Dez motivos para “bibliotecários profissionais” serem um oxímoro

Posted May 26th, 2010 in Ensaio by ExtraLibris

Da área: você se diz profissional? Dez motivos para “bibliotecário profissional” ser um oxímoro

Ryan Deschamps propõe um desafio: defenda seu título

Ryan Deschampa (Tutor de e-Learning na Biblioteca Pública de Halifax, Nova Escócia) propôs um desafio a todos os bibliotecários: provem que são profissionais.

Em seu blog The Other Librarian, ele lista “Ten Reasons Why ‘Professional librarian’ is an Oxymoron” (reproduzido abaixo), e convida bibliotecários a dizê-lo exatamente “por que essas dez razões são besteira”.

Como ele escreve,

Se bibliotecários não podem pessoalmente endereçar as afirmações anti-profissionais a seguir com indivíduos, eles não podem chamar a si próprios de profissionais. O que estou dizendo é que o MLIS ou o que quer que seja equivalente que um bibliotecário tenha na sua parede não conta como status na sociedade. Cada bibliotecário precisa responder pessoalmente às 10 seguintes coisas para assumir seu statur como profissional.

Na próxima semana, Deschamps irá fire back e endereçar sua tese [veja a resposta dele,"(More Than) Ten Reasons Why "Professional librarian" Isn't an Oxymoron" não serem um oxímoro]. Ele também endereçará algumas das respostas que o post gerou em seu site e em outros lugares, incluindo comentários citando Sandy Berman e Nancy Pearl como grandes bibliotecárias, entre outros desacordos.

Mas primeiro, perguntamos à você: por que você se considera um profissional?

Dez motivos para “bibliotecários profissionais” serem um oxímoro

1. Bibliotecários não tem monopólio sobre as atividades que exercem

Você precisa passar pelo exame da OAB pra ser advogado. Você não pode fazer cirurgias a não ser que seja cirurgião. Você não pode construir uma ponte sem um título de engenheiro. A informação é livre. Seu filho de 12 anos pode ensinar a vovó a fazer uma pesquisa no Google.

2. Não existem consequencias em fracassar a aderir a práticas éticas

Apesar do risco de ser considerado não-empregável, um bibliotecário não tem nenhuma obrigação profissional real de aderir a qualquer um dos valores resolvidos pela ALA ou qualquer outro então chamado corpo profissional. Não há nenhum processo de comum acordo para lidar com brechas éticas, nem uma entidade para reportar essas brechas éticas.

3. A biblioteconomia é muito generalizada para exercer qualquer tipo de expertise

O número de livros na área escritos ‘para bibliotecários’ é análogo aos livros escritos ‘para dummies’. A questão é que bibliotecários, ao invés de terem uma área específica de expertise, na verdade precisam de conhecimentos superficiais de uma variedade de coisas – administração, tecnologia, desenvolvimento de comunidades e etc. Enquanto alguém poderia dizer que ser generalista é a própria expertise, existem áreas mais amplas e profundas de estudo como a administração, engenharia e educação que poderiam afirmar o mesmo.

4. O ‘Bibliotecário’ assume um cargo, ao invés do trabalho em si

Apesar de afirmações contrárias, ‘bibliotecário’ vem de ‘biblioteca’ que é o lugar onde estão os livros. Não é uma atividade, mas um produto ou serviço. Ainda, bibliotecários deveriam ser tratados legitimamente como se estivessem providenciando qualquer produto ou serviço.

5. A revisão de pares na biblioteconomia não funciona pois não é processo competitivo para corroborar com isso

O motivo pelo qual a literatura para bibliotecas geralmente é horrível é que bibliotecários são seres colaborativos por natureza. Artigos são aceitos por que eles satisfazem um padrão mínimo, não por que eles representem o melhor e mais a mais brilhante pesquisa no campo. Verdadeiros profissionais são muito mais duros com sua revisão de pares por que eles tem um interesse pessoal em recusar aos competidores o privilégio de serem publicados.

6. Valores não são o suficiente

Valores em comum ocorrem em uma ampla variedade de comunidades, muitas das quais são atividades de leitura. Não há nada associado com os valores dos bibliotecários que difere de qualquer outro grupo de apoio. Bibliotecários não merecem ser recompensados simplesmente por que eles pensam que a informação quer ser livre.

7. A motivação primária para profissionalização é o monopólio de trabalho

A principal motivação para bibliotecários afirmarem seu status profissional é que eles podem reinvidicar a posições melhores e mais bem pagas (“ALA Accredited Degree or Equivalent”) em bibliotecas. Nós não podemos aceitar qualquer reinvidicação de profissionalismo bibliotecário sem evidências objetivas por que há um auto-interesse inerente nessa reinvidicação.

8. Escolas de Biblioteconomia não preparam estudantes para o trabalho em bibliotecas

O processo de criação de bibliotecários ‘profissionais’ foi criticado por muito tempo por sua falta de relevância ao trabalho de biblioteca na vida real. É como dizer que somos o grande espresso-making experts por que entendemos os segredos do design de um saquinho de chá.

9. Profissões que competem estão oferecendo diferentes paradigmas para os mesmos objetivos

Cientistas da Computação e engenheiros estão descobrindo modos de fazer a informação acessível ao público usando algoritmos de busca, design de interfaces e plataformas de mídia social. As práticas de biblioteca atuais estão seguindo seus líderes e não outros modos.

10. Ninguém pode lembrar de um ‘grande’ bibliotecário

Vá a uma universidade típica e peça aos professores para nomearem um grande Doutor (‘Albert Schweitzer’), Arquiteto (‘I. M. Pei’), ou Jurista (‘Johnny Cochran’). Nenhum bibliotecário destaca-se da mesma forma que esses grandes profissionais. Ninguém fora do campo da biblioteconomia irá nomear o Ranganathan.

Aí está. Espero que esses dez itens coloquem um diabinho no ombro esquerdo de cada bibliotecário que se diz profissional sem uma boa dose de crítica para acompanhá-lo. Na realidade, eu acho que esses 10 itens colocam uma responsabilidade especial nos ditos bibliotecários ‘profissionais’ para apresentarem-se e oferecerem um serviço exemplar às suas comunidades. O status de profissional não significa nada no mundo da informação – você precisa fazer por merecer sua titulação.

Tradução livre: Isadora Garrido, Revisão superficial: Fabiano Caruso

Original disponível no Library Journal

O bibliotecário e a mediação

Posted January 9th, 2010 in Ensaio by ExtraLibris

Iniciativas comunitárias que apostam no poder libertador da leitura são louváveis, mas não eximem os governos de sua responsabilidade de criar uma rede articulada de bibliotecas
Por Ezequiel Theodoro da Silva

Revista Educação – Edição 153

Talvez nenhum lugar em qualquer comunidade seja tão amplamente democrático como a biblioteca pública. A única exigência para entrar é o interesse!” –
Lady Bird Johnson

Por várias vezes, em diferentes lugares do Brasil e do exterior, afirmei que uma revolução qualitativa da leitura brasileira tem de contemplar, necessariamente, questões relacionadas com a existência de uma rede articulada de bibliotecas e pela ampliação pedagógica do trabalho dos bibliotecários.

Neste texto, retomo, reitero e amplifico esse posicionamento mesmo porque os governos continuamente cometem verdadeiros crimes para escamotear as necessidades de trabalho científico, tecnológico e técnico no âmbito da organização e disponibilização de acervos de leitura para as múltiplas comunidades existentes nas regiões brasileiras.

As duas pesquisas nacionais sobre hábitos de leitura do povo brasileiro, publicadas com o nome “Retratos da Leitura” (ver http://www.prolivro.org.br/ipl/publier4.0/texto.asp?id=48), mostram que 34% da população nunca foi a uma biblioteca; nas classes D e E, esse percentual sobe para 49%. Esses indicadores mostram a imensa distância que existe entre a casa do cidadão e os espaços formais onde se tem acesso à cultura escrita.

Inexistentes ou anacrônicas
Tais “retratos”, em verdade, apenas fazem redundar o óbvio no que se refere às bibliotecas: ou elas inexistem ou estão paradas no tempo ou ficaram apenas nas intenções, sem nunca terem sido organizadas e postas a funcionar condignamente. Em que pesem os cursos de biblioteconomia e de ciências da informação, a mostrar, de forma escancarada, que existe profissional graduado e habilitado para atuar na sociedade, a atitude das autoridades tem sido a de fuga ou de esquiva da responsabilidade, deixando que as comunidades “se virem” no que se refere à convivência com livros e outros suportes de escrita.

Recentemente, telefonou-me uma repórter de um jornal curitibano para perguntar o que eu achava de uma experiência de formação de uma biblioteca comunitária. Disse-me ela que os catadores de lixo da cidade tinham “catado” livros e revistas e fundado uma biblioteca para o segmento de catadores de lixo. Louvei a iniciativa, informei que os livros poderiam expandir os horizontes de mundo dos catadores de lixo etc., etc., mas, quando disse que era o governo que deveria organizar e manter as bibliotecas, a repórter entrou em parafuso, achando que não dera a devida importância à iniciativa grandiosa daquela comunidade.

Essa experiência com a “biblioteca catada” não é muito diferente de outras que conheço pelo Brasil, como borracharia-biblioteca, baú-biblioteca, peixaria-biblioteca, boteco-biblioteca, jumento-biblioteca etc., enaltecidas e espetacularizadas pela mídia como soluções absolutas para o problema da nossa vergonhosa situação nessa área. Numa análise mais fria e crítica e sem querer de maneira nenhuma desmerecer as iniciativas do borracheiro, do peixeiro e/ou do dono do jumento, o que vemos, de maneira reiterada, é a escamoteação dos governos, no passar dos anos, com aquilo que é mais do que claro, cristalino e evidente: que sem bibliotecas na real acepção da palavra e sem gente especializada, formada em biblioteconomia, para dinamizá-las profissionalmente, continuaremos incentivando os arremedos e, pior, curvando-nos à fuga de responsabilidade pelas esferas governamentais.

“Melhor isto do que nada”, dirão as más línguas. E talvez a minha própria língua já tenha dito isto à luz das possibilidades libertárias dos processos de leitura em si: o fenômeno de que a leitura autônoma pode levar à emancipação das pessoas e gerar a consciência das necessidades. Esse processo pode ser mais bem conhecido através da leitura do livro O queijo e os vermes – o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido, de Carlo Ginzburg (Companhia das Letras, 1987). Entretanto, o crescimento do número de livros desses acervos comunitários, a diversificação dos suportes da leitura, a organização, preservação e recuperação das obras, a sofisticação dos serviços de apoio aos usuários, a seleção de livros de interesse da comunidade em seus segmentos (infantil, adulto, 3ª idade) impõem, necessariamente, a presença de serviços especializados para fazê-los. E daí a esperança de que o profissional bibliotecário possa ser envolvido para cuidar dessas tarefas e encaminhar os trabalhos de maneira objetiva e embasada nos saberes sistematizados, oriundos da área de biblioteconomia.

