O bibliotecário que mediu a Terra

Posted setembro 1st, 2009 in Ensaio by ExtraLibris

A idéia de uma Terra esférica provavelmente cresceu independentemente em muitas culturas, mas o que nós sabemos é que os influentes gregos filósofos como Platão e Aristóteles quem estabeleceram essa idéia no pensamento ocidental. “A esfericidade da terra”, Aristóteles escreveu em Metereologia, na última metade do quarto século antes de Cristo, “é provada pela evidência de nossos sentidos”.

Como outros antes dele, Aristóteles observou o aparentemente movimento das estrelas. Mas Aristóteles notou algo mais. Quando se viajava para norte ou sul, novas estrelas apareciam sobre o horizonte à frente e outras desapareciam sobre o horizonte atrás. O céu parecia de alguma maneira diferente em diferentes latitudes da Terra. Isso sugeriu a Aristóteles que a Terra é uma esfera, e uma não muito larga. Se fosse diferente, as viagens teriam de ser muito mais longas, mais do que do Egito a Atenas para que a diferença nas estrelas pudesse ser notada.

Outros dois fenômenos atraíram a atenção de Aristóteles. Navios desembarcando de um porto desapareciam com os cascos primeiro em qualquer direção que viajassem; se a Terra fosse plana, os navios deveriam ficar menores e menores, se tornar um ponto e então desaparecer. Um eclipse lunar forneceu outra dica. A sombra que caiu sobre a Lua – a sombra da Terra – era sempre curva. “Conseqüentemente”, Aristóteles concluiu, “se o eclipse é causado pela interposição da Terra, a linha curvada é resultado de seu formato esférico”.

Com a força da lógica convincente de Aristóteles, os gregos aceitaram a esfericidade da Terra como um fato, mas eles não tinham resposta para a próxima pergunta: qual é o tamanho dessa esfera?

No início havia apenas estimativas. Apesar de serem profundos conhecedores de lógica, os gregos algumas vezes burlavam a experimentação e a observação sistemática. Platão não fez mais do que uma suposição vaga. Em Phaedo, ele escreveu o que Sócrates disse: “eu acredito que a Terra é muito grande e que nós que habitamos entre os Pilares de Hércules [Gibraltar] e o rio Phasis [no Cáucaso] vivemos em uma pequena parte sobre o mar, como formigas ou sapos em um lago, e que muitas outras pessoas vivem em muitas outras regiões como esta”.

Aristóteles, o qual as observações das estrelas sugeriram que o tamanho da Terra não era grande, calculou a circunferência em aproximadamente 64.000 kilômetros. Arquimedes posteriormente reduziu a estimativa para 48.000. Mas nenhum dos casos indicava como havia se chegado a tais números.

Os chineses, desconhecidos pelos contemporâneos helênicos, devem ter enfrentado as mesmas questões. De acordo com várias estórias, diz a lenda, dois irmãos mediram a Terra. Eles andaram de norte a sul, e então de leste a oeste, e nas duas vezes eles alcançaram o mesmo resultado – 134.000 kilômetros. Se mais do que nada, essa estória prova que os gregos não estavam sozinhos em sua curiosidade pelo tamanho da Terra, ou em sua ignorância sobre como encontrar o resultado.

A primeira medição conhecida da Terra não aconteceu antes que, no terceiro século antes de Cristo, um bibliotecário chamado Eratóstenes teve uma inspiração. Eratóstenes viveu entre 276 e 196 A.C., depois da morte de Alexandre o Grande e antes da ascensão de Roma, em um tempo em que Alexandria superava todas as outras cidades do mundo Helênico. Fundada em 332 A.C. por Alexandre, a cidade se tornou mais rica do que Mileto e Atenas em seu auge, mais poderosa do que qualquer outra cidade então, Antioch ou Smyrna, Ephesus ou Nicaea. Era uma magnífica cidade beirando o Mediterrâneo e o delta do Nilo, uma cidade de palácios de pedra, avenidas largas, parques espaçosos, comércio fervilhante, e um porto conhecido pelos navegantes pelo magnífico faról de mármore branco na ilha de Pharos. Nesse centro comercial circulavam Macedônios, Gregos, Egípcios, Judeus, Persas, Sírios e Negros, dando vibração e agitação ao lugar. Como Herodas, um poeta grego do terceiro século antes de Cristo escreveu: “Alexandria é a casa de Afrodite, e tudo se encontra lá – riqueza, parques, um grande exército, um céu sereno, espaços públicos, filósofos, metais preciosos, rapazes atraentes, uma boa casa real, uma academia de ciências, vinhos finos e mulheres bonitas”.

