Por que ler os clássicos

Posted April 10th, 2009 in Literacia by ExtraLibris

Ítalo Calvino
Comecemos com algumas propostas de definição.

1. Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: “Estou relendo…” e nunca “Estou lendo…”.

Isso acontece pelo menos com aquelas pessoas que se consideram “grandes leitores”; não vale para a juventude, idade em que o encontro com o mundo e com os clássicos como parte do mundo vale exatamente enquanto primeiro encontro.

O prefixo reiterativo antes do verbo ler pode ser uma pequena hipocrisia por parte dos que se envergonham de admitir não ter lido um livro famoso. Para tranqüilizá-los, bastará observar que, por maiores que possam ser as leituras “de formação” de um indivíduo, resta sempre um número enorme de obras que ele não leu.

Quem leu tudo de Heródoto e de Tucídides levante a mão. E de Saint-Simon? E do cardeal de Retz? E também os grandes ciclos romanescos do Oitocentos são mais citados do que lidos. Na França, se começa a ler Balzac na escola, e pelo número de edições em circulação, se diria que continuam a lê-lo mesmo depois. Mas na Itália, se fosse feita uma pesquisa, temo que Balzac apareceria nos últimos lugares. Os apaixonados por Dickens na Itália constituem uma restrita elite de pessoas que, quando se encontram, logo começam a falar de episódios e personagens como se fossem de amigos comuns. Faz alguns anos, Michel Butor, lecionando nos Estados Unidos, cansado de ouvir perguntas sobre Emile Zola, que jamais lera, decidiu ler todo o ciclo dos Rougon-Macquart. Descobriu que era totalmente diverso do que pensava: uma fabulosa genealogia mitológica e cosmogônica, que descreveu num belíssimo ensaio.

Isso confirma que ler pela primeira vez um grande livro na idade madura é um prazer extraordinário: diferente (mas não se pode dizer maior ou menor) se comparado a uma leitura da juventude. A juventude comunica ao ato de ler como a qualquer outra experiência um sabor e uma importância particulares; ao passo que na maturidade apreciam-se (deveriam ser apreciados) muitos detalhes, níveis e significados a mais. Podemos tentar então esta outra fórmula de definição:

2. Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los.

De fato, as leituras da juventude podem ser pouco profícuas pela impaciência, distração, inexperiência das instruções para o uso, inexperiência da vida. Podem ser (talvez ao mesmo tempo) formativas no sentido de que dão uma forma às experiências futuras, fornecendo modelos, recipientes, termos de comparação, esquemas de classificação, escalas de valores, paradigmas de beleza: todas, coisas que continuam a valer mesmo que nos recordemos pouco ou nada do livro lido na juventude. Relendo o livro na idade madura, acontece reencontrar aqueles constantes que já fazem parte de nossos mecanismos interiores e cuja origem havíamos esquecido. Existe uma força particular da obra que consegue fazer-se esquecer enquanto tal, mas que deixa sua semente. A definição que dela podemos dar então será:

3. Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas sobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual.

Por isso, deveria existir um tempo na vida adulta dedicado a revisitar as leituras mais importantes da juventude. Se os livros permaneceram os mesmos (mas também eles mudam, à luz de uma perspectiva histórica diferente), nós com certeza mudamos, e o encontro é um acontecimento totalmente novo.

Portanto, usar o verbo ler ou o verbo reler não tem muita importância. De fato, poderíamos dizer:

4. Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.

5. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura.

A definição 4 pode ser considerada corolário desta:

6. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.

Ao passo que a definição 5 remete para uma formulação mais explicativa, como:

7. Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e através de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes).

Isso vale tanto para os clássicos antigos quanto para os modernos. Se leio a Odisséia, leio o texto de Homero, mas não posso esquecer tudo aquilo que as aventuras de Ulisses passaram a significar durante os séculos e não posso deixar de perguntar-me se tais significados estavam implícitos no texto ou se são incrustações, deformações ou dilatações. Lendo Kafka, não posso deixar de comprovar ou de rechaçar a legitimidade do adjetivo kafkiano, que costumamos ouvir a cada quinze minutos, aplicado dentro e fora de contexto. Se leio Pais e filhos de Turgueniev ou Os possuídos de Dostoievski não posso deixar de pensar em como essas personagens continuaram a reencarnar-se até nossos dias.

A leitura de um clássico deve oferecere-nos alguma surpresa em relação à imagem que dele tínhamos. Por isso, nunca será demais recomendar a leitura direta dos textos originais, evitando o mais possível bibliografia crítica, comentários, interpretações. A escola e a universidade deveriam servir para fazer entender que nenhum livro que fala de outro livro diz mais sobre o livro em questão; mas fazem de tudo para que se acredite no contrário. Existe uma inversão de valores muito difundida segundo a qual a introdução, o instrumental crítico, a bibliografia são usados como cortina de fumaça para esconder aquilo que o texto tem a dizer e que só pode dizer se o deixarmos falar sem intermediários que pretendam saber mais do que ele. Podemos concluir que:

8. Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente as repele para longe.

O clássico não necessariamente nos ensina algo que não sabíamos; às vezes descobrimos nele algo que sempre soubéramos (ou acreditávamos saber) mas desconhecíamos que ele o dissera primeiro (ou que de algum modo se liga a ele de maneira particular). E mesmo esta é uma surpresa que dá muita satisfação, como sempre dá a descoberta de uma origem, de uma relação, de uma pertinência. De tudo isso poderíamos derivar uma definição do tipo:

9. Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos.

Naturalmente isso ocorre quando um clássico “funciona” como tal, isto é, estabelece uma relação pessoal com quem o lê. Se a centelha não se dá, nada feito: os clássicos não são lidos por dever ou por respeito mas só por amor. Exceto na escola: a escola deve fazer com que você conheça bem ou mal um certo número de clássicos dentre os quais (ou em relação aos quais) você poderá depois reconhecer os “seus” clássicos. A escola é obrigada a dar-lhe instrumentos para efetuar uma opção: mas as escolhas que contam são aquelas que ocorrem fora e depois de cada escola.

E só nas leituras desinteressadas que pode acontecer deparar-se com aquele que se torna o “seu” livro. Conheço um excelente historiador da arte, homem de inúmeras leituras e que, dentre todos os livros, concentrou sua preferência mais profunda no Documentos de Pickwick[*] e a propósito de tudo cita passagens provocantes do livro de Dickens e associa cada fato da vida com episódios pickwickianos. Pouco a pouco ele próprio, o universo, a verdadeira filosofia tomaram a forma do Documento de Pickwick numa identificação absoluta. Por esta via, chegamos a uma idéia de clássico muito elevada e exigente:

10. Chama-se de clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs.

Com esta definição nos aproximamos de idéia de livro total, como sonhava Mallarmé. Mas um clássico pode estabelecer uma relação igualmente forte de oposição, de antítese. Tudo aquilo que Jean-Jacques Rousseau pensa e faz me agrada, mas tudo me inspira um irresistível desejo de contradizê-lo, de criticá-lo, de brigar com ele. Aí pesa a sua antipatia particular num plano temperamental, mas por isso seria melhor que o deixasse de lado; contudo não posso deixar de incluí-lo entre os meus autores. Direi portanto:

11. O “seu” clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele.

Creio não ter necessidade de justificar-me se uso o termo clássico sem fazer distinções de antiguidade, de estilo, de autoridade. (Para a história de todas essas acepções do termo, consulte-se o exaustivo verbete “Clássico” de Franco Fortini na Enciclopédia Einaudi, vol. III). Aquilo que distingue o clássico no discurso que estou fazendo talvez seja só um efeito de ressonância que vale tanto para uma obra antiga quanto para uma moderna mas já com um lugar próprio numa continuidade cultural. Poderíamos dizer:

12. Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele, reconhece logo o seu lugar na genealogia.

