esquemas de etiquetagem no nível de categoria e então vê quais são os conteúdos. Com a idéia de mesclar ISBNs, você mescla conteúdos individuais, por que nós agora temos URLs únicas. Você mescla das URLs, e então tenta derivar algo sobre a categorização a partir daí. Isso permite que mesclagens parciais, incompletas ou propabilísticas que são melhores encaixem-se em ambientes incertos – tais como o mundo real – do que esquemas rígidos de classificação.

Mesclagens são Probabilísticas, não binárias – Mesclagens criam uma sobreposição parcial entre tags, ao invés de definirem tags como sinônimos. Ao invés de dizerem que qualquer tag “é” ou “não é” o mesmo que outra tag, o del.icio.us é capaz de recomendar tags relacionadas dizendo “Várias pessoas que etiquetaram isso como ‘Mac’ também etiquetaram como ‘OSX’”. Mudamos de uma escolha binária entre dizer que duas tags são a mesma ou diferente a opção do diagrama de Venn de “tipo/de alguma forma é/tipo é/sobrepõe neste grau”. Essa é uma mudança realmente profunda.

Distribuições de Tag no del.icio.us

Aqui está algo que demonstra o que quero dizer sobre o fim da categorização binária.

[ Tags por usuário ]

Essa é uma tabela baseada numa pequena amostra de links da página inicial do del.icio.us, tirada durante um intervalo de 2 horas. O eixo X são os 64 usuários que postaram links durante esse período. O eixo Y é o número total dos tipos discretos de tags que esses usuários já usaram em sua história no del.icio.us

A tabela mostra uma grande variedade em estratégias entre os vários usuários. O usuário da extrema esquerda tem um enorme número de tags únicas, quase 600. E então existe esse grupo de pessoas que não são etiquetadores muito ativos mas que tem algumas tags, e claro na direita deles há a cauda longa característica de pessoas que usam bem menos tags do que os etiquetadores ativos. (Uma vez que é só uma imagem de duas horas, existe uma tendência natural sobre usuários frequentes do del.icio.us. Estou tentando conseguir um conjunto mais amplo de informações. Minha opinião é que a cauda vai um pouco mais longe que isso). Mas é assim que a organização se parece quando você a entrega aos usuários — várias estratégias diferentes, cada uma funciona em seu próprio contexto, mas que também pode ser mesclada.

[ Tags de um único usuário ]

Essas são as tags de um único usuário. Daqui, você pode dizer algo sobre essa pessoa — ele ou ela é obviamente um programador de Flash — a tag mais comum aqui é Flash, seguido por um número de outras tags frequentes principalmente relacionadas a programação. Como a página inicial, essa distribuição tem a assinatura orgânica. Especialistas não catalogam assim; especialistas, que aprendem como catalogar produzem etiquetagens bem mais consistentes. Aqui, é o que quer que o usuário pensou que pudesse ajudá-lo a lembrar do link depois.

Você pode ver que há uma tag “to_read” (“para_ler”). Um catalogador profissional olharia pra essa tag horrorizado — “Isso é dependente de contexto e temporário”. Bem, também era a categoria “Alemanha Oriental”. Uma vez que você expande a sua escala de tempo para incluir a vida real da categorização do esquema em si, você reconhece que a distinção entre temporário e permanente é terrivelmente vaga. Não há na verdade uma condição binária de uma tag que não possa sobreviver a qualquer tipo de uma examinação a longo prazo.

[ 'Assinaturas' diferentes de tags para diferentes URLs ]

E então existe esse conjunto de gráficos. Isso é pra mim a mais interessante e menos compreendida parte do del.icio.us agora mesmo — essas são duas URLs diferentes e as tags que um grupo inteiro de usuários aplicou a elas. O gráfico embaixo refere-se a um site para download de antigas versões de programas que não são mais distribuídos. Você pode ver aqui que há um amplo consenso comum. 140 pessoas etiquetaram Software. Então, a próxima tag em comum, com apenas 20 ocorrências é Windows e então Velho, e Download, e assim por diante. Para essa URL, há um consenso núcleo — esse link é sobre software — e depois desse pequeno pedaço de comunidade, há uma queda muito brusca das tags.

O gráfico no canto superior direito, em contraste, mostra as tags para uma página detalhando como incorporar pesquisas permanentes no Gmail. Você pode ver as tags — Gmail, Firefox, Search, Javascript, GreaseMonkey — essa é uma distribuição muito mais dispersa, com uma queda muito menor. A visão de consenso é que esse link é sobre mais tipos de coisas do que o link de download de software é, ou, ainda, ocupa mais contextos para os usuários do del.icio.us do que o link de download de software.

Olhando para esse tipo de informação, nós podemos começar a dizer, de URL particulares, que os usuários etiquetando essa URL centralizaram ou não acerca de uma tag núcleo, com seu grau de certeza, e, graças aos moldes temporais, nós podemos até começar a entender como a distribuição de tags de URL muda através do tempo. Foram 5 anos entre espalhar o link e o Google perceber como usar coleções inteiras de links para criar valor adicional. Estamos no início do uso de etiquetas, então nós ainda não temos conjuntos amplos e de longa data de informações para olharmos, mas eles estão sendo construídos rapidamente, e nós estamos começando a descobrir como extrair um novo valor de coleções inteiras de etiquetas.

A Organização torna-se orgânica

Estamos mudando da categorização binária — livros são ou não são entretenimento — para esse mundo probabilístico, onde N% dos usuários pensam que livros são entretenimento. Pode até ser que dentro do Yahoo, tenha existido um grande debate sobre livros serem ou não entretenimento. Mas esse debate não se refletiu de nenhuma forma ou eles decidiram não expôr isso aos usuários. O que aconteceu ao invés disso foi que isso se tornou uma categorização tudo ou nada, “Isso é entretenimento, isso não é”. Nós estamos deixando de lado esse tipo de declaração absoluta, e seguindo na direção de sermos capazes de desenvolver esse tipo de valor observando como as pessoas lidam com isso na prática.

Aparece ultimamente como uma questão filosófica. O mundo faz sentido ou nós fazemos o sentido do mundo? Se você acredita que o mundo faz sentido, então qualquer um que tente fazer sentido do mundo diferentemente de você está lhe apresentando uma situação que precisa ser reconciliada formalmente, por que se você entendê-la errado, você está entendendo o mundo de forma errada.

Se, por outro lado, você acredita que nós fazemos sentido do mundo, se nós estamos, de um bando de diferentes pontos de vista, aplicando algum tipo de sentido ao mundo, então você não precisa privilegiar uma categoria em detrimento de outras. O que você faz ao invés disso é tentar achar modos que o sentido individual possa desenvolver-se para algo que é de valor agregado, mas você faz isso sem um objetivo ontológico. Você faz isso sem um objetivo de explicitamente tentar ou até mesmo combinar alguma visão teoricamente perfeita do mundo.

Criticamente, a semântica aqui está nos usuários, e não no sistema. Esse não é um modo de fazer com que os computadores entendam as coisas. Quando o del.icio.us está me recomendando etiquetas, o sistema não está dizendo “eu sei que o OSX é um sistema operacional. Entretanto, eu posso usar lógica predicada para aparecer com recomendações — usuários usam software, software é usado em sistemas operacionais, OSX é um tipo de sistema operacional — e então dizer ‘Aqui Sr. usuário, você pode gostar destes links”.

O que ele está fazendo ao invés disso é muito mais simples:”vários usuários etiquetando coisas como foobar também estão etiquetando coisas como forbnitz. Eu direi ao usuário que foobar e frobnitz são relacionados”. Cabe ao usuário decidir se aquela recomendação é ou não útil — del.icio.us não faz idéia do que aquela etiqueta significa. A sobreposição da etiqueta está no sistema, mas a semântica está nos usuários. Essa não é uma forma de injetar significado linguístico na máquina.

Tudo é dependente do contexto humano. Isso é o que estamos começando a ver com del.icio.us, com o Flickr, com sistemas que estão permitindo e agregando tags. O benefício notório desses sistemas é que eles não recriam a categorização estruturada e hierárquica que geralmente nos é forçada pelos nossos sistemas físicos. Ao invés disso, estamos lidando com um rompimento significativo — por deixar os usuários etiquetarem URLs e agregarem essas etiquetas, nós seremos capazes de construir sistemas organizacionais alternados, sistemas que, como a Web em si, fazem um trabalho melhor de deixar individuos criarem valor uns para os outros, geralmente sem perceber isso.

Muito Obrigado.

Obrigada a Alicia Cervini pela inestimável ajuda editorial.

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Tradução livre: Isadora Garrido. Revisão superficial: Fabiano Caruso.

Original disponível no Clay Shirky’s Writings About the Internet

Reinventando a publicação acadêmica online. Parte I: Rigor, relevância e prática

Posted September 5th, 2009 in Artigos e Estudos by ExtraLibris

por Brian Whitworth e Rob Friedman

tradução colaborativa de Isadora Garrido, Gustavo Henn e Moreno Barros

Artigo original publicado no First Monday, Volume 14, Número 8 – Agosto 2009

Traduzido com autorização dos autores.


O papel do intercâmbio de conhecimento acadêmico

Introdução

Caveat lector: iterações anteriores do que você está prestes a ler foram descartadas por editores e revisores de sistemas de informações (SI), desde o primeiro esboço escrito em 1999, após uma discussão sobre rigor/relevência no ISWorld. Muitos anos de rejeição o confirmam como impublicável no SI. Isso se dá, em uma parte, porque artigos de alto nível sempre apresentam falhas, e em outra parte porque sugerir aos seu alfaiates que o imperador da publicação acadêmica está vestindo apenas o tapa-sexo do rigor é imprudente. Se você acredita que o sistema de publicação acadêmica está “perfeitamente vestido”, não precisa continuar lendo esse artigo, pois aqui nós argumentamos que existem problemas sérios em relação a isso e que precisam ser abordados. Os nossos alvos não são os diversos bons autores, sábios revisores e editores de nossa área, muitos dos quais são nossos amigos pessoais. O nosso alvo é o sistema de troca de conhecimento feudal sob o qual eles atualmente trabalham. Enquanto a academia abrange muitas disciplinas, o nosso processo evidencial é o campo de uso tecnológico – o leitor deve julgar por si mesmo em sua área. Ainda que muito do mesmo processo já tenha sido realizado no campo da física quântica (Smolin, 2006), nossas conclusões podem beneficiar outros campos.

A parte I argumenta que o atual modelo de entraves [gate-keeping] da publicação acadêmica está funcionando pobremente enquanto o conhecimento se abrange e interage, e que a publicação acadêmica precisa se reinventar para se tornar inclusiva e democrática em vez de exclusiva e plutocrática. A parte II sugere um modelo para alcançar isso utilizando ferramentas sócio-técnicas bem sucedidas.

Sistemas de Intercâmbio de Conhecimento

Seguindo o modelo troca de conhecimento de Willinsky (2000) um sistema de intercâmbio de conhecimento (SIC) tem a intenção de produzir conhecimento humano de qualidade através de:

1. Desenvolvimento: Criar novos conhecimentos que não existiam antes. O sistema prevê hoje as idéias importantes de amanhã? A pesquisa está no estado da arte?

2. Discriminação: Discriminar a boa qualidade do conhecimento através da avaliação por pares. O conhecimento parece ser verdadeiro? Os argumentos são lógicos e as afirmações válidas?

3. Disseminação: Disseminar e apresentar bem o conhecimento. Os leitores são educados? O conhecimento é útil, bem escrito, claro e atual?

Um sistema de intercâmbio de conhecimento é bem sucedido se ele produz bons conhecimentos, seja fisica ou electronicamente. Essa definição inclui sistemas não-acadêmicos como a Wikipedia, caso eles criem, discriminem e disseminem conhecimentos. Certamente é esperado que uma revista acadêmica incentive novas pesquisas, separe as boas pesquisas das pesquisas ruins e eduque seus leitores (Paul, 2005).

Nós vislumbramos um SIC (sistema de intercâmbio de conhecimento) como um pomar cujo “frutos” de pesquisa surgem a partir dos seus papéis:

1. Desenvolvimento: novas idéias entram no mundo acadêmico como sementes, inicialmente pequenas e frágeis, necessitando de tempo e apoio para crescer. Da mesma forma quealguém pode não saber o que uma semente se tornará até que ela brote, uma nova idéia pode ser pouco clara até que se desenvolva. Assim como um pomar que não é regado ou adubado produz apenas frutos atrofiados, aos artigos precisam de revisão para se desenvolver. Assim como um pomar que não planta novas sementes logo terá somente plantas velhas, um SIC que não planta novas teorias logo se tornará intelectualmente improdutivo.

2. Discriminação: Esse papel é como cortar o mato ou podar galhos doentes das árvores, sem os quais o pomar crescerá demais e a doença pode se espalhar. Da mesma forma, um SIC que não discrimina uma má pesquisa pode crescer em falso, uma vez que erros reproduzem erros, assim como o mato reproduz mato.

3. Disseminação: Esse papel compara-se a empacotar e entregar as frutas ao consumidor. Como as frutas devem parecer boas na loja, da mesma forma os trabalhos publicados devem parecer profissionais, e assim como a fruta deve sair do pomar para a loja antes de apodrecer, os periódicos devem publicar um artigo enquanto ele ainda é relevante.

A visão alternativa, e dita estabelecida, é de que os acadêmicos são os mantenedores dos “canais guardados do conhecimento” [1], que protegem o conhecimento de alta qualidade como soldados guardam um castelo. Por conta disso, não é com surpresa que vários periódicos hoje tem a mentalidade de estar “sob cerco” semelhante aos donos de castelos [2]. Socialmente falando, aqueles que administram os “memes” de conhecimento aceito construiram em torno de si mesmos muros de conhecimento protecionistas que contêm jargões e costumes tão fortes que apenas as pessoas de dentro são capazes de cruzá-los. O conhecimento acadêmico tornou-se o monopólio de uma classe ou casta protecionista, que zelozamente guarda seu acesso[3].

Enquanto a ciência uma vez já consistiu de amadores cultivando jardins de conhecimento privado, hoje ela é organizada em feudos especialistas que defendem-se vigorosamente. Os acadêmicos são agora guardiões dos castelos do conhecimento feudal, e não humildes jardineiros do conhecimento. Eles têm por mais de um século organizado, especializado e construído com sucesso os muros contra erros. Entretanto o problema com os castelos, sejam físicos ou intelectuais, é que eles dominam a paisagem, fazem com que a maioria seja subserviente e apática, e luta para que seu poder reduza a produtividade. Enquanto a pesquisa cresce, o feudalismo do conhecimento, assim como a sua vertente física, é um avanço social que já teve o seu momento.

A divisão entre teoria e prática

Apesar dos progressos da pesquisa parecerem contínuos e racionais, na realidade eles são marcados por frequentes descontinuidades (Bryson, 2003) e revoluções ocasionais (Kuhn, 1970). É fácil esquecer como invenções “óbvias” como o celular e o email estiveram além do zeitgeist de seus tempos (Smith, et al., 2002). As previsões de 1995 para o futuro do software por exemplo não incluiram o desenvolvimento do código aberto, embora o Linux estivesse lá para todos verem (Campbell-Kelly, 2008). Avanços como salas de chat, blogs, mensagens instantâneas e wikis não são altamente noticiados, ainda que esses simples sistemas distribuídos sejam “aplicações sensacionais”, enquanto os tão falados sistemas centralizados como os da IBM estavam fadados à irrelevância (Nunamaker, et. al., 1991).

O Google, com sua simplória tela branca e um retângulo para inclusão de texto “dominou” o mercado dasmáquinas de busca, e não o Yahoo, com seus gráficos multimídia. Pessoas que investiram em banda larga esperando um aumento da demanda por multimídia perderam dinheiro, assim como aqueles que investiram em capacetes multimídia para jogos de realidade virtual. Os videofones não estão varrendo o mundo, apesar da tecnologia e do marketing, mas ao contrário, já que as mensagens de texto se tornam mais populares do que as conversas telefônicas.

Certamente a riqueza da mídia é importante, mas quem previu os jogos em rede, onde a “riqueza” é criada pela interação humana e não o meio em que ocorre? As teorias de usabilidade daquela época, junto com 25.000 horas de testes de usuários, previram que os gráficos amigáveis do Mr. Clippy [o boneco em forma de clipe no Microsoft Word] seriam um enorme sucesso (Horvitz, 2004), mas na verdade foi um dos maiores fracassos dos softwares em 2001 (PC Magazine, 2001). Quando perguntados por que produtos baseados em texto como os blogs e e-mail foram bem sucedidos enquanto produtos multimídia e amigáveis como o Mr. Clippy falharam, os principais expoentes teóricos dos SI se mantêm estranhamente silenciosos. A Microsoft ainda parece não estar ciente ser do problema (Pratley, 2004) de que o Mr. Clippy é socialmente indesejado (Whitworth, 2005).

Se serve de consolo, a máxima que diz “a prática floresce aonde a teoria enfraquece” tem uma longa história na computação. Mais de 25 anos atrás críticos proclamaram que o papel estava morto e que seria trocado pelo “escritório sem papel” eletrônico (Toffler, 1980), mas apesar disso hoje nós usamos mais papel do que nunca. James Martin previu que os geradores de programa tornariam os programadores obsoletos, e apesar disso a programação permanece como uma próspera indústria. Supôs-se que uma semana com só três dias de trabalho se tornaria real na “sociedade do ócio” no momento em que as máquinas realizassem todo o trabalho humano, mas os trabalhadores de hoje estão muito mais ocupados do que jamais estiveram (Golden and Figart, 2000). Supôs-se que o e-mail serveria apenas para tarefas de rotina, que a Internet entraria em colapso sem um controle central e que a Inteligência Artificial tomaria o lugar das pessoas, e por aí vai.