Os governantes de Alexandria, e de todo o Egito, eram os Ptolomeus. Dentre todos os herdeiros do império do conquistador, eles eram os mais astutos e poderosos. Eles eram ditadores que cobravam altas taxas e mantinham o poder através de um imponente exército. Mas, não diferente de outros ditadores desejosos de prestígio e poder, os Ptolomeus também tinham ambições culturais. Nesse sentido, eles estabeleceram um templo para as Musas, e em tempo se tornou a Meca científica e literária do Mediterrâneo e a maior glória de Alexandria.

Como a sua evolução, o Museu de Alexandria trouxe mais semelhanças com os modernos centros de pesquisa, os chamados think tank, do que outros museus. Astrônomos, matemáticos, físicos, escritores, historiadores e filósofos de todas as partes do mundo Helênico foram convidados para o museu. Seus salários eram pagos pelo tesouro real. Eles viviam e trabalhavam e pensavam em construções dentro da zona real, o Bruchium. A eles eram oferecidos um hall de leitura, uma sala de jantar, laboratórios, jardins botânico e zoológico, um observatório astronômico, e quietos quintais para contemplação. Apesar de um padre egípcio estar por determinação encarregado, provavelmente um artifício real para os contribuintes nativos, os estudiosos pareciam ser independentes de qualquer influência religiosa sobre seus pensamentos. Também não havia qualquer indicação de que os Ptolomeus exigiam resultados “práticos” relacionados aos empreendimentos dos pensadores. Dentre os estudiosos atraídos para o museu estavam Demétrio, Strato, Euclides, Arquimedes, Apolônio, Calimacus e Eratóstenes. Por volta de 240 A.C., Ptolomeu III nomeou Eratóstenes chefe da biblioteca do museu, provavelmente a mais cobiçada posição de sabedoria no mundo Helênico. A biblioteca era o repositório de grande parte do conhecimento mundial registrado, o equivalente em rolos de papiro a 100.000 livros no sentido moderno. Ptolomeu III cometeu atos inescrupulosos para aumentar essa coleção. Por ordem real, qualquer pessoa chegando em Alexandria era revistada por quaisquer rolos em suas possessões, e esses rolos eram confiscados e entregados aos escribas para cópia. As cópias eram eventualmente retornadas aos seus donos, mas os originais permaneciam na biblioteca real.

Eratóstenes tinha tudo para ser mesmo um bibliotecário. Ele era um homem de muitos talentos, que testou e estudou quase todo o conhecimento da época. Ele estudou como gramático e poeta em sua terra natal Cyrene, oeste do Egito. Ele se mudou para Atenas, onde mergulhou na filosofia, ciência e matemática. De acordo com alguns relatos, Eratóstenes escreveu um volume de versos, uma história da comédia, e uma cronologia dos maiores acontecimentos na história Mediterrânea. Se tal versatilidade encantou Ptolomeu III, trouxe para si o desprezo por parte de seus pares, que estavam se tornando cada vez mais especializados. Eles o chamavam de beta e pentatlo. O último era o nome dos atletas que se distinguiam em cinco modalidades esportivas, sugerindo que Eratóstenes era um estudioso de muitos talentos, e talvez – na opinião dos críticos – mestre de nada. O beta significava ser o número dois, depois de alfa, implicando que ele era segundo escalão nos muitos campos do conhecimento em que se aplicava. Essa perversa caracterização pareceu seguir Eratóstenes ao decorrer de sua longa carreira, mesmo depois de seus experimentos para medição do tamanho da Terra.

Mas talvez apenas um homem como Eratóstenes, um polímata e aventureiro intelectual, poderia compreender a história do poço, a história que supostamente lhe deu a idéia para o experimento.

Entre as histórias de viajantes circulando em Alexandria na época, havia uma sobre um poço em Syene, no norte do Nilo em sua primeira catarata, onde o sol brilhou diretamente sobre suas águas profundas ao meio-dia do dia mais longo do ano, 21 de junho. Nada mais estranho havia sido visto em Alexandria. Para Eratóstenes a história significava que Syene (nome grego para Aswan) deveria estar localizada no limite norte dos trópicos.