A esta altura, não posso mais adiar o problema decisivo de como relacionar a leitura dos clássicos com todas as outras leituras que não sejam clássicas. Problema que se articula com perguntas como: “Por que ler os clássicos em vez de concentrar-nos em leituras que nos façam entender mais a fundo o nosso tempo?” e “Onde encontrar o tempo e a comodidade da mente para ler clássicos, esmagados que somos pela avalanche de papel impresso da atualidade?”.

É claro que se pode formular a hipótese de uma pessoa feliz que dedique o “tempo-leitura” de seus dias exclusivamente a ler Lucrécio, Luciano, Montaigne, Erasmo, Quevedo, Marlowe, o Discours de la méthode, Wilhelm Meister, Coleridge, Ruskin, Proust e Valéry, com algumas divagações para Murasaki ou para as sagas islandesas. Tudo isso sem ter de fazer resenhas do último livro lançado nem publicações para o concurso de cátedra e nem trabalhos editoriais sob contrato com prazos impossíveis. Essa pessoa bem-aventurada, para manter sua dieta sem nenhuma contaminação, deveria abster-se de ler os jornais, não se deixar tentar nunca pelo último romance nem pela última pesquisa sociológica. Seria preciso verificar quanto um rigor semelhante poderia ser justo e profícuo. O dia de hoje pode ser banal e mortificante, mas é sempre um ponto em que nos situamos para olhar para a frente ou para trás. Para poder ler os clássicos, temos de definir “de onde” eles estão sendo lidos, caso contrário tanto o livro quanto o leitor se perdem numa nuvem atemporal. Assim, o rendimento máximo da leitura dos clássicos advém para aquele que sabe alterná-la com a leitura de atualidade numa sábia dosagem. E isso não presume necessariamente uma equilibrada calma interior: pode ser também o fruto de um nervosismo impaciente, de uma insatisfação trepidante.

Talvez o ideal fosse captar a atualidade como o rumor do lado de fora da janela, que nos adverte dos engarrafamentos do trânsito e das mudanças do tempo, enquanto acompanhamos o discurso dos clássicos, que soa claro e articulado no interior da casa. Mas já é suficiente que a maioria perceba a presença dos clássicos como um reboar distante, fora do espaço invadido pelas atualidades como pela televisão a todo volume. Acrescentemos então:

13. É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo.

14. É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível.

Resta o fato de que ler os clássicos parece estar em contradição com nosso ritmo de vida, que não conhece os tempos longos, o respiro do otium humanista; e também em contradição com o ecletismo da nossa cultura, que jamais saberia redigir um catálogo do classicismo que nos interessa.

Eram as condições que se realizavam plenamente para Leopardi, dada a sua vida no solar paterno, o culto da antiguidade grega e latina e a formidável biblioteca doada pelo pai Monaldo, incluindo a literatura italiana completa, mais a francesa, com exclusão dos romances e em geral das novidades editoriais, relegadas no máximo a um papel secundário, para conforto da irmã (“o teu Stendhal”, escrevia a Paolina). Mesmo suas enormes curiosidades científicas e históricas, Giacomo as satisfazia com textos que não eram nunca demasiado up-to-date: os costumes dos pássaros de Buffon, as múmias de Federico Ruysch em Fontenelle, a viagem de Colombo em Robertson.

Hoje, uma educação clássica como a do jovem Leopardi é impensável, e sobretudo a biblioteca do conde Monaldo explodiu. Os velhos títulos foram dizimados, mas os novos se multiplicam, proliferando em todas as literaturas e culturas modernas. Só nos resta inventar para cada um de nós uma biblioteca ideal de nossos clássicos; e diria que ela deveria incluir uma metade de livros que já lemos e que contaram para nós, e outra de livros que pretendemos ler e pressupomos possam vir a contar, separando uma seção a ser preenchida pelas surpresas, as descobertas ocasionais.

Verifico que Leopardi é o único nome da literatura italiana que citei. Efeito da explosão da biblioteca. Agora deveria reescrever todo o artigo, deixando bem claro que os clássicos servem para entender quem somos e aonde chegamos e por isso os italianos são indispensáveis justamente para serem confrontados com os estrangeiros, e os estrangeiros são indispensáveis exatamente para serem confrontados com os italianos.

Depois deveria reescrevê-lo ainda uma vez para que não se pense que os clássicos devem ser lidos porque “servem” para qualquer coisa. A única razão que se apode apresentar é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos.

E se alguém objetar que não vale a pena tanto esforço, citarei Cioran (não um clássico, pelo menos por enquanto, mas um pensador contemporâneo que só agora começa a ser traduzido na Itália): “Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com a flauta. ‘Para que lhe servirá?’, perguntaram-lhe. ‘Para aprender esta ária antes de morrer’”.
Ítalo Calvino

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[*] A referida obra de Dickens foi editada no Brasil como As aventuras do Sr. Pickwick. (Nota da EL)

Original: CALVINO, Ítalo. Por que ler os clássicos. In: _________________________. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p.9-16.

Doze dicas para revisores

Posted July 11th, 2007 in Literacia by ExtraLibris

Henry L. Roedinger, III*

Muitas das habilidades críticas necessárias para tornar-se um acadêmico de sucesso não são em geral ensinadas nas escolas de graduação, pelo menos não de modo formal. Uma destas é como revisar artigos acadêmicos. Poucos estudantes recém-saídos das escolas de graduação têm alguma experiência em revisar artigos e, ao menos para aqueles que continuarão em atividades de pesquisa, a revisão é uma habilidade que se mostrará cada vez mais necessária durante o desenvolvimento de suas carreiras. De fato, ser um bom revisor pode ser de grande ajuda na carreira. Se um jovem acadêmico torna-se um revisor de destaque ele pode vir a ser indicado para editor, daí para editor-associado e daí, talvez, para editor-chefe de um periódico.

Como as pessoas aprendem a revisar? Suspeito que a maioria dos mais novos drs. aprendem a revisar artigos do mesmo modo que as crianças dos famosos estudos de Albert Bandura nos anos 60 aprenderam reflexos agressivos, qual seja, pela imitação. Assim como as crianças que assistiram a um guri destroçar um boneco a porretadas (e ser elogiado por isso) tenderam a fazer o mesmo ao chegar sua vez, assim também os jovens acadêmicos aprendem a revisar. Infelizmente, a analogia com o experimento dos bonecos também funciona noutro sentido: porque as revisões são freqüentemente bastante negativas, o jovem pesquisador aprende implicitamente, a partir das revisões negativas que recebe da submissão de seus próprios artigos, que as revisões devem ser negativas. É como se a mensagem oculta fosse: “O trabalho de um revisor é desaprovar o material. Procure quaisquer falhas que o material possa ter na lógica, nos métodos, nos resultados e nas conclusões e então as comunique ao editor.” Deste modo, o ciclo de revisões negativas se perpetua gerações acadêmicas afora.

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O movimento dos grandes livros: um retorno aos clássicos

Posted May 21st, 2007 in Literacia by ExtraLibris

Patrick S. J. Carmack

Tradução de Moreno Barros.

ophelia, de john millais

O Movimento dos Grandes livros, sendo um movimento ou uma mudança, inicia um lugar e termina outro. O movimento não é físico, mas intelectual e, espera-se, também decisório (envolvendo arbítrio). Além do que, a experiência daqueles no Movimento dos Grandes livros denota que a mudança envolvida é geralmente para melhor e, de fato, de maneira marcante. A seguir estão quatro das questões iniciais básicas, e suas respostas, sobre as bases do Movimento dos Grandes livros.