Os estereótipos em torno da figura do bibliotecário são também escaramuças para se esquivar da responsabilidade de sua contratação para trabalhos em diferentes tipos de bibliotecas, principalmente as escolares e as comunitárias. De fato, ao longo da nossa história e sendo muito fortalecida após a década de 1960, foi construída a imagem do bibliotecário como um trabalhador insensível, normatizado e normativista, catalogador de livros, controlador do silêncio dos espaços, estafeta dos castigos escolares, que em muito contribuíram para a sua “dispensa” no momento de constituição e de desenvolvimento das bibliotecas.

A briga de Darcy Ribeiro

Recordo-me, por exemplo, das grandes escaramuças entre Darcy Ribeiro, trabalhando para o governo Brizola no Rio de Janeiro (1983-1987), e a classe dos bibliotecários, com aquele afirmando que estes nada tinham a contribuir com a educação pública e com os CIEPs então estruturados. Tal estereótipo, infelizmente, ainda está muito presente no imaginário de muitas autoridades brasileiras, mas convém perguntar a quem esse estereótipo está servindo realmente… No meu ponto de vista, ele também serve à política de esquiva que vem sendo adotada pelos governos em relação à implantação de bibliotecas municipais, escolares e comunitárias neste país. Quer dizer, em se tratando de bibliotecas, sempre se dá um jeitinho e dentro desse jeitinho o bibliotecário nunca está incluído!

Para não colocar o bibliotecário como “vítima” de uma história meio ao contrário, acredito ser também importante uma visada crítica para dentro dos cursos de biblioteconomia ou de ciências de informação, oferecidos por diferentes instituições de ensino superior. Com o fim das habilitações, são raros os cursos que desenvolvem uma base adequada de conhecimentos e práticas para atuação que não seja em centros de informações e/ou empresas. A realidade escolar e as realidades comunitárias não são refletidas e discutidas ou então são tangencialmente tratadas, fechando o círculo vicioso de que o governo não contrata bibliotecários para as escolas e comunidades e, portanto, não existe por que tratá-las durante o período de formação básica. Daí que, quando da necessidade de profissionais para trabalhar nas bibliotecas escolares, ajeita-se, às carreiras, uma oficina rápida para que professores ou membros de uma comunidade recebam dois pingos de biblioteconomia para “tomar conta da biblioteca”.

Em recente visita que fiz a minha cidade natal, cruzei com a filha de um amigo que, sei, possui tão somente o diploma do ensino fundamental. Portanto, sem ensino médio e muito menos o superior. Depois dos apertos de mãos e dos abraços, perguntei o que ela vinha fazendo. Ela me disse que era a responsável pela biblioteca da faculdade local e me pedia, naquele instante, que eu enviasse os meus últimos livros porque os professores e alunos tinham muito interesse nos meus escritos.

Um navio à deriva
Ora, sem querer desmerecer a escolaridade dessa conhecida e sua dedicação à biblioteca, fiquei perguntando se uma biblioteca de ensino superior poderia ser responsavelmente organizada e dinamizada por uma pessoa tão jovem e com formação leiga ou muito precária. Vê-se, aqui, mais um episódio desta comédia tragicômica chamada “biblioteca brasileira”. Sei, também, por exemplo, que falar para muitos prefeitos sobre a necessidade de contratação de bibliotecário é estar disposto a ouvir impropérios de volta.

Finalizando esta reflexão, creio que a melhor imagem da problemática das bibliotecas no Brasil seja a do filme E la nave va, de Federico Fellini. De fato, igual ao infindável problema da leitura no país, “haja paciência” para tanta contradição, para tanto descaso, para tanto cinismo. Se considerarmos uma biblioteca como um lugar para o qual constantemente nos dirigimos a fim de incrementar a nossa humanidade, então cabe indagar se a falta de humanidade em solo nacional, reiterada pela mídia todos os dias, não tem uma relação com a ausência e falta de bibliotecas em solo brasileiro.

Ezequiel Theodoro da Silva é professor colaborador voluntário junto à Faculdade de Educação da Unicamp. Foi Presidente da Associação de Leitura do Brasil (ALB) de 1982 a 1986 e de 2007 a 2008. Foi secretário municipal de Cultura, Esportes e Turismo e secretário municipal de Educação de Campinas na década de 1990.

Os bibliotecários estão completamente obsoletos?

Posted October 18th, 2009 in Ensaio by ExtraLibris

33 razões por que as bibliotecas e bibliotecários ainda se mantêm extremamente importantes
artigo de Will Sherman

tradução colaborativa de:

Moreno Barros
Isadora Garrido

Fabíola Pinudo
Sibele Fausto

Viviane Neves
Polyanha Hudson
Aline Gonçalves
Gustavo Henn

versão para impressão – download pdf

33 razões por que as bibliotecas e bibliotecários ainda se mantêm extremamente importantes

Muitos acreditam que a era digital irá acabar com as estantes públicas e extinguir permanentemente a era centenária das bibliotecas. A desconcertante proeza e progresso da tecnologia fez até um bibliotecário prever a queda da instituição.

Ele pode estar certo.

Porém, se estiver, então a perda será irreparável. Conforme a relevância das bibliotecas entra em questão, elas encaram uma crise existencial em uma época onde elas talvez sejam mais necessárias. Apesar de sua percebida obsolescência em uma era digital, tanto bibliotecas – quanto bibliotecários – são insubstituíveis por várias razões. 33, de fato. Nós as listamos aqui:

1. Nem tudo está disponível na Internet

O incrível volume de informação útil na Web tem, para alguns, engendrado a falsa premissa de que tudo pode ser encontrado online. Isso simplesmente não é verdade. O Google Book Search reconhece isso. Por isso eles tomaram a tarefa monolítica de digitalizar milhões de livros das maiores bibliotecas do mundo. No entanto, mesmo que o Google consiga com sucesso digitalizar toda a soma dos conhecimentos humanos ela é diferente da soma dos autores e editores contemporâneos que não permitem que suas obras sejam gratuitamente acessíveis na Internet. Já é proibido por lei disponibilizar livremente no Google Book Search os livros com direitos autorais vigentes; apenas partes. E levará muito tempo antes que o bestseller recomendado pelo New York Times seja disponibilizado gratuitamente na Internet: as leis de direitos autorais atuais protegem as obras por 70 anos após a morte do autor. Mesmo algumas obras sob domínio público sofrem algumas restrições. Se uma cópia sem copyright incluir prefácio, introdução ou apêndices que ainda estejam sob copyright, a obra toda fica sob o status de copyright.

2. Bibliotecas digitais não são a Internet

Um entendimento fundamental do que a Internet é – e do que ela não é – pode ajudar mais claramente a definir o que uma biblioteca é e por que bibliotecas ainda são extremamente importantes. A Elmer E. Rasmuson Library da Universidade do Alaska em Fairbanks deixou clara a diferença entre “Coleções Online” e “Fontes Web”.  A Internet, seu site explica, é uma massa larga de materiais não publicados produzidos por organizações, empresas, indivíduos, projetos experimentais, webmasters, etc. “Coleções Online”, todavia, são diferentes. São tipicamente oferecidas por bibliotecas e incluem materiais que foram publicados por meio de rigoroso processo editorial. Trabalhos selecionados para inclusão em um catálogo de bibliotecas passaram pelo veto de uma equipe qualificada. Os tipos de materiais incluem livros, periódicos, documentos, jornais, revistas e relatórios que foram digitalizados, armazenados e indexados em uma base de dados de acesso limitado. Mesmo que alguém use a Internet ou um motor de busca para encontrar estas bases de dados, o acesso mais avançado requer registro. Você ainda está online, mas não vai muito lontg na Internet. Você está em uma biblioteca.

3. A internet não é livre
Embora o Projeto Gutenberg alardeie 20.000 e-books para download gratuito em sua homepage, somos imediatamente lembrados que esses livros são acessíveis apenas porque eles não estão mais sob direitos autorais. E os livros são apenas a ponta do iceberg. Numerosos trabalhos de pesquisa acadêmica, revistas e outros materiais importantes são praticamente inacessíveis para alguém tentar obtê-los de graça na web.  Em vez disso, o acesso é restrito a assinaturas caras, que são normalmente pagas por bibliotecas. Visitar a biblioteca, pessoalmente, ou acessar a biblioteca por meio de sua conta de membro, é, portanto, a única maneira de se obter acesso a recursos documentais essenciais.

4. A internet complementa as bibliotecas, mas não as substitui

Para orientar as pessoas a achar informação, a Universidade de Long Island fornece uma explicação útil de quais tipos de recursos podem ser acessados por meio da biblioteca. Estes incluem notícias, periódicos, livros e outros recursos. Curiosamente, a World Wide Web está entre estes recursos como mais um meio para encontrar informações. Mas não é uma substituta. A página diferencia e explica as vantagens das bibliotecas em relação à busca pela internet. Cita os benefícios da internet, includindo “amostras de opinião pública”, uma coletânea de “fatos rápidos” e “uma ampla gama de idéias”. De forma geral, o ponto é bem correto: bibliotecas são instituições completamente diferentes da web. Sob essa ótica, falar sobre uma substituindo a outra começa a parecer absurdo.

5. Bibliotecas escolares e bibliotecários melhoram as pontuações médias dos estudantes em testes
Um estudo de 2005 das Bibliotecas Escolares do Illinois mostra que os estudantes que visitam frequentemente bibliotecas escolares com acervos bem abastecidos e com boa equipe terminam com pontuações mais altas em testes ACT e um melhor desempenho em exames de leitura e escrita.
Interessantemente, o estudo aponta que a tecnologia de acesso digital desempenha um papel importante nos resultados dos testes, observando que “escolas com computadores que se conectam aos catálogos de bibliotecas e bases de dados obtêm uma média de 6,2% de melhora nas pontuações de testes ACT”.

6. Digitalização não significa destruição

A avidez com que as bibliotecas investiram na parceria com o Google Book Search não é o trabalho de uma mentalidade impulsiva. Bibliotecas incluindo a Universidade de Oxford, da Universidade de Michigan, Harvard, da Universidade Complutense de Madri, a Biblioteca Pública de Nova York, a Universidade do Texas, da Universidade da Califórnia e muitos outros se uniram ao projeto do Google, em vez de evitá-lo. Na abertura de seus acervos, essas bibliotecas terão todos os seus livros eletronicamente disponíveis para seus usuários. Embora se possa esperar que livros sem direitos autorais, que em muitas ocasiões são totalmente disponíveis ao público, os materiais protegidos por direitos autorais – incluindo assinaturas de periódicos – ainda serão mantidos sob acesso restrito. A razão para isto é, em parte, porque as cláusulas indenizatórias do Google Book Search não chegam muito longe; o Google Book Search não isenta as bibliotecas de qualquer responsabilidade que possa incorrer caso elas ultrapassem os limites do direito autoral. E há uma causa real para esta cautela – o Google Book Search está enfrentando atualmente dois processos importantes de autores e editores.