A suposição baseava-se em observações feitas anteriormente por astrônomos. Por séculos, homens olharam o Sol, a Lua e as estrelas e concluíram que eles deveriam estar fixos dentro de uma grande esfera celeste que girava ao redor de uma Terra estática. O que poderia ser mais plausível?

Afinal, qualquer um poderia ver os movimentos no céu, mas quem poderia dizer que viu ou sentiu a Terra movendo? A Terra, os astrônomos acreditavam, era o centro estacionário de todas as coisas. Os antigos astrônomos começaram a perceber que, pela sua perspectiva de alguma maneira, o Sol não apenas girava ao redor da Terra todos os dias, mas também se movia pra cima e pra baixo no céu dentro de ciclos de 36 dias, maiores em algumas estações e menores em outras. Eles chamaram essa aparente jornada anual do Sol de elipse. Ao delinear a elipse, os astrônomos constataram que o Sol estava quase sempre em um ângulo em relação com o equador celestial, a linha imaginária em que eles dividiram a esfera celeste. Outras observações mostraram que o Sol parecia migrar aproximadamente do 240 sul do equador celestial, para o 240 norte, e então retrocedia o mesmo curso. Isso se tornou conhecido como a obliqüidade da elipse.

Significa que apenas duas vezes por ano, em 21 de março e 23 de setembro, a trajetória do Sol intersecta o equador celestial. Quando isso ocorre, as horas do dias e da noite são iguais – equinócio. E duas vezes por ano, quando o Sol atinge um dos extremos em sua migração norte ou sul, ele permanece no seu maior ângulo em relação ao equador celestial.

Cada uma das linhas imaginárias no céu marcando os extremos da migração solar foi chamada de trópicos, em função da palavra grega tropos, uma “volta”, ao que parecia nesta linha, o Sol parava, girava ou retornava. Ao norte do equador celestial, isso ocorre em 21 de junho, contabilizando o dia mais longo do ano para as pessoas do norte. Ao sul do equador, isso ocorre em 22 de dezembro, fazendo o dia mais curto do ano no norte e o dia mais longo para as pessoas do sul – mas os gregos daquela época geralmente não acreditavam que pessoas poderiam existir ao sul.

Na época de Eratóstenes, os homens haviam traduzido o que ele enxergavam no céu em relação à Terra. Eles falavam de terras abaixo dos trópicos e abaixo do equador. Esse pensamento marcou a origem das zonas geográficas baseadas em latitude e o equador da terra, em um plano com o equador celestial, como um círculo imaginário dividindo a Terra em hemisférios. Tal concepção deu à cartografia suas três primeiras linhas de referência para mapas – o Trópico de Câncer, o Equador, e o Trópico de Capricórnio. O trópico ao norte tornou-se conhecido como o Trópico de Câncer porque o Sol faz sua volta por lá no mês do caranguejo (Câncer), uma das constelações do zodíaco, e sua primeira aparição no ano. Da mesma forma, o trópico ao sul foi chamado de Trópico de Capricórnio por sua relação com a primeira aparição do ano da constelação de Capricórnio.

Agora, claro, nós sabemos que é a Terra, não o Sol, que está se movendo e causando as mudanças dos dias e das estações. O que os gregos do tempo de Eratóstenes não sabiam é que a Terra gira de oeste para leste em seu eixo (a cada 24 horas) e orbita o Sol (uma vez a cada 365 dias). Mas o eixo da Terra não é perpendicular ao plano da órbita da Terra ao redor do Sul. Se não fosse, o Sol brilharia verticalmente apenas sobre o equador da Terra.
Ao invés disso, a Terra está inclinada em um ângulo de mais ou menos vinte e três graus e meio, muito próxima da estimativa dos gregos de vinte e quatro graus para a obliqüidade da elipse do Sol.

Exceto por uma leve oscilação, a Terra inclina-se no mesmo ângulo o ano inteiro, com o seu eixo sempre apontando na direção de Polaris, a estrela do norte. Conseqüentemente, quando a Terra está em uma parte de sua órbita, o pólo norte está inclinado em direção ao Sol e é verão no hemisfério norte e inverno no sul. No outro ponto da órbita, o pólo norte está com inclinação afastada do Sol, e é inverno no hemisfério norte e verão no sul.