Cada caso tem um grão de verdade, mas para o uso da tecnologia o poder de previsão da teoria tem sido fraco e a distância entre a teoria e a prática está se ampliando. Na analogia de Eric Raymond (1997), o bazar da prática tecnológica está “bombando” enquanto a catedral da teoria tecnológica está em declínio, já que uma encontra-se aberta e a outra, fechada.

Reduzindo a distância

Dado o distanciamento entre ambas, pode a teoria ou a prática seguirem seus caminhos sozinhas (Kock, et al., 2002)? A teoria sozinha oferece especulações metafísicas sobre o número de anjos na cabeça de um alfinete, enquanto a prática sozinha significa uma dolorosa evolução de tentativas e erros. A teoria e a prática devem trabalhar juntas, apontando dois caminhos para o progresso:

1. O caminho da prática: encontrar o que funciona por meio de tentativa intuitivas e erros, e então explicar o processo com teorias. Aqui, a teoria é aplicada depois de um avanço prático ter sido concluído.

2. O caminho da teoria: desenvolver uma nova visão teórica e então desenvolvê-la na prática. Aqui, a teoria é usada antes do progresso ocorrer.

No primeiro caminho, a prática inova e então a teoria explica, enquanto que no segundo caminho, a teoria visiona e então a prática constrói. Programas bem sucedidos normalmente envolvem os dois caminhos, por exemplo, os foguetes foram construídos inicialmente sem uma base teórica, mas agora a teoria é primordial para que um foguete espacial decole. Nenhuma das abordagens é “melhor” já que o progresso necessita de ambas. No campo da tecnologia da informação, todavia, a relação teoria/prática parece quebrada, como se os construtores do foguete achassem que quanto menos soubessem sobre a ciência dos foguetes seria melhor para que seu foguete decolasse.

Os pesquisadores de hoje normalmente constroem primeiro um novo website, uma interface ou ferramenta, e depois procuram por uma teoria conveniente para publicá-la, isto é, a teoria agora meramente assessora a prática. De fato a abordagem “todo poder para o artefato de TI” (Benbasat e Zmud, 2003) leva acadêmicos a teorizarem sobre como os artefatos de TI são construídos, como são usados e como eles impactam organizações, de maneiro que primeiro se cria um artefato e então, a teoria. Contraditoriamente os teóricos de SI/TI cada vez mais dão uma resposta à suas idéias do tipo “mostre-me, não fale”.

O que é uma teoria senão a destilação da prática prévia? Se os físicos tivessem tratado Einstein desse jeito ele teria que construir um acelerador de partículas para ser ouvido. No casamentos da teoria e prática nos SI os parceiros raramente falam um com o outro – a prática acha que a teoria é improdutiva e a teoria reclama que a prática nunca a escuta (Klein e Hirschheim, 2003).

Entretanto, uma abordagem pragmática do tipo “tentar e analisar” trabalhando sozinha tem sérios limites. Apesar de os frutos iniciais da árvore do conhecimentos aparecem facilmente nos galhos mais baixos, percebe-se rapidamente que a árvore não oferece grandes frutos com muita frequênca. É necessário usar a escada da teoria para alcançar aos frutos mais altos. A abordagem da caixa de ferramentas esbarra em sistemas complexos os quais por definição possuem mais chances dar errado do que certo, por exemplo, imagine gerenciar o programa espacial ou o programa nuclear por tentativa e erro!

Criar uma nova sociedade online global é um sistema tecno-social tão complexo quanto qualquer programa espacial, já que os sistemas tecno-sociais precisam tanto da performance social quanto técnica para serem bem sucedidos (Whitworth and Moor, 2009c). Nós não podemos esperar progredir apenas por “tentativa e erro”. Se a teoria e a prática são as duas pernas do progresso científico, uma perna teórica machucada é um problema grave. Nós agora vamos apontar a principal causa deste rigor desequilibrado.

A questão do rigor

Se o trabalho rigoroso é menos propenso a apresentar erros, então nos parece que quanto mais rigor, inevitavelmente melhor o trabalho será. Todavia, a pesquisa teórica possui dois tipos de erros, e não um:

1. Tipo I. Erros de comissão: coisas realizadas que estão erradas.

2. Tipo II. Erros de omissão: coisas não realizadas que poderiam ter dado certo.

O erro do Tipo I considera um resultado falso como verdade, enquanto o erro do Tipo II rejeita um resultado verdadeiro, dizendo-o ser falso.(Rosenthal and Rosnow, 1991) [4]. Assim, os periódicos podem errar de duas maneiras:

I. Publicando o que depois se mostra errado (erro de comissão)

II. Não publicando o que depois se mostra certo (erro de omissão)

Enquanto o segundo caso normalmente é negligenciado, os custos de oportunidade (o valor perdido pelas oportunidades perdidas) são uma das principais causas do insucesso desse modelo (Bowman, 2005). O WordPerfect não domina mais o processamento das textos não por conta das falhas cometidas, mas por perder a oportunidade de usabilidade que o Microsoft Word tomou pra si. Do mesmo modo, a comunidade acadêmica do hipertexto subestimou a idéia de World Wide Web de Berners-Lee, vendo o HTML como uma linguagem de marcação muito simples, mas não conseguiu perceber o seu enorme potencial (Berners-Lee, 2000). Rejeitar a ideia por trás da World Wide Web foi um erro do tipo II cometido por essa comunidade acadêmica, que perdeu a chance de fazer parte daquele progresso. O ponto em questão é que os erros do tipo II são erros verdadeiros com consequências reais.

Esses erros se equiparam, de modo que a redução de um aumenta o outro, por exemplo, um jornal pode reduzir os erros de Tipo I a 0% simplesmente rejeitando todas as submissões, mas isso também faz com que os erros de Tipo II aumentem para 100 por cento uma vez que nada útil é publicado. O príncipio do senso comum é que para ganhar na loteria (ser valorizado) você tem que fazer alguma jogada (arriscar). Nas publicações acadêmicas, o problema de rigor ocorre quando a redução do erro de Tipo I aumenta os erros de Tipo II, isto é, quando mais rigor representa a diminuição da performance do SIC.

Um bom intercâmbio de conhecimento reduz os tipos I e II de erros, evitando falhas e garantindo oportunidades. Ou seja, rejeitar um artigo com nove boas idéias e um ruim em nome do rigor seria o mesmo que trocar nove oportunidades por um risco. Considerando o objetivo geral do SIC de ampliar o conhecimento, essa pode ser uma má idéia.

A “ladeira” uni-dimensional do rigor não é o caminho para melhores pesquisas (Davenport and Markus, 1999). Se o rigor é meramente um fator higiênico para a relevância, ele apenas tem valor se estiver combinado a ela. Enquanto a comida sem higiene pode nos deixar doentes e nos levar a morte, a higiene sem comida nos leva a morte certa. Da mesma maneira, embora reduzir rigorosamente os erros de Tipo I melhora a saúde dos periódicos, evitar os erros de relevância Tipo II é crítico para a sua sobrevivência.

Nós acreditamos em rigor, mas enxergamos a performance do sistema como um misto de vários critérios (Whitworth, et al., 2008), que “contra-atacam” se um critério é exclusivamente reverenciado à custa de outros (Tenner, 1996). O melhor modelo de performance de intercâmbio de conhecimento é o de uma fronteira eficiente – uma linha de vários pontos que define o melhor que se pode conseguir de rigor dado um valor de relevância (Keeney and Raiffa, 1976). Buscar o rigor por si só produz rigor mortis na vertente teórica do progresso científico.

O papel da pesquisa

Se o excesso de rigor reduz a inovação e faz com que a teoria se distancie da prática, pelo menos no SI, por que não mudar a estratégia? Certamente acadêmicos preferem fazer parte da onda de tecnologia do que correr atrás dela.

Esses problemas tem sido aparentes por algum tempo (Szajna, 1994; Robey and Markus, 1998; Davenport and Markus, 1999). A falta de mudança real sugere que este é um problema social e não informacional. Originalmente, o objetivo principal da academia era produzir, assessorar e disseminar o conhecimento, e seu papel secundário era ajudar a alocar recursos de investimentos. Hoje pode-se discutir que o papel de alocação de investimentos supera o papel do crescimento de conhecimento.

No grande negócio da administração de universidades, rankings de departamentos, fundos para pesquisa, bolsas de estudo e alocações de bibliotecas, todos dependem das publicações (Rainer and Miller, 2005). Enquanto o objetivo principal da pesquisa é buscar a verdade, as publicações hoje são o primeiro mecanismo para agendas acadêmicas, verbas e promoções (Katerattanakul, et al., 2003). Dizer que o objetivo das publicações acadêmicas é desenvolver, selecionar e difundir conhecimento é ingênuo quando as revistas acadêmicas direcionam todas as contratações e demisssões de uma universidade (Lowry, et al., 2007).

Quando um sistema se torna o mecanismo para o poder, enriquecimento e controle, os objetivos idealizados, como a busca pela verdade, podem facilmente ficar em segundo plano. Autores podem não querer que seu trabalho fique trancafiado em revistas caras que apenas universidades ocidentais financiadas podem comprar, mas a exclusividade do negócio exige isso. Autores podem pessoalmente ver os outros como colegas em uma jornada de pesquisa cooperativa, mas o sistema os coloca como competidores por empregos e financiametos. Uma vez que a academia se torna um negócio, novas idéias tornam-se ameaças ao poder, ao invés de oportunidades para o crescimento do conhecimento. As revistas se tornam guardiãs do poder acadêmico ao invés de cultivadoras do conhecimento, e as teorias se tornam armas de batalha em arenas de promoção, ao invés de aradores em campos de conhecimento.

Que a maioria dos periódicos populares de SI agora aceitam em porcentagem de apenas um dígito ilustra o quão longe nós nos movemos da publicação para o aumento do conhecimento à publicação para relocar recursos. Pode um sistema onde a rejeição é a norma clamar que seu objetivo principal é produzir valor de conhecimento? Os cursos universitários também objetivam trocar conhecimento, mas um curso com 90% de reprovações seria moralmente inaceitável. No entanto, o intercâmbio de conhecimento acadêmico popular no SI funciona dessa forma. Simplesmente não é verdade que mais de 90% dos artigos rejeitados pelos “principais” periódicos tenham um valor mínimo. Na verdade nós sugerimos que são precisamente as novas idéias que são bloqueadas. Essa exclusividade já apresentou em seu nível máximo, nós argumentamos, um efeito tóxico na criatividade em pesquisas acadêmicas. A troca de conhecimento acadêmico tornou-se um sistema de autoridade e controle.

Pode-se justificar a distribuição de recursos financeiros excassas para os poucos, já que não há muito para distribuir, mas não se pode justificar distribuir o conhecimento desta forma, uma vez que distribuir conhecimento não o diminui. Enquanto os recursos físicas são distribuídos através de um modelo de soma zero, as fontes de informação seguem um modelo de soma não-zero (Wright, 2000), onde quanto mais se distribui, mais sinergia é criada (Whitworth, 2009a). A escassez esconomica não é argumento para a exclusividade do conhecimento.

Treinando o conformismo

O sistema acadêmico moderno se tornou praticamente um campo de treinamento para o conformismo. Estudantes de PhD [doutorado] passam de três a seis anos como aprendizes sob orientação, depois passam outros 3 a 6 anos buscando a segurança de um cargo estável. Em ambos estágios, criticar o establishment é arriscado, se você quiser uma carreira. Não é surpresa que seis a doze anos de treinamento produzam pessoas que seguem o decoro de suas frentes políticas. Ainda que se espere que jovens pesquisadores realizem avanços, um artigo escrito após um debate sobre rigor/relevância no ICIS 2005 os adverte:

“Por ora, infelizmente, eu não recomendaria aos estudantes de PhD ou graduação a buscar por uma “pesquisa no SI que realmente importa”. Minha recomendação seria…. atenham-se aos caminhos de suas carreiras…. poucas pesquisas que realmente importam parecem ser publicáveis”. (Desouza, et al., 2006)

Em função da pressão por publicação, os líderes sêniors do SI explicitamente advertem os novos acadêmicos a não inovarem se eles desejam uma carreira! Como a palavra “infelizmente” sugere, eles não assumem responsabilidade por um sistema que ativamente leva os inovadores a realizarem seus avanços na prática, por exemplo, o movimento de indexação automática surgido nas universidades e transformado em empresas comerciais como o Google (Arms, 2008).

Enquanto a estratégia de evitar riscos – “risco-baixo, ganho-baixo” – pode funcionar para tarefas como a produção de rotina de uma fábrica, ela falha desastrosamente em áreas como o desenvolvimento de novas tecnologias, onde o sucesso requer uma estratégia de “risco-alto, ganho-alto”. Se a academia escolhe a segurança do rigor, isso reduzirá o seu valor percebido externamente:

“A síndrome publicar ou perecer desvalorizou o propósito original da pesquisa na universidade… levou líderes políticos e empresários a duvidar se o valor esperado das pesquisas em defesa, saúde e progresso realmente tem ocorrido.” [5]

Paradoxalmente, enquanto motivos acadêmicos como a verdade fazem da academia um bom negócio, os motivos “de negócios” como buscar o progresso tornam a academia falida. Quando um sistema acadêmico se torna um sistema de negócios ele perde ambos valores acadêmico e de negócio, e quando os objetivos de negócios superam os objetivos acadêmicos, ambos falham.

Mudando o sistema

Pode este sistema mudar a si mesmo? Pesquisadores IS tradicionalmente julgam a importância de um periódico por medidas como as percepções dos experts internos, o número de citações e o número de publicações (Hamilton e Ives, 1982). Todas estas medidas geradas internamente e auto-alimentadas favorecem o status quo. Como observa uma publicação acadêmica: “o que dá esse ambiente sua peculiar casta é o fato dos produtores do conhecimento serem também seus consumidores primários“. [6]

Sugestões para fazer os sistemas de avaliação de periódicos mais relevantes, acrescentando critérios como idade da publicação (Rainer and Miller, 2005), o tempo que leva para aprovação dos artigos (Snodgrass, 2003), o tamanho do público leitor e a avaliação da utilidade da publicação pelos leitores (Nerur, et al., 2005) tiveram pouco efeito.

Pesquisas atuais sobre a qualidade dos periódicos ilustram o contraste entre a ciência em busca de lucros e a ciência em busca pela verdade. Apesar de aceitar que “a ciência pode ser percebida como uma rede social que acumula, distribui e processa novos conhecimentos” [7], elas vêem a “qualidade” dos periódicos em termos de lucros dos atores:

1. De forma que os autores possam publicar em periódicos de qualidade (para melhor impacto na carreira);

2. De forma que os leitores possam selecionar periódicos de qualidade (para poupar tempo);

3. De forma que os comitês de promoção e decanos possam escolher sua equipe (mais facilmente); e,

4. De forma que as bibliotecas possam mais facilmente escolher as publicações de qualidade.[8].

A análise não contém nenhuma menção para o bem da comunidade que a descoberta da verdade proporciona, nem alguma realidade além dos ganhos individuais. A “qualidade” é assumida para se igualar ao rigor:

“É sabido que os periódicos de maior qualidade tendem a ter uma revisão mais exigente e maior controle de qualidade; então, os resultados contidos em seus artigos normalmente tem maior validade e autenticidade do que aqueles publicados em jornais de menor qualidade.” [9]

Ou seja, como arguido, igualar qualidade com rigor é um erro, posto que a qualidade necessita tanto de rigor quanto de relevância. Quando a academia incestuosamente avalia a si mesma por estudos de citação e avaliação de especialistas ela pode facilmente se tornar um sistema auto-sustentado desconectado da realidade externa (Kerattanakul, et al., 2003).

O caso dos Sistemas de Informação (SI)

A disciplina de sistemas de informação, que ensina como as pessoas e organizações usam tecnologia para processar, transmitir e armazenar informação, fornece um caso interessante.

A diáspora SI

Conforme as pessoas usam computadores para mais tarefas alguém pode achar que SI é um disciplina em rápido crescimento, mas esse não é o caso. Ainda que a prática tenha inovado na década passada sistemas como eBay, Wikipedia e YouTube, o SI da  academia, enfraquecido pelo rigor, tem rastejado o melhor que pode. Conforme foi encarando a inevitabilidade do deserto de irrelevância, seu valor passou a ser questionado, e os financiamentos das pesquisas em SI começaram a secar (Robey e Markus, 1998):

“Devido à descontinuidade na transferência do conhecimento criada pelo SI acadêmico para todos os praticantes do SI, as fontes de financiamento para os esforços de pesquisas em IS são poucas e também estão em perigo”[10]

A pesquisa em SI combina contructos técnicos, humanos e sociais, requer métodos, medidas e análises mais complexas, que levam mais tempo para se realizarem. Quando disciplinas “lentas” como o SI rigorosamente se auto-sacrificam, o status de suas publicações sofre queda relativa a disciplinas mais especializadas em níveis de rigor comparáveis (Valacich, et al., 2006), causando diminuição da promoção, da segurança e das avaliações de peso para o campo do SI em comparação a outros campos (Kozar, et al., 2006). Seguir a exclusiva religião do rigor trouxe fome em vez de prosperidade para o SI.

Consequentemente, apesar de o crescente uso de tecnologias ao redor de mundo ter criado mais trabalhos, oportunidades e pesquisas, os docentes e pesquisadores do SI tem sido demitidos ou sub-utilizados. A disciplina de SI, por sua própria estratégia, conseguiu reduzir a si mesmo dentro de um mercado em expansão. O crescimento no número de alunos, funcionários e pesquisas foi absorvido por disciplinas vizinhas como a administração, engenharias, saúde, educação e computação, que adicionaram grupos de TI (Klein e Hirschheim, 2003); exemplificando, a computação médica e a informática emergiram para realizar um trabalho que a pesquisa estéril de SI falhou ao tentar.