7. Na verdade, digitalização significa sobrevivência

Daniel Greenstein da Universidade da Califórnia cita uma razão prática para a digitalização de livros: em formato eletrônico os livros não estão vulneráveis aos disastres naturais ou à “pulverização” causada pelo tempo. Ele ainda cita a destruição de bibliotecas pelo furacão Katrina como um importante lembrete da vulnerabilidade da “memória cultural”.

8. A digitalização levará algum tempo. Um bom tempo.

Enquanto a digitalização desenvolveu um ar de movimento incessante rapidamente acabando com as paredes das bibliotecas e expondo tesouros intocados, ela está bastante longe de alcançar seu objetivo. Com um número estimado de 100 milhões de livros impressos desde a invenção da imprensa, o processo dificilmente fez progresso. Digitalizar é caro e complicado, e até então o milhão de livros digitalizados do Google é apenas uma gota no oceano. “A maior parte da informação”, diz Jens Redmer, o diretor europeu do Google Book Search, “está fora da internet”.

Mas quanto tempo levará para indexar o conhecimento do mundo todo? Em 2002, Larry Page disse que o Google poderia digitalizar aproximadamente sete milhões de livros em seis anos. Desde 2004 o Google Book Search tem lidado com uma série de encaixes e começos. Em 2007, eles conseguiram indexar um milhão de livros. Então, numa média de aproximadamente meio milhão de livros por ano, digitalizar 100 milhões de livros levaria cerca de 200 anos. Assumindo que o Google saberia lidar com os desafios logísticos e legais e finalizasse 7 milhões de livros a cada 6 anos, o ano mais aproximado do término ainda seria 2092. No meio tempo, uma base usuária mais ampla se apoiará em bibliotecas, ou coleções online do que já foi digitalizado. Jogar fora bibliotecas físicas antes da digitalização ser completa deixaria os clientes da biblioteca no limbo.

9. Bibliotecas não são só livros

A tecnologia está se integrando aos sistemas de bibliotecas, e não os intimidando. Levando esse assunto ao seu extremo lógico (embora isso seja pouco provável de não acontecer), nós poderíamos eventualmente ver prateleiras inteiras de bibliotecas relegadas a bases de dados, e ter livros apenas acessíveis digitalmente. Então como isso deixa os bibliotecários? Eles estão sendo dominados pela tecnologia, a inimiga sem fim do trabalho? Não dessa vez. Na verdade, a tecnologia está revelando que o verdadeiro trabalho dos bibliotecários não é apenas colocar os livros na estante. Ao invés disso, seu trabalho envolve guiar e educar visitantes em como encontrar informação, independente se estiver em livros ou em formato digital. Tecnologia provê melhor acesso a informação, mas é uma ferramenta mais complexa, geralmente requerindo know-how especializado. Essa é uma especialidade do bibliotecário, uma vez que eles se dedicam a aprender as técnicas mais avançadas para ajudar visitantes a acessarem a informação efetivamente. Isso está em sua descrição de trabalho.

10. Dispositivos móveis não são o fim dos livros ou das bibliotecas

Previsões sobre o fim do livro são uma resposta previsível para a digitalização e outras tecnologias, e a bola de cristal de alguns que são pró-papel parecem também revelar um concomitante desmoronamento da civilização. Uma das últimas ameaças obscuras ao papel (e à sociedade) parece ser o plano do Google de tornar e-books disponíveis para download para dispositivos móveis. A versão iPod do romance chegou. O Google já escaneou um milhão de livros. Usuários dos trens japoneses estão lendo bestsellers inteiros em seus celulares. O fim está próximo. Mas se o e-book movel é um hit e um fenômeno duradouro, é improvável que eles serão uma transição para todos os tipos de leitores.  O rádio continuou a viver apesar da TV, o cinema ainda tem alta demanda apesar do vídeo, as pessoas ainda falam no telefone apesar do e-mail. Pessoas que gostam de livros de papel continuarão a ler livros de papel mesmo se downloads móveis induzir a maioria dos editores a liberarem e-books ao invés de papel. Afinal, uma imensa reserva de livros impressos ainda será acessível aos leitores. Aonde quer que as bibliotecas se enquadrem ao supor que e-books móveis realmente substituam os livros impressos, a presença da biblioteca digital continuará a ser extremamente importante, seja baseada em papel ou eletronicamente.

11. O hype de repente é só hype

Os livros impressos não estão exatamente condenados, mesmo anos depois da invenção do e-book. Na verdade, ao se contrastar os méritos do e-book com os de um livro impresso, poderia-se argumentar que os livros em papel são de fato um produto melhor. Seria prematuro apagar as bibliotecas os seus livros grátis em função das previsões sobre a eminente proeminência dos e-books. A sociedade poderia perder um valioso acesso a um meio confiável – mesmo se os e-books vingarem.

12. O atendimento das bibliotecas não está fracassando – é apenas mais virtual agora

Com aproximadamente 50,000 visitantes por ano, a visitação aos Arquivos da História Americana (American History Archives) na Sociedade Histórica de Wisconsin (Wisconsin Historical Society) caiu 40% desde 1987. Essa estatística, quando colocada sozinha, pode se provar suficiente para qualquer pessoa que casualmente prevê o colapso das bibliotecas. Mas é apenas metade da história. Os arquivos também foram digitalizados e disponibilizados online. Todo ano a biblioteca recebe 85,000 visitantes únicos online. O número de escolas online oferecendo graduações online está constantemente aumentando também. Várias dessas escolas estão melhorando também suas bibliotecas virtuais.

13. Como as empresas, as bibliotecas digitais ainda precisam de recursos humanos
Mesmo as empresas online contam com suporte de qualidade para as melhores vendas e satisfação do cliente. A disponibilidade de e-mail, telefone e chat ao vivo melhoram a experiência de pessoas que procuram produtos e serviços. O mesmo vale para as pessoas que procuram informações. Em troca do pagamento de impostos ou taxas da biblioteca embutidos nas mensalidades da universidade, os membros da biblioteca devem esperar um confiável “suporte ao cliente” em troca de seus pagamentos. Os bibliotecários são de fato muito importantes no atendimento aos seus visitantes. E ainda hoje não há nenhum substituto equivalente para a biblioteca, que fornece acesso a montanhas de conteúdo que não está disponível através de motores de busca ou mesmo o Google Books Search, que só oferece trechos e links para lojas onde os livros podem ser comprados.

14. Nós simplesmente não podemos contar com bibliotecas físicas desaparecendo
Bibliotecas físicas nunca irão desaparecer. Mesmo que o Google Book Search pegue o ritmo e as bibliotecas financiem seus próprios projetos de digitalização, o futuro do espaço físico das bibliotecas continua a ser necessário.
Isso ocorre porque muitas bibliotecas ainda não estão digitalizando e muitas nunca poderão digitalizar. Há uma boa razão: este processo é caro. Numa estimativa baixa de 10 dólares por livro (e provavelmente muito mais para obras mais antigas, mais delicadas), digitalizar uma biblioteca inteira de, digamos, mais de 10.000 livros – bem, é bastante caro. E para muitos usuários da biblioteca, eles ainda dependem da tradicional abordagem eficaz para localizar informações com computadores no local ou bibliotecários disponíveis para ajudá-los.

15. O Google Book Search “não funciona
Se a indexação ao estilo do Google para os livros de todo o mundo espelhasse o bem conhecido serviço de busca da empresa, isto valeria como um forte argumento contra a manutenção das bibliotecas. Afinal, o Google tem uma grande tecnologia para pesquisar na web, certo? Nós não poderíamos simplesmente ignorar as bibliotecas?
Mas os especialistas lembram que o Google Book Search está longe de garantir tais facilidades como é experienciado com o serviço de busca na internet da companhia. Os elevados ideais da informação-para-todos são impedidos não só por conta das ações judiciais, mas pelo próprio desejo do Google de ser o poderosos chefão. Eles não estão prestes a entregar o seu índice para os outros concorrentes, como a Microsoft, Yahoo, Amazon e outros projetos independentes de digitalização. O usuário perde por não ser capaz de acessar tudo através do seu serviço preferido de busca por livros digitalizados.
Ao não conceder os arquivos digitais aos seus concorrentes, as empresas que assumem esta abordagem competitiva e corporativa em relação ao processo de digitalização, arriscam a sumirem do mapa, para bem longe da filosofia da biblioteca pública. Enquanto isso, as bibliotecas devem permanecer intactas e disponíveis ao público em geral.

16. Bibliotecas físicas podem se adaptar às mudanças culturais

A Comissão Nacional de Bibliotecas e Serviços de Informação dos Estados Unidos (NCLIS) é uma entre os muitos grupos que estudam e debatem a função das bibliotecas físicas na era digital. Em um simpósio da NCLIS, no ano de 2006, foi criado um relatório que clama por uma redefinição do que é o espaço físico da biblioteca. Menos como “depósitos”, foi uma das conclusões, e mais como uma junção de trabalho, aprendizado, ensino e novos tipos de programas.

17. As bibliotecas físicas estão se adaptando à mudança cultural
Qualquer pessoa subscrevendo as teorias do pensador do século 20 Marshal McLuhan poderia dizer que, junto com as mudanças no padrão de vida provocadas pelas tecnologias eletrônicas, o conhecimento que já foi encerrado em livros e compartimentado em áreas temáticas, está agora a ser livremente divulgado em uma explosão de democracia, tornando obsoleto a austeridade do solitário, ecoando os corredores da Biblioteca. Curiosamente McLuhan, que morreu em 1980, ainda disse certa vez: “O futuro do livro é a sinopse”.

Na verdade, esta mudança cultural antecede o uso generalizado da internet, bem como o Google Book Search. Por décadas a sociedade vem buscando uma compreensão mais holística do mundo, e maior acesso à informação. A busca por novos métodos de organização das estruturas educativas (incluindo as  bibliotecas) tem sido ativa. E apesar de as bibliotecas não estarem em muitas das listas pessoais de “10 Mais Inovadoras”, elas têm se adaptado.

A diretora de bibliotecas da Washington State University, Virginia Steel, por exemplo, é uma defensora de maximizar a natureza social e interativa do espaço físico da biblioteca. Grupos de estudo, exposições de arte, lanchonetes e cafés – falar, e não sussurrar; esta é a nova biblioteca. Não é obsoleta, é apenas mudanças.