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Os direitos do leitor

Posted March 10th, 2007 in Literacia by ExtraLibris

O que lemos, quando lemos
ou os direitos imprescindíveis do leitor

Daniel Pennac
1. O direito de não ler

Como toda enumeração de “direitos” que se preze, esta dos direitos à leitura deveria começar pelo direito de não ser usado – no caso, o direito de não ler – sem o que não se trataria de uma lista de direitos, mas de uma viciosa armadilha.

A maior parte dos leitores se concede cotidianamente o direito de não ler. Sem macular nossa reputação, entre um bom livro e um telefilme ruim, o segundo muitas vezes ganha, mesmo que preferíssemos confessar ser o primeiro. Além disso, não lemos continuamente. Nossos períodos de leitura se alternam muitas vezes com longas dietas, onde até a visão de um livro desperta os miasmas da indigestão.

Mas o mais importante vem agora.

Estamos cercados de uma quantidade de pessoas respeitáveis, às vezes diplomadas, às vezes “eminentes” – entre os quais alguns possuem mesmo belas bibliotecas – mas que não lêem, ou lêem tão pouco que não nos viria jamais a idéia de lhes oferecer um livro. Eles não lêem. Seja porque não sintam necessidade, seja porque tenham coisas demais pra fazer (o que dá no mesmo, é que essas outras coisas os obturam ou os obnubilam), seja porque alimentem um outro amor e o vivenciem de maneira absolutamente exclusiva. Enfim, essa gente não gosta de ler. Nem por isso eles são menos freqüentáveis, são mesmo muito agradáveis de se freqüentar. (Pelo menos não perguntam à queima-roupa nossa opinião sobre o último livro que lemos, nos livram de suas reservas irônicas sobre nosso romancistas preferido e não nos consideram como alienados por não nos termos precipitado sobre o último Tal, que acaba de sair pela Editora Coisa e ao qual o crítico Duchmole fez os maiores elogios.) Eles são tão “humanos” quanto nós, perfeitamente sensíveis às desgraças do mundo, atentos aos “direitos humanos” e preocupados em respeitá-los dentro da sua esfera de influência pessoal, o que já é muito. Mas eles não lêem. Direito deles.

A idéia de que a leitura “humaniza o homem” é justa no seu todo, mesmo se ela padece de algumas deprimentes exceções. Tornamo-nos um pouco mais “humanos”, entenda-se aí por um pouco mais solidários com a espécie (um pouco menos “animais”), depois de termos lido Tchekhov.

Mas evitamos vincular a esse teorema o corolário segundo o qual todo indivíduo que não lê poderia ser considerado, em princípio, como um bruto potencial ou um absoluto cretino. Nesse caso, faremos a leitura passar por obrigação moral, o que é o começo de uma escalada que nos levará em seguida à “moralidade” dos livros, em função de critérios que não terão qualquer respeito por essa outra liberdade inalienável: a liberdade de criar. E então os brutos seremos nós, por mais “leitores” que sejamos. E sabe Deus que não faltam brutos dessa espécie, no mundo.

Em outras palavras, a liberdade de escrever não saberia se acomodar com o dever de ler.

O dever de educar consiste, no fundo, no ensinar as crianças a ler, iniciando-as na Literatura, fornecendo-lhes meios de julgar livremente se elas sentem ou não a “necessidade de livros”. Porque, se podemos admitir que um indivíduo rejeite a leitura, é intolerável que ele seja rejeitado por ela.

É uma tristeza imensa, uma solidão dentro da solidão, ser excluído dos livros – inclusive daqueles que não nos interessam.
2. O direito de pular páginas

Li Guerra e paz, pela primeira vez, aos doze ou treze anos (mais certo treze, estava no princípio do quinto ano e nem um pouco avançado). Desde o começo das férias, as grandes, via meu irmão (aquele mesmo de As chuvas chegaram) mergulhado num enorme romance, e seus olhos voavam longe, longe como os de um explorador que tenha, faz tempo, perdido contato com a terra natal.

- É tão legal assim?

- Formidável!

- O que é que ele conta?

- É a história de uma garota que gosta de um cara e que se casa com um terceiro.

Meu irmão sempre teve o dom da síntese. Se os editores o contratassem para redigir seus textos de “quarta capa” (essas patéticas exortações a ler que são coladas nas costas dos livros) nos poupariam algumas conversas fiadas inúteis.

- Você me empresta?

- Te dou.

Eu era interno, era um presente inestimável. Dois grossos volumes que me aqueceriam durante todo o trimestre. Cinco anos mais velho, meu irmão não era completamente idiota (e nunca foi) e sabia com toda pertinência que Guerra e paz não poderia ser reduzido a uma história de amor, por mais elaborada que fosse. Apenas, conhecia meu gosto pelos incêndios do sentimento e sabia arranhar minha curiosidade, pela formulação enigmática de seus resumos. (Um “pedagogo”, avaliara meu coração.) Acredito que foi bem o mistério matemático da frase dele que me fez temporariamente abandonar meus livros de aventuras para me atirar inteiro nesse romance. “Uma garota que gosta de um cara e que se casa com um terceiro”… não vejo quem pudesse resistir. Na verdade, não fiquei decepcionado, se bem que ele tivesse se enganado nas contas. Na realidade, éramos quatro a amar Natacha: o príncipe André, o crápula do Anatole (mas pode-se chamar isso de amor?), Pedro Bezukhov e eu. Como não tinha a menor chance, fui obrigado a me “identificar” com os outros. (Mas não com Anatole, um verdadeiro canalha!)

Leitura ainda mais gostosa porque feita à noite, à luz de uma lanterna de bolso e debaixo das cobertas arrumadas como uma tenda no meio de um dormitório de cinqüenta sonhadores, roncadores e outros tantos revoltosos. A cabine do bedel de onde escorria a luz fraca de uma lâmpada ficava ali mesmo, mas o quê, em amor é sempre tudo pelo tudo. Sinto ainda a espessura e o peso desses dois volumes entre as mãos. Era a versão de bolso, com o rostinho lindo de Audrey Hepburn fazendo um olhar de desdém para o principesco Mel Ferrer, pálpebras pesadas de rapace amoroso. Pulei três quartos do livro porque só me interessava pelo coração de Natacha. Fiquei com pena de Anatole, apesar de tudo, quando lhe amputaram a perna, maldisse aquele idiota do príncipe André que ficou em pé na frente daquela bomba, na batalha de Borondino… (“Mas deita, merda!, fica de barriga pra baixo, isso vai explodir, você não pode fazer isso com ela, ela te ama!”) Me interessei pelo amor e pelas batalhas, pulei os assuntos de política e estratégia… As teorias de Clausewitz passavam muito acima da minha cabeça, puxa!, deixei de lado as teorias de Clausewitz… Acompanhei de perto as decepções conjugais de Pedro Bezukhov e Helena, a mulher dele (“nada legal”, a Helena, eu achava que ela não era “nada legal”) e deixei Tolstoi dissertando sozinho sobre os problemas agrários da Rússia eterna.

Pulei páginas, e daí?

Todos os meninos e todas as meninas deveriam fazer o mesmo.

Com a condição de poderem se oferecer muito cedo quase todas as maravilhas consideradas inacessíveis à idade deles.

Se têm vontade de ler Moby Dick, mas perdem a coragem diante das digressões de Melville sobre o material e as técnicas da caça à baleia, não é preciso que renunciem à leitura, mas que pulem, que pulem por cima dessas páginas e persigam Ahab sem se preocupar com o resto, como ele persegue sua branca razão de viver e de morrer! Se querem conhecer Ivan, Dimitri, Aliocha e o incrível pai deles, que abram e leiam Os irmãos Karamazov, é feito para eles, mesmo que seja preciso pular o testamento do starets Zózimo ou a lenda do Grande Inquisidor.