Apesar da “diminuição do corpo docente de SI ter sido uma realidade durante anos” [11], refúgiados da debandada dos grupos de sistemas de informação agora existem em enclaves de disciplinas distintas, da engenharia a psicologia, quase sempre sob o nome de TI; por exemplo, o primeiro autor está em uma escola de ciências enquanto o segundo está nas artes liberais. O originalmente trans-disciplinar “sistemas de informação” é cada vez mais o negócio sub-disciplinar da gestão de sistemas de informação (GSI). Ao mesmo tempo que “… os conceitos pelos quais SI eram focados estão se tornando cada vez mais similares aos das outras disciplinas de administração.” (Hovorka, et al., 2009). Desde 1990 a função do SI no currículo de computação tem minguado e o currículo de TI tem se expandido em seu lugar  [12].

Esta diáspora disciplinar cresceu parcialmente através de uma tomada de assalto vinda de fora mas também através de uma visão interna míope preocupada em encontrar o santo graal da “identidade do SI”, seguindo estritamente a religião do rigor (Benbasat e Zmud, 2003). Esta visão umbigo-cêntrica focou a disciplina dentro de si mesma, quando ela deveria estar olhando para fora de si. Houve uma falha estratégica principal da visão e da liderança em SI, já que uma crescente disciplina acadêmica deveria ser um “pote de ouro” de novas idéias, e não uma piscina estagnada de velhas idéias.

Como o rigor restringe

Mesmo editores respeiados de Periódicos de SI reconhecem que há um problema: “Publicações de pesquisa em SI parecem não publicar o tipo ou conteúdo certo de pesquisa.”[13]. A causa que nós sugerimos está em conformidade social com velhas teorias. Por exemplo, duas teorias bem conhecidas em SI são:

1. Modelo de aceitação de tecnologia (TAM), que sugere avaliação dos usuários de tecnologia pela facilidade de uso e usabilidade (Davis, 1989).

2. Teoria da riqueza midática (MTR), que liga mídia “rica” a interações ricas (Daft, et al., 1987).

Essas teorias dominam o arcabouço teórico em SI, apesar delas terem mais de 20 anos e estarem mostrando sua idade – por exemplo, a “riqueza” da MRT sugere que pessoas não usarão mídia “tendênciosa” como o e-mail em relações sociais “ricas”, mas os amigos de hoje com frequência usam texto e chat. Ou o e-mail texto plano é uma “multimídia” rica ou a MRT hiper-simplifica a comunicação humana (Whitworth, 2009b). Similarmente, a premissa do TAM de que a facilidade de uso e usabilidade definem a aceitação de tecnologia é válida, mas omite critérios como segurança, confiabilidade e privacidade – críticos na Internet de hoje.

Certamente a TAM foi “extendida” por muitos fatores, como usabilidade, credibilidade, atratividade, auto-eficácia, controle comportamental, satisfação do usuário, aproveitamento e confiança (Moon e King, 2001;Heijden, 2003; Ong, et al., 2004; Taylor and Todd, 1995; Shih, 2004; Yu, et al., 2005; Pavlou, 2003).  Há um sabor de TAM para cada paladar ou necessidade, mas como todas essas variações trabalham juntas não está claro, já que nenhuma das que se enraizaram na árvore TAM de fato “pegou”. Esses vários pequenos “ajustes” para um modelo principal tem cancelado uns aos outros, levando a: “…um estado de caos teórico e confusão no qual não está claro qual versão das muitas versões de TAM é a versão comumente aceita.” [14]

A teoria unificada de aceitação e uso de tecnologia (UTAUT) (Venkatesh, et al., 2003) objetivou autoritariamente “atualizar” a TAM. Mesmo que repleta de detalhes acadêmicos, ela meramente renomeou o construto de usabilidade do TAM para uma expectativa de performance, renomeou o construto facilidade de uso para esforço de expectativa, e então combinou essa “maquiagem” TAM com 8 outros igualmente antigos construtos psico e sociológicos para criar um “novo” modelo. Tais tentativas de reanimar velhas teorias produzem teorias zumbis que vivem brevemente e então morrem sem “alarde”. Um exemplo antigo era a “teoria do processo de ganhos” (Nunamaker, et al., 1991; Vogel, 1993), que adaptou e com breve sucesso ressuscitou a antiga teoria do processo de perdas (1972) de Steiner.

Os praticantes de computadores não são tolos:

“Apesar de seus clamores de tentar acabar com problemas futurísticos, vários acadêmicos da ciência da computação continuam a possuir avenidas infrutíferas de pesquisa e resolvem problemas para, bem, ninguém. Numa tentativa constante de criar uma fachada de relevância e atrair fundos, eles reinventam sua pesquisa simplesmente mudando a terminologia usada em artigos antigos para refletir as novas tendências da indústria. É um modo fácil de publicar artigos que ninguém vai ler.” [15]

O problema não está nas “velhas mas boas” teorias mas sim em um sistema que parece incapaz de fazer crescer novas teorias ao seu redor. Dadas as enormes mudanças na computação desde a década passada, a falta de inovações teóricas nesse mesmo período é no mínimo perturbadora.

Estaria a incapacidade de criar novas idéias para uma nova geração computacional acontecendo por que não existem idéias disponíveis? Por que os autores novos acreditam que a única forma de obter uma nova idéia além dos atuais gatekeepers é associando-a a uma idéia antiga, como o TAM? O processo é implícito para que não saibamos, mas na experiência direta do primeiro autor um experimento validando uma teoria alternativa à TAM foi editorialmente rejeitado por JAIS em 2005 pela razão de que artigos que criticam a TAM nunca passavam da revisão. Essencialmente o mesmo artigo foi enviado e publicado em um boa via não-SI (Whitworth, et al., 2008). Incrívelmente, em 2007, uma série de artigos da JAIS se perguntavam se a TAM tinha “sobre-conquistado” o SI (Benbasat and Barki, 2007; Straub, 2007; Venkatesh, et al., 2007). Para ser claro, quando teorias idosas negam as luzes da publicação para novas, não se trata de uma conquista, e sim de uma exclusão.

Os periódicos de SI dizem que aceitam novas teorias mas na verdade as rejeitam em nome do rigor? MISQ recentemente rejeitou ediorialmente uma latente análise de método de categorização de 180 periódicos americanos e europeus que concluiu que fatores de comunidade estão por trás das publicações em SI  (Larsen, et al., 2008). Logo após isso, MISQ publicou um mesmo artigo com o método usando apenas 3 dos maiores periódicos americanos – que descobriur que o artefato de TI era central para a pesquisa em SI [16], seguindo uma teoria do editor senior (Benbasat and Zmud, 2003).

Os leitores podem julgar por si mesmos por que um amplo estudo com uma nova conclusão foi rejeitado mas um estudo limitado com uma velha conclusão foi aceito. O futuro do SI se baseia em artefatos ou comunidades? O leitor pode novamente decidir, mas artefatos são o nível mais baixo de tecnologia e comunidades são o nível mais alto do social, e conforme os sistemas sócio-tecnicos evoluem, os níveis mais altos são os que cada vez mais dirigem o progresso (Whitworth, 2009b)

A verdade é que é difícil publicar uma nova teoria num SI popular, se o “novo” não representa apenas um ajuste na teoria antiga e a “teoria” significa mais do que conjecturas especulativas. Inovação não é um termo que vem a mente quando alguém revisa a teoria do uso tecnológia, entretanto, na prática do uso tecnológico a verdade é precisamento o oposto. O fato de o progresso advir da prática – e não da teoria – sugere que as prioridades da teoria estão equivocadas.

Tendências feudais de intercâmbio de conhecimento

Nós descrevemos um sistema de intercâmbio de conhecimento feudal administrado por poucos voltado para poucos, apoiado ideologicamente pela igreja do rigor, financiado pelas fábricas universitárias de conhecimento, cujos objetivos são dominar e defender a pureza de feudos intelectuais especializados. Agora nós apontamos algumas tendências inevitáveis de tal sistema, novemente para o caso do SI.

Exclusivo

Um sistema de intercâmbio de conhecimento (SIC) é exclusivo quando o seu fluxo de informação dominante é restrito em escopo e contribuição. Numa economia competitiva, a escassez requer demanda, então taxas altas de rejeições em periódicos se tornam indicadores de qualidade. Isso cria um sistema auto-reforçante, onde periódicos exclusicos que rejeitam mais atraem mais, uma vez que sua exclusividade os faz mais atraentes. Quando o “fator de impacto” de um periódico é o número de citações dividido pelo número de publicações, publicar vários papers dilui o ranking de citação de um periódico (Lamp, et al., 2007). Quando a exclusividade é baseada no rigor, evitar erros se torna mais importante do que ter novas idéias. Aceitar erroneamente um paper com falhas oferece consequencias às reputações, enquanto erradamente rejeitar um papel útil não deixa evidência alguma, uma vez que não chega a ver a luz do dia.

Enquanto o campo de SI mudou consideravelmente na última década, seus rankings de periódicos permaneceram extraordinariamente estáticos ao longo do tempo (Rainer and Miller, 2005), e tentativas de criar mais periódicos “A” enfrentaram dificuldades (Avison, et al., 2006; Gallivan and Benbunan–Fich, 2007; Paul, 2007b). Ainda que uma pequena parcela dos principais periódicos seja a reponsável pela maior parte do “impacto” em artigos de SI, digamos, cerca de 60 papers por ano, representa pobremente um campo com potencialmente mais de 10.000 pesquisadores. Além disso,  MISQ e ISR geralmente apresentam contribuintes repetidos, geralmente professores seniors que editam ou fazem revisões para esses periódicos e conhecem as normas. O fato de revisores serem convidados, a maioria a partir de conexões informais entre os editores, clama criticas a uma “panelinha” que replica em sua própria imagem (Furnham, 1990).

A tendência é de alguns poucos periódicos exclusivos dominarem o cenário teórico. A alternativa proposta na Parte II, é um sistema mais democrático.

Datado

Um SIC é datado quando os seus fluxos de informação reportam principalmente assuntos que não são mais atuais. A falta de frequência em função da lentidão da publicação é uma perda de oportunidade do Tipo II. Qual é a utilidade da qualidade quando ela está atrasada o bastante para afetar as coisas, enquanto outros ou já resolveram ou ultrapassaram o problema? MISQ recentecem indicou que a lista de espera de artigos aceitos se extendeu por mais de um ano (Saunders, 2005). Hoje em dia tais demoras não são incomuns. Acrescente a isso um ou dois anos de revisão e um ou dois anos de coleta de dados e composição do artigo, e então os artigos “recém nascidos” já tem três-cinco anos de idade – um período de gestação extraordinariamente longo em qualquer definição. Muitos artigos de periódicos estão desatualizadas antes mesmo de serem publicados.

O rigor é mais fácil de ser mantido em relação a conteúdo conhecido. Uma revisão descobriu que os pesquisadores de SI em 1990 focaram nas questões que os praticantes da área enfrentaram uma década antes (Szajna, 1994), e a situação permanece a mesma nos dias de hoje. Quando os periódicos acadêmicos buscas os tópicos que interessam seus conselhos editoriais, eles se tornam registros do passado do conhecimento em vez de criadores de conhecimento.

A justificativa do rigor de que os artigos realmente bons serão publicados de alguma maneira em algum lugar, de forma que nada seja perdido por erros do Tipo II simplesmente não é verdadeira. No mundo glacial da publicação acadêmica, uma rejeição pode representar um atraso na publicação por cerca de dois-quatro anos. Dos bons artigos rejeitados, alguns desistem, outros se mudam para campos mais férteis, mas a maioria apenas se conforma com as “sugestões” dos revisores. Se os rejeitados não tentam novamente, publicação atrasada, como a jutiça, é publicação rejeitada, o que faz alguns sairem da academia por bem:

“Para jovens estudantes uma rejeição constante os deixa desiludidos e desapaixonados, especialmente se eles percebem que o processo de revisão é errôneo e destrutivo. Alguns deixam o jogo acadêmico depois de investir tanto de suas vidas equipando-se para jogá-lo”. [17]

O oposto de datado é atual, e apenas um sistema eletrônico de acesso aberto, como descrito na parte II, pode acompanhar os passos da mudança moderna.

Conservador

Um SIC é conservador se ele resiste à mudança e à inovação. Uma barra de rigor em crescimento significa que novas teorias enfrentam com uma carga de refutação maior do que as teorias antigas (Avison, et al., 2006). Que as novas teorias respeitem as antigas é sensato, mas quando elas enfrentam críticas que as antigas teorias também não respondem, então essas tomaram um atalho ao subir a árvore do conhecimento. Novas teorias raramente emergem do oceano como Venus, perfeitamente formadas e isenta de falhas. Geralmente, as novas idéias surgem imperfeitas e se desenvolvem apenas ao longo do tempo com a ajuda de outras. Então de qualquer modo, a presunção deveria ser ao contrário. Quando novas teorias precisam ser inteiramente provadas antes mesmo de serem propostas como questões de pesquisa, então nós temos a ciência ao avesso. Como Einstein disse (dizem): “Se nós soubessemos o que estamos fazendo, não seria chamado pesquisa, seria?”

Os docentes enfrentam longos períodos de tempo de revisão e baixos índices de aceitação, mas não há nada mais vital para sua sobrevivência do que mais publicação. Já que os membros dos comitês universitários geralmente classificam seus candidatos além de suas especialidades, a maneira mais fácil de garantir a aprovação é contabilizando o número de artigos publicados em periódicos qualis. Tais comitês raramente consideram o conteúdo diretamente, lendo os artigos de fato. Os números são ostensivamente mais “objetivos”, e também, convenientemente, poupam tempo.

Entretanto, para os autores, um artigo inovador envolvendo anos de trabalho, que transforma um campo e oferece uma pequena mudança em um artigo previamente publicado são considerados apenas como “um”. Quando o que é mensurado são as “visualizações” e não o valor do conhecimento, cabe aos autores elevar as visualizaçãos em vez do valor do conhecimento, publicando em grupos e “liberando aos poucos” as descobertas em vez de explorar outros tópicos – em outras palavras, se especializando.

Autores que inovam arriscam suas carreiras, mesmo que suas grandes inovações não tenham chance de florescer antes da decisão acerca dos seus vínculos com uma universidade. Não deveria ser assim. Os inovadores são os “agitadores” da academia – eles desafiam afirmações falsas de progressos no conhecimento. Um sistema que rejeita seus próprios agentes de mudança rejeita seu próprio progresso.

Novas idéias por definição contradizem a norma convencional, então há de se esperar que elas polarizem os revisores. Uma proposta que não ofenda alguém provavelmente não mudará nada. Porém, nas contratações acadêmicas, uma referência negativa pode acabar com um canditato[18], e em submissões à periódicos e preenchimentos de editais de financiamento, uma candidatura “perfeita” garante a pontuação máxima se ninguém se opor. Entretanto, se ninguém se opor ao seu trabalho você provavelmente não está fazendo nada de relevante. Uma marca da inovação é que ela polariza as pessoas – algumas amam, outras odeiam. O sistema de pontos da maioria das revisões despacha a criatividade.

Cem anos atrás Einstein inventou a relatividade especial trabalhando no escritório de patentes da Suíca, porque nenhuma universidade aceitou sua indicação. Entretanto, ele revolucionou a física. O sistema acadêmico de hoje é de alguma maneira mais convidativo aos não-ortodoxos? Será que o Einstein seria capaz hoje de conseguir um emprego e conseguir publicar? Se sim, a comunidade da ciência é a perdedora. Escolher a conformidade atraente em vez da inovação controversa é um erro estratégico do mais alto grau. Essa é a política que já produziu uma recessão no SI. Deve a academia em geral seguir o mesmo caminho? Como anotou o presidente da Academia Nacional de Ciência em 2003:

“Nós desenvolvemos um sistema de incentivos para jovens cientistas que é avesso aos riscos… os pares afiram que admiram quem assume riscos, mas geralmente investem em pesquisas seguras na hora de alocar recursos… isso ajuda a explicar porque muitos dos nossos melhores jovens estão fazendo a ciência do ‘eu também’”. [19]

A Parte II explora como mudar isso.

Não lido

Um SIC é considerado não-lido quando a maior parte de seu fluxo de informação não é lido ou compreendido. A leitura assídua de periódicos como o MISQ tem entrado em um agudo declínio há algum tempo (Benbasat and Zmud, 1999). Um levantamento entre 476 leitores de 130 periódicos sobre gestão indicou que 90 por cento dos artigos acadêmicos não são nem mesmo lidos pelos assinantes dos periódicos (Siggelkow, 2001). Como um antigo presidente da ACM nota “… cerca de dois milhões de artigos acadêmicos na ciência e nas engenharias são publicados a cada ano por 72.000 periódicos; a vasta maioria desses papers são lidos por algumas centenas de pessoas no máximo; na maioria das disciplinas, cerca da metade dos papers nunca são citados por nenhum outro autor”. [20]

A apatia de conteúdo é ilustrada quando os periódicos acadêmicos fazem convites para publicação, mas o editor não recebe nenhum. O “publicar ou perecer” produz acadêmicos interessados em seu próprio trabalho mas não no trabalho de outros? Por exemplo, autores que publicam em conferências, mas não participam delas, ou autores despreocupados se você acha que suas idéias estão erradas – contanto que você as cite. Por outro lado, por que tantos tentam publicar se tão poucos lêem seu trabalho? É uma crença ingênua de que outros se importam ou uma visão cínica de que contanto que você seja publicado/a, quem se importa se vão ler ou não?