Mas se os gregos antigos estavam errados sobre as causas do que eles haviam observado, eles estavam completamente corretos em relação a um efeito: apenas nos trópicos pode existir um sol de meio-dia capaz de irradiar sobre as águas de um poço profundo.

Com isso em mente, Eratóstenes sentiu que ele possuía todo o necessário para medir a circunferência da Terra. Ele estava atento ao fato de que os raios de Sol são, para todos os propósitos e intenções, paralelos quando eles atingem a Terra. Então, se a Terra é uma esfera, a luz do Sol deve atingir diferentes partes da Terra em diferentes ângulos, a curvatura da Terra sendo responsável pela diferença. Isso lhe ocorreu quando, no dia em que o Sol brilhava diretamente sobre o poço em Syene bem ao meio-dia e não havia sombras na cidade, ele lembrou ter visto muros produzindo sombras em Alexandria. Se ele pudesse medir o ângulo da sombra em Alexandria ao meio-dia daquele dia, Eratóstenes pensou, ele poderia calcular o tamanho da Terra sem ter de sair de dentro da biblioteca.

Eratóstenes fez exatamente isso, usando o Sol, o poço, e uma coluna vertical.

Do que Eratóstenes podia aprender com os viajantes, Syene supostamente se localiza ao sul de Alexandria, o que era particularmente conveniente. Isso significava que dois lugares deveriam estar localizados sob o mesmo meridiano e então apontar o mesmo grande círculo da Terra. Um meridiano é metade de qualquer círculo que cruza o equador em um ângulo certo e circunda todo o globo.

Ainda em relação a localização de Syene e Alexandria, significava que se ele determinasse a distância entre as duas cidades, ele saberia a distância exata de um arco do meridiano – ou seja, o tamanho de uma parte do meridiano e conseqüentemente uma parte da circunferência da Terra. Eratóstenes soube que uma caravana de camelos precisava de 50 dias para fazer a jornada e que camelos geralmente percorrem 100 stadia por dia. A distância então deveria ser de 5.000 stadia. Inspetores reais, de acordo com algumas versões da história, percorreram a rota em uma tentativa de confirmar a distância.

Com essas duas informações – a localização no mesmo meridiano e a distância – faltava apenas uma para os cálculos de Eratóstenes. Se o arco do meridiano entre Syene e Alexandria media 5.000 stadia, qual fração do círculo completo isso representava? Era uma pequena ou grande fração? Era isso que Eratóstenes tinha de descobrir.

Seu próximo passo foi um engenhoso exercício de geometria elementar.

No 21 de junho seguinte, quando ele sabia que o Sol brilharia verticalmente sobre o poço em Syene, Eratóstenes foi até um obelisco usado para mostrar as horas através do Sol. Chamado de gnomon, essa coluna vertical apoiava-se em uma base horizontal sobre uma linha norte-sul. O gnomon era tão verticalmente perpendicular ao chão que se você desenhasse uma linha do alto dele até a sua base, a linha passaria pelo centro da Terra.

Quando a sombra do obelisco atingiu a linha do meridiano, significando que o Sol estava no ponto mais alto sobre Alexandria, Eratóstenes se agachou e cuidadosamente marcou o limite da sombra e então mediu o tamanho desde a base do gnomon. E foi isso. Ele havia medido a Terra.

Eratóstenes já sabia então o tamanho da sombra e a altura do gnomon, e isso lhe deu dois lados medidos de um triângulo. Sabendo isso, ele poderia desenhar o terceiro lado do triângulo e então encontrar o ângulo entre o topo do gnomon e os raios do Sol.

Era um ângulo pequeno 7³12’, aproximadamente 1/50 de um círculo completo. Já que não havia sombras em Syene naquele exato momento, com o Sol a pino, Eratóstenes concluiu que a distância entre Syene e Alexandria era de 1/50 da distância de uma volta na Terra. Então, ele calculou, 50 x 5.000 stadia = 250.000 stadia, ou 46.250 kilômetros. A circunferência da Terra teria então, aproximadamente 46.000 kilômetros. Era mais ou menos 16% superior; a circunferência hoje é sabida a ter pouco mais de 40.000 kilômetros. Mas Eratóstenes passou muito perto, considerando que ele trabalhou sem nenhum benefício das ferramentas de medição modernas.