Um grande perigo os espreita, se não decidem por si mesmos por aquilo que está à disposição, pulando as páginas de sua escolha: outros o farão no lugar deles. Outros se armarão das grandes tesouras da imbecilidade e cortarão tudo que julgarem “difícil” demais para eles. Isso dá resultados assustadores. Moby Dick ou Os miseráveis reduzidos a resumos de 150 páginas, mutilados, estragados, raquíticos, mumificados, reescritos para eles numa linguagem famélica que se supõe ser a deles. Um pouco como se eu me metesse a redesenhar Guernica sob o pretexto de que Picasso tivesse jogado ali traços demais para um olho de doze ou treze anos.

E depois, quando nos tornamos “grandes”, mesmo se recusamos confessar, ainda nos acontece de pularmos páginas, por razões que só interessam a nós e ao livro que estamos lendo. Pode acontecer também que nos proibamos totalmente fazer isso, nos obriguemos a ler tudo até a última palavra, julgando que aqui o autor se alongou demais, que ele está tocando uma linha de flauta passavelmente gratuita, que em certos lugares ele se dá à repetição e que, em outros, à idiotice. Seja o que for que digamos, esses aborrecimento teimoso que nos impomos não está na ordem do dever, ele é uma categoria do nosso prazer de leitor.
3. O direito de não terminar um livro

Existem trinta e seis mil razões para se abandonar um livro antes do fim: o sentimento do “já lido”, uma história que não nos prende, nossa desaprovação total pelas teses do autor, um estilo que nos deixa de cabelo em pé, ou ao contrário, uma ausência de narrativa que não compensa ir mais longe… Inútil enumerar as 35.995 outras, entre as quais as de que é preciso cuidar da cárie dentária, as perseguições do nosso chefe de serviço ou um abalo sísmico de coração que petrifica nossa cabeça.

O livro nos cai das mãos?

Que caia.

Afinal, não é porque Montesquieu o quisesse que se vai poder oferecer, de encomenda, o consolo de uma hora de leitura.

No entanto, entre nossas razões para abandonar uma leitura existe uma que merece que nos detenhamos um pouco: o sentimento vago de perda. Abri, li e cedo me senti submerso por qualquer coisa mais forte do que eu. Reuni meus neurônios, discuti com o texto, mas não adianta, fico com o belo sentimento de que o que está escrito merece ser lido, mas não pego nada – ou tão pouco que é mesmo que nada –, sinto ali um “estranhamento” que não me prende.

Deixo cair.

Ou melhor, deixo de lado. Guardo na minha estante com o vago projeto de voltar um dia. O Petersburgo de Andreï Bielyï, Joyce e seu Ulisses, À sombra do vulcão, de Malcom Lowry me esperaram alguns anos. Há outros que me esperam ainda, alguns que não vou recuperar nunca, provavelmente. Isso não é um drama, é assim mesmo. A noção de “maturidade” é coisa estranha, em matéria de leitura. Até uma certa idade, não temos a idade para certas leituras. Mas, ao contrário das boas garrafas, os bons livros não envelhecem, somos nós que envelhecemos. E quando nos acreditamos suficientemente “maduros” para lê-los, nós os atacamos mais uma vez. Então, das duas uma: ou o reencontro acontece ou é um novo fiasco. Talvez tentemos de novo, talvez não. Mas o certo é que não é por culpa de Thomas Mann se não pude, até hoje, chegar ao cume de sua Montanha mágica.

O grande romance que nos resiste não é necessariamente mais difícil do que um outro… Há entre ele – por grande que seja – e nós – por aptos a “compreender” que nos estimemos – uma reação química que não se opera. Um belo dia simpatizamos com a obra de Borges que até então nos mantinha à distância, mas continuamos toda vida estranhos à de Musil…

Bem, temos a escolha: ou vamos pensar que é nossa culpa, que temos uma telha de menos, que abrigamos uma porção irredutível de burrice, ou vamos bisbilhotar do lado da noção tão controvertida do gosto e buscar estabelecer o mapa dos nossos gostos cuidadosamente.

É prudente recomendar a nossas crianças essa segunda solução.

Tanto mais que ela pode oferecer esse prazer raro: reler compreendendo, enfim, por que não gostamos. E esse outro raro prazer: escutar sem emoção o pretensioso erudito de plantão berrar em nossos ouvidos:

- Mas como é que se pode não gostar de Stendhaaal?

É possível.
4. O direito de reler

Reler o que me tinha uma primeira vez rejeitado, reler sem pular, reler sobre um outro ângulo, reler para verificar, sim… nós nos concedemos todos esses direitos.

Mas relemos sobretudo gratuitamente, pelo prazer da repetição, a alegria dos reencontros, para pôr à prova a intimidade.

“Mas”, “mais”, dizia a criança que fomos…

Nossas releituras adultas têm muito desse desejo: nos encantar com a sensação de permanência e as encontrarmos, a cada vez, sempre ricas em novos encantamentos.
5. O direito de ler qualquer coisa

A propósito de “gosto”, alguns de meus alunos sofrem um bocado quando se acham diante do arquiclássico tema de dissertação: “Podemos falar de bons e maus romances?

Como sob a aparência de um “eu não faço concessão” eles são no fundo gentis, em lugar de abordar o aspecto literário do problema, eles o olham do ponto de vista ético e não tratam a questão senão sob o ângulo das liberdades. Assim, o conjunto de suas redações poderia se resumir nesta fórmula: “Mas não, não, cada um tem o direito de escrever o que quiser e os gostos dos leitores estão aí, por toda parte, não, fora de brincadeira!” Sim… é, sim… posição perfeitamente honrosa…

Isso não impede que haja bons e maus romances. É possível citar nomes, é possível apresentar provas.

Para encurtar: digamos que existe aquilo que vou chamar de uma “literatura industrial” que se contenta em reproduzir ao infinito o mesmo tipo de narrativa, debita o estereótipo em cadeia, faz comércio dos bons sentimentos e das sensações fortes, salta sobre todos os pretextos oferecidos pela atualidade para desovar uma ficção de circunstância, se dá a “estudos de mercado” para colocar, segundo a “conjuntura”, tal tipo de “produto”, capaz de inflamar tal categoria de leitores.

São assim, infalivelmente, os maus romances.

Por quê? Porque eles não valorizam a criação, mas a reprodução de “formas” preestabelecidas, porque são uma empresa de simplificação (quer dizer, de mentira), quando o romance é a arte da verdade (quer dizer, de complexidade), porque incensando nossos automatismos adormecem nossa curiosidade, enfim e sobretudo porque o autor não está ali, nem a realidade que ele pretende nos descrever.

Resumindo, uma literatura do “pronto para o consumo”, feita na fôrma e que gostaria de nos amarrar dentro dessa mesma fôrma.

Nem pensem que essas idiotices são um fenômeno recente, ligado à industrialização do livro. Nada disso, a exploração do sensacional, do folhetim, do arrepio fácil numa frase sem autor não data de ontem. Para não citar mais que dois exemplos, lembremos o romance de cavalaria que escorregou nesse mangue, assim como o romantismo, muito tempo mais tarde. E como o mau pode servir a qualquer coisa de bom, a reação a essa literatura desviada nos deu dois dos mais belos romances que há no mundo: Dom Quixote e Madame Bovary.

Há, então, os “bons” e os “maus” romances.

O mais comum é que encontremos primeiro os segundos em nosso caminho.

E tenho certeza, quando passei por ali, lembro-me de ter achado “terrivelmente bom”. Tive sorte: ninguém riu de mim, ninguém levantou os olhos aos céus, não fui tratado como um cretino. Simplesmente foram deixados à mão, nos meus lugares de passagem, alguns “bons” romances, sem que me proibissem dos outros.