Os leitores querem valores de conhecimento em troca pelo seu esforço de leitura. Mais rigor significa que artigos mais complexos requerem mais esforço para ler por geralmente o mesmo valor. Se os periódicos se sentem obrigados a publicar o artigo rigoros n+1 acerca de um tópico, esteja ele agregando valor ou não, os leitores recebem menos impacto semântico pelo seu investimento cognitivo, uma vez que autores reciclam as mesmas idéias em formas ainda mais sofisticadas. Se o rigor aumenta a complexidade do artigo e reduz as novas idéias por artigo, então os leitores podem se adequar a esse desequilíbrio reduzindo o esforço de leitura; por exemplo, passar os olhos sobre títulos ou resumos ao invés de todo o artigo. A moda do rigor faz com que os leitores criem seus “macetes” de leitura, ao invés de digerirem, o que depõe contra novas idéias.

Se o SIC democrático enunciado na Parte II permite que todos publiquem, isso não pioraria o problema da não-leitura, uma vez que teremos mais coisas pra ler? Sim – apenas se a motivação não mudasse, mas ela mudará. Enquanto em um sistema em que se evita o risco mais artigos representam mais erros a serem evitados, em um sistema que busca valores mais artigos representam mais valor potencial. Leitores usarão ferramentas eletrônicas como o Google Scholar, para fazer pesquisas positivas. Enquanto a literatura parece imensa, uma busca em um tópico específico pode produzir apenas um punhado de papers relevantes. Até mesmo papers imperfeitos podem ter partes boas ou estimular novas idéias. Quando o motivo move-se de seguir idéias normativas para a busca pelo conhecimento útil, mais pessoas lerão uma ainda maior variedade de papers.

O oposto de apatia é envolvimento e participação, e na Parte II nós sugerimos que ferramentas sócio-tecnicas possam transformar leitores de recipientes passivos de “qualidade” pré-selecionada para participantes ativos na geração de valor.

Inacessível

Um SIC é inacessível quando a maioria dos seus usuários potenciais não podem escrever para ele ou lê-lo. Na academia, para contribuir alguém tem que passar pelo firewall do revisor. Ainda assim, os revisores, que trabalham sem reconhecimento e sem remuneração, são também demasiadamente atribulados. Quando fazem a revisão, uma escolha é aceitar o paper, mas se outros revisores encontrarem erros isso pode ser profissionalmente embaraçoso. Em um ambiente onde admira-se o rigor, a opção segura é achar erros, e enquanto aclamar quando outros condenam supõe ingenuidade, uma revisão contundente entre aclamações é considerado um rigor louvável.

Para um revisor anônimo, gastar tempo avaliando um artigo representa não apenas um grande consumo tempo, mas é também um processo invisível. Se o conselho de um revisor é ignorado, eles perdem o tempo deles, e se for acatado, os autores recebem créditos pelas idéias dos revisores. Um presidente da AIS resumiu essa tendência há uma década atrás: “As alegações feitas geralmente são as de que os revisores não são velozes, que sua qualidade é baixa, que eles não estão apoiando e afirmando os autores, e que eles refletem os preconceitos de uma “elite” que controla os periódicos… Baseado nas minhas próprias experiências, eu acredito que as alegações tem algum fundamento“. [21] A moda do rigor sugere revisões com tendências negativas baseadas na negação dos erros em vez do crescimento do valor. Em contraste, o SIC democrático sugerido na Parte II pode reportar contribuições de revisão e ainda respeitar o anonimato, que aumenta o incentivo para uma revisão de qualidade.

Especializado

O rigor é mais fácil de ser mantido para o conteúdo restrito, então vale a pena levantar e defender castelos de conhecimento especializado. A pesquisa inter-disciplinar, onde os acadêmicos cruzam em outros campos, raramente sobrevive a crítica especializada, da mesma maneira quando os pesquisadores se movimentam em campos relacionados: “Não importa o quão original e útil seja seus insights, seu trabalho não impressionará tecnicamente os especialistas da área”. Entretanto, é nas áreas inter-disciplinares que historicamente o conhecimento se expande; por exemplo, a computação se desenvolveu da intersecção entre a matemática e a engenharia. A abordagem SIC feudal favorece mais a especialização do que a integração, uma vez que seus castelos são cosntruídos para excluir, não para conectar. Apesar de novas áreas começarem a abrir, logo também construirão muros do conhecimento para excluir e dominar seu campo.

Que a abertura do intercâmbio do conhecimento melhora a performance acadêmica é um fato ilustrado por um quasi “experimento” realizado em 1999 quando a Associação para Sistemas de Informação (AIS) iniciou dois periódicos online, o primeiro um rigoroso e tradicional periódico baseado em revisão por pares duplamente anônimo [double-blind peer review] (JAIS) e o segundo “mais leve”, Communications of the AIS (CAIS), sobre o qual Paul Gray deu aos autores a escolha de uma revisão leve feita por uma pessoa, ou completa feita por três. Estranhamente, em 2001, o CAIS foi avaliado como significantemente melhor (18) do que a JAIS (30) em rankings de impactos de periódicos (Barnes, 2005; Mylonopoulos and Theoharakis, 2001). É digno de nota que em 2003 o CAIS publicou 95 artigos enquanto o JAIS publicou 16. Pode-se concluir que reduzir o rigor aumenta a performance de publicação acadêmica.

Uma vez que mais “especialidades” rigorosas e exclusivas emergem, a tendência esperada é um sistema de publicação acadêmica que produz mais e mais sobre menos e menos. A alternativa proposta na Parte II é acabar com os muros para ao invés disso permitir mais e mais sobre mais e mais.

O ponto final

Sob uma tendência de rigor os grandes periódicos serão exclusivos em participação, avessos à inovação, poucos em números, terão conteúdos desatualizados, serão restritos em seu escopo, amplamente não lidos e cada vez mais especializados. Autores irão duplicar, imitar e suplicar ao invés de inovar. Eles irão reciclar velhas teorias com novos nomes, desenvolver pequenas atualizações para teorias canonizadas e nunca irão modificar a forma como encaram a opinião recebida. Revisores irão negar, criticar e se opor as tentativas dos autores de publicar, enquanto que os leitores irão apenas passar os olhos sobre as velhas idéias em novas roupas que forem publicadas – se eles lerem tudo. A resposta feudal a mais pessoas escrevendo é mais rejeições e mais pessoas não lendo. O ponto final esperado serão periódicos mais rigorosos do que relevantes, autores mais prolíficos do que produtivos, revisores negando e não inspirando e leitores lendo superficialmente mas não digerindo. O leitor pode decidir se isso se aplica ao campo deles.

Essa visão final de periódicos como castelos exclusivos e isolados de conhecimento, capitaneados por editores-soberanos e revisores-barões, levantando a barricada do rigor contra um assalto em massa por parte dos autores-camponeses que buscam posses de nobreza, não é inspirador.

No feudalismo uma pequena parte da elite administra as fontes de valor. Quando a fonte é o conhecimento a “verdade” se torna o que seus guardiões internos dizem o que é, e a inovação é rejeitada juntamente com os erros. Não é “Deixem que publiquem em qualquer outro lugar” o conhecimento equivalente ao de Maria Antonieta “que comam brioches”? Um sistema onde poucos escolhem o que é melhor para vários lerem não pode ser sustentado uma vez que no final as pessoas devem escolher por si mesmas.

No feudalismo os rostos mudam mas o sistema continua o mesmo, como no mote do sistema feudal “O rei está morto. Vida longa ao rei”. Com as publicações acadêmicas acontece o mesmo. Um artigo de Fred Davis na TAM foi rejeitado uma vez para uma conferência mas hoje é parte do sistema que rejeita as teorias de amanhã. Por que cada geração de inovação acadêmica deve quebrar a “Bastilha” de seus predecessores? Por que não transferir o poder de conhecimento como as democracias transferem poder econômico – por uma pacífica decisão da maioria? As democracias mudam de poder por consenso comum e não por meio de caras batalhas políticas, então por que não um SIC não pode fazer o mesmo?

A preocupação de que a abertura dos portões da cidadela do conhecimento deixará que uma enchente de erros tome conta, confunde democracia com anarquismo. O governo feito pelas pessoas não significa ausência de regras, apenas significam novas regras. Não destrói hierarquias, apenas as abre para todos por mérito. Para os acadêmicos realistas de hoje que fazem o jogo das publicações, este é “o jeito que é”, e idéias de conhecimento e democracia são um idealismo irreal. O mesmo poderia ter sido dito sobre a democracia física na idade média. A mudança social emerge uma vez que os indivíduos evoluem.

As falhas no sistema atual já estão mostrando e a First Monday pode ser uma delas. Uma economia democrática do conhecimento irá ultrapassar seu equivalente feudal pela mesma razão que as economias físicas democráticas ultrapassaram as feudais – que as pessoas produzem mais quando o controle é compartilhado. Uma força motriz desta mudança será a amplitude e velocidade do intercâmbio de conhecimento requerido pela pesquisa interdisciplinar.

Pesquisa inter-disciplinar

Na pesquisa acadêmica multi-disciplinar especialistas trabalham lado a lado com a sua crença de que idéias especializadas irão inter-fertilizar, mas o aumento da especialização reduz essa probabilidade. Em contraste, a pesquisa inter-disciplinar usa os pesquisadores treinados em mais de uma disciplina para fundir conhecimento entre especialidades. Equipes inter-disciplinares tem tanto generalistas inter-treinados e especialistas de disciplinas.

O viés do uso tecnológico

Nós identificamos a pesquisa inter-disciplinar no cerne do uso da tecnologia como uma área de expansão do conhecimento. Termos como Web science (Fischetti, 2006), sistemas sócio-tecnicos (Whitworth and Moor, 2009c), tecnologias da informação e comunicação (TICs), sistemas de informação, computação social, ciência da informação, informática e ciência 2.0 (Shneiderman, 2008) todos apontam para uma “flor do conhecimento” crescendo nas encruzilhadas do uso da tecnologia (Figura 1).

Se o conhecimento cresce na intersecção de disciplinas então ele deveria crescer no ponto de uso da tecnologia, já que várias disciplinas se interseccionam aqui. Uma década atrás alguém escolheria o SI para essa novo campo inter-disciplinar, mas uma sub-disciplina de administração é improvavel de capturar o ponto central de várias disciplinas. Ainda que a evolução dessa encruzilhada de conhecimento seja incerta, não há dúvida que ela irá se expandir. Para capturar o núcleo deste conhecimento em expansão é requerida uma meta-disciplina que entrecorta outras disciplinas.

Para criar pessoas inter-disciplinares a academia precisa de centros inter-disciplinares, para apoiar a criatividade em pesquisa e atrair pesquisadores qualificados e estudantes buscando viajar entre as bordas do conhecimento. Várias universidades já tem centros inter-disciplinares para desenvolver melhores concessões. Um currículo de uso de tecnologia inter-disciplinar combinaria um núcleo tecnologico com outra disciplina principal, por exemplo, música e computação, contabilidade e computação, etc. Tal “disciplina das disciplinas” atrairia gente e estudantes de campos externos como a psicologia, engenharia, ciência da computação, ciência da informação, ciências da saúde, educação, negócios e matemática, diferente da SI que se difundiu em disciplinas vizinhas. Um “portal do conhecimento eletrônico” inter-disciplinar se tornaria a “Cingapura” do intercâmbio de conhecimento acadêmico – o lugar em que as pessoas vão para alcançar outros ambientes de conhecimento.

flor

flor

Figura 1: A “flor do conhecimento” inter-disciplinar do uso da tecnologia. 

Dentro desta discussão também estará o número de estudantes. Tópicos “difíceis” como a computação tem tradicionalmente lutado para atrair mulheres, que são agora a maioria dos estudantes universitários. Isso não é por que as mulheres não conseguem aprender tecnologia, mas por que elas geralmente escolhem por não aprendê-la. O problema de poucas mulheres no campo da tecnologia será resolvido mudando a natureza da tecnologia, não mudando a natureza das mulheres. Uma vez que a tecnologia se transforma em socio-tecnologia, a escolha tradicional de social ou técnica, modelo ou geek, dará caminho a uma nova opção: social e técnica, como é ilustrado por sistemas de redes sociais como o Facebook. Conforme a computação reconhece o valor do conhecimento social, jovens mulheres com habilidades irão cada vez mais escolher estudar computação humanizada.

Explosão inter-disciplinar

Como o número de especialidades do conhecimento aumenta, o número de conexões inter-disciplinares aumenta geometricamente. A Figura 1 bi-dimensional não pode ilustrar isso, pois com oito disciplinas deveriámos ter 256 potenciais sobreposições, não apenas oito como mostrado. Uma ciência com centenas de disciplinas distintas tem dezenas de milhares de intersecções do conhecimento, cada uma potencialmente uma outra especialidade.

Deveria cada uma desenvolver seu próprio grupo de interesse especial, conferências e periódicos? De fato, nós já vemos uma nova indústria de periódicos de intersecção, liderados por IGI, com titulos como International Journal of Computational Models and Algorithms in Medicine (IJCMAM) (ciência da computação mais medicina), ou o  International Journal of Adult Vocational Education and Technology (IJAVET) (tecnologia mais educação). Essa expansão do conhecimento satisfaz as necessidades da maioria de publicar, mas retém a tradição de dividir o conhecimento em artificial e feudos desconectados; por exemplo, ele meramente adiciona mini-castelos em volta dos grandes.

A explosão inter-disciplinar ocorrerá quando o conhecimento gerado nas intersecções disciplinares excederem aqueles gerados pelos pólos especializados. Quando o progresso criado em campos abertos entre castelos excede os gerados dentro dos castelos, como no uso da tecnologia hoje, os castelos serão desnecessários a todos, menos àqueles que estão dentro deles. Como o sistema feudal de conhecimento isola e purifica, será visto como a maioria das pessoas vê as aristocracias feudais hoje – símbolos de uma era que já se foi. Quando a banda larga do intercâmbio de conhecimento inter-disciplinar exceder o do intercâmbio de conhecimento especializado, o sistema acadêmico de conhecimento feudal entrará em colapso.

A expansão do conhecimento na intersecção das disciplinas é mais uma chance para o progresso evolucionário, do que um sinal de fracasso. Construir muros para proteger o conhecimento é necessário numa terra de bandidos e ladrões, mas numa terra de artesãos honestos apenas reduz as sinergias beneficiais e força cada especialidade a reinventar as rodas intelectuais de outras.

Um diagrama de rede social baseado nas citações de 120 periódicos de SI em 2003 mostram claramente que hoje existem mais conexões do que pólos [23]. Enquanto o generalista Communications of the ACM é centralizado e influente, o rigoroso cluster “puro” do SI é centralizado em volta do MISQ “… é amplamente isolado de outros periódicos na rede”. [24] Para uma rede de conhecimento interconectada a necessidade motriz é o intercâmbio de conhecimento e não o seu estoque, que criará novas formas de busca por máquinas “cyber-acadêmicas” (Arms, 2008).

Conclusões

A demanda por pesquisas inter-disciplinares sugere que a academia deveria:

1. Substituir o mito de que rigor é excelência com a pesquisa como um misto de risco e oportunidade;
2. Reduzir a influência dos negócios baseados na idéia que a verdade acadêmica é um bom negócio; e,
3. Reinventar a publicação acadêmica como um sistema de intercâmbio democrático de conhecimento aberto.

As tecnologias sociais como wikis mostram o que é possível quando as comunidades são ativas, mas os wikis não são a resposta acadêmica uma vez que eles não atribuem ou alocam contabilizações, nem oferecem revisão anônima. As opções mais simples na publicação acadêmica já foram tentadas, então a Parte II deste papel sugere um híbrido sócio-tecnico.

Um SIC democrático reafirmaria o objetivo original da academia de publicar conhecimento livremente para a crítica e benefício mútuo. A busca por conhecimento deveria ser aberta e não fechada, dinâmica e não estática, inclusiva e não exclusiva, atual e não datada, afirmativa e não negativa, inovadora e não conservadora e acima de tudo, viva não morta. Para alcançar esse objetivo os acadêmicos devem ter em mente o objetivo do crescimento do conhecimento. Se fizermos nosso dever como outros fazem os deles, o progresso ocorrerá naturalmente. Não deixar que academia esqueça que sua principal razão de existir é para ampliar o conhecimento, não para guardá-lo, e nem lucrar com isso.

Sobre os autores

Brian Whitworth é professor da Massey University (Albany), Auckland, Nova Zelândia. Possui gradução em matemática, bacharel em psicologia, mestrado em neuro–psicologia e Ph.D. em sistemas de informação. Ele publicou em periódicos como Small Group Research, Group Decision & Negotiation, Database for Advances in IS, Communications of the AIS, IEEE Computer, Behavior and Information Technology (BIT), Communications of the ACM e IEEE Transactions on Systems, Man and Cybernetics. Tópicos incluem a geração de acordos online, votação antes de discussão, legitimidade pelo design, spam e o abismo sócio-técnicno, e a web de performance de sistemas. Junto com Aldo de Moor, editou o Handbook of Research on Socio–Technical Design and Social Networking Systems (Hershey, Pa.: Information Science Reference, 2009). Visite http://brianwhitworth.com.

Rob Friedman é professor de humanidades e tecnologia da informação e dirige o programa de ciência, tecnologia e sociedade na New Jersey Institute of Technology. Sua pesquisa examina a ciência e a culutra, design de sistemas sócio-técnicos e o papel da tecnologia na educação. Ele é autor de uma obra de referência no tópico de teoria e pesquisa de suporte ao campo da tecnologia e gestão da inovação Principle Concepts of Technology and Innovation Management: Critical Research Models, publicada em agosto de 2008 pela IGI Publishing. Friedman trabalha como edito-chefe da newsletter SIGITE (Special Interest Group for Information Technology Education) da ACM. Ele leciona em cursos de gradução e pós-graduação sobre sistemas sócio-técnicos em seus contextos culturais.