Uma certa dose de sorte favoreceu Eratóstenes, já que, sem tomar conhecimento, ele cometeu diversos erros. Um de seus erros teoréticos, afirmar a perfeita esfericidade da Terra, fez pouca diferença. Mais importante, entretanto, era o fato de que Syene não está localizada exatamente no Trópico de Câncer, mas aproximadamente 60 kilômetros ao norte. Syene e Alexandria não estão nem mesmo sobre o mesmo meridiano, com Syene 3³3’ a leste. E, como era de se esperar, as caravanas de camelos provaram ser menos precisas em suas medições de distância; a metrópole e o oásis estão distantes entre si menos de 5000 stadia – ou seja, 725 kilômetros de distância, ao invés de 800. Mas os vários erros devem ter cancelado uns aos outros.

Eratóstenes, em seu experimento para medição da Terra, foi certamente primeiro escalão, alpha, não beta. George Sarton, o historiados da ciência, escreveu: “Havia entre eles um homem genial, mas como trabalhava em um novo campo, eles eram muito estúpidos para reconhecê-lo. Usual como nestes casos, eles provaram não a ignorância dele, mas de si próprios”.

Foi Eratóstenes que primeiro provou a “capacidade exploratória da mente humana” em uma escala global, condensando o tamanho da Terra de imensidão desconhecida para uma dimensão capaz de ser medida. Ele morreu com 80 anos sabendo com incrível precisão o tamanho e o formato da Terra – mas sem conhecer muito sobre as terras e mares que cobrem a Terra que ele mediu.

John Noble Wilford

Prostituição acadêmica: publicando o que os pares querem

Posted agosto 26th, 2009 in Ensaio by ExtraLibris

O sistema de publicação científica que existe em nosso campo no tempo atual virtualmente força os acadêmicos a tornarem-se prostitutas: vendem-se por dinheiro (e uma boa vida). Ao contrário das prostitutas que vendem seus corpos por dinheiro (Edlund e Korn, 2002), os acadêmicos vendem sua alma para se conformar à vontade de outros, os editores, a fim ganhar uma vantagem, a publicação.

O processo de ir de humilde graduando ao professor onisciente segue mais ou menos este caminho:

1.Graduando: Escrever uma monografia (para obter boas recomendações da escola de graduação)
2.Pós-graduando: Publicar pelo menos 1 artigo todos os anos nos principais periódicos (conferências, se for de engenharias) em seu campo. Passar pelas avaliações
3.Professor assistente: Publicar diversos artigos (incluindo aqueles que você “co-autora” com seus alunos); comece a receber financiamentos (bolsas). Repita por 6 anos
4.Professor adjunto: Você venceu, é isso. Receba os créditos…

Obviamente, ser publicado é o fator mais importante de uma carreira acadêmica. Entretanto, para entrar nos grandes periódicos da sua área seu trabalho tem que ser aprovado pelos editores. Se o editor aceitar seu artigo na primeira tentativa, diversos conselheiros revisam-no e oferecem sugestões para melhorias. Possuem também o poder do veto e seu artigo pode ser rejeitado por qualquer membro do conselho editorial. Somente quando você fêz todas as mudanças “sugeridas” (e esta pode passar por diversas revisões), você terá uma possibilidade da aceitação para a publicação.

Fazer as revisões força-o a publicar algo diferente de seu trabalho original sob as demandas de uma pessoa anônima. Custa também tempo precioso, e o tempo está sempre voando em sua carreira acadêmica.

Isto apresenta uma dissonância no sistema porque os editores têm o poder de ditar mudanças a um artigo, mas nenhum direito de propriedade nos periódicos. Podem parecer agir no interesse do periódico, mas não lhes há nenhum benefício econômico para fazer dessa maneira.

Para opôr isto, Frey propõe um sistema de publicação modificado onde os editores de periódicos fazem a aceitação/decisão da rejeição no momento do recebimento dos artigos, e os revisores propõem as sugestões que caberá  ao autor livremente executar ou ignorar. Este sistema trata os acadêmicos como artistas, reduzindo a prostituição intelectual e promovendo a criatividade em artigos publicados.