Sabedoria.

Durante um certo tempo, lemos os bons e os maus, tudo junto. Do mesmo modo que não renunciamos de um dia para o outro às nossas leituras de criança. Tudo se mistura. Sai-se de Guerra e paz para se voltar a mergulhar em livros de aventuras. Passa-se de Sabrina e Julia (histórias de belos doutores e de louváveis enfermeiras) a Boris Pasternak e a seu Doutor Jivago – um belo doutor, ele também, e Lara, uma enfermeira ó quão louvável!

Então, um dia, é Pasternak quem ganha. Insensivelmente, nossos desejos nos empurram a freqüentar os “bons”. Procuramos os escritores, procuramos a escrita, abandonamos simples colegas de brincadeiras, reclamamos companheiros de ser. A anedota pura não nos satisfaz mais. Chegou o momento em que pedimos ao romance uma outra coisa que não seja a satisfação imediata e exclusiva de nossas sensações.

Uma das grandes alegrias do “pedagogo” é – toda leitura sendo autorizada – a de ver um aluno bater sozinho à porta da fábrica Best-seller para subir e respirar na casa do amigo Balzac.
6. O direito ao bovarismo (doença textualmente transmissível)

É assim, grosso modo, o “bovarismo”, esta satisfação imediata e exclusiva de nossas sensações: a imaginação infla, os nervos vibram, o coração se embala, a adrenalina jorra, a identificação opera em todas as direções e o cérebro troca (momentaneamente) os balões do cotidiano pelas lanternas do romanesco.

É nosso primeiro estado de leitor, comum a todos.

Delicioso.

Mas meio assustador para o observador adulto que, com freqüência, se precipita a brandir um “bom título” debaixo do nariz do jovem bovarista, gritando:

- Afinal, Maupassant é bem “melhor”, não?

Calma!… não se deixar ceder ao bovarismo; dizer que Emma, afinal, não era ela mesma outra coisa que um personagem de romance, quer dizer, o produto de um determinismo em que as causas semeadas por Gustave não engendrariam outros efeitos – por mais verdadeiros que fossem – senão os que desejasse Flaubert.

Em outros termos, não é porque essa mocinha coleciona Sabrina que ela vai acabar engolindo arsênico numa concha. Forçar a mão nesse estágio de suas leituras é nos separar dela, negando nossa própria adolescência. E é privá-la do prazer incomparável de desalojar amanhã, por conta própria, os estereótipos que, hoje, parecem deixá-la fora de si.

É sábio nos reconciliarmos com a nossa adolescência; detestar, desprezar, negar ou simplesmente esquecer o adolescente que fomos é em si uma atitude adolescente, uma concepção da adolescência como doença mortal.

Daí a necessidade de lembrarmos nossas primeiras efervescências de leitores e montarmos um pequeno altar a nossas antigas leituras. Inclusive às mais “bobas”. Elas representam um papel inestimável: nos emocionar com aquilo que fomos, rindo daquilo que nos emocionava. Os meninos e as meninas que partilham nossa vida ganham aí, certamente, em respeito e em ternura.

E depois, se dizer também que o bovarismo é – com algumas outras – a coisa do mundo mais bem partilhada: é sempre nos outros que vamos buscá-la. Ao mesmo tempo que vilipendiamos a estupidez das leituras adolescentes, não é raro que concorramos para o sucesso de um escritor telegênico, para em seguida passarmos à maledicência, assim que a moda tenha acabado. As coqueluches literárias se explicam largamente por essa alternância de nossos esclarecidos embalos e nossas perspicazes rejeições.

Nunca enganados, sempre lúcidos, passamos o tempo a nos suceder a nós mesmos, convencidos para sempre de que Madame Bovary é o outro.

Emma devia compartilhar essa convicção.
7. O direito de ler em qualquer lugar

Châlons-sur-Marne, 1971, inverno.

Caserna da Escola de Aplicação de Artilharia.

Na distribuição matinal de tarefas, o soldado de segunda classe Fulano (Matrícula 14672/1, bem conhecido de nossos serviços) se apresenta sistematicamente como voluntário para a tarefa menos popular, a mais ingrata, distribuída com freqüência a título de punição e que atinge a honra dos mais aguerridos: a lendária, a infamante, a inominável tarefa das latrinas.

Todas as manhãs.

Com o mesmo sorriso. (Interior.)

- Tarefa das latrinas?

Ele dá um passo à frente:

- Fulano!

Com a gravidade última que precede o assalto, pega a vassoura de onde pende o pano de chão, como se fosse o estandarte da companhia, e desaparece, para grande alívio da tropa. É um bravo: ninguém o segue. O exército inteiro continua protegido na trincheira das tarefas honrosas.

As horas passam. Acredita-se que ele se perdeu. Quase se esquecem dele. Esquecem-no. Ele reaparece entretanto, no fim da manhã, batendo os saltos das botas para o relatório ao sargento da companhia: “Latrinas impecáveis, meu sargento!” O sargento recupera vassoura e pano de chão com uma profunda interrogação nos olhos, que ele não formula jamais. (Respeito humano obriga.) O soldado saúda, faz meia-volta, se retira, levando o segredo com ele.

O segredo pesa um bom peso no bolso direito do blusão: 1.900 páginas do volume consagrado às obras completas de Nicolai Gogol. Quinze minutos de pano de chão contra uma manhã de Gogol… Cada manhã, faz dois meses de inverno, confortavelmente sentado na sala dos tronos fechada com duas voltas, o soldado Fulano voa muito acima das contingências militares. Todo Gogol! Das nostálgicas Noites na fazenda de Dikanke às hilariantes Novelas, passando pelo terrível Taras Bulba e a negra farsa das Almas mortas, sem esquecer o teatro e a correspondência de Gogol, esse incrível Tartufo.

Porque Gogol é o Tartufo que Molière teria inventado – o que o soldado Fulano não teria jamais entendido se tivesse oferecido aquela tarefa a outros.

O exército gosta de celebrar os feitos de armas.

Desse, nada resta, senão dois alexandrinos, gravados no alto do metal de uma caixa de descarga e que contam entre os mais suntuosos da poesia francesa:

Oui je peux sans mentir, assieds-toi, pédagogue,
Affirmer avoir lu tout mon Gogol aux gogues.(*)

(Por sua vez, o velho Clemenceau, “o Tigre”, um famoso soldado, ele também, era agradecido a uma prisão de ventre crônica sem a qual, afirmava, não teria tido jamais a felicidade de ler as Memórias de Saint-Simon.)
8. O direito de ler uma frase aqui e outra ali

Eu colho, nós colhemos, deixemos que eles colham, ao acaso.

É a autorização que nos concedemos de pegar qualquer volume de nossa biblioteca, de o abrir em qualquer lugar e de mergulharmos nele por um momento, porque só dispomos, justamente, desse momento. Alguns livros se prestam melhor que outros a essa colheita ao acaso, porque são compostos de textos curtos e separados: as obras completas de Alphonse Allais ou de Woody Allen, as novelas de Kafka ou de Saki, os escritos de Georges Perros, o bom velho Rochefoucauld e a maior parte dos poetas…

Assim dito, se pode abrir Proust, Shakespeare ou a Correspondência de Raymond Chandler em qualquer lugar, colher aqui e ali, sem o menor risco de se ficar decepcionado.

Quando não se tem nem o tempo nem os meios de se oferecer uma semana em Veneza, por que se recusar o direito de passar lá cinco minutos?
9. O direito de ler em voz alta

Eu lhe pergunto:

- Em casa, liam histórias em voz alta, quando você era pequena?

Ela me responde:

- Nunca. Meu pai estava muitas vezes ausente e minha mãe ocupada demais.