Agradecimentos

Agradecimentos a Paul Gray por uma crítica penetrante, a Marilyn Tremaine por insights, a Karen Patten e Elizabeth Whitworth por uma breve ajuda, a Jeff Axup por comentários úteis, a Peter Denning por um re-direcionamento valoroso, aos nossos revisores no First Monday por insights críticos e para os colegas IIMS primeiros autores por conselhos, comentários e tolerância.

Notas

1. Lyytinen, et al., 2007, p. 317.

2. Grudin, 2004, p. 20.

3. Csikszentmihalyi, 1999, p. 320.

4. Ver http://researchroadmap.org/content/Element/ErrorType para detalhes.

5. Denning, 1997, p. 132.

6. PHER, 1998, p. 3.

7. Lowry, et al., 2007, p. 358.

8. Lowry, et al., 2007, p. 352.

9. Ibid.

10. Bakshi, et al., 2007, p. 139.

11. Darroch and Toleman, 2007, p. 1072.

12. Denning, 2008, Figure 1.

13. Paul, 2007a, p. 194.

14. Benbasat and Barki, 2007, p. 2.

15. Gorton, 2008, p. 99.

16. Sidorova, et al., 2008, Figure 4.

17. Weber, 1999, p. 4.

18. Smolin, 2006, p. 342.

19. http://video.nationalacademies.org/ramgen/news/042803.rm.

20. Denning, 1997, p. 132.

21. Weber, 1999, p. 1.

22. Smolin, 2006, p. 343.

23. Polites and Watson, 2008, Figure 1, p. 97.

24. Polites and Watson, 2008, p. 98.

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Não publicar e não perecer

Posted August 2nd, 2009 in Artigos e Estudos by ExtraLibris

Tecnologias web e a dinâmica das redes sociais online são capazes de reverter a máxima do “publicar ou perecer” tradicional, no sensu strictu de que não seria mais obrigatoriamente necessário tornar público idéias em periódicos qualis para ser considerado autoritativo dentro de uma determinada comunidade científico-profissional. Neste ensaio advoga-se novas metodologias de validação qualitativa do conhecimento, ao mesmo tempo em que evita-se comparações equivocadas entre a publicação independente e a publicação tradicional acadêmica. Por fim, critica-se algumas dinâmicas de consolidação da autoridade.

Palavras-chave: comunicação científica, revisão por pares, autoridade, redes sociais, mídias sociais.

Abstract:
Web technologies and the dynamics of online social networks are capable of reversing the traditional wisdom of “publish or perish” in the strictest sense that would not be a requirement to make ideas public in academic qualified journals to be considered authoritative within a certain scientific and professional community. This essay advocates new methods for the validation of qualitative knowledge, while avoiding mistaken comparisons between the independent publishing and traditional academic publishing. Finally, it criticizes some of the dynamics of authority consolidation.

artigo publicado originalmente na revista Informação e Universidade

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É possível não ter um artigo sequer publicado em periódicos acadêmicos e ainda assim ser considerado relevante para a área do conhecimento ou profissional em que atua? É possível não publicar e não perecer?

Eu sustento o argumento que, em 2009, um indivíduo é capaz de alcançar notoriedade e garantir legitimidade científico-profissional por meio unicamente da web. Isto é, fazendo uso de tecnologias web e da dinâmica das redes sociais online, reverter a máxima do “publicar ou perecer” tradicional, no sensu strictu de que não seria mais obrigatoriamente necessário tornar público idéias em periódicos qualis para ser considerado autoritativo dentro de uma determinada comunidade científico-profissional.

Esta idéia simples não é original e talvez já soe saturada. Ela só se justifica porque nosso modelo de públicação de idéias permanece altamente balizado nas noções clássicas da comunicação de massa e da autoridade científica. Por essa razão, este tópico deverá ser discutido até que não se ignore mais que a web atual requer uma nova compreensão no que concerne à sua capacidade de oferecer à qualquer indivíduo condições de tornar idéias públicas e garanti-las autoridade e legitimidade com base nas ferramentas que a própria web oferece.

Com aporte de ferramentas web e da dinâmica das redes sociais online, eu sou capaz de produzir, mesmo estando fora da círculo acadêmico; posso ser avaliado por diversos outros mecanismos de refino e validação que não exatamente um grupo restrito de pares pesquisadores ou especialistas de uma área do conhecimento; e posso publicar em diversos veículos de comunicação e disseminação que não exclusivamente um periódico acadêmico.

Em qual momento, é obrigatoriamente necessário que eu siga as regras estabelecidas pelas sociedades científicas tradicionais, para garantir os mesmos resultados que elas oferecem? A minha resposta é nenhum momento. Você consegue não publicar (nos veículos tradicionais) e não perecer.

A questão da comunicação

A comunicação científica clássica se sustenta em cânones desde os primórdios do Journal des sçavans e do Philosophical Transactions da Royal Society e vem funcionando perfeitamente bem há mais de três séculos. Por que haveria de se preocupar com uma nova frente de circulação de idéias que em um primeiro momento não vê necessidade de fazer parte do seu modelo secular?

Para as instituições de publicação científica tradicionais, seria muito fácil simplesmente ignorar que um grupo de indivíduos, mesmo publicando boas idéias livremente na web, não esteja disposto a compactuar com o seu modelo. Se um profissional autônomo ou pesquisador independente não deseja fazer parte desse sistema, o problema é unicamente de si próprio.

Não há dúvidas que o sistema de avaliação por pares é um conceito central da comunicação científica clássica. Além de prevenir plágios, a avaliação por pares garante o mérito da publicação da produção científica de qualidade.

Este sistema tende a funcionar bem ou mal dependendo da área de pesquisa. Suas falhas, critérios e limitações já foram questionados de várias formas possíveis, porém, mesmo casos polarizados como os de Sokal e dos irmãos Bogdanov, não seriam necessários para ilustrar melhor as presunções que levanto.

Então considere o seguinte: é perfeitamente possível que um pesquisador independente encontre a cura para uma doença rara. Diante da necessidade de tornar público o mais rápido possível seu achado, e não se sujeitar a uma eventual demora no processo de submissão a um periódico científico da área, ele decide publicar os resultados de suas pesquisas em um blog, ou no twittter. O que ele publicou deixa de ser ciência simplesmente porque publicou em um blog ou no twitter o resultado de suas pesquisas? Evidente que não, pois ciência é sobre método, não sobre o formato de divulgação da ciência.

O que advogo aqui não é simplesmente não publicar e não perecer. Já que a ciência é sobre método, acredito serem necessárias novas metodologias de validação qualitativa do conhecimento, considerando que os métodos clássicos já não são mais compatíveis com o modus operandi que temos hoje na “sociedade da informação”.

Os novos serviços e redes sociais que recentemente emergiram causaram uma série de transformações na web, extrapolando seus domínios. A transformação no modus operandi, entretanto, não é baseada apenas em mudanças tecnológicas, mas principalmente, em uma mudança de mentalidade.
Percebe-se uma singularidade no que concerne à necessidade de visibilidade e de se fazer ouvir. Há de se considerar que desde tempos antigos os indivíduos têm necessidade de expressar e disseminar suas idéias e experiências. Porém, a voz normalmente ouvida na memória informacional era de pessoas que alcançaram projeção pública.

Hoje, a web permite que pessoas comuns (ainda que somente aquelas situadas em um lado da divisão digital) expressem suas próprias vozes com regularidade, e em alguns casos, alcançar reconhecimento. Nesse sentido, plataformas como blogs e as redes sociais online enquanto sistemas de produção e difusão de informação podem ser entendidos como uma marca de emancipação.

A busca por expressão por parte daqueles marginalizados no espaço informacional é facilitada por blogs e redes sociais que permite centenas de milhares de pessoas a publicarem e compartilharem sobre suas vidas, seus trabalhos, suas dúvidas e achados, independente das suas motivações para tanto, e da forma em que esse tipo de conteúdo é difundido.

Comparações equivocadas

Coloco em evidência dois segmentos distintos. Compará-los utilizando a mesma metodologia de medição seria um erro primário, porque suas características não são similares. Deixar que se isolem em seus mundos de cânones e rituais seria um erro maior ainda.

Para alguém que não vêm acompanhando as discussões em torno de descentralização e colaboração, discussões revigoradas com o advento de dinâmicas sociais na web, os argumentos que levanto podem parecer descompromissados.

A própria diferenciação entre termos como legitimade, relevância, validez, autoridade, fator de impacto, notoriedade, não creio ser necessária pois, ainda que completamente distintos etimologica e lexicalmente, qualquer um destes poderia servir como palavra-referência para os propósitos deste texto.

Uma das minhas preocupações é como um texto como este pode ser interpretado por alguém que não está a par de toda a discussão acerca de diversos pontos que são mencionados implicitamente. Conveniente seria um pouco de empirismo para aumentar o poder da argumentação no texto opinativo.

Eu poderia inclusive gastar algumas linhas citando pensadores e autores que vêm lidando diretamente com o problema (Michael Jensen, Andrew Keen, Don Tapscott, James Surowiecki, Clay Shirky, Cass Sunstein, David Weinberger, Jeff Howe, Henry Jenkins, Jimmy Wales) e explicando como funcionam redes sociais online como Twitter, Orkut, Linkedin, Facebook, Flickr, Ning, que nada mais são do que evoluções dos colégios invisíveis precursores da Royal Society, ou os métodos de ranking, fator de impacto, referências cruzadas e citações de sistemas como PageRank, Digg, Delicious, StumbleUpon, trackbacks de blogs, entre outros, que nada mais são do que evoluções do próprio sistema de comunicação científica tradicional.

Entretanto, prefiro resumir explicando que muitas das discussões em torno desses tópicos revelam-se desnecessárias já que comparam equivocadamente meios distintos para que se atinja os mesmos fins. Mesmo que inicialmente, e somente na intenção de tornar esse texto mais chamativo, eu tenha sugerido a idéia de que a publicação independente é capaz de garantir os mesmos resultados que os veículos tradicionais de comunicação científica, esta comparação só seria válida se a publicação independente fosse sujeita aos mesmo critérios de validação impostos pela comunicação científica tradicional.

A questão da validade

Pode-se acreditar que em um universo de abundância de informação, a importância dos periódicos científicos e da revisão por pares é garantir a manutenção qualitativa da tríade produção-avaliação-publicação.

Casos de descobertas científicas simultâneas eram bastante comuns no séc. XVII, mas o número dessas disputas reduziu progressivamente a medida que a prioridade sobre a originalidade das descobertas era tornada pública por meio dos periódicos científicos. Ficou claro que a ciência só progridiria através de uma circulação transparente de idéias, sujeitas à critérios estabelecidos de validação e relevância.

Mas existe informação falsa e irrelevante em diversos formatos. A diferença é que as instituições tradicionais estabeleceram-se para padronizar e definir critérios de qualidade e consequentemente garantir certa autoridade, credibilidade e confiança em relação a produção do conhecimento. Evidente que tais instituições não estão isentas de corrupção – em especial quando tratam-se de instituições que lidam com problemas de pesquisa sociais.

A minha defesa para uma melhor compreensão e sensibilidade para o que é publicado livremente na web, não é necessáriamente que o sistema de revisão por pares termine, mas que a web possa se sustentar como uma espécie de camada ou selo editorial independente da permissão para publicação.

Ao invés de uma universidade ou grupo de professores e estudantes defenderem a criação de repositórios, de periódicos institucionais, deveriam estimular cada vez mais a responsabilidade individual dos pesquisadores em publicar as suas pesquisas em sites pessoais, por exemplo (uma versão do Currículo Lattes, em que a produção intelectual não esteja somente referenciada ali, mas que todo o volume possa ser publicado e associado a um currículo pessoal).

Então, revistas, associações, poderiam divulgar e ressaltar os materiais que foram avaliados por determinado grupo, segundo determinados critérios, para a massa na web. Ou seja, esta discussão crítica que os pesquisadores e profissionais estebelecem em canais informais (twitter, blogs, msn, rodinhas de conversa, e-mails entre colegas, etc) poderia ser melhor evidenciada através da web.

Discussões acerca de disponibilização pré-print, técnicas de captura de literatura cinzenta e iniciativas open-access acontecerem exaustivamente no passado. Mas elas ainda possuem laços bastante próximos com os preceitos e critérios da comunicação científica tradicional. Diferentemente, as redes sociais emergentes na web serviriam para definir critérios inteiramente novos de reputação e qualificação da produção de idéias (e não exclusivamente científicas).

Enquanto na academia julga-se mais importante na pesquisa científica a publicação de artigos em periódicos Qualis A, a disseminação em eventos científicos e a troca entre pares e outros interessados, incluída aí toda a sociedade, a metodologia que eu suponho ser coerente para publicação autoritativa dentro das mídias sociais online é exatamente o inverso: divulgação para o sociedade em geral, público leigo; troca entre interessados; disseminação em eventos; publicação em periódicos.

Me parece até mesmo que este seria um processo mais criterioso, pois uma idéia tornada pública deverá passar por vários estágios de compartilhamento antes que seja determinada como definitiva.

De qualquer forma, mesma que frente às novas tecnologias colaborativas na web a avaliação por pares tradicional pareça superestimada e desatualizada, ela é apenas a ponta do iceberg de um problema maior, que existia antes, mas hoje é possível de se resolver: o mecanismo de consolidação de autoridade.

Crítica mais apurada

Muitas vezes as críticas à democratização das massas em relação à utilização de ferramentas como blogs, twitter, é nada menos do que uma crítica que confunde controle da informação com a produção de conhecimento e inovação.

A Ciência é o melhor exemplo de como uma grande comunidade de agentes independentes consegue, através de critérios simples, produzir conhecimento.

Infelizmente, o modelo científico é mal compreendido pela sociedade em geral. É importante ressaltar que a ciência não é hierárquica, fechada e autoritária. Mas que a hierarquia é uma manifestação natural da autoridade. Imagine, por exemplo, se um especialista tivesse que sempre tentar explicar e justificar para um leigo a natureza do seu trabalho.

Mas o que é preciso ter como perspectiva, é que em certas comunidades de pesquisas (ditas as pós-modernas principalmente), a autoridade é consolidada por outro tipo de dinâmica em que a titulação confunde-se com autoridade e competência.

O que pretende-se defender muitas vezes, é uma maior transparência em relação a algumas dinâmicas de consolidação da autoridade. No caso de um pesquisador ou profissional independente, quando ele tenta manifestar sua competência sobre determinado assunto nos canais tradicionais de comunicação, dificilmente ele é reconhecido pela comunidade.

Na visão do leigo em ciência (e diga-se, grande parte dos estudantes), uma pessoa com uma titulação acima da dele teria mais autoridade para abordar o mesmo assunto – o que necessariamente não precisa ser verdadeiro.

Mas o problema é quando acadêmicos fazem críticas a um modelo pela sua forma, não pelo conteúdo. Insisto em evitar comparações entre meios distintos, mas é uma lástima o pior artigo publicado em um periódico científico, ter mais autoridade do que um artigo crítico excelente publicado em uma revista informal ou um blog.

Prefiro acreditar que esse infortúnio se deve à ausência de metodologias específicas aplicáveis aos novos modelos de produção independentes e emergentes, e não simplesmente porque existe a crença de que o que é publicado em desconformidade com os padrões tradicionais acadêmicos, não é autoritativo e o que não passa pelo crivo de pares, não possui valor.

O que define qualidade do que é publicado em um periódico especializado vai evidenciar de uma maneira muito interessante a cultura por trás dessa comunidade. Como em algumas áreas técnico-científicas não temos critérios para avaliar o impacto do que é publicado em veículos tradicionais na formação do indivíduo, ou de que forma o que é escrito pode melhorar o intelecto ou atuação profissional de uma pessoa, ou determinar avanços concretos para a área do conhecimento, o que é de impacto no final das contas é a política.

Este maniqueísmo só serve para a manutenção de um modelo de status muitas vezes baseado em titulações. Mas não na consolidação da autoridade através de uma dinâmica honesta e responsável em relação a produção do conhecimento.

E por mais irônico que possa parecer a veiculação deste texto em uma publicação quasi-acadêmica, adicionada à ironia de ter solicitado opiniões à amigos próximos durante a maturação das idéias aqui expostas (peer-review), o que está no cerne deste texto não é uma argumentação inflamada em pról de um movimento revolucionário.

Apesar do entusiasmo com as tecnologias web e com o que as redes sociais online podem nos oferecer, o discurso é moderado. Pessoas que vestem ideologias e paradigmas em sua totalidade, acabam por perder a capacidade de avaliação. Os conceitos de publicar (em periódicos científicos tradicionais) ou perecer, e publicar por conta própria, talvez não venham a substituir um ao outro. Se o mais provável e mais coerente é que eles coexistam, solucionando problemas específicos, então devemos concentrar esforços para isso.

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As discussões com Fabiano Caruso, Gustavo Henn, Alex Lennine e Leandro Cianconi contribuiram diretamente para a construção deste texto. Meus agradecimentos.

Biblioteconomia e comunicação mediada por símbolos

Posted April 13th, 2009 in Artigos e Estudos by ExtraLibris

H. CURTIS WRIGHT
School of Library and Information Sciences – BYU, 1989.

Resumo

Esse trabalho sai da visão Kaplaniana de informação como estrutura formal das idéias, para a visão Meadiana de comunicação intersubjetiva e daí para a compreensão de realidade de Popper. Apresenta um modelo de Biblioteconomia, identifica seus componentes com os três mundos de Popper e conclui que Biblioteconomia é uma tecnologia de ação intelectual, não uma tecnologia de ação.