18. Eliminar bibliotecas representaria um corte no processo de evolução cultural
A biblioteca que estamos mais familiarizados hoje – uma instituição pública ou acadêmica que empresta livros gratuitamente – é um produto da democratização do conhecimento. Anteriormente, os livros nem sempre eram tão acessíveis, e as bibliotecas privadas ou os clubes do livro, eram um privilégio dos ricos. Isso começou a mudar durante o século XVII, com mais bibliotecas públicas surgindo e a invenção do sistema de Classificação Decimal de Dewey para padronizar os catálogos e índices.
As bibliotecas começaram a florescer sob o olhar do presidente Franklin Roosevelt, em parte como uma ferramenta para diferenciar os Estados Unidos dos nazistas queimadores de livros. Este aumento do interesse na construção de uma sociedade mais perfeita e liberal culminou em 1956 com o Ato dos Serviços de Bibliotecas, que introduziu o financiamento federal pela primeira vez. Hoje, existem dezenas de milhares de bibliotecas públicas nos Estados Unidos.

19. A internet não é “faça você mesmo”

É possível dizer que a internet presenteou a sociedade com um senso vertiginoso de independência. Acesso a informação do mundo todo – e máquinas de buscas gratuitas para poder pesquisar – traz a tona a questão da necessidade de bibliotecários, moderadores e outros mediadores; a rede, como parece, é um meio “faça você mesmo”.

Mas uma rápida olhada nas forças motrizes da internet de hoje em dia nos mostra algo diferente. A internet é intensamente social e interativa, e criou comunidades de usuários que geralmente são bem organizadas e integradas uma vez que são grandes. A internet está servindo como ferramenta para que humanos preencham seus instintos naturais de criação de comunidades – compartilhando, interagindo e fazendo negócios.

A economia online é dirigida em grande parte pela filosofia da web 2.0 de interação humana, revisão por pares e a democratização de conhecimento e análise. Máquinas de buscas fazem o ranking de páginas baseados em popularidade, plataformas de redes sociais atraem milhões de visitantes por dia e a enciclopédia mais popular da internet é escrita pelas mesmas pessoas que a lêem.

Como a Wikipedia, as terras online de encontro mais populares são geralmente as mais bem moderadas. Uma vez que bobagens e spammers são uma parte inevitável de qualquer sociedade (física ou virtual), o controle de qualidade ajuda a contribuir à melhores experiências online. Boa cidadania entre comunidades online (contribuição inteligente para a discussão e não spam) é um modo muito seguro de melhorar sua reputação como um membro útil do grupo. Para ser adotado, esse tipo de ambiente deve ser moderado.

Interessantemente, o papel do moderador é muito paralelo ao do bibliotecário: para salva-guardar um ambiente no qual o conhecimento pode ser acessado e idéias possam ser partilhadas.

A noção de que bibliotecas são algo do passado e que a humanidade abriu suas asas e vôou para uma nova era de verdade auto-guiada nada mais é do que ridícula.  Infelizmente, é esta mesma noção que levaria ao desmembramento das bibliotecas como bagunçadas e datadas. Na realidade, a qualidade da rede depende da direção de um modelo acadêmico, um modelo de biblioteca. Enquanto os moderadores tem como melhorarem o novo e selvagem cenário cibernético, os bibliotecários já trilharam partes significantes desta viagem.

20. A sabedoria das multidões não é confiável, por causa do ponto de desequilíbrio

A alta visibilidade de certos pontos de vista, análises e mesmo fatos encontrados online através dos sites de redes sociais e wikis é construída – idealmente – para ser o resultado do consenso do grupo. O algoritmo do Google também se baseia nesse princípio coletivo: no lugar de um expert arbitrariamente decidir qual recurso é o mais “importante”, deixe que  a web decida. Sites com alta popularidade de links tendem a ser os primeiros do ranking nos motores de busca. O algoritmo é baseado no princípio de que o consenso do grupo revela uma melhor e mais acurada análise da realidade do que um único expert poderia fazer. O escritor James Surowieki chamou isso de “sabedoria das massas”.

Em um vácuo, as multidões são provavelmente muito sábias. Mas muitas vezes nós percebemos a advertência da sabedoria das multidões de James Surowiecki no “ponto de desequilíbrio” de Malcolm Gladwell, que, neste contexto, explica que os grupos são facilmente influenciados pela sua vanguarda – aqueles que são os primeiros a fazer alguma coisa e que têm automaticamente influência extra, mesmo que o que estejam fazendo não seja necessariamente a melhor idéia.
A natureza altamente social da web, portanto, torna altamente suscetível, por exemplo, o sensacionalismo, a informação de baixa qualidade, com o único mérito de ser popular. Bibliotecas, em contrapartida, fornecem controle de qualidade na forma de um substituto a esta questão. Apenas a informação que é cuidadosamente analisada é permitida. As bibliotecas são propensas a permanecer separadas da Internet, mesmo que elas possam ser encontradas online. Portanto, é extremamente importante que as bibliotecas continuem vivas e bem, como um contraponto ao populismo frágil da web.

21. Bibliotecários são as contrapartes insubstituíveis dos moderadores da  web
Os indivíduos que, voluntariamente, dedicam o seu tempo para moderar fóruns e wikis estão desempenhando um papel semelhante aos bibliotecários que supervisionam as estantes – e aqueles que visitam as estantes.
A principal diferença entre os bibliotecários e os moderadores é que, enquanto os primeiros guiam os usuários através de um conjunto de obras altamente autoritativas, publicadas, o moderador é responsável por tomar o leme quando o consenso é criado. Apesar de os papéis serem distintos, cada um está evoluindo junto com o crescimento rápido da Internet e a evolução das bibliotecas. Ambos moderadores e bibliotecários terão muito a aprender uns com os outros, por isso é importante que ambos se aproximem.

22. Ao contrário dos moderadores, os bibliotecários devem delimitar a linha entre bibliotecas e a Internet
Evidentemente, as bibliotecas já não são tanto do ponto de partida e término de toda a pesquisa acadêmica. A Internet está efetivamente puxando os alunos para longe das estantes e revelando uma riqueza de informações, especialmente para quem está equipado com as ferramentas para encontrá-la. Na verdade, o sonho de eliminar o intermediário é possível de atingir. Mas a que preço?
A literacia mediática, apesar de ser um ativo extremamente importante para os estudiosos e pesquisadores, está longe de ser universal. Quem vai realizar a educação midiática? Muitos argumentam que os bibliotecários são os mais indicados para educar as pessoas sobre a web.
Afinal, os moderadores da web estão preocupados principalmente com o ambiente que eles supervisionam e menos com o ensino de habilidades web para estranhos. Os professores e os pesquisadores estão ocupados com suas disciplinas e especializações. Os bibliotecários, portanto, devem ser os únicos que atravessam a internet para tornar a informação mais facilmente acessível. Em vez de eliminar a necessidade de bibliotecários, a tecnologia está a reforçar a sua validade.

23. A internet é uma bagunça
Como um website pró-bibliotecário coloca, “A internet em pouquíssimas maneiras se assemelha a uma biblioteca. A biblioteca oferece um conjunto claro e padronizado de recursos facilmente recuperáveis”.
Apesar da natureza um pouco combativa desta frase, sua premissa é essencialmente correta. Apesar das melhorias na tecnologia de pesquisa e a criação de sites surpreendentemente abrangentes como a Wikipedia, a internet ainda é, em muitos aspectos, um vale-tudo. Inundada com sites provenientes de todos os tipos de fontes que, inexplicavelmente, definham ou galopam por posições no topo dos rankings, a web é como um velho oeste super populoso. Muitas pessoas confrontam este caos com exemplos populares de sites de redes sociais ou grandes, complexos e altamente bem sucedidos esforços de organização da informação(Google, Wikipedia, et al). Mas, apesar desses esforços, um volume de páginas questionáveis ainda tende a ser oferecido em muitos resultados de pesquisa, e a credibilidade de cada fonte inerentemente acessada deve ser questionada.
Não que isso seja uma coisa ruim. Os oceanos da informação, a incerteza e a espontaneidade na web pode proporcionar uma experiência excitante e enriquecedora. Mas se você precisa limitar a sua pesquisa aos recursos logicamente indexados que foram publicados e avaliados por uma equipe de profissionais, a biblioteca ainda é a melhor aposta.

24. A internet está sujeita à manipulação
Ao mesmo passo que as mentes brilhantes por trás do Google estão vindo acima com um algoritmo de busca melhor, as mentes brilhantes de otimizadores de motores de busca continuarão a burlá-lo. Isto poderia envolver estar em conformidade com as normas de qualidade do Google, ou, em muitos casos, contornando-as. É importante que o usuário tenha em mente as limitações do Google. Em muitos casos, o gigante das buscas é bem sucedido ao servir boa informação. Mas em muitos casos, ainda está aquém.
Em contraste, é extremamente difícil penetrar nos índices das bibliotecas. Livros, periódicos e outros recursos devem ser nada menos do que material publicado de alto calibre. Se não forem, eles simplesmente não entram.
Além disso, o incentivo econômico para manipular as coleções de bibliotecas é muito menos intenso do que na internet. Estima-se que apenas 4% dos títulos de livros sejam rentabilizados.
Enquanto isso, o Google sozinho consegue ganhos incríveis com publicidade online, para não mencionar todos os outros se posicionando por um pedaço da torta da Internet.
Mas as bibliotecas simplesmente não estão enfrentando esse tipo de pressão. Sua maneira de fornecer informações, portanto, será menos influenciada por interesses corporativos.

25. As coleções de bibliotecas empregam um sistema bem formulado de citações
Livros e revistas encontrados em bibliotecas foram publicados sob diretrizes rigorosas de citação e precisão e, assim, são permitidos em coleções das bibliotecas.
Estes padrões simplesmente não são impostos aos sites. Eles podem aparecer nos resultados de pesquisa independente de fornecerem citação. Com bastante pesquisa, a precisão dos recursos da web muitas vezes podem ser determinados. Mas perde-se muito tempo. As bibliotecas realizam pesquisas muito mais eficientes.

26. Pode ser difícil isolar informações concisas na internet
Determinadas áreas, como condições médicas ou aconselhamentos financeiros são muito bem mapeados na web. Sites de qualidade para áreas mais marginais, no entanto, são menos fáceis de encontrar através de pesquisa na web. Seria preciso saber qual site se deseja visitar, e o Google não vai necessariamente servir exatamente o que você está procurando.
A Wikipedia, que possui um bom ranking para uma ampla variedade de áreas especializadas, está melhorando a concisão da web. Mas a Wikepedia é apenas um site, que qualquer pessoa pode editar, e sua veracidade não é garantida. Bibliotecas mantêm coleções indexadas de materiais de pesquisa muito mais abrangentes e concisas.