Eu lhe pergunto:

- Então, de onde é que vem esse seu gosto pela leitura em voz alta?

Ela me responde:

- Da escola.

Feliz de escutar alguém reconhecer um mérito à escola, exclamo, todo contente:

- Ah! Você está vendo?

Ela me diz:

- Nada disso. A escola nos proibia a leitura em voz alta. Leitura silenciosa, já era o credo na época. Direto do olho ao cérebro. Transcrição instantânea. Rapidez, eficiência. Com um teste de compreensão a cada dez linhas. A religião da análise e do contrário, desde o começo! A maior parte das crianças morria de medo, e isso era só o começo! Todas as minhas respostas eram boas, se você quer saber, mas voltando para casa eu relia tudo em voz alta.

- Por quê?

- Pelo encantamento. As palavras pronunciadas se punham a existir fora de mim, elas viviam de verdade. E depois, me parecia que era um ato de amor. Que era o amor mesmo. Sempre tive a impressão de que o amor pelo livro passa pelo amor, simplesmente. Deitava minhas bonecas na minha cama, no meu lugar, e lia para elas. Me acontecia de dormir aos pés delas, no tapete.

Eu a escuto, escuto e parece que estou escutando Dylan Thomas, bêbado como o desespero, lendo seus poemas, com sua voz de catedral…

Eu a escuto e parece que estou escutando Dickens, o velho, Dickens, ossudo e pálido, tão perto da morte, subir em cena… seu grande público de iletrados de repente petrificado, silencioso a ponto de quase escutar o livro se abrir… Oliver Twist… a morte de Nancy… é a morte de Nancy que ele vai ler para nós!

Eu a escuto e ouço Kafla rir até as lágrimas lendo A metamorfose para Max Brod que não está certo de estar acompanhando… e vejo a pequenina Mary Shelley oferecer grandes fatias de seu Frankenstein a Percy e aos amigos assombrados…

Eu escuto e aparece Martin du Gard lendo para Gide seus Thibault… mas Gide parece não escutar… eles estão sentados na beira de um rio, mas o olhar de Gide está longe… os olhos de Gide escaparam, lá mais embaixo, onde dois adolescentes mergulham… uma perfeição que a água veste de luz… Martin du Gard fica uma fúria… mas não, ele leu bem… e Gide escutou tudo… e Gide lhe diz todo o bem que pensa dessas páginas… mas, mesmo assim, precisaria talvez modificar isso e aquilo, aqui e ali…

E Dostoievski, que não se contentava de ler em voz alta, mas que escrevia em voz alta… Dostoievski, sem fôlego, depois de ter proferido violentamente sua acusação contra Raskolnikov (ou Dimitri Karamazov, não sei mais)… Dostoievski perguntando à sua mulher estenógrafa: “Então? Qual o seu veredicto? Hein? Hein?”

ANNA: Condenado!

E o mesmo Dostoievski, após lhe ter ditado o discurso da defesa…: “Então? Então?”

ANNA: Absolvido!

É…

Estranho desaparecimento, esse da leitura em voz alta. O que é que Dostoievski teria pensado disso? E Flaubert? Não se tem mais o direito de pôr as palavras na boca antes de enfiá-las na cabeça? Não há mais ouvidos? Nem música? Nem saliva? Nem gosto nas palavras? E além de tudo e ainda mais! Será que Flaubert não se pôs a gritar (até fazer explodir os tímpanos), seu Madame Bovary? Será que ele não está definitivamente mais bem equipado do que qualquer outro para saber que a inteligência do texto passa pelo som das palavras, lá onde se faz a fusão dos seus sentidos? Será que não é ele que sabe, como ninguém mais, ele que tanto brigou das cadências, que o sentido é algo que se pronuncia? O quê? Textos mudos para puros espíritos? A mim, Rabelais! A mim, Flaubert! Dostô! Kafka! Dickens!, a mim! Venham dar um sopro a nossos livros! Nossas palavras precisam de corpos! Nossos livros precisam de vida!

É verdade que o silêncio do texto é confortável… não se arrisca a morte, como Dickens, a quem os médicos pediam que calasse enfim seus romances,… o texto e cada um… todas essas palavras amordaçadas na amolecida cozinha de nossa inteligência… como pode se sentir alguém nesse silencioso tricotar de nossos comentários!… e além disso, julgando o livro à parte, a sós, não se corre o risco de ser julgado por ele… é que, desde que a voz se mistura, o livro diz muito sobre seu leitor… o livro diz tudo.

O homem que lê de viva voz se expõe totalmente. Se não sabe o que lê, ele é ignorante de suas palavras, é uma miséria, e isso se percebe. Se se recusa a habitar sua leitura, as palavras tornam-se letras mortas, e isso se sente. Se satura o texto com a sua presença, o autor se retrai, é um número de circo, e isso se vê. O homem que lê de viva voz se expõe totalmente aos olhos que o escutam.

Se ele lê verdadeiramente, põe nisso todo seu saber, dominando seu prazer, se sua leitura é um ato de simpatia pelo auditório como pelo texto e seu autor, se consegue fazer entender a necessidade de escrever, acordando nossas mais obscuras necessidades de compreender, então os livros se abrem para ele e a multidão daqueles que se acreditavam excluídos da leitura vai se precipitar atrás dele.
10. O direito de calar

O homem constrói casas porque está vivo, mas escreve livros porque se sabe mortal.

Ele vive em grupo porque é gregário, mas lê porque se sabe só. Esta leitura é para ele uma companhia que não ocupa o lugar de qualquer outra, mas nenhuma outra companhia saberia substituir. Ela não lhe oferece qualquer explicação definitiva sobre seu destino, mas tece uma trama cerrada de conivência entre a vida e ele. Ínfimas e secretas conivências que falam da paradoxal felicidade de viver, enquanto elas mesmas deixam claro o trágico absurdo da vida. De tal forma que nossas razões para ler são tão estranhas quanto nossas razões para viver. E a ninguém é dado o poder para pedir contas dessa intimidade.

Os raros adultos que me deram a ler se retraíram diante da grandeza dos livros e me pouparam de perguntas sobre o que é que eu tinha entendido deles. A esses, claro, eu costumava falar de minhas leituras. Vivos ou mortos, ofereço a eles essas páginas.
Notas

(*) Sim posso sem mentir, senta-te, pedagogo,
Afirmar ter lido todo meu Gogol nas privadas.

Original: PENNAC, Daniel. O que lemos, quando lemos: ou os direitos imprescindíveis do leitor. In: _______________. Como um romance. 4.ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p.142-167.

Sobre livros e leitura

Posted March 6th, 2007 in Literacia by ExtraLibris

Arthur Schopenhauer
290 A ignorância só degrada a pessoa quando é acompanhada de riqueza. O pobre é limitado por sua pobreza e por suas necessidades; no seu caso o trabalho substitui o saber e ocupa seus pensamentos. Por outro lado, os ricos que são ignorantes vivem apenas para seus prazeres e se parecem ao gado, como podemos notar diariamente. Isto é ainda mais censurável porque não usaram a riqueza e o ócio para aquilo que lhes empresta o mais alto valor.