“Quando….criticar a filosofia de uma época, não [direcione]… atenção para aquelas posições intelectuais na qual seus expoentes sentem a necessidade … de defendê-las … [Concentre-se nas] presunções fundamentais que aderentes de todos … os sistemas presentes na época inconscientemente pressupoem. Tais suposições parecem tão óbvias, que as pessoas [que as constroem] não sabem o que estão assumindo, porque jamais nenhuma outra maneira de colocar as coisas os ocorreu.” Alfred North Whitehead [1]

Introdução

Esse trabalho, advoga uma filosofia humanística da ciência em um tempo acostumado a quatro séculos de pensamento mecânico para as filosofias científicas do humanismo, é crítico dos pressupostos materialistas tanto em Biblioteconomia como na Ciência da Informação. Em consequência, elabora algumas introspecções às formas filosóficas de Abraham Kaplan, George Herbert Mead e Karl Popper, que representam, menos ou mais, uma oposição leal ao tópico-filosófico que é subjacente à perspectiva científica em comunicação. Nenhum desses filósofos é sensu stricto anti-científico. Todavia, por compartilharem uma perspectiva humanística na comunicação, eles (e outros como eles) oferecem uma real alternativa à teoria dos sistemas, que, não precisa dizer, domina a Biblioteconomia e a Ciência da Informação hoje. Foi Mead quem criou o interacionismo simbólico, que é a visão humanística da comunicação mediada por símbolos, que direta ou indiretamente informa virtualmente todas as teorias da comunicação humana.[2] Mas Mead foi educado na Alemanha e teve inclinações européias. Ele era essencialmente um filósofo da forma [form-philosopher] que se tranformou num intelectual pragmatista como C. S. Pierce (o fundador do pragmatismo) e C.I. Lewis, para os quais pragmatismo era essencialmente uma humanística teoria de significado, com grande relevância para todas as formas de comunicação intersubjetiva.[3] Ele não era um filófoso da matéria [matter-philosopher] que se tornou um pragmatista empírico como William James, por quem o pragmatismo foi transformado em uma científica teoria de ação, relevante apenas para o sistema de comunicação.[4] Kaplan, ao que parece, é também um pragmatista intelectual de classes, com mais afinidades à Mead do que James.[5] Enquanto discursava em uma conferência da American Library Association-ALA, em 1964, enfatizou (1) o papel central dos símbolos comunicativos em criar todas as concernências intelectuais, que estão implícitas no problema informacional moderno, e (2) absoluta familiaridade com a história das idéias,[6] como um modo de entendimento e tratamento, com essas concernências-qualquer coisa, que os bibliotecários e educadores da biblioteconomia nunca consideraram seriamente e outros especialista da informação estão apenas começando a reconhecer. Seu discurso permanece singular na literatura da biblioteconomia, não contendo nada, mesmo remotamente semelhante, à sua importância filosófica, tanto antes ou desde 1964. O pensamento de Popper é também estranhamente similar à Mead,[7] apesar de muitas diferenças: Mead por exemplo, é menos compreensivo e menos ainda prolífico que Popper, para quem o pensamento consiste em duas partes definidas – sua filosofia sistemática e um sumário tri-mundial de sua filosofia sistemática. Munz considera o anterior mais importante do que o último no entendimento do crescimento do conhecimento humano.[8] Mas esse trabalho pega precisamente a visão oposta: é a elaboração de Popper para a realidade de três mundos de Platão, não a filosofia sistemática de Popper, que têm o potencial de criação de uma compreensiva teoria da comunicação capaz de explicar todas as subjetivas e objetivadas formas de conhecimentos em termos de ambientes naturais e culturais e o uso humano de símbolos.[9] A filosofia de Popper de três mundos interativos têm sido explicada nas suas próprias extensivas palavras.;[10] mas a sua mais clara exposição, talvez, veio do mundialmente conhecido neurofisiologista, Sir John C. Eccles,[11] co-autor científico de Popper e a única pessoa autorizada por Popper a discutir sua filosofia publicamente.

Do caos à Kaplan[12]

A Biblioteconomia está sempre em condição crítica. Mas sua crise atual, de acordo com Abraham Kaplan, não resulta de demandas excessivas na execução de suas funções: ocorre porque “a profissão propriamente está insegura sobre quais exatamente suas funções são”, e porque seus educadores e praticantes estão “inseguros também em relação à realização de qualquer função a que são designados…ou que adotam”. [13] A ambivalência ocupacional de biblotecários e outros profissionais da informação, deriva da moderna explosão do conhecimento, que transformou o Século XX em uma era de símbolos, onde “enormes mudanças em qualquer nível de … sociedade podem ser associadas com o conceito de informação.” [14] Kaplan cita três razões para essa importante transformação. São, primeiramente “o volume íngreme de informação,” [15] o que torna virtualmente impossível para qualquer pessoa manter desenvolvimentos em qualquer área. “Têm havido também um fantástico crescimento tecnológico, [na maneira em que] a informação é produzida, processada e transmitida” no mundo físico. [16] Mas a causa básica dessas duas coisas, a razão tanto para o desgovernado volume de informação como para o crescimento imprecedente na tecnologia de informação, é o crescente envolvimento dos tempos modernos com o simbolismo. Em longas conversas telefônicas no começo da década de 1980, eu discutia com Jesse Shera esses elementos dos argumentos de Kaplan. Shera concordou que o “problema geral da informação possui três aspectos” e que nós “apresentamos apenas dois deles”, os quais, o genuíno dilúvio de informação descontrolada sobre nós e as nossas tentativas para lidar com isso através de alta tecnologia [17]. Não existia dúvida na cabeça de Shera que “símbolos … ocupam uma grande parte de nossas vidas hoje, mais do que nunca” e que “o tamanho dessa parte … está crescendo exponencialmente” [18]. A massiva porção de informação disponível para nós exerce um grande impacto na vida moderna. Mas “teorias sobre informação” onde Kaplan explicitamente diz “teorias sobre processos simbólicos”, continuaram a “exercer força similar” [19] e de fato constituem uma básica realidade cultural do séc. XX – onde a letra impressa e suas tecnologias são meramente expressões. “Do ponto de vista da teoria das idéias”, que é o ponto de vista definitivo de Kaplan, tudo sugere que “a nossa é a era dos símbolos” [20].

A profissão da Biblioteconomia nunca investigou o uso humano dos símbolos, que gerou todos os seus problemas intelectuais. Esses problemas entretanto, não podem mais ser evitados, porque o século XX testemunhou uma mudança profunda na natureza do esforço humano. Essa mudança constitui a mais básica transição cultural da era moderna, que certamente fugiu pra longe do intenso trabalho mental de talentosos amoladores ambulantes e inspirou mecânicos[Mecânica] em direção ao intenso trabalho intelecutal de teoristas e filósofos.

A primazia do conhecimento teórico … [constitui] … o eixo principal [da cultura moderna] … A sociedade industrial é a coordenação de máquinas e homens para a produção de bens. [Mas] a sociedade pós industrial é organizada pelo conhecimento, [que é utilizado] em razão de …. direcionar … inovação e mudança … O que é distintivo sobre o [Século XX] … é a mudança no caráter do conhecimento propriamente … O que se tornou decisivo … é a centralidade do conhecimento teórico – A primazia da teoria sobre o empirismo e a codificação do conhecimento em abstratos sistemas de símbolos que podem ser utilizados para a iluminar muitas … [se não todas] áreas da experiência [21].

Como evidência desse fundamental desvio na essência do trabalho, que conta para o nosso eterno envolvimento profundo com símbolos, Kaplan aponta para as “muitas disciplinas intelectuais” que recentemente “aparecem envolvidas em processos de simbolização ou começam a focar … [em] linguagem e simbolismo.”[22] Mas essa observação sobre as disciplinas intelectuais, que explora o ambiente simbólico do pensamento humano, pode ser apenas entendida em contraste com as disciplinas empíricas, que estudam o ambiente não-simbólico da matéria e da energia. As disciplinas empíricas produzem conhecimento das realidades físicas que podem ser observadas através dos sentidos, enquanto as disciplinas intelectuais criam conhecimento das realidades formais que não podem ser observadas através dos sentidos, apesar de poderem ser pensadas e comunicadas como pensamentos. O matematicamente declarado conteúdo de sensação, assim dito, constitui a única referência temática da ciência empírica; [23] mas a mentalização, que precisa ser estudada filosoficamente ou não estudada em outras hipóteses, pode ser declarada apenas verbalmente (em linguagem natural) ou através de imagens indescritíveis (na linguagem de objetos de arte). Aí está uma distinção crucial que a Biblioteconomia tem negligenciado. Confundiu conhecimento de ordem primária sobre os fenômenos, ou o conhecimento intelectual de realidades físicas requisitadas pela ciência, com conhecimento de ordem secundária sobre o conhecimento ou o conhecimento de realidades intelectuais requisitadas por bibliotecários. Assim, bibliotecários e educadores da Biblioteconomia precisam de alguma maneira se livrar do vício pela empírica matéria-filosófica da ciência e passar a valorizar a intelectual forma-filosófica do humanismo crítico. “A base humanística [da Biblioteconomia] está lá”, diz Kaplan, e “irá e precisa permanecer como base”. [24] Por isso que a necessidade que os bibliotecários tem de saber sobre os usos reais que as pessoas fazem do conhecimento “precisa sempre permanecer fundamental” para a Biblioteconomia. Mas essa necessidade não pode ser saciada através de conhecimento científico sobre a natureza física. Clama por conhecimento da natureza humana, e isso, diz Kaplan, “não é nada mais do que conhecimento das pessoas”, ou mais especificamente, conhecimento “sobre as variadas maneiras … [que as pessoas] geram, transmitem e interpretam idéias ou informação”.[25] Kaplan certamente não está falando em termos de engenharia sobre a informação como dado físico na forma de caracteres visuais, sons pronunciados audíveis ou impulsos elétricos. Ele está pensando na informação como idéias e luta para entender (1) como as pessoas trazem idéias para a existência, (2) como elas comunicam as idéias que trazem à existência e (3) como utilizam as idéias que trazem à existência e se comunicam.

De Abraham Kaplan à George Herbert Mead

Da “filosofia da educação bibliteconômica” de Kaplan, diz Jesse Shera, “precisam ser derivadas os objetivos da educação em Biblioteconomia”. [26] Esse estranho endosso das visões simbólicas de Kaplan, é intimamente relacionado à última recomendação feita por Shera para a profissão da Biblioteconomia.”Eu submeto”, ele diz, “que bibliotecários precisam enxergar o “interacionismo simbólico” para a fundação apropriada de uma teoria da Biblioteconomia. [27] Interacionismo simbólico foi criado pro George Herbert Mead, que rejeitou os estudos dos fenômenos sociais por métodos mecanicistas legados para o estudo científico dos fenômenos e trouxe ciências sociais da física. A ordem natural é uma unidade monística que inclui tudo físico e nada mais; mas a ordem social é um dualismo ontológico constituído por uma ordem social empírica , que consiste nas pessoas como treinados que executam coisas, e uma ordem social ideativa, que consiste nas pessoas como pensadores que conhecem coisas. Humanistas consideram instrumental a ordem social empírica, porque constitui seu único instrumento de acesso para a ordem social ideativa; mas os cientistas tratam a ordem social ideativa como não-existente e consideram a ordem social empírica com uma sub-classe da ordem natural. Dessa maneira, a ciência estuda o comportamento humano sem referência aos seus pensamentos; mas o humanismo estuda seu comportamento como único meio de acesso para os pensamentos. A natureza dual do fenômeno social consequentemente direciona para os seguintes assuntos típicos do interacionismo simbólico.

1. O intelecto humano é vigorosamente ativo. Locke estava completamente errado: a mente não é ambientalmente controlada como uma tábua de escrita que passivamente recebe idéias vindas de fora: é o gerador ativo de suas próprias idéias; e utiliza estímulos humanos como símbolos que permitem à mente comunicar suas idéias com outras mentes e controlar todos os tipos de atividades racionais. Assim, a mente humana está constantemente observando, pensando, tomando decisões e agindo ao mesmo tempo – como um ciclista ou um piloto de avião.

2. As realidades formais da mente não podem ser conhecidas empiricamente porque elas não podem ser observadas: podem ser apenas pensadas, comunicadas como pensamento e reconhecida como pensamento considerando símbolos observáveis.

3. Homens são sujeitos inteligentes vivendo em dois ambientes. Esses são o ambiente físico, que inclui toda a matéria e energia do cosmo; e o ambiente cultural , que inclui todas as idéias disponíveis para estudo fora da consciência subjetiva dos indivíduos. Desse modo, as pessoas vivem na paisagem física de um universo objetivo; mas elas também vivem no “clima” cultural de seus parceiros humanos.

4. Tópicos inteligentes ativamente selecionam, interpretam e modificam seus ambientes através da seleção de direções e motivos para o comportamento racional e do controle da sua construção. Essa proposta constitui “um importante dogma da maioira das visões humanísticas da conduta [racional]”, que assume que os “Homens são … participantes na criação de seus próprios destinos”. [28]

5. Acesso ao ambiente cultural humano só é fornecido apenas por símbolos “O Homem tem uma distintiva capacidade para a comunicação simbólica” [29] o que lhe permite pensar abstratamente e codificar idéis subjetivas em informações objetivas que vão ao mundo para outros contemplarem. A objetificação do pensamento é então uma consumação do uso humano dos símbolos. Já que “pensar é estritamente um processo simbólico” [30] e o símbolo físico é o único significado objetivo da comunicação racional, a loja cultural do conhecimento objetificado é acessível apenas através de símbolos.

6. Todos aspectos de específico comportamento racional são simbólicos. Interação humana consigo mesmo e com outros é sempre carregada na razão de símbolos e suas interpretações. Comportamento racional não pode ser explicado, consequentemente, a não ser que pensamento e linguagem sejam considerados, porque humanos inserem significados aos estímulos simbólicos e agem em razão desses significados, que “são socialmente derivados através da interação com outros e não na inerência dos estímulos propriamente”. [31]

7. O significado subjetivo dos símbolos podem ser aprendidos pelos humanos apenas através da comunicação de abstrações. Conduta racional, que é “especificamente aprendida na comunicação simbólica” [32], por um indivíduo ativo, pode ser observada. Mas os significados adquiridos por um indivíduo são abstrações que não podem ser observadas: eles precisam ser comunicados à outros ou permanecer pra sempre com o indivíduo. A comunicação de abstrações, que categoriza a comunicação de todos os significados, é então essencial para a exploração de questões subjetivas.

8. Línguas naturais pode referir para as realidades subjetivas da mente; mas a subjetividade humana não pode ser descrita pela matemática aplicada nem explorada pela matemática pura. Em outras palavras, as linguagens naturais são essenciais, enquanto a matemática é descritiva. Isso significa que as linguagens naturais podem encaminhar a mente para idéias sobre qualquer coisa; mas a matemática é seguramente atada ao universo material; somente pode descrever atualidades físicas ou explorar possibilidades físicas. Matemática é então “um instrumento para aplicação à problemas físicos”. [33] Foi inventada para compreender os objetos físicos e processo da matéria e energia, o que não pode adequadamente ser descrito em palavras. “Os axiomas da aritmética e geometria são baseadas nos processos físicos da contabilização de objetos e medidas de distâncias”; [34] e o cálculo diferencial “é uma tentativa direta de colocar noções físicas de velocidade e aceleração em termos precisos”. [35] Matemática é então a tecnologia intelectual do materialismo, uma linguagem artificial cujas “máximas abstrações são as verdadeiras armas que controlam nosso pensamento do fato concreto” [36] – que explica porque a matemática não pode controlar nosso pensamento sobre a forma abstrata. Linguagem natural, por outro lado, “é o mecanismo primário que conduz à mente e natureza do indivíduo”; [37] e suas abstrações verbais consequentemente constituem nossa melhor compreensão de comunicação intersubjetiva.

De George Herbert Mead à Karl Popper

Fazendo a distinção entre os componentes subjetivos e objetivos do universo formal, Karl Popper classifica o todo da realidade em três mundos separados, que ele chama Mundo 1, 2 e 3. [38]

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Os três mundos de Popper

Assim, Mundo 1 inclui tudo que é físico: contêm todas as realidades naturais e sociais – tudo que é feito de matéria e energia, que inclui (1) todos os objetos físicos, processos, força e campos de força; (2) todas as configurações orgânicas e inorgânicas de matéria e energia (incluindo cérebro humano); e (3) todos os artefatos criados por humanos. Tudo não-físico, por outro lado, é encontrado nos mundos 2 e 3, que contêm todas as formas noetic [tradutor-?]. Mundo 2 inclui tudo não-físico e subjetivo: contêm todas as realidades filosóficas – todos os processos subjetivos do pensamento no mundo privado da individual mente humana; é o mundo pessoal da sua própria inteligência, “o mundo da sua vida espiritual íntima, o mundo que você conhece e vive em todos os momentos que você está consciente, do momento que você acorda, até a hora de dormir. Esse é o Mundo 2,” [39] o mundo da mente humana; é um vigoroso mundo ativo que inclui tudo o que você pode pensar, sentir, criar, lembrar e imaginar; e pode ser “conhecido nos outros apenas através de inferências de comunicações simbólicas.”[40] Mundo 3 inclui tudo não-físico e objetivo: contêm todas as realidades culturais; todos os produtos objetivos do pensamento, que inclui todas as idéias de todos os tipos, que são disponíveis para estudo fora da consciência individual; engloba tudo que é humano a nossa volta e tudo que é criado e objetificado por mentes humanas, incluindo todas as úteis e belas artes. “Nós vivemos no ambiente cultural do Mundo 3”, que é tanto quanto objetivo e “cada pedaço tão real como o ambiente físico do Mundo 1”. [41] Você exibe o comportamento Mundo 3 sempre que comunica qualquer coisa através da línguagem, ou em qualquer outro meio, porque o Mundo 3 é o conjunto da cultura civilizada.