27. As bibliotecas podem preservar a experiência do livro
Consumir 900 páginas sobre a história intelectual da Rússia é uma experiência única para o livro. Em geral, o livro fornece um foco de estudo, porém abrangente, que resume anos de pesquisa de um autor – ou a equipe de autores – que dedicaram sua vida acadêmica a uma área temática específica.
Através do Google Book Search, a internet pode ser uma ferramenta para descobrir onde comprar um livro. Resultados da buscas normais revelam também uma variedade de revendedores de livros, cursos acadêmicos ou projetos web a serem apresentados.
Mas mesmo quando a internet oferece conteúdo real (como em uma pesquisa sobre a história da Rússia) a informação é muitas vezes pequena ou superficial – uma espécie de consulta de referência rápida. O conhecimento pode ser encontrado, mas a experiência de mergulhar em um livro de centenas de páginas não acontece online. A preservação das estantes, consequentemente, ajudará a preservar o acesso a esta forma de aprendizagem e a forma mais tradicional de aprendizagem pode continuar lado a lado com a novo.

28. Bibliotecas são estáveis, enquanto a Web é transitória
Em um esforço para melhorar o seu serviço e derrotar os spammers, os motores de busca estão constantemente atualizando seus algoritmos. Muitas vezes, porém, os danos colaterais irão nocautear sites inocentes, incluindo, talvez, recursos autoritativos. Além disso, sites comumente saem do ar ou alteram seus endereços. Outros sites que apontam para esses recursos (que eram bons) podem facilmente e sem querer agrupar um sem número de “links quebrados”. Esses sites podem permanecer sem qualquer edição por anos. As bibliotecas, por outro lado, tem um estoque seguro de recursos disponíveis e um sistema de indexação padrão que oferece resultados estáveis e confiáveis de forma consistente.

29. As bibliotecas podem ser surpreendentemente úteis para as coleções e arquivos de notícias
Em muitos aspectos, as bibliotecas ficam aquém da Internet quando se trata de agregar conteúdo de notícias. A TV, rádio e jornais online – para não mencionar a abundância de blogs referenciando e comentando sobre os acontecimentos diários em todo o mundo – muitas vezes pode saciar qualquer pessoa.
Enquanto isso, as bibliotecas continuam a assinar e armazenar uma determinada lista de jornais, e arquivam as edições anteriores. Este esforço pode parecer humilde ao lado dos longas listas de agregadores de notícias online e acesso instantâneo a artigos publicados em tempo real.

No entanto, a catalogação de notícias por uma biblioteca pode fornecer uma série de vantagens. Para começar, muitas publicações continuam a existir offline. Para quem procura um artigo específico de um jornalista específico, uma biblioteca poderia render melhores resultados – mesmo que a publicação tenha que ser rastreada através de empréstimo entre bibliotecas.
Bibliotecas frequentemente fornecem livremente exemplares de periódicos importantes que de outra maneira exigem assinaturas on-line, como muitas seções do New York Times.
Além disso, normalmente os arquivos desaparecem offline, ou tornam-se cada vez mais caros online. (Experimente a busca do Google News Archive). Isto pode deixar as bibliotecas com as únicas cópias acessíveis.

30. Nem todo mundo tem acesso à internet

Nas nações menos desenvolvidas ou mesmo nas regiões mais pobres dos Estados Unidos, acessar a biblioteca é quase sempre o único jeito de um indivíduo realizar uma pesquisa séria. Há pelo menos duas principais razões pelas quais a internet talvez não seja sequer uma alternativa ilusória às bibliotecas. Primeiramente, acesso online pode ser muito mais difícil do que o acesso à biblioteca. Uma biblioteca pública  pode ter pelo menos um computador, enquanto outros pontos de acesso à internet podem cobrar  alguém que simplesmente não possui meios de pagar  pelo acesso. Em segundo lugar, mesmo se o acesso à internet for obtido, o lapso de educação tecnológica nas áreas pobres do mundo irá deixar a tecnologia muito menos útil do que seria para uma pessoa com mais experiência de navegação na web.

31. Nem todos podem pagar pelos livros
Fora dos países desenvolvidos, os livros são mais raros e muitas vezes mais caros do que suas contrapartes de primeiro mundo. Compondo o problema está um incrivelmente baixo salário mínimo, tornando o custo real dos livros astronômicos. A biblioteca pública, sempre que ela existe, portanto, torna-se muito mais crucial para a democratização da informação.
Como os Estados Unidos tende a ser um líder de tendências, especialmente em termos tecnológicos, deve ressaltar a importância das bibliotecas, mesmo quando a tecnologia avança. Divulgar a cultura de aparelhos eletrônicos sobre os livros pode colocar em risco a existência de bibliotecas tradicionais, deixando os pobres sem livros ou estas tecnologias.

32. As bibliotecas são um substituto para o anti-intelectualismo
Não é que a internet seja anti-intelectual; suas raízes acadêmicas e a imensa quantidade de sites acadêmicos com certeza atestam que seja um meio inteligente. Mas para alguns, o imediatismo sedutor da internet pode levar à falsa impressão de que apenas a discussão imediata, interactiva e simultânea possui valor. Livros empoeirados em prateleiras altas parecem então representar o conhecimento estagnado, e seus curadores (bibliotecários), ultrapassados. Os livros e a leitura fácilmente são considerados elitistas e inativos, enquanto o blog torna-se o aqui e agora.
Mas, como mencionado anteriormente, nem tudo está na internet. O acesso aos livros e teorias de centenas de anos de história cultural é essencial para o progresso. Sem isso, a tecnologia poderá se tornar a ferramenta irônica das tendências culturais sensacionais e retrógradas. Preservar bibliotecas para armazenar o conhecimento e ensinar as limitações da tecnologia pode ajudar a evitar a arrogância e o narcisismo da novidade tecnológica.

33. Livros antigos são valiosos
A idéia de uma biblioteca se tornar um “museu de livros” na era da digitalização é, às vezes, lançada como um discurso apocalítico. Isso é um pesadelo real para os bibliotecários. O termo insinua que, ao invés de se tornar contemporânea e útil, as bibliotecas poderiam se transformar em fetiches históricos como discos de vinil ou máquinas de escrever. Em vez de se manterem como profissionais de pesquisa, os bibliotecários seriam forçados a se tornar “curadores de museus” – ou, mais provavelmente, perderiam seus empregos. Mas se a evolução da biblioteca caminha no sentido de se tornar um lugar interativo para eventos culturais e troca de idéias, a preservação e exibição de relíquias literárias poderiam ser mais uma faceta da sua importância (e também, intriga). De fato, livros antigos não têm somente valor momenetário, mas são parte da memória cultural e histórica que não deve ser perdida para a digitalização.

Conclusão

A sociedade não está pronta para abandonar a biblioteca, e provavelmente nunca estará. Bibliotecas podem adaptar-se as mudanças sociais e tecnológicas, mas elas não são substituíveis. Enquanto que as bibliotecas são distintas da internet, os bibliotecários são os melhores profissionais para guiar acadêmicos e cidadãos para um melhor entendimento de como encontrar informação de valor online. Certamente, existe muita informação online. Mas ainda existe muita informação em papel. Ao invés de taxar as bibliotecas como obsoletas, os governos estaduais e federais deveriam aumentar os recursos para garantir melhores funcionários e tecnologias. Ao invés de galopar cegamente através da era digital, guiado apenas pelos interesses corporativos da economia da web, a sociedade deveria adotar uma cultura de guias e sinalizações. Hoje, mais do que nunca, as bibliotecas e os bibliotecários são extremamente importantes para a preservação e melhoria da nossa cultura.

Artigo original: Are Librarians Totally Obsolete?
Disponível em: degreetutor.com

O livro – termos e condições

Posted October 16th, 2009 in Ensaio by ExtraLibris

texto de MATTHEW BATTLES
Tradução de Fabíola Pinudo

O LIVRO
Termos de serviço

Declaração de Direitos e Responsabilidades

Esta declaração dos termos de serviço do Livro é derivada dos princípios da esfera pública, cobertos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Declaração da Independência Americana, a Magna Carta, a regra de Ouro, o Bhagavad Gita, bem como as obras de Virginia Woolf, Friedrich Nietzsche, Booker T. Washington, Emily Dickinson, Karl Marx, Thomas Carlyle, Ralph Waldo Emerson, Thomas Paine, Mary Shelley, John Locke, Jean-Jacques Rousseau, Voltaire, Marquês de Sade, John Milton, Michel de Montaigne, Erasmus, Francis Bacon, Martinho Lutero, Tomás de Aquino, Maimonides, Hypatia, Agostinho, Aristóteles e Platão, entre outros documentos, não exclusivos de outros atos e acordos passados, presentes e futuros. Ao utilizar O Livro, quer pela criação de trabalhos em forma de Livro (escrito) ou para derivação de informação e /ou prazer de outras obras na forma falada (leitura), você não precisa, necessariamente, subscrever aos princípios previsto nestes referidos documentos. Mas eles protegem os seus direitos e sugerem suas responsabilidades.

I.Privacidade
O que acontece na troca entre seu cérebro e conteúdos do Livro diz respeito apenas a você. O livro nunca fará “downloads” dos conteúdos em seu cérebro, nem inteiramente, nem em partes.

II.Propriedade intelectual
A. Frequentemente, o Livro contém idéias e informações criadas por outros. O aparecimento contínuo de tais idéias e informações depende do reconhecimento de um direito de propriedade limitado, garantido aos criadores de tais idéias e informações. Mas reconhecendo que os termos de serviço também exigem acesso às idéias e informações e a possibilidade de reaplicá-las para a criação de novas obras, o direito de monopólio do criador deve ser compreendido como limitado e circunscrito.

B. A fim de facilitar a troca de idéias e informações, o Livro não reividica licença, exclusiva ou não, dos pensamentos e experiências do usuário (“leitor”). Quando você experimenta as idéias e informações contidas no Livro, tais experiências permanacem sendo sua propriedade exclusiva, para serem transferidas, transformadas, reaplicadas ou esquecidas, sujeitas somente aos limites reconhecidos por outros usuários, como descrito no tópico II.A, acima.


III.Registro

O Livro não possui um procedimento de registro ou inscrições. Não exige cartão de crédito, número de seguro social, passaporte, diploma, tipo sanguíneo, teste de visão ou a renuncia de certos direitos como exigência para usar o Livro. Essa condição está sujeita às perversões políticas, religiosas e às forças do mercado além do controle do Livro.