291 Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos seu processo mental. Trata-se de um caso semelhante ao do aluno que, ao aprender a escrever, traça com a pena as linhas que o professor fez com o lápis. Portanto, o trabalho de pensar nos é, em grande parte, negado quando lemos. Daí o alívio que sentimos quando passamos da ocupação com nossos próprios pensamentos à leitura. Durante a leitura nossa cabeça é apenas o campo de batalha de pensamentos alheiros. Quando estes, finalmente, se retiram, que resta? Daí se segue que aquele que lê muito e quase o dia inteiro, e que nos intervalos se entretém com passatempos triviais, perde, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta própria, como quem sempre anda a cavalo acaba esquecendo como se anda a pé. Este, no entanto, é o caso de muitos eruditos: leram até ficar estúpidos. Porque a leitura contínua, retomada a todo instante, paralisa o espírito ainda mais que um trabalho manual contínuo, já que neste ainda é possível estar absorto nos próprios pensamentos. Assim como uma mola acaba perdendo sua elasticidade pelo peso contínuo de um corpo estranho, o mesmo acontece com o espírito pela imposição ininterrupta de pensamentos alheios. E assim como o estômago se estraga pelo excesso de alimentação e, desta maneira prejudica o corpo todo, do mesmo modo pode-se também, por excesso de alimentação do espírito, abarrotá-lo e sufocá-lo. Porque quanto mais lemos menos rastro deixa no espírito o que lemos: é como um quadro negro, no qual muitas coisas foram escritas umas sobre as outras. Assim, não se chega à ruminação(1): e só com ela é que nos apropriamos do que lemos, da mesma forma que a comida não nos nutre pelo comer, mas pela digestão. Se lemos continuamente sem pensar depois no que foi lido, a coisa não se enraíza e a maioria se perde. Em geral não acontece com a alimentação do espírito outra coisa que com a do corpo: nem a qüinquagésima parte do que se come é assimilado, o resto desaparece pela evaporação, pela respiração ou de outro modo.

Acrescente-se a tudo isso que os pensamentos postos no papel nada mais são que pegadas de um caminhante na areia: vemos o caminho que percorreu, mas para sabermos o que ele viu nesse caminho, precisamos usar nossos próprios olhos.

292 Nenhuma qualidade literária, como por exemplo, força de persuasão, riqueza de imagens, dom de comparação, audácia, ou amargor, ou brevidade, ou graça, ou leveza de expressão, ou ainda agudeza, contrastes surpreendentes, laconismo, ingenuidade, etc., podemos adquirir lendo autores que as possuam. O que podemos é, através deles, despertar em nós tais qualidades no caso de já as possuirmos como inclinação, quer dizer em potentia, trazê-las à consciência, podemos ver tudo o que se pode fazer com elas, podemos ser fortalecidos nessa inclinação, na coragem de usá-las, podemos julgar o funcionamento de seu uso pelos exemplos e, assim, podemos aprender seu uso correto; em todo caso é só depois disto que as possuímos também em actu. Esta é a única maneira de a leitura educar-nos para escrever, na medida em que nos ensina o uso que podemos fazer de nossos dons naturais; sempre na suposição de que esses dons existam. Sem eles, no entanto, não aprendemos com a leitura nada além de um maneirismo frio, morto, e nos tornamos imitadores superficiais.

292a Os inspetores de saúde pública deveriam, no interesse de nossos olhos, cuidar de que houvesse um mínimo fixo, a não ser desobedecido, para o tamanho das letras impressas. (Quando eu estava em Veneza em 1818, na época em que ainda se fabricavam as verdadeiras correntes venezianas, um ourives me disse que aqueles que faziam a catena fina ficavam cegos aos 30 anos.)-

293 Assim como as camadas de terra conservam em filas os seres vivos de épocas passadas, as prateleiras das bibliotecas também conservam em filas os erros do passado e suas explicações que, como aqueles no seu tempo, eram muito vivos e faziam muito barulho, mas hoje estão ali rígidos e petrificados, e só o paleontólogo literário os contempla.

294 Xerxes, segundo Heródoto, chorou ao mirar seu inumerável exército porque pensou que de todos aqueles homens nenhum estaria vivo cem anos depois: assim, quem não choraria ao ver um grosso catálogo de feira de livro, ao pensar que de todos esses livros nenhum estará vivo em menos de dez anos?

295 O que acontece na literatura não é diferente do que acontece na vida: para onde quer que nos dirijamos, imediatamente encontramos a incorrigível plebe da humanidade, que existe em toda parte como uma legião, que ocupa tudo e suja tudo, como moscas no verão. Daí a imensidão de livros ruins, essa erva daninha da literatura que se alastra, que retira a nutrição do trigo e o sufoca. Assim, eles usurpam o tempo, o dinheiro e a atenção do público a que, por lei, pertencem os bons livros e seus nobres objetivos, enquanto os livros ruins foram escritos com a única finalidade de gerar dinheiro ou propiciar emprego. Não são, portanto, apenas inúteis mas positivamente daninhos. Nove décimos de toda nossa literatura atual não tem outra finalidade a não ser o de tirar alguns centavos do bolso do público: com este objetivo conspiram decididamente o autor, o editor e o crítico.

É um golpe baixo e mal intencionado, mas lucrativo, que os literatos, os autores que escrevem para ganhar o pão e os polígrafos, conseguiram dar contra o bom gosto e a verdadeira educação do século, levando o mundo elegante pela coleira, adestrando-o para ler a tempo, ou seja todos, sempre a mesma coisa, o mais recente, para ter em seus círculos sobre o que conversar: para cumprir este objetivo servem os romances ruins e outras produções do tipo de penas outrora famosas como as de Spindler, Bulwer, Eugène Sue, e outros. O que pode ser mais miserável do que o destino de tal público literário que se acha obrigado a ler, a todo momento, as últimas publicações de cabeças absolutamente ordinárias, que escrevem apenas por dinheiro e que, por esta razão, existem sempre em grande número e conhecem apenas de nome as obras dos raros e superiores espíritos de todos os tempos e de todos os países! – Os jornais de literatura diários são, em especial, um meio habilmente inventado para roubar do público estético o tempo que este deveria dedicar às verdadeiras produções adequadas à sua formação e fazer com que este dedique seu tempo às improvisações cotidianas de cabeças ordinárias.

Como as pessoas lêem sempre em vez do melhor de todos os tempos, o mais recente, os autores permanecem na esfera estreita das idéias circulantes, e o século se enterra cada vez mais profundamente nos seus próprios excrementos.

É por isso que, no que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante. Esta arte consiste em nem sequer folhear o que ocupa o grande público, o tempo todo, como panfletos políticos ou literários, romances, poemas, etc., que fazem tanto barulho durante algum tempo, atingindo mesmo várias edições no seu primeiro e último ano de vida: deve-se pensar, ao contrário, que quem escreve para palhaços sempre encontra um grande público e consagre-se o tempo sempre muito reduzido de leitura unicamente às obras dos grandes espíritos de todos os tempos e de todos os países, que se destacam do resto da humanidade e que a voz da fama identifica. Só eles educam e ensinam realmente.

Os ruins nunca lemos de menos e os bons nunca relemos demais. Os livros ruins são veneno intelectual: eles estragam o espírito.

Para ler o bom uma condição é não ler o ruim: porque a vida é curta e o tempo e a energia escassos.-

295a Livros são escritos sobre este ou aquele grande espírito da Antigüidade e o público os lê, mas não lê as próprias obras; isto porque quer ler apenas o que acaba de ser publicado e, já que similis simili gaudet, para ele o vazio e insípido dis-que-diz das cabeças de vento de hoje é mais adequado e agradável do que os pensamentos de um grande espírito. Eu, porém, agradeço o destino que me apresentou ainda na juventude o belo epigrama de A. W. Schlegel, que, desde então, é minha estrela-guia:

Leia os antigos com cuidado, os antigos de verdade:
O que os novos dizem deles quase nada significa.

Ah, como uma cabeça ordinária se parece com outra! Como são fundidas em um único molde! Como lhes ocorre o mesmo pensamento, e nada mais, nas mesmas circunstâncias! Juntam-se a isto ainda seus sórdidos interesses pessoais. O diz-que-diz sem sentido de tais anões é lido por um público estúpido desde que tenha sido impresso hoje, enquanto os grandes espíritos são deixados nas estantes.