É improvável que o processo acadêmico de publicação mude em curto prazo, mas escrever livros e colocar artigos na web dentro de um repositório de artigos (tal como SSRN ou arXiv) são alternativas potenciais para alguns acadêmicos.

Frey, B. S. (2003). Publishing as prostitution? – Choosing between one’s own ideas and academic success. Public Choice, 116, 205-223.

via Tasty Research

Biblioteca e cidadania

Posted junho 19th, 2009 in Ensaio by ExtraLibris

por Anna Veronica Mautner, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, autora de “Cotidiano nas Entrelinhas”.
amautner@uol.com.br

Publicado originalmente no caderno Equilíbrio, da Folha de São Paulo, em 18 de junho de 2009.

Já houve tempos em que a biblioteca exerceu a função de espaço para constituição de cidadania. Lá os jovens se encontravam, trocavam ideias e se informavam, na condição mais igualitária possível. Livro, revista, jornal, espaço, serviço da bibliotecária, mesa para ler e escrever e saguão para conversar. Tudo gratuito.

Frequentar uma biblioteca, apesar de todas as vantagens descritas acima, parece que está caindo em desuso. Para substituir esse saudável hábito, as livrarias estão tomando ares de biblioteca. As modernas têm até poltrona e sofá, onde se pode consultar ou ler um pouco, além de barzinho para tomar café com bolinho. Tudo tão parecido com as bibliotecas de antigamente!

Sei que a internet preenche uma parte dessas funções, mas nem todas. Falta o calor do olhar e do som das vozes. A tendência dessas novas livrarias confirma o prazer de manusear livros, de ler trechos sem compromisso, mas com conforto, e de trocar ideias ao vivo.

Qual será o problema das bibliotecas que são inauguradas em série pelos governos, mas parecem não desabrochar? Será que funcionam de forma insatisfatória porque são pouco frequentadas ou são pouco frequentadas porque funcionam de forma insatisfatória? Não vou resolver esse dilema.

Certas funções que elas exerciam continuam sendo importantes. Sua ausência representa falta de espaço público protegido para que possa haver socialização em torno de informações e de ideias.

Era nos saguões e no entorno das bibliotecas que se falava de música, cinema e teatro -difundindo posições e opiniões.

Conversar em volta da estátua do saguão da Biblioteca Municipal de São Paulo era fazer parte de uma geração, de uma turma: era uma identidade. Ali se folheavam revistas, liam-se livros clássicos e modernos e faziam-se anotações para os livros que se sonhava escrever.

Quero frisar que esse jeito tão democrático de encontro possibilitou a várias gerações de jovens oriundos dos quatro pontos da cidade o acesso à cultura e à cidadania. Só custava a condução para chegar até lá.

Os entornos de biblioteca que conheci poderiam hoje se chamar de shopping center de ideias e de bons hábitos culturais. Grande parte dos professores da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), da USP, até hoje se reconhece como integrante da “geração biblioteca”.

Nas últimas décadas, comprar livros tornou-se mais comum do que era antigamente. Será que a biblioteca foi ficando com cara de “coisa de pobre”?

E onde fica o novo saguão das bibliotecas? Será que as livrarias como a Cultura, a da Vila ou a Martins Fontes estão conseguindo ocupar esse espaço?

Na Antiguidade, existia a praça ou o mercado, onde se trocavam ideias e informações. Onde é a nossa praça? A primeira resposta que aparece é que está na internet. Serão coisas equivalentes? Vai ver são…

A reflexão sobre a diferença entre internet e praça de encontro fica para outra coluna.

Imagem: Cafe-Librería El Péndulo, Sucursal Polanco, México http://www.pendulo.com/. Créditos de Lourdes

O ano mais importante de todos os tempos

Posted junho 18th, 2009 in Ensaio by ExtraLibris

Qual foi o ano mais importante de todos os tempos?
por Andrew Marr

publicado originalmente no More Intelligent Life, The Economist, Summer 2009
http://www.moreintelligentlife.com/story/what-was-most-important-year-ever
tradução livre de Moreno Barros

É apenas uma brincadeira, mas algo maior do que isso também: qual foi o ano mais importante na história da humanidade? A resposta para essa pergunta diz muito sobre quem somos. Cristãos votariam no nascimento de Cristo, ou a sua crucificação (apesar de que teriam que concordar com datas, antes de tudo) e os muçulmanos, na migração do profeta para Medina em 622DC. Para os ingleses patriotas poderia ser a derrota dos Vikings perante Alfred, em 878, enquanto marxistas poderiam votar a favor da publicação de “Das Kapital” em 1867.