IV.Uso do Livro
O Livro é um trabalho artístico e artesanal, e como tal, está aberto para qualquer uso ou reaplicação na imaginação de leitores, escritores e outros usuários, que poderão rabiscar o Livro, decorar, apagar, polir, escrever no rodapé, ilustrar, esculpir, guardar em pilhas ou em prateleiras, esconder, pedir, emprestar ou roubar , sujeito apenas às expetativas dos usuários e políticos, religiosos, ou forças do mercado, as quais foram mencionadas no tópico III, ou seja, aquelas além do controle do Livro.


V. Disposições especiais

A. O Livro não colocará anúncios em seus cérebro, nem preocupa-se em controlar o posicionamento destes anúncios por outros.

B. O Livro não rejeita usuários por qualquer razão que seja.

C. O livro não vai deixar de prover seus serviços se você violar o espírito ou o conteúdo deste acordo ou colocar em perigo o livro ou a esfera pública em que este opera. Mas a última consequência de tal violação, bem como a supracitada perversão política, religiosa ou econômica, podem tornar unúteis os serviços do Livro.
Clique aqui se você concorda com os termos do Livro.

Clique aqui se você não concorda.A vida é sórdida, bruta e curta.

The Book – terms and conditions

A morte iminente da Universidade

Posted September 27th, 2009 in Ensaio by ExtraLibris

por Don Tapscott

DON TAPSCOTT é autor de 13 livros sobre novas tecnologias na sociedade e sua última obra é Grown Up Digital. Recentemente, Tapscott completou uma investigação de 4 milhões de dólares sobre a Geração Net. Ele é o chairman do “think tank” nGenera Insight e professor adjunto da Rotman School of Management, na Universidade de Toronto.




THE IMPENDING DEMISE OF THE UNIVERSITY

Publicado originalmente no Edge

http://www.edge.org/3rd_culture/tapscott09/tapscott09_index.html

tradução colaborativa de Isadora Garrido, Gustavo Henn e Moreno Barros


A morte iminente da Universidade

Durante 15 anos, eu tenho argumentado que a revolução digital desafiará muitos aspectos fundamentais da Universidade. E não estou sozinho. Em 1998, ninguém menos que Peter Drucker previu que as grandes universidades seriam “relíquias” dentro de 30 anos.

Acelere o tempo para os dias de hoje e você não estará errado em pensar que nós estávamos completamente errados. As inscrições em Universidades nunca foram tão altas. A porcentagem de jovens se matriculando em instituições que oferecem diplomas cresceu mais de 115% no período de 1969-1970 a 2005-2007, ao mesmo passo em que dobrou a porcentagem de americanos com idade entre 25 e 29 anos com diploma universitário. A competição para entrar nas melhores universidades nunca foi tão forte. Numa primeira olhada a universidade parece estar com uma demanda jamais vista.

Porém, existem indicadores problemáticos de que a figura não é um mar de rosas. E não estou falando apenas da redução dos dotes da universidade em razão da atual crise econômica. As universidades estão finalmente perdendo seu monopólio do ensino superior, uma vez que a web inexoravelmente se torna a infraestrutura dominante para o conhecimento, servindo tanto como um container como uma plataforma global para o intercâmbio de conhecimento entre as pessoas.

Enquanto isso no campus, existe um desafio fundamental ao modus operandi que é a base da Universidade – o modelo de pedagogia. Especificamente, há uma lacuna que se amplia entre o modelo de aprendizagem oferecido por várias grandes universidades e a forma natural como jovens que cresceram no mundo digital aprendem melhor.

As aulas feitas como antigamente, com o professor no pódio em frente a um grande grupo de estudantes, ainda é um acessório da vida universitária em vários campi. É um modelo que é centrado no professor, de mão única, um único tamanho serve a todos e o estudante é isolado no processo de aprendizagem. Por outro lado, os estudantes, que cresceram em um mundo interativo digital, aprendem de maneira diferente. Alfabetizados no Google e na Wikipedia, eles querem questionar e não se basear no professor para um mapeamento detalhado. Eles querem uma conversação animada, não uma aula. Eles querem educação interativa, não uma transmissiva que pode ter sido ótima para a Era Industrial, ou até mesmo para os boomers. Esses estudantes estão fazendo novos demandas das universidades e se elas os ignorarem, elas o farão a seu próprio risco.

O modelo de pedagogia, é claro, é apenas um alvo da crítica dirigida às universidades.

Os vários desafios à Universidade

A maioria dos recursos das grandes universidades são direcionados a pesquisa, não ao aprendizado. As universidades não são primariamente institutos de aprendizagem superior, mas institutos para a ciência e a pesquisa. Em seu livro Rethinking Science, Michael Gibbons desenvolveu uma crítica severa ao atual modelo de ciência conduzido nas universidades.

Recentemente o questionamento apareceu em outros lugares. No New York Times mês passado, Mark Taylor, reitor do departamento religioso da Universidade de Columbia, deu inicio a uma tempestade de controvérsia acadêmica com uma artigo OpEd entitulado “O fim da Universidade como a conhecemos”.

“A educação na graduação” ele começou “é a Detroit do ensino superior. A maioria dos programas nas universidades americanas produzem um produto para o qual não há mercado (candidatos para posições de ensino que não existem) e desenvolvem habilidades para as quais há uma demanda decrescente (pesquisa em sub-áreas dentro de sub-áreas e publicações em jornais que não são lidos por ninguém que não sejam colegas que pensam parecido), tudo a um custo crescente (as vezes mais de U$100.000 em taxas)”. O problema chave, ele notou, começou com Kant em seu trabalho de 1798, “O conflito das faculdades”. Kant argumentou que as universidades deveriam “lidar com todo o conteúdo de aprendizagem pela produção de massa, por assim dizer, por uma divisão do trabalho, para que então cada galho das ciências tivesse um professor público ou doutor colocado como seu conselheiro”.

Taylor argumentou que a graduação deve ser reestruturada em um nível fundamental para sair da aprendizagem ultra-estreita. Entre outras coisas, ele falou sobre mais questionamentos inter-disciplinares, a criação de programas focados em problemas, com cláusulas, bem como mais colaboração entre todas instituições educacionais, e a abolição das barreiras entre elas. Uma semana mais tarde, as lamentações de acadêmicos preencheram toda a página de cartas do New York Times de domingo. Um de seus próprios colegas de Columbia disse que foi “alarmante e constrangedor” ouvir um “anti-intelectualismo crasso” advindo de sua própria instituição. Outro acadêmico acusou Taylor de “envenenar as águas da educação superior”.


O Modelo de Pedagogia

Quaisquer que sejam os méritos da chamada de Taylor para reestruturar o ensino superior, eu acho que ele está certo em chamar atenção para um profundo debate sobre como as universidades funcionam em uma sociedade em rede. Porém, acredito que ele perdeu o desafio mais fundamental para a universidade como a conhecemos. O modelo básico de pedagogia está ultrapassado. “Aprendizado transmitido” como eu o chamei não é mais apropriado para a era digital e para uma nova geração de estudantes que representam o futuro da aprendizagem.

No modelo industrial de produção em massa de estudantes, o professor é um transmissor. Uma transmissão é por definição o envio de informação de um transmissor para um receptor de um modo linear. O professor é o transmissor e o estudante é um receptor no processo de aprendizagem. A formula acontece assim: “Eu sou um professor e eu tenho conhecimento. Você é um estudante e é como um vaso vazio e não tem. Prepare-se e aí vai. A sua meta é guardar essa informação em sua memória de curto-prazo e através da prática e repetição construir estruturas cognitivas mais profundas para que você possa se lembrar disso para mim, quando eu testá-lo”.

A definição de uma aula tornou-se o processo no qual as anotações do professor vão para as anotações do estudante sem permear os cérebros de nenhum dos dois.

Como alguém que apresenta várias aulas por ano, eu aprecio a ironia dessa visão. Mas eu entendo que as minhas aulas não são uma boa forma de aprendizagem. Elas tem um papel limitado em interessar uma audiência, mudar sua opinião ou possivelmente motivá-los a fazer algo diferente. Mas eu ouso dizer que 90 por cento do que eu disse é perdido.

Verdade, esse modelo de transmissão é melhorado em algumas disciplinas através de trabalhos, laboratórios e até seminários. E é claro que vários professores estão trabalhando duro para ultrapassar esse modelo. Entretanto, ele permanece dominante.

A tecnologia e a web provém um importante elemento de um novo modelo, mas até agora poucos o adotaram. Se alguém congelado há 300 anos atrás miraculosamente ressucitasse hoje e olhasse para as profissões – um físico em um teatro em operação, um piloto no cockpit de um jumbo, um engenheiro fazendo o design de um automóvel no CAD – ele com certeza ficaria maravilhado de como as tecnologias transformaram o conhecimento do trabalho. Mas se ele entrasse em um hall de salas de aula em uma universidade, ele sem dúvidas ficaria reconfortado em notar que algumas coisas não mudaram.


A Nova Geração de Estudantes

O modelo de transmissão pode ter sido perfeitamente adequado para os baby-boomers, que cresceram no modo de transmisão, assistindo 24 horas por semana de televisão (pra não dizer que receberam as transmissões na condição de crianças para seus pais, como estudantes pelos professores, como cidadãos pelos políticos, e quando eles fizeram parte da força de trabalho como empregados por seus chefes). Mas os jovens que cresceram no meio digital estão abandonando a TV de mão-única pelo maior estímulo da comunicação interativa que encontram na Internet. Na verdade assistir televisão está em processo de diminuição e a TV tornou-se nada mais que mídia ambiente para a juventude – parecido com o Muzak. Sentar-se mudamente na frente da TV – ou de um professor – não parece ter apelo ou funcionar para essa geração. Eles aprendem melhor de forma diferente através do não sequencial, do interativo, do assíncrono, da multitarefa e do colaborativo.

Jovens americanos com menos de 30 anos foram os primeiros a terem crescido no meio digital. Crescer numa época em que celulares, a Internet, SMS e Facebook são tão normais quanto uma geladeira. Essa imersão em mídias interativas como um estágio formativo da vida afetou o desenvolvimento de seus cérebros e consequentemente a forma que eles pensam e aprendem.

Alguns escritores, claro, pensam que o Google te deixa burro; é tão difícil se concentrar e pensar profundamente no meio de enormes quantidades de bits de informação online, eles contrapõem. Mark Bauerlein, um professor de inglês da Universidade de Emory, até os chama de “a geração mais burra” em seu livro mais recente sobre o assunto.

Minha pesquisa sugere que estes críticos estão errados. Crescer de modo digital mudou a forma que suas mentes trabalham de uma maneira que irá ajudá-lo a lidar com os desafios da era digital. Eles estão acostumados com multi-tarefas, e aprenderam a lidar com a sobrecarga de informação. Eles esperam uma conversação de via dupla. Ainda mais, crescer no meio digital encorajou essa geração a serem questionadores ativos e exigentes. Ao invés de esperarem por um professor dizer a eles o que está acontecendo, eles acham por si sós em tudo do Google à Wikipédia.