Mundo 3 é o mundo do [conhecimento objetificado, ou] conhecimento no senso objetivo… ele inclui… [todas] idéias … preservadas em formas codificadas… em todos os registros da cultura humana. Na sua composição material de papel e tinta, os livros situam-se no Mundo 1, mas o conhecimento codificado na impressão [de livros] está inserido no Mundo 3, [e a situação é similar]… para imagens e todos os outros artefatos… Mundo 3 inclui os registros dos esforços intelectuais de toda humanidade ao longo dos anos … [é] a herança cultural [da raça humana].[42]

De acordo com Popper, seres humanos podem interagir diretamente com o seu ambiente físico e indiretamente com o seu ambiente cultural (utilizando dados de seu ambiente físico como símbolos comunicativos); mas estes ambientes podem interagir um com o outro “apenas por meio da intervenção humana”. [43] Ele rejeita paralelismo psico-físico, a visão monística do materialismo científico, porque isola as ordens natural e formal, os considera como diferentes aspectos da mesma coisa e os previne de influenciar um ao outro de maneiras significativas; e ele aceita interacionismo psicofísico, também conhecido como interacionismo dual, ou “o senso comum de que as pessoas são constituídas de duas separadas e distintas entidades”. [44] Assim, “a entidade não-material do Mundo 2, o mundo do espírito, é a mente auto-consciente – a alma ou psique que constituem o ser;” e “a entidade material do Mundo 1, o mundo das realidades físicas, é a mente humana e o corpo, que ele controla.” [45] Isso amarra o problema da filosofia corpo-mente à “ligação cérebro-mente” Popperiana, [46] a fronteira de interação entre a mente e seu cérebro, que permite à mente manipular seu ambiente físico controlando o cérebro que controla seu corpo: isso explica como a mente pode criar conhecimento subjetivamente no Mundo 2, expressar as evidentes manifestações de conhecimento no Mundo 1 (codificando-o nos símbolos físicos de relatórios subjetivos), e armazena seus referenciais ideativos objetivamente no Mundo 3; e o processo é reversível – você pode observar os símbolos físicos do conhecimento objetivo no Mundo 1, reconhecer seus referenciais ideativos no Mundo 3, e reconstruí-los como seu próprio conhecimento subjetivo no Mundo 2. Desse modo nós vemos como os imperceptíveis significados, conceitos, memórias, imagens, sentimentos e crenças que constituem nossa experiência pessoal podem ser expressadas para outros comtemplarem, como nós podemos comtemplar as expressões de outras pessoas, “e assim como novos complexos de pensamentos e entendimentos podem ser criados;” [47] e nós também podemos ver como a Biblioteconomia é derivada da habilidade humana de criar e manipular idéias na razão de símbolos.

O palco teatral da Biblioteconomia – todas as funções profissionais do bibliotecário estão implícitas na interface mente-documento, que cria sete elementos e duas visões da Biblioteconomia. [48]

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Os sete elementos incluem três indispensáveis componentes (usuários, conhecimento objetivos e bibliotecários), três interfaces necessárias (as interações entre usuário-conhecimento, bibliotecários-conhecimento e usuários-bibliotecários) e um resultado integrado (o sistema que emerge dos componentes essenciais e interfaces da Biblioteconomia). Tudo começa com o Homem como um animal informacional: o ambiente cultural, que faz ascender a Biblioteconomia, é criada somente porque as pessoas são pensadores que precisam saber todos os tipos de coisas para que vivam de acordo com o que sabem e controlar suas ações por meio do conhecimento; contêm os produtos objetivos do conhecimento nascidas de inúmeras mentes humanas de todas as áreas e períodos; e existe apenas porque “todas as civilizações humanas dependem de um tipo de ‘livro’ cultural, isto é, na capacidade de colocar informação em armazenamento para que se possa reutilizá-la”. [49] A função dos bibliotecários é mediar essa interface entre o Homem e a informação codificada no livro cultural, ou em outras palavras, maximizar a interação humana com conhecimento cultural através de símbolos. Essa função não pode ser executada corretamente até que bibliotecários compreendam as duas pontas da interface mente-documento e a natureza simbólica da interação humana.

Então, eles precisam entender as (1) pessoas como mentes comprometidas no pensamento, (2) a necessidade humana de conhecimento objetivo (que sempre trasncede a mente que o estudam), e (3) o uso humano de símbolos, como meio de as pessoas se comunicarem uma com as outras e com seus ambientes culturais. A importância dessa interface mente-documento não pode ser superenfatizada. Ela fornece os três primeiros elementos da Biblioteconomia; os bibliotecários constituem o quarto elemento; o quinto e sexto elementos constituem de tudo envolvido nas interações entre bibliotecários com conhecimento objetivo e com usuários; o sétimo elemento é a própria Biblioteconomia – o sistema, bom ou mal, que os bibliotecários criaram integrando os cinco elementos na sua disposição. Essa interface básica também revela duas visões, dois modos de indagação e nove áreas-problema da Biblioteconomia. [50] As duas visões são a visão teorética dos educadores da Biblioteconomia, [library educators] que precisam entender a totalidade da Biblioteconomia e e explicá-la como campo de estudo e a visão pragmática dos praticantes da Biblioteconomia [profissionais liberais], para os quais a Biblioteconomia é uma atividade ocupacional. Os dois modos de indagação são pesquisa básica, que constrói conhecimento conceitual da Biblioteconomia como um conjunto integrado com relação à todas suas partes e funções e investigação ad hoc [específica], que objetiva resolver os problemas de serviço dos profissionais liberais. E as nove áreas-problema, que indicam os tipos de problema que surgem dos sete elementos e duas visões da Biblioteconomia, sugerem a visão de Shera de que alta tecnologia pode não somente forçar bibliotecários “a examinar as implicações filosóficas da Biblioteconomia mas também condicioná-los à acomodar “áreas de indagação que não foram previamente … relacionadas com seu trabalho.”[51]

Se bibliotecários…estão dispostos a tomar vantagem das novas tecnologias eles precisam primeiro extender os limites de seu pensamento…e aceitar no corpo de seu conhecimento profissional idéias que a princípio podem parecer estranhas, senão hostís [para a Biblioteconomia]. A profissão precisa estar particularmente alerta às suas margens e ser sensível e responsável para mudar [de maneira] a assegurar uma comunicação clara e aberta com todas as fontes relevantes de inovação.[52]

Essas áreas-problema, que virtualmente geram todos os problemas da Biblioteconomia, podem fatalmente requerer soluções desenvolvidas por todos os campos da ciência e do conhecimento. Os problemas específicos dos bibliotecários, consequentemente, são melhores resolvidos por meio de indagações sistemáticas sobre a natureza de nove problemas, que são listados a seguir.

1. O Homem como uma mente pensante que constantemente cria, usa, armazena, resgata e reutiliza idéias porque requer um contínuo suprimento de conhecimento para que se viva de acordo com o que sabe (ou acredita que sabe). Engloba todos os problemas de conhecimento pessoal, ou os processos subjetivos de conhecer qual deles ocorrem dentro das mentes dos indivíduos.

2. O ambiente cultural humano, que inclui todas idéias criadas e objetificadas como objetos formais pelas mentes humanas. Engloba todos os problemas do conhecimento público, ou os produtos subjetivos de conhecer quais estão disponíveis para estudo como idéias existentes fora da mente que os estuda.

3. A interface mente-documento que inclui todos os problemas derivados da comunicação intrasubjetiva dos humanos com os objetos formais do conhecimento cultural. Preocupa-se com todas as maneiras que uma mente humana pode interagir com objetos formais criados por outras mentes humanas e manisfestadas na ordem social como expressões físicas do conhecimento, expressões consistindo tanto em processos temporais (como discursos e música) como em estados permanentes (pinturas e palavra impressa). A palavra “documento” se refere a qualquer meio natural ou artificial de consulta de idéias objetificadas, colocando-as em espera, para que se possa reutilizá-las quando necessário.[53] Os tipos de conhecimento objetificado que podem ser comunicados por meio de documentos escritos, possuem significado especial para as formas literatas da Biblioteconomia.

4. O bibliotecário como um profissional da informação, que tem por função mediar a interface mente-documento, colocando mentes e documentos juntos e maximizando interações úteis entre eles.

5. A interface bibliotecário-usuário, ou todos os problema derivados da comunicação intersubjetiva de bibliotecários com seus usuários. Incluem todos os serviços diretos à leitores, como recomendações de referência e leitura, e obriga bibliotecários a determinar as necessidades informacionais específicas dos usuários para que os referencie à itens relevantes do conhecimento no ambiente cultural.

6. A interface bibliotecário-documento, ou todos os problemas derivados da comunicação intrasubjetiva de bibliotecários com as idéias que constituem os objetos formais do conhecimento cultural. Incluem todos os serviços indiretos aos leitores, ou operações de coleção, como aquisição e catalogação, e obriga bibliotecários a entender a estrutura intelectual do conhecimento objetificado para que se oriente usuários à objetos formais no ambiente cultural.

7. O sistema integrado da Biblioteconomia criado por bibliotecários baseado nos cinco elementos comuns a performance de suas funções em todas as operações da biblioteca.

8. A visão teorética da Biblioteconomia (visão de cima) Defendida pela maioria dos educadores em Biblioteconomia, cuja função é reduzir os primeiros princípios da Biblioteconomia à um sistema de regras teoréticas que governa todas as suas explicações e aplicações e pode ser aprendida em um programa de instrução prática. Essa visão é sustentada pela faculdade intelectual do entendimento, que criando conhecimento básico da Biblioteconomia como um campo de estudo, fornece a fundação para a prática da Biblioteconomia como uma atividade profissional.

9. A visão pragmática da Biblioteconomia (visão de baixo). Defendida pela maioria dos profissionais liberais e administradores da Biblioteconomia, que precisam lidar com as urgências imediatas das operações específicas da biblioteca. Requer o exercício constante do julgamento prático pelos bibliotecários, porque, aplicando as regras gerais da Biblioteconomia em situações concretas, eles precisam saber o que fazer em situações específicas e como investigá-las para que se resolva os milhares de problemas e serviço que ocorrem em todas as operações de biblioteca.

Uma perspectiva adicional para a Biblioteconomia, que pode ser chamada “visão bem de cima”ou “visão de fora”, é a visão idealizada daqueles consumados bibliotecários e educadores em Biblioteconomia que, na sua onisciência e onipotência, podem integrar todas as realidades abstratas e concretas da sua profissão em uma única metafísica compreensiva fundada na mente humana e no ambiente cultural que cria.[54] É a visão filosófica que dá vida aos primeiros princípios da Biblioteconomia, que em retorno cria o conhecimento teorético aplicado pelo exercício de bibliotecários em todos os tipos específicos de operações da biblioteca. Assim, a interface mente-documento constitui a preocupação central dos bibliotecários e seus educadores. Engloba tudo o que sabem e fazem: não existiria a Biblioteconomia se ela não fosse absolutamente real; e sua tremenda significância exige séria atenção e merece exploração intensiva.

Biblioteconomia e os três mundos de Karl Popper

As realidades físicas da matéria e da energia pertencem à primeira classe de todas as disciplinas empíricas. Em disciplinas intelectuais como a Biblioteconomia, entretanto, elas possuem status apenas de segunda classe como instrumentos simbólicos para que se comunique abstrações formais. A natureza intelectual da Biblioteconomia, pode ser revelada claramente, identificando seus elementos básicos com os três mundos de Karl Popper. Os usuários como animais caçadores de informação, como pensadores pesquisando por conhecimento fora deles mesmos, são sujeitos inteligentes conscientes pertencentes ao Mundo 2; o conhecimento objetivo buscado pelos usuários pertence ao ambiente cultural do Mundo 3; e os bibliotecários como profissionais da informação – especialistas que precisam entender tanto a busca do conhecimento subjetivo, como a busca pelo conhecimento objetivo pelos usuários – são também sujeitos conscientes inteligentes que pertencem ao Mundo 2. Isso levanta a mais reveladora questão. Onde está o Mundo 1?, o mundo físico de matéria e energia estudado pelos métodos empíricos da ciência? Mundo 1, lembre-se, contêm apenas as particulas [item de informação] concretas de matéria e energia, enquanto os Mundos 2 e 3, consistem somente das universais. Mundo 1, consequentemente, não pertence diretamente aos compenentes básicos da Biblioteconomia, porque suas partículas físicas não incluem os processos subjetivos nem os produtos objetivos do conhecimento. Assim, sua significância é completamente confinada às três interfaces da Biblioteconomia onde funciona instrumentalmente como maquinário comunicativo, já que os dados físicos que permitem humanos comunicarem-se entre si e com seus ambientes objetivos são todos derivados do Mundo 1; e o papel do Mundo 1 na Biblioteconomia desse modo, é reduzido a equipar pessoas com matéria-prima para a construção dos instrumentos simbólicos da comunicação humana. [55] Deve ser notado que, além disso, a função profissional dos bibliotecários, que é intimamente envolvida com o modo sujeito-sujeito de comunicação duas vias [two-way], e com o modo forma-à-sujeito de comunicação via única [oneway], tão familiar aos humanistas, virtualmente não possui envolvimento com o modo fato-à-sujeito de comunicação via única que é absolutamente indispensável ao cientista.[56] Você não pode explicar um barco furado ao oceano, em outras palavras, nem pode comunicar nada aos livros que leu ou ao fenômeno que estuda. E a razão para tudo isso é básica: a Biblioteconomia não se preocupa com as realidades; preocupa-se com os relatos humanos subjetivos sobre as realidades. Bibliotecários deveriam entender isso claramente, porque os relatos subjetivos humanos sobre realidades formais ou físicas precisam tanto ser comunicadas diretamente pelos próprios humanos ou indiretamente através de objetos formais criados por humanos. Não existem outros meios de se comunicar relatos humanos subjetivos.

Conclusão

Biblioteconomia é o gerenciamento do conhecimento, não o gerenciamento da natureza.[57] É controlada pelas idéias, não pelos fenômenos, já que responde a necessidade objetiva das mentes no Mundo 2 para conhecimento objetivo no Mundo 3. Mas as abstrações formais de conhecimento subjetivo e objetivo não podem ser observadas: não podem ser vistas, ouvidas, sentidas, tocadas, ou de qualquer maneira detectadas pelos sentidos. Assim, conhecimento, que sempre transcende as realidades físicas do Mundo 1, precisa ser estudado filosoficamente: não pode ser estudado científicamente porque a mente humana, que constitui a fonte e a matéria subjetiva da Biblioteconomia, “é danosamente invisível e uma ciência com conteúdo invisível tende a se transformar em uma ciência invisível.”[58] Isso significa que as abstrações formais do conhecimento precisam ser comunicadas utilizando-se os recursos físicos do Mundo 1 como instrumentos simbólicos que referem a mente à ideías nos Mundos 2 e 3. A comunicação do conhecimento, dessa maneira, não pode ser confundida com os instrumentos físicos pelos quais o conhecimento é comunicado.

O uso humano de símbolos engloba todos os problemas com relação à informação do Século XX. Causou a explosão moderna do conhecimento, que esmaga todos com suas tsunamis de informação; e lançou um esforço sofisticado para trazer nossos profundos oceanos de símbolos sob o controle da tecnologia de eletrônicos. As preocupações informacionais que penetram todos os aspectos da sociedade recaem sobre o coração da Biblioteconomia; mas os bibliotecários e seus educadores tentaram lidar com elas através da Ciência da Informação, que super-enfatiza o aspecto mecânico da tecnologia das comunicações e ignora o aspecto específicamente humano da comunicação, reduzindo conhecimento à sinais físicos. O refinamento da tecnologia, certamente, é uma excelente maneira de gerenciar conhecimento; mas não é o gerenciamente do conhecimento. A construção de maiores e melhores intimidadores para que se empurre a difusão das manifestações físicas da comunicação ou descobrir o potencial comunicativo de raios laser e pacotes de fibra de vidro, pode ser um tremendo impulso para a comunicação; mas eles não são comunicação. É simples e completamente impossível gerenciar conhecimento a não ser que o complexo relacionamento de sinais comunicativos com seus significados subjetivos seja entendido e controlado; e entendido que relacionamento psicofísico clama por uma teoria dualística que é compreensiva o suficiente para explicar exatamente como símbolos físicos são interligados com seus referênciais metafísicos e os seres humanos. Esse tipo de teoria da comunicação compreensiva é precisamente o que está faltando à Biblioteconomia nos dias de hoje.

Antes de falecer em 1982, Shera reverteu seus pensamentos anteriores sobre Ciência da Informação nessas palavras.

Vinte anos atrás, eu pensei sobre o que é hoje chamada de Ciência da Informação como fornecedora das fundações intelectuais e teoréticas da Biblioteconomia, mas agora estou convencido de que estava errado… Eu questiono seriamente se existe uma real interdisciplinaridade entre a Biblioteconomia e a Ciência da Informação… Nós precisamos olhar para outras disciplinas para suas relações interdisciplinares e o núcleo da sua teoria. [59]

Shera posteriormente recomendou interacionismo simbólico para a profissão da Biblioteconomia porque ele sabia que monística “confusão entre dados e idéias,” que entende dados como idéias, “leva à confusão entre sistemas de dados e sistemas de idéias” que embriaga a comunidade da informação hoje. [60] “Essa confusão de idéias e dados,” ele diz “pode ser consertada apenas através da distinção entre sistemas de dados e sistemas de idéias” [61] – uma insustentável distinção que monistas cientistas não pretendem ou podem fazer. Assim, a insistência de Shera no começo dos anos de 1980 que o “problema geral da informação possui três aspectos e [que] nós apresentamos apenas dois deles” é essencialmente correto: a explosão informacional foi amplamente divulgada pela sua escola de Biblioteconomia em Western Reserve; e a profissão da Biblioteconomia finalmente aceitou a tecnologia como uma forma de lidar com isso.[63] Mas para tudo isso, os profissionais da informação, que são largamente comprometidos com o materialismo empírico da ciência, nunca enfrentaram as realidades intelectuais derivadas do uso humano de símbolos.