Mas a minha sugestão é que nós devemos procurar por um ano importante universalmente. Na ausência de uma verdadeira religião universal, podemos excluir os momentos religiosos. Em quase todos os casos, datas nacionais também se fazem presentes. Pode-se argumentar que a derrota da Armada Espanhola em 1588 foi crucial para o mundo – sem uma Inglaterra independente, sem Reino Unido, sem Império Britânico, o mundo seria diferente. Mas isso exige muita especulação para chegar a ser convincente.

O que dizer então dos anos em que aconteceram eventos que afetaram muitos países e povos? Se você introduzir esse pensamento, você traz os anos mais significativos próximos aos tempos modernos. Pela simples razão das viagens e da transmissão de idéias, significa que quanto mais você voltar no tempo – a não ser que você brinque com o alvorecer da humanidade – mais provável que a escolha seja menos universal. Existem muitas datas principais para o período clássico, mas quando César foi morto em 44AC, mesmo o seu império era só apenas uma circunferência desajeitada em uma pequena parte do mundo. Se você viajar direto para 1453 e a queda de Constantinopla, certamente um ano importante para a cristandade, é difícil argumentar que alguém reparou ou se preocupou com ele na China, Japão ou África.

Poderíamos, é verdade, tentar encontrar um ano em que um grande número de diferentes eventos aconteceu. Em 1492, Cristóvão Colombo chegou nas Américas; o último governante muçulmano da Espanha se rendeu; Sonni Ali, que fundou o vasto império Songhai na África, morreu; e as artes foram levadas a novas alturas por Mitsunobu Toba no Japão e Leonardo e Mantegna na Itália. Também foi um grande ano para os polacos e os lituanos. Mas de alguma maneira, isso é tudo um pouco…pequeno. Além de Colombo, estes anos de coincidências são carentes de impacto.

Outra estratégia seria dizer que, uma vez que a humanidade é movida por idéias, nós deveríamos buscar pontos de transformação intelectual. Trata-se de afirmar a primazia das causas sobre os meros acontecimentos. O problema é que poucas grandes idéias possuem uma única fonte de inspiração. Nos divertimos muito com os 150 anos da “Origem” de Darwin [1], mas 1859 não foi o seu ano eureka.

Ou podemos pegar o liberalismo político, que permanece como a idéia política dominante. Você escolhe um livro de Locke de 1690, ou um dos heróis do Iluminismo, ou 1776 e a Declaração da Independência americana, ou a mais abrangente Declaração dos Direitos do Homem, em Paris, em 1789? Se você for pelos livros, existem muitos; se você for por Paris, então, como você lida com a ironia em escala mundial do Terror atual?

Mesmo que o poder econômico, graças ao nosso grande crise, parecer estar se movendo para o Oriente, o mundo ainda é dominado pelo exemplo norte-americano e, por isso, 1776 é o mais persuasivo desses momentos liberais. Diferentemente da Magna Carta ou da Revolução Gloriosa da Grã-Bretanha de 1688, a formação dos Estados Unidos tocou a maioria das pessoas vivas em uma forma ou de outra. Está certamente presente na minha lista. Confronta com 1919, quando tanto do mundo político em que vivemos surgiu a partir do desastroso Tratado de Versalhes – principalmente porque 1919 depende de 1914, então são dois anos, e não um.

Mas junto com 1776, temos de incluir 1945. As bombas atômicas sozinhas transformaram o senso do mundo, sem esquecer a derrota final da Alemanha nazista, cuja tentativa de genocídio do povo judeu continua a ser o mais importante fato moral dos tempos modernos, aquele que mais modificou a nossa forma de pensar. Foi o ano em que a hegemonia americana no Ocidente foi estabelecida e a grande cortina estalinista sobre o Leste Europeu teve início, e quando a Índia tomou passos decisivos rumo à independência. Se houve um ano em que os eventos ultrapassaram as causas, na Índia, China, até o Oriente Médio, foi esse sem dúvida. Momentos decisivos posteriores – a queda do muro de Berlim em 1989, a libertação de Nelson Mandela em 1990, a descoberta do DNA em 1953 – são grandes, mas não tão grandes.