Se as universidades querem adaptar as técnicas de ensino a sua audiência atual, eles deveriam, como eu tenho dito por anos, fazer mudanças significativas na pedagogia. E o novo modelo de aprendizagem não é apenas apropriado para a juventude – mas cada vez mais para todos nós.

Os professores que permanecem relevantes terão que abandonar as aulas tradicionais, e começarem a ouvir e conversar com os estudantes – mudando de um estilo de sistema de transmissão e adotando um sistema interativo. Segundo, eles deveriam encorajar os estudantes a descobrir a si mesmos, e aprender um processo de descoberta e pensamento crítico ao invés de apenas memorizar o estoque de informação do professor. Terceiro, eles precisam encorajar os estudantes a colaborarem entre si e com outros de fora da universidade. Finalmente, eles precisam costurar o estilo de educação para os estilos individuais de aprendizagem de seus estudantes.

Por causa da tecnologia isso agora é possível. Mas isso não é fundamentalmente sobre tecnologia per se. Isso representa uma mudança no relacionamento entre estudantes e professores no processo de aprendizagem.


As Universidades Mais Vulneráveis

A habilidade para engajar jovens na universidade obviamente depende da instituição, e do professor individualmente. As grandes escolas de artes liberais estão fazendo um maravilhoso trabalho de estímulo a mentes juvenis, pois com grandes investimentos e classes pequenas, os estudantes podem ter acesso a uma experiência colaborativa customizada. Meu filho Alex graduou-se no Amherst College, uma pequena universidade de graduação com uma média de 8 alunos por professor. Entre seus professores incluem-se um vencedor do prêmio Pullitzer, uma láurea Nobel e professores em geral que vivem para trabalhar com estudantes que os permitem aprender.

Mas o mesmo não pode ser dito da maioria das grandes universidades que focam seu papel principal em ser um centro de pesquisa, com o ensino sendo um incoveniente processo secundário, e com salas tão grandes que eles só querem “ensinar” através de aulas.

Essas universidades são vuneráveis, especialmente em um tempo onde os estudantes podem assistir aulas online gratuitas dos principais professores do mundo em sites como o Academic Earth. Eles até mesmo podem fazer um curso inteiro online, por créditos. De acordo com o Sloan Consortium, um artigo recente na Chronicle of Higher Education nos disse que “aproximadamente 20 por cento dos estudantes universitários – algo em torno de 3,9 milhões de pessoas – fizeram cursos online em 2007, e esses números estão aumentando para centenas de milhares a cada ano. A Universidade de Phoenix inscreve mais de 200.000 a cada ano”.


O Novo Modelo

Alguns educadores líderes estão chamando atenção para esse tipo de mudança em massa; um desses é Richard Sweeney, bibliotecário universitário no Instituto de Tecnologia de New Jersey. Ele diz que o modelo de educação tem que mudar para se ajustar a sua geração de estudantes. Inteligentes mas impacientes, eles gostam de colaborar e rejeitam aulas de mão-única, ele nota. Enquanto alguns educadores enxergam isso como ceder às vontades de uma geração, Sweeney é firme: “eles querem aprender, mas eles querem aprender apenas do que precisam aprender, e eles querem aprender em um estilo que é melhor para eles”.

Existem exemplos brilhantes de educação interativa, entretanto. Dra. Maria Terrell, que leciona cálculo na Universidade de Cornell, usou um método interativo que é parte de um programa chamado “Boas Perguntas”, financiado pela National Science Foundation (Fundação de Ciência Nacional).

Uma estratégia que está sendo usada nesse programa é a chamada educação em tempo real; é uma estratégia pedagógica e de aprendizagem que combina os benefícios de tarefas com base na web e uma turma de alunos ativos onde os cursos são customizados para as necessidades particulares da classe. Questões “para aquecer”, escritas pelos alunos, são tipicamente resolvidas poucas horas antes da aula, dando ao professor a oportunidade de ajustar a lição em “tempo real”, de maneira que o tempo da turma possa focar nas partes das lições que os alunos tiveram dificuldades. O professor de Harvard Eric Mazur, que utiliza essa estratégia em sua turma de física, coloca dessa forma: “A educação é muito mais do que a mera transferência de informação. A informação precisa ser assimilada. Os estudantes precisam conectar a informação com aquilo que eles já sabem, desenvolver modelos mentais, aprender como aplicar o novo conhecimento e como adaptar esse conhecimento à situações novas e desconhecidas.

Essa técnica produz resultados reais. Um estudo que avaliou 350 alunos de Cornell indicou que aqueles a quem eram perguntados “questões profundas” (que exigem pensamento de alta profundidade) com frequente discussão entre os pares anotaram pontos consideravelmente maiores em seus exames de matemática do que os estudantes a quem não foram perguntadas questões profundas ou que tiveram pouca ou nenhuma chance de discussão com os pares. Dr. Terell explica: “É quando os alunos falam sobre o que eles pensam e o por que, é aí que acontece o maior aprendizado para eles… Você pode ouvir pessoas dizeram algo do tipo, “Ah sim, entendi”… e então eles explicam essa coisa para outra pessoa… e então ocorre um entendimento autêntico do que está acontecendo. Muito melhor do que aconteceria se eu, como a pessoa do professor, explicasse. Algo realmente acontece nessa instrução entre pares”.

Educação interativa permite que os estudantes aprendam em seu próprio ritmo. Eu vi isso por mim mesmo na metade dos anos 70 quando eu estava tendo um curso de estatística na minha graduação em psicologia educacional na Universidade de Alberta no Canadá. Foi uma das primeiras aulas conduzidas online – uma inovação educacional do Dr. Steve Hunka, um visionário da educação mediada por computador. Isso foi antes dos PCs, então nós sentamos na frente de um terminal de computador que estava conectado a um monitor com quadros deslizantes controlado por computador. Eu poderia parar a qualquer hora e revisar e testar a mim mesmo para ver como estava indo. A prova também era feita online.

Não existiam aulas. Como também: as aulas de estatística são por definição um fracasso. Não existe um “tamanho único” para estatísticas – todo mundo na sala de aula ou está entediado ou não entende. Ao invés disso, nós ficamos cara a cara com o Dr. Hunka que era liberto de ser um transmissor de informação para alguém que customizou uma experiência de aprendizagem para cada um de nós, um a um.

Anteriormente, a aprendizagem online era cara, mas hoje as ferramentas na internet facilitam o ensino e liberam o professor para formular a experiência de aprendizagem e conversar com os estudantes de modo mais individual e mais significativo. Isso funciona. A evidência das pesquisas é bem sólida e vêm de anos: “Comparados com estudantes que frequentaram cursos convencionais, os estudantes que recebem instrução mediada por computador bem elaborada…em geral atingem maiores notas em testes de revisão, aprendem suas lições em menos tempo, gostam mais de suas aulas e desenvolvem mais atitudes positivas em direção ao assunto que estão aprendendo”, de acordo com um artigo de 1997 chamado “Tecnologia na sala de aula: da teoria à prática”, que foi publicado na Educom Review. “Esses resultados representam uma gama ampla de alunos desde a escola fundamental até a universidade, estudando uma gama ampla de disciplinas da matemática às ciências sociais às humanidades”.


Desafiando o Propósito das Universidades

A questão da pedagogia faz surgir uma questão ainda mais profunda – o propósito da universidade. No velho modelo, professores ensinavam e esperava-se que estudantes absorvessem vasta quantidade de conteúdo. A educação era sobre a absorção de conteúdo e ser capaz de lembrar dele nas provas. Você se graduava e então estava pronto para a vida – apenas mantendo-se informado no seu campo escolhido. Hoje quando você se gradua, você está livre por, digamos, 15 minutos. Se você fez um curso técnico metade do que você aprendeu no primeiro ano pode estar obsoleto no quarto ano. O que conta é a sua capacidade de aprendizagem de longo termo, pensar, pesquisar, encontrar informação, analisar, sintetizar, contextualizar, valoriza-lo criticamente; aplicar a pesquisa a solução de problemas; colaborar e comunicar.

Mas agora que estudantes podem obviamente achar a informação que estão procurando num instante online, no crânio de outras pessoas online, esse velho modelo não faz mais sentido. Não é apenas o que você sabe que conta quando você se gradua; é como você navega no mundo digital, e o que você faz com a informação que descobre. Essa nova forma de aprendizagem, eu acredito, servirá a eles.

Universidades deveriam ser lugares para se aprender, não pra se ensinar.

Os nascidos na Geração Net, imersos em tecnologia digital, são sedentos por tentar coisas novas, aprendendo geralmente com muita rapidez. Eles querem que a universidade seja divertida e interessante. Para que eles possam curtir as maravilhas de descobrir as coisas por si só. Como Seymour Papert, um dos maiores especialistas do mundo sobre como a tecnologia pode prover novas formas de aprendizagem coloca: “O escândalo da educação é que cada vez que você ensina algo, você priva uma criança do prazer e benefício da descoberta”.


Um Desafio à Docência

John Seely Brown é diretor emérito da Xerox PARC e acadêmico vistante da USC. Ele percebeu que quando uma criança aprende a falar, ela ou ele está totalmente imerso em um contexto social e altamente motivado a engajar no aprendizado desse novo, incrível complexo sistema da linguagem. Ele começou a pensar que “quando você começa a frequentar a escola, de alguma maneira você começa a aprender bem mais devagar porque você está sendo ensinado, diferente do que acontece quando você está aprendendo para que possa realizar coisas com que se preocupa…Muito comumente apenar ir afundo em um ou dois tópicos que você realmete se importa permite que você aprecie a imensidão do mundo…quando você aprende a honrar os mistérios do mundo, você está de certo modo propenso a sempre querer provar as coisas… você pode até gostar de descobrir algo que você não conhecia… e você pode esperar sempre a necessidade de provar as coisas. E então isso define o estágio de questionamento perpétuo”.

Outro acessório da aprendizagem de estilo antigo é a suposição de que os alunos devem aprender por conta própria. Partilhar notas em uma sala de provas, ou colaborando em algumas das redações e trabalhos de casa, era estritamente proibido. No entanto, o modelo de aprendizagem individual é um território estranho para a maioria dos alunos da geração Net, que  cresceu colaborando, compartilhando e criando coisas juntos online. Os educadores progressistas estão reconhecendo isso. Os alunos começam a internalizar o que aprenderam em sala de aula apenas quando começam a falar uns com os outros, diz Seely Brown: “A noção de audiência passiva e recepção de informação não tem quase nada a ver com a maneira como você interioriza a informação em algo que faz sentido para você. A aprendizagem começa quando você deixa a sala de aula, quando você começa a discutir com as pessoas ao seu redor o que acabou de ser dito. É na conversa que você começa a interiorizar o que algum pedaço de informação significou para você.”