Os problemas fundamentais da Biblioteconomia não são tecnológicos, nem possuem soluções empíricas: eles são problemas intelectuais que requerem soluções filosóficas. A examinação crítica da comunicação mediada simbólicamente, além disso, oferece à bibliotecários e cientistas da informação a chance de aprender a lidar com os problemas. Mas o interacionismo simbólico também nos confronta com duas alternativas: nós podemos investigar as realidades intelectuais da comunicação simbólica e aprender a limpar a sujeira em que estamos, ou podemos apenas nos preparar para aprender a viver dentro da sujeira. O antigo é o melhor caminho – - não há dúvidas nisso; mas segui-lo será difícil, porque o novo é até agora a única coisa experimentada pelos profissionais da informação.

Notas

[1] Science and the Modern World (“Lowell’s Lectures,” 1925; New York: Macmillan, 1962), 71.

[2] Interacionismo simbólico se espreita no pano de fundo de virtualmente tudo exceto teoria de sistemas, por exemplo, nas duas edições de Stephen W. Littlejohn, Theories of Human Communication (1st ed., Columbus, Ohio: Charles E. Merrill, 1978; and 2d ed., Belmont, Calif.: Wadsworth Publishing Co., 1983). Esse trabalho é um maravilhoso índice para a literatua da teoria da comunicação, mas as vezes desaponta nas suas próprias discussões da comunicação.

[3] “Peirce introduziu o termo ‘pragmatismo’ em 1878 como o nome da teoria do significado,” William L. Reese, Dictionary of Philosophy and Religion: Eastern and Western Thought (Atlantic Highlands, N.J.: Humanities Press, 1980), 419. “Pragmatismo conceitual’ de Lewis, como ele chamou sua posição…inclui…intenções de criar uma filosofia crítica do conhecimento e comunicação,” H.S. Thayer, Meaning and Action: a study of American Pragmatism (New York, Bobbs-Merrill, 1973), 148. Lewis também insistiu que o elemento pragmático do conhecimento é o elemento a priori (o que a mente contribui para o conhecimento), não o elemento empírico (o que o mundo traz ao conhecimento), ibid., 154, 158, 163, 172.

[4] Sobre James como popularizador e pervertor do pragmatismo, veja ibid., 127. “O julgamento usual é que James compreendeu errado, aplicou errado e direcionou errado o pragmatismo de Pierce,” somando que “Pierce certamente tinha o direito de protestar contra o que James estava fazendo.” Nas vastas diferenças entre Pierce e James, veja ibid., 13, 21-22, 74, 76-78, 81-82, 86-88, 97-98, 105, 109 e n. 7, 216-128, etc. Peirce, lembre-se, recristinou pragmatismo em 1905 como “pragmaticismo,” um termo feio suficiente, ele cismou, para proteger dos sequestradores – como James e extendendo um pouco, como Dewey. Sobre as diferenças de James com o pragmatismo recente, veja ibid., 218: “Os recentes pragmatistas, especialmente Dewey, Mead e Lewis, encontraram séria imperfeições na maneira em que James enxergava a mais larga cena filosófica na qual o pragmatismo foi introduzida.” Dewey rejeitou o “anti-intelectualismo na filosofia em James, sua descrença de abstrações científicas e sua inabilidade de ver o significado do método científico como parte vital do questionamento filosófico e interpretações do comportamente,” ibid. Mead satirizou noções populares dos pragmatistas, indubitávelmente com James em mente, Hans Joas, G. H. Mead; a Contemporary re-examination of his Thought, tr. R. Meyer (Cambridge, Mass.: MIT Press, 1985), 36 , citando a The Philosophy of the Act, de Mead, ed. Charles W. Morris (Chicago: University of Chicago Press, 1959), 97. E o “pragmatismo percentual” de William James poderia ser constantemente tratado pelo “pragmatismo conceitual” de C. I. Lewis com sua ênfase sobre “pragmático apriori” e sua insistência de que a filosofia propriamente “é o estudo do a priori,” C. I. Lewis, Mind and the World Order: Outline of a Theory Knowledge (New York: Dover, 1956), 36 e passim.

[5] Estou certo de que Kaplan alguma vez se descreveu como ”positivista por treinamento, pragmatista por inclinação”, apesar de eu não saber onde. Suas afinidades com Mead, entretanto, estão aparentes em qualquer lugar ao longo de sua discussão sobre pragmatismo no The New World of Philosophy (New York: Random House, 1961), 13-52, esp. 18, 22, 25, 30, 50.

[6] O estudo moderno da história intelectual, ou a história das idéias, foi criada por Arthur O. Lovejoy na Johns Hopkins University. Lovejoy examinou, e descobriu querendo, uma revolta no primeiro quarto deste século [XX] contra os dualismos ontológicos e epistemológicos em que filósofos como Russel, Whitehead e todos os pragmatistas americanos estavam envolvidos. Isso explica em parte, talvez, porque pragmatistas intelectuais como Mead e Kaplan geralmente mostram inclinaçõs monísticas que parecem ser mais aparentes do que reais. Kaplan, por exemplo, não pode fazer seguir a história das idéias sem acreditar que as idéias existam. Porém, ele parece negar sua existência rejeitando as duas culturas, e afirmando sua existência argumentando que bibliotecários precisam se preocupar com substância e conteúdo ou com ordem, estrutura e forma. Mas Lovejoy lançou a história das idéias especificamente porque a revolta dos monistas espetacularmente não obteve sucesso, como afirmada na conclusão de seu The Revolt Against Dualism: na Inquiry Concerning the Existence of Ideas (2d ed. “The Paul Carus Lectures,” 2; La Salle, Ill.: Open Court, 1960) 328-29: “A revolta…contra dualimo, tanto psicofísica como epistemológica, falharam. A essência da nossa experiência atual não consiste completamente, e é improvado e improvável que qualquer parte consista, de titulações que, sobre qualquer teoria plausível da constituição do mundo físico, podem supor ser membras daquele mundo; consiste de partículas que..estão presentes apenas dentro dos campos privados de consciências individuais…são destituídas…das propriedades e relações essencias implícitas tanto pelo conceito histórico de físico ou pelo seu conceito fisicista contemporâneo e possui propriedades que coisas físicas não possuem. Eles são, reduzidamente, essencialmente da natureza das ‘idéias’… E é através dessas entidades ideativas que qualquer conhecimento o qual nós podemos nos prender…do mundo físico e de quaiquer outras realidades externas aos nosso diversos campos de consciência, precisam ser mediados”.

[7] Veja, por exemplo, Karl R. Popper e John C. Eccles, The Self and its Brain (New York: Springer International, 1978), 11 n.7: “Existem certas similaridades entre minhas idéias [sobre o caráter e as idéias]…do pragmatista americano G. H. Mead”. Tais similaridades são frequentes e bem pronunciadas entre esses dois filósofos.

[8] Peter Munz, Our Knowledge of the Growth of Knowledge: Popper or Wittgenstein? (Boston: Routledge & Kegan Paul, 1985), 225-26.

[9] Aqueles que discutiram que Popper é irrelevante e ultrapassado, consequentemente, precisam encarar o fato de que não há virtualmente nada em Popper que não aparece, pelo menos implicitado, em Platão, e que Platão definitivamente não é irrelevante também, nem nunca irá desaparecer da tradição intelectual ocidental. Todos estes argumentos, são argumento com Platão, não com individuais filósofos da forma [form-philosophers] como Popper, Kaplan ou Mead.

[10] Especialmente em Karl R. Popper, Objective Knowledge: an Evolutionary Approach (Oxford: Clarendon Press, 1972), que possui nove capítulos e um apêndice sobre o tema, e em Popper e Eccles, The Self and Its Brain.

[11] Em Popper e Eccles, The Self and Its Brains; em duas monografias por John C. Eccles, The Human Mistery (“Gifford Lectures,” 1977-78; New York: Springer International, 1979) e The Human Psyche (“Gifford Lectures,” 1978-79; New York: Springer International, 1980); em John C. Eccles e Daniel N. Robinson, The Wonder of Being Human; Our Brain and Our Mind (New York: Free Press, 1984); em um maravilhoso e sucinto sumário do livro acima entitulado “The Mistery of Personal Existence,”que eu pessoalmente editei para Scholar and Educator, vo. 7, n. 1 (Spring, 1983), 5-18, porque eu o considero o melhor resumo da filosofia dos 3 Mundos de Popper; e em muitas outras fontes.

[12] Essa seção é baseada em meu artigo “From Chaos to Kaplan; a Sga of Library Literature, Scholar and Educator, vol. 8, n. 1 (Spring, 1984), 11-31, que também está incluso em “The Symbol and its Referent; na Issue for Library Education,” Library Trends, vol. 34, n. 4 (Spring 1986), 729-76.

[13] Abraham Kaplan, “The Age of the Symbol—a Philosophy of Library Education,” em Don R. Swanson, ed., The Intellectual Foundations of Library Education … (Chicago: University of Chicago Press, 1965), 7.

[14] Ibid. Itálico

[15] Ibid.

[16] Ibid., 8.

[17] Veja H. Curtis Wright , “Shera as a Bridge between Librarianship and Information Science,” Journal of Library History, vol. 20, no. 2 (Spring, 1985), 149.

[18] Kaplan, “The Age of the Symbol,” 7.

[19] Ibid., 8.

[20] Ibid. Itálico

[21] Daniel Bell, The Coming of Post-industrial Society: a Venture in Social Forecasting. (New York: Baic Books, 1973), 18-20. Itálico

[22] Kaplan, “The Age of the Symbol,” 8.

[23] Veja George Herbert Mead, “Herr Lasswitz on Energy and Epistemology,” Psychological Review, 1 (1894), 173.

[24] Kaplan, “The Age of the Symbol,” 12.

[25] Ibid.

[26] Jesse H. Shera, The Foundations of Education for Librarianship (New York: Becker and Hayes, 1972), 358.

[27] Jesse H. Shera, “Librarianship and Information Science,” em Fritz Machlup e Una Mansfield, eds., The Study of Information: Interdisciplinary Messages. (New York: Joh Wiley and Sons, 1983), 386. Para uma visão recente de interacionismo simbólico, veja Vernon W. Larsen e H. Curtis Wright, “Symbolic Interacionism Theory”, Scholar and Educator, vol. 11, n. 1 (Spring 1987), 49-71.

[28] Jerome G. Manis e Bernard N. Meltzer, eds., Symbolic Interaction: a Readir in Social Psychology (3d ed.; Boston: Allyn and Bacon, 1978), 8.

[29] Arnold M. Rose, “A Systematic Summary of Symbolic Interaction Theory,”em Arnold M. Rose, ed., Human Behavior and Social Processes: na Interactionist Approach. (Boston: Houghthon Mifflin, 1962), 6.

[30] Rose, “Systematic Summary,”12.

[31] Manis e Meltzer, eds., “Symbolic Interaction”, 6.

[32] Rose, “Systematic Summary,”9.

[33] Alfred North Whitehead, Science and the Modern World (New York: Macmillan, 1962), 81.

[34] P. T. Matthews, The Nuclear Apple: Recent Discoveries in Fundamental Physics (London: Chatto and Windus, 1971), 144.

[35] Ibid.

[36] Whitehead, Science and the Modern World , 48.

[37] Stephen W. Littlejohn, Theories of Human Communication (Columbus, Ohio: Charles E. Merrill, 1978), 76.

[38] Veja figura 1, onde a filosofia dos 3 Mundos de Popper está diagramada segundo informações presentes na fig. 7-2 de Eccles, The Human Psyche, 171, com informações auxiliares tiradas das figs. 1-2, 1-4, e 1-7 de ibid., 7, 8 ,19, e das figs. 10-1, 10-2 e 10-8 de Eccles, The Human Mistery, 211, 212, 223.

[39] John C. Eccles, “The Mistery of Personal Existence,” Scholar and Educator, 7 (Spring, 1983), 7.

[40] John C. Eccles, The Human Psyche (New York: Springer-Verlag, 1980), 168.

[41] Eccles, “The Mistery of Personal Existence”, 7.

[42] Eccles, The Human Psyche, 168.

[43] Popper e Eccles, The Self and its Brain, 47.

[44] Eccles, “The Mistery of Personal Existence”, 8.

[45] Ibid.

[46] Popper e Eccles, The Self and its Brain, 37.

[47] Eccles, “The Mistery of Personal Existence”, 10.

[48] A interface mente-documento está diagramada na Figura 2, e elaborada no sistema completo da Biblioteconomia na Figura 3. Essas figuras, que são modificas do diagrama de círculos em Conrad H. Rawski, ed., Toward a Theory of Librarianship: Papers in Honor of Jesse Hauk Shera (Metuchen, N.J.: Scarecrow Press, 1973), 128, deve ser consultado juntamente com a discussão que segue.

[49] Eric A. Havelock, Preface to Plato (Cambridge, Mass.: Belknap Press, 1963), vii.

[50] Um problema crescente em qualquer lugar na Biblioteconomia pode então ser considerado sob duas perspectivas, indicadas pelas sub linhas indicadas em pesquisa basic e investigação ad hoc aos problemas típicos da interface “c”. Outras sub linhas, que foram omitidas para que se simplificasse o diagrama, devem ser entendidas relacionando os dois modelos de indagação a todas as áreas-problemas em Biblioteconomia.

[51] Jesse H. Shera, “Librarians Against Machines,” Wilson Library Buletin, vol. 42, n. 1, (September, 1967), 71-72.

[52] Ibid., 72.

[53] Existem entretanto “documentos” orais e escritos. Exemplos são os poemas Homéricos, as sagas Islandesas, e a constituição oral de Sparta, que foi chamada de rethra (do grego reo, “flutuar”, como em rios, discurso, retórica, etc.)

[54] Essa é a visão endeusada do homo perfectus que pode ser um bem conhecido onipotente leitor flutuando distante sobre um diagrama por exemplo, enxergando-o objetivamente desligado através e fora do diagrama propriamente.

[55] Veja dois dos meus artigos sobre esse tema, “The Informational Function of the Physical Datum in Human Communication,” Scholar and Educator, Spring, 1979, 27-34; e “The Instrumentality of Data,” NLA Newsletter, 6 (May, 1981), 4-9.

[56] O modo fato-à-sujeito de comunicação intrapessoal é consequentemente confinada à função administrativa do bibliotecário, que é profundamente envolvida com os instrumentos comunicativos da Biblioteconomia.

[57] Veja Jesse H. Shera, Libraries and the Organization of Knowledge, ed. D.J. Foskett (Hamden, Conn.: Archon Books, 1965), 176.

[58] G. A. Miller, E. Galanter e K. H. Pribam, Plans and the Structure of Behavior (New York: Holt, 1960), 6.

[59] Shera, “Librarianship and Information Science,”383.

[60] Ibid., 384.

[61] Ibid., 386.

[62] Ibid., 135.

[63] O comércio de computadores [computer business] está vivo e florescendo na Biblioteconomia hoje, apesar da Biblioteconomia definitivamente não estar no comércio de computadores.

H. Curtis Wright
Tradução de Moreno Barros
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WRIGHT, Curtis H. Biblioteconomia e comunicação mediada por símbolos. ExtraLibris, 2005. Disponível em <http://academica.extralibris.info/teoria_da_biblio/comunicacao_mediada_por_simbol.html>. Acesso em: 11 out. 2005.

Conectando os pontos: software social e bibliotecas

Posted March 14th, 2009 in Artigos e Estudos by ExtraLibris

Conectando os pontos:
software social e a natureza social das bibliotecas

Geoffrey Harder

Tradução de Moreno Barros.
As bibliotecas sempre conectaram pontos. Nós conectamos pessoas com informação, conectamos idéias às imaginações e conectamos indivíduos às comunidades. É por isso que o software social continua sendo um item bastante abordado nos programas de conferência em bibliotecas e nas publicações relacionadas a bibliotecas, tanto online como offline. Mesmo com as discussões sobre o movimento da Web 2.0 e sua cria, a Biblioteca 2.0, o software social – a conexão de pessoas a outras pessoas utilizando softwares e Internet – continua a ser um grande fator nas discussões sobre o que são agora e o que virão a ser as bibliotecas e o cenário mais amplo de informação.

Software social, sucintamente definido, é o “software que dá suporte à interação em grupo”. Ele também conecta os pontos entre pessoas e pessoas, entre pessoas e seus interesses e entre o que pode vir a ser e o que já é. O ano é 2006, e a estréia do navegador de internet em 1993 parece história antiga, especialmente para muitos calouros agora iniciando (ou lamentando) seu primeiro ano de universidade. Para aqueles um pouco mais velhos, nós saímos de um tempo onde, para a maioria, a web permanecia uma tecnologia de “somente leitura”, para uma era onde muitos podem “ler-escrever-participar”. Mas o que isso realmente significa para bibliotecas, pesquisadores, autores e editores? Como nos situamos no novo mundo dos blogs, wikis e usuários de etiquetas que ousam questionar a praticidade dos nossos cuidadosamente elaborados cabeçalhos de assunto?

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