Eu tenho um candidato final. Se a humanidade está ameaçada pelo aquecimento global e se ele requer ações internacionais urgentes, então não está o encontro de Copenhagen perto de ser a nossa última chance real de enfrentar o problema? Algumas pessoas, eu sei, duvidam. Mas 2009 é o meu terceiro candidato. Então, quem tem outra indicação?

imagem: this many days in one year

Revolta com os livros didáticos

Posted junho 15th, 2009 in Ensaio by ExtraLibris

por Seth Godin

Eu passei os últimos meses analisando livros didáticos de marketing. Estou assumindo que eles são bastante representativos dos livros didáticos em geral, e já que este é um assunto que me interessa, me parece uma boa área para focar.

Até onde posso dizer, atribuir um livro didático para sua turma universitária é uma prática acadêmica ruim.

Eles são caros. $50 pelos mais baratos, $200 na média. Um autor de livros didáticos de Toronto ganhou com seu livro de cálculo dinheiro suficiente  para comprar uma casa de $20 milhões. Isso é completamente absurdo. Não há qualquer insight sério ou salto na pedagogia envolvendo a produção de um livro didático padrão. É isso que o torna padrão. É duro, mas não deveria torná-lo milionário.

Eles não promovem mudanças. Os livros didáticos possuem pouca narrativa. Eles não te levam de um lugar de ignorância para um lugar de insight. Em vez disso, mesmo os melhores livros didáticos sobre marketing lhe envolvem com uma série não-conectada de palavras, problemas simplificados e exemplos aleatórios.

Eles estão desatualizados e não acompanham o curso. A edição 2009-2010 do livro didático MKTG, que é o mais moderninho que eu consegui encontrar, não possui qualquer menção no índice para Google, Twitter até mesmo Permission Marketing.

Eles não vendem o assunto. Os livros didáticos hoje são muito mais coloridos e alegres do que costumavam ser, mas estão distantes de serem convidativos ou inspiradores. Ninguém termina um livro didático e diz, “sim, isso é o que eu quero fazer!”.

Eles não são práticos. Não apenas em termos das lições ensinadas, mas em termos de ser um livro de referência para os anos futuros.

No mundo da wikipedia, onde qualquer definição está a um clique de distância, é bobagem me oferecer definições para memorizar. Onde está o contexto? Quando eu quero ensinar marketing a alguém (e eu faço isso, o tempo todo) eu nunca apresento a informação da maneira como os livros didáticos fazem. Eu nunca vi um único post de blog que dizia, “espere até que eu explique o que eu aprendi com um livro didático!”.

A solução me parece simples. Professores deveriam investir seu tempo concebendo páginas ou trechos ou até mesmo capítulos inteiros sobre tópicos que interessam a eles, e então publicá-los online de graça (faz parte do trabalho deles, lembram?) Quando você tem uma turma para ensinar, selecione 100 dos melhores trechos, coloque-os em um pdf ou um kindle ou um website (ou até em um fichário) e pronto,  é só isso.  Sua turma de introdução ao marketing acabou de economizar $15.000. Todos os semestres. Qualquer professor de introdução ao marketing que está designando um livro didático básico é culpado por roubo ou preguiça.

Essa indústria merece morrer. Ela já extraiu muito tempo e muito dinheiro e desperdiçou muito potencial. Nós podemos fazer melhor. Muito melhor.

[update: recebi mais emails sobre esse post do que qualquer outro. As pessoas indicaram Flatworld and Quirk, e até agora, mais de 94% das mensagens concordam agressivamente comigo. A maioria das pessoas são tanto estudantes, pais de estudantes, ex-estudantes ou outros clientes descontentes que estão cansados de serem roubados por um sistema quebrado,  absurdo. Eu também ouvi de um punhado de pessoas que dizem que eu tenho ciúmes, que o sindicato não permitirá que o sistema mude, que os livros didáticos são muito bons, que os professores recebem salários baixos, que os professores são muito ocupados e (possivelmente) que eu estou delirando. E digo que uma dessas mensagens veio de um usuário de livros didáticos.]

Tradução livre de Moreno Barros

post original publicado no blog de Seth Godin

créditos da imagem: happydance | procrastination