O auditório é um excelente exemplo da educação de massa. Ele veio junto com a produção em massa, marketing de massa e a mídia de massa. A escolaridade, diz Howard Gardner, é uma idéia de produção em massa. “Você ensina a mesma coisa para os alunos da mesma maneira e avalia a todos da mesma maneira.” A pedagogia é baseada na idéia questionável de que experiências eficientes de aprendizagem podem ser construídas para grupos de alunos com a mesma idade cronológica. Nesta perspectiva, o currículo é desenvolvido com base em informações pré-digeridas e estruturado para a transmissão ideal. Se o currículo está bem estruturado e interessante, então grandes proporções de estudantes de qualquer nível irão “sintonizar” e ficar comprometidos com a informação. Mas muitas vezes, não funciona dessa maneira.

Considere um dos maiores hits do YouTube ano passado, um vídeo curto chamado “Uma Visão dos Estudantes Hoje”.

Criado por Michael Wesch, um professor assistente de antropologia cultural na Kansas State University, é uma acusação pungente ao ensino ministrado pelas grandes universidade americano. Wesch recrutou 200 estudantes colaboradores para descrever a sua visão da educação que estão recebendo. Sua sentença: nada mudou muito desde o início do século XIX, quando o quadro negro foi introduzido como uma nova maneira brilhante de ajudar os estudantes a visualizar a informação. Eles pintaram um quadro sombrio da vida universitária – turmas enormes, professores que não sabem os nomes dos alunos, estudantes que não completaram as leituras designadas, exames de múltipla-escolha que eram um desperdício de capital intelectual.

Conheço vários estudantes brilhantes que se sentem da mesma forma. A grande coisa esses dias é conseguir um “10″ sem nunca mesmo ter ido a uma aula. Quando o crème de la crème de uma geração inteira é boicotar o modelo formal de pedagogia em nossas instituições educacionais, a escrita está gravada na parede.

Um desafio ao modelo de mensalidades

Conforme o modelo de pedagogia é desafiado, é inevitável que o modelo de lucros também mude. A chegada da educação online trás a questão: se tudo que as grandes universidades tem a oferecer aos estudantes são aulas que você pode ter online de graça – de outros professores – por que pagar mensalidades? Se as universidades querem sobreviver à chegada da educação online livre de nível universitário, eles precisam mudar a forma que professores e estudantes interagem no campus. Alguns estão dando passos grandes para reinventar a si mesmos, com a ajuda da Internet. O Instituto de Tecnologia de Massachusetts, por exemplo, está oferecendo notas e apontamentos de aulas grátis, provas e aulas gravadas em vídeo por professores do MIT para o mundo online.

Qualquer pessoa no mundo pode assistir toda série de aulas para uns 30 cursos, tais como o curso introdutório de física mais popular de Walter Lewins, que é visto por mais de 40 mil pessoas por mês no OpenCourseWare, a versão MIT de filantropia intelectual. Universidades do mundo todo uniram-se ao movimento.


Um desafio ao credenciamento

É claro, universidade tem um importante papel na escolha de indivíduos da sociedade, através de processos de admissão e garantia de titulações. Um dos papéis mais importantes da universidade é peneirar o capital humano para futuros empregadores, e mais amplamente estratificando a sociedade. Aqueles que tem boas notas no ensino médio e em seus SATs [prova de aptidão, similar ao vestibular], que provam ser trabalhadores e ter outros talentos, entram nas melhores universidades. Aqueles que se graduam – melhor ainda com distinção – tem uma credencial para conseguir os empregos mais desejados ou entrada em programas de graduação. Eles provaram ter um nível de disciplina e que estão preparados para jogar de acordo com as regras.

Mas uma credencial e até mesmo o prestígio de uma universidade está enraizado em sua efetividade como uma instituição educacional. Se essas instituições demonstram ser ambientes de aprendizagem inferiores a outras alternativas, sua capacidade de credenciamento certamente diminuirá. 

Quanto tempo vai demorar para, digamos, um curso de gradução de Harvard, ensinado em turmas de grande porte por professores assistentes, amplamente por meio de palestras, ser capaz de competir em status com as turmas pequenas das faculdades de artes liberais ou sistemas de ensino superior que oferecem os novos modelos de aprendizagem? Certamente, a provação estar no pudim irá alterar o estado de várias receitas para a aprendizagem.


Um Desafio ao Campus

O campus universitário tem sido “um maravilhoso lugar para jovens pessoas irem por quatro anos para ficarem mais velhos”, como o sociólogo de Princeton Marvin Dressler me disse há uma década atrás. “Enquanto eles estão lá, estão compelidos a aprender algo” ele disse. Mas se os campus são vistos como lugares onde a aprendizagem é inferior aos outros modelos, ou lugares ruins onde a aprendizagem é restrita e sufocada, o papel da experiência do campus também será minado.

Campus que dão boas vindas aos novos modelos se tornam ambientes mais efetivos e lugares mais desejáveis. Mesmo algo tão simples quanto leituras online não reduzem o valor da educação fora do campus, eles a melhoraram. As aulas por vídeo permitem que estudantes absorvam o conteúdo do curso online – quando quer que seja conveniente – e então eles se juntam para remendar, inventar novas coisas, ou discutir o material. A experiência mostrou ao MIT que o valor real do que eles oferecem não é a aula per se, mas o pacote todo – o conteúdo amarrado a experiencia humana de aprendizado no campus, mais a certificação. Universidades, em outras palavras, não podem sobreviver apenas de aulas.

Gravar aulas pode libertar o capital intelectual – tanto para os professores quanto para os estudantes – de gastar seu tempo no campus pensando e questionando e desafiando uns aos outros, ao invés de apenas absorver informação.


Um Desafio ao Relacionamento da Universidade com Outras Instituições

“Chegou a hora para algumas mudanças drásticas na universidade, nosso modelo de pedagogia, como operamos, e nosso relacionamento com o resto do mundo”, diz Luis M. Proenza, presidente da Universidade de Akron.

Ele faz uma pergunta provocativa: por que um estudante universitário deveria ser restrito a aprender com os professores das universidades que estão frequentando? Verdade, estudantes podem obviamente aprender com intelectuais do mundo todo através de livros, ou pela Internet. Em um mundo digital, por que um estudante não poderia ser capaz de ter um curso de um professor em outra universidade? Proenza acha que as universidades deveriam usar a Internet para criar um centro global de excelência. Em outras palavras, escolher os melhores cursos que você tem e linká-los com a melhor num número de universidades do mundo todo para criar um programa de ensino inquestionável para estudantes. Eles aprenderiam com as melhores mentes do mundo em sua área de interesse – seja na sala de aula física ou online. Essa academia global também seria aberta para qualquer pessoa online. Esse é um belo exemplo de colaboração que descrevi no livro de minha co-autoria, Wikinomics.

Então por que isso ainda não aconteceu? “É o legado da infraestrutura humana e educacional estabelecida,” diz Proenza. A analogia não é o mercado de jornais, que foi enfraquecido pela distribuição de conhecimento na Internet, ele nota. “Somos mais como o seguro saúde. Somos desafiados por modelos de negócios obstrutivos, não baseados em mercado. Também somos penitenciados por uma sensação de que o médico sabe melhor, ou o professor sabe melhor”.

“Existem várias vacas sagradas”, ele disse. Por que, por exemplo, as universidades são julgadas pelo número de estudantes que excluem ou por quanto gastam? Por que não são julgadas por como bem ensinam e por qual preço?

O mundo digital, que treinou jovens mentes a questionar e colaborar, está desafiando não apenas as tradições voltadas para aulas das universidades, mas também a própria noção de uma instituição entre paredes que exclui um grande número de pessoas. Por que não permitir que um aluno brilhante da oitava série colegial tenha aulas do primeiro semestre da graduação universitária em matemática, sem abandonar a vida social de seu colégio? Por que não estender o poder interativo da internet para transformar a universidade num lugar de aprendizagem de longo prazo, não apenas um lugar pra crescer?


Velhos paradigmas são difíceis de matar

Entretanto, o modelo de educação da Era Industrial é difícil de mudar. Novos paradigmas causam deslocamento, rupturas, confusão, incerteza. Eles são quase sempre recebidos com frieza ou hostilidade. Interesses empossados lutam contra mudanças. E líderes dos velhos paradigmas são geralmente os últimos a aceitarem o que é novo.

Em 1997 eu apresentei minhas idéias para um grupo de cerca de 100 reitores universitários em um jantar oferecido pela Ameritech em Chicago. Depois da minha fala eu sentei na minha mesa e perguntei ao grupo menor o que eles pensaram sobre o que disse. Eles responderam positivamente. Então perguntei a eles “por que isto está demorando tanto?”, “O problema são recursos,” um reitor disse. “Nós não temos o dinheiro para reinventar o modelo de pedagogia”. Um outro educador colocou da seguinte forma: “Modelos de aprendizagem que são muito antigos são difíceis de mudar”. Algum outro sorriu abafado em volta da mesa quando ele disse, “Eu acho que o problema são os professores – a média de idade deles é 57 e estão ensinando de modo pós-Gutemberguiano”.

Um homem muito pensativo chamado Jeffery Bannister, que na época era o reitor do Butler College, estava sentado perto de mim. “Pós-Gutemberguiano?” ele disse. “Eu acho que não! Ao menos não na Butler. Nosso modelo de aprendizagem é pré-Gutemberguiano! Nós temos um monte de professores lendo de notas escritas a mão, escrevendo em quadros-negros, e os estudantes estão copiando o que eles dizem. Esse é um modelo pré-gutemberguiano – a imprensa escrita não é nem mesmo uma parte importante do paradigma de aprendizagem”. Ele ainda disse, “Espere até que esses estudantes que tem 14 anos e cresceram aprendendo na onda da Net entrem nas salas de aulas (universitárias) – faíscas vão rolar.

Bannister tinha razão. Uma força poderosa para mudar a universidade são os estudantes. E faíscas estão voando hoje. Existe uma imenso choque de gerações nessas instituições. O que ocorre é que a crítica da universidade de anos atrás eram idéias em espera – esperando pela nova web e uma nova geração de nativos digitais que podiam efetivamente desafiar o velho modelo. Mudar o modelo de pedagogia para essa geração é crucial para a sobrevivência da universidade. Se os estudantes ignorarem uma educação universitária tradicional, isso irá erodir o valor das credenciais universitárias, sua posição como centros de ensino e pesquisa, e como campus onde pessoas jovens tem uma chance de “crescer”.