É realmente incrível a estupidez e a burrice do público que deixa de ler os espíritos mais nobres e mais extraordinários de todos os tempos e países em todos os campos para ler os rabiscos cotidianos de cabeças ordinárias, que surgem aos montes todo ano, como moscas, – só porque foram impressos hoje e a tinta ainda está fresca. Tais produções deveriam ser ignoradas e desprezadas no dia mesmo do seu nascimento, como ocorrerá dentro de alguns anos, mera matéria de riso dos tempos passados e suas tolices.-

296 Há, em todas as épocas, duas literaturas que caminham uma ao lado da outra de uma maneira muito estranha: uma verdadeira e uma apenas aparente. A primeira cresce para ser uma literatura permanente. Feita por pessoas que vivem para a ciência ou a poesia, ela segue séria e silenciosa, mas extremamente devagar, mal produz na Europa uma dúzia de obras por século, as quais, entretanto, permanecem. A segunda, feita por pessoas que vivem da ciência ou da poesia, anda a galope, acompanhada de muito barulho e da gritaria dos interessados e lança todo ano muitos milhares de obras no mercado. Mas, passados uns poucos anos, pergunta-se: onde estão elas? Onde está sua fama, antes tão precoce e tão ruidosa? É por isso que também se pode chamar esta literatura corrente e a anterior de literatura permanente.

296a Seria bom comprar livros se pudéssemos comprar também o tempo para lê-los, mas, em geral, se confunde a compra de livros com a apropriação de seu conteúdo.-

Esperar que alguém tenha retido tudo que já leu é como esperar que carregue consigo tudo o que já comeu. Ele viveu de um fisicamente, do outro espiritualmente e assim se tornou o que é. Contudo, assim como o corpo assimila o que lhe é homogêneo, cada um de nós retém o que lhe interessa, ou seja, aquilo que convém a seu sistema de pensamentos ou a seus objetivos. Todos, certamente, têm objetivos, mas poucos têm algo que se pareça a um sistema de pensamentos: daí não mostrarem nenhum interesse objetivo por nada e, em conseqüência, nada do que leram se fixa: não retêm nada de suas leituras.-

Repetitio est mater studiorum. Todo livro minimamente importante deveria se lido de imediato duas vezes, em parte porque na segunda compreendemos melhor as coisas em seu conjunto e só entendemos bem o começo quando conhecemos o fim; em parte porque, para todos os efeitos, na segunda vez abordamos cada passagem com um ânimo e estado de espírito diferentes do que tínhamos na primeira, o que resulta em uma impressão diferente e é como se olhássemos um objeto sob uma outra luz.-

As obras são a quintessência de um espírito: daí elas serem incomparavelmente mais ricas que o contato pessoal, mesmo quando se trata de um grande espírito, as obras acabam por substituí-lo na essência – e, inclusive, o superam largamente e o deixam para trás. Mesmo os escritos de um espírito medíocre podem ser instrutivos, dignos de leitura e agradáveis, precisamente porque são sua quintessência, o resultado, o fruto de todos os seus pensamentos e estudos; – enquanto a convivência com ele não consegue nos satisfazer. Daí que possamos ler livros de pessoas cuja convivência não nos agradaria e, assim, uma alta cultura espiritual nos leva pouco a pouco a encontrar entretenimento quase exclusivamente com livros e não mais com as pessoas.-

Não há maior deleite para o espírito que a leitura dos antigos clássicos: tão logo tomamos um deles, nem que só por meia hora, nos sentimos refrescados, aliviados, purificados, elevados e fortalecidos; exatamente como se tivéssemos bebido de uma fresca fonte. Deve-se isto as línguas antigas e sua perfeição? Ou à grandeza dos espíritos cujas obras permaneceram incólumes e intactas por milhares de anos? Talvez a ambos motivos. Se algo sei é que se, tal como agora se ameaça, o estudo das línguas antigas fosse abandonado, surgiria uma literatura feita de escritos tão bárbaros, superficiais e sem valor, como nunca antes existiu; especialmente porque a língua alemã, que possui algumas das perfeições das línguas antigas, está sendo dilapidada entusiástica e metodicamente pelos escribas sem valor “do tempo de agora”, de tal modo que ela, empobrecida e mutilada, pouco a pouco se transforme em um miserável jargão.-

duas histórias: a política e a da literatura e da arte. Uma é a história da vontade, a outra, ao contrário, do intelecto. Daí que uma seja assustadora, terrível mesmo: medo, aflição, fraude e crimes espantosos, em massa. A outra, ao contrário, é em toda parte gratificante e agradável, como o intelecto solitário, mesmo quando retrata caminhos equivocados. Seu ramo principal é a história da filosofia. Na verdade, é este o baixo contínuo, cujas notas se ouvem mesmo na outra história, cujo significado, em essência, também dá a direção. Daí que a filosofia seja também, bem e propriamente compreendida, a mais poderosa força material; no entanto ela atua muito lentamente.

297 Na história do mundo, meio século é sempre um tempo considerável, pois sua matéria continua fluindo, já que sempre alguma coisa acontece. Na história da literatura, pelo contrário, o mesmo período, muitas vezes, não conta, simplesmente porque não aconteceu nada. As tentativas malogradas não lhe interessam. Está-se, assim, no mesmo lugar onde se estava há cinqüenta anos.

Para esclarecer isto, pode-se comparar o progresso do conhecimento da humanidade a uma órbita planetária. Assim, os descaminhos que a humanidade percorre depois de cada progresso significativo poderiam ser representados por egípcios ptolomaicos, de cujo percurso a humanidade volta ao ponto onde estava antes do começo. As grandes cabeças, porém, que realmente levam adiante o gênero humano nessas órbitas, não participam desse epiciclo. Assim se explica porque o aplauso da posteridade geralmente se paga com a perda da aprovação dos contemporâneos e vice-versa.- Um desses epiciclos é, por exemplo, o da filosofia de Fichte e Schelling, coroada no final por sua caricatura hegeliana. Esse epiciclo partia da circunferência que Kant, por último, tinha percorrido até então, de onde eu, posteriormente, o retomei para levá-lo adiante: nesse ínterim os tais falsos filósofos e mais alguns outros percorreram seu epiciclo que agora, enfim, se completa, pelo qual o público que correu com eles se dá conta de que se encontra exatamente no mesmo lugar de onde tinha saído.

Com este desenrolar dos acontecimentos se relaciona o fato de aproximadamente a cada 30 anos ser declarada a bancarrota do espírito científico, literário e artístico da época. Nesse período os erros se acumularam em tal proporção que acabam caindo sob o peso de seu próprio absurdo e, ao mesmo tempo, a oposição se fortaleceu com eles. Assim, as coisas se invertem: muitas vezes, contudo, surge então um erro no sentido oposto. Mostrar este curso das coisas em um periódico retorno deveria ser exatamente o objeto pragmático da história da literatura: mas esta se preocupa pouco com isso. Ademais, devido à brevidade relativa desses períodos, os dados de tempos remotos são, muitas vezes, difíceis de coletar: daí que se possam observar o fenômeno mais facilmente em sua própria época. Se se quiser um exemplo das ciências exatas, pode-se tomar a genealogia netúnica de Werner. No entanto, atenho-me ao exemplo acima mencionado, que está mais próximo de nós. Ao brilhante período de Kant seguiu-se, na filosofia alemã, imediatamente outro no qual se esforçou por impor-se em vez de convencer, de ser pomposo e hiperbólico em vez de ser sólido e claro e, em especial, de ser incompreensível; de fato, de fazer intrigas em vez de procurar a verdade. Deste modo, a filosofia não podia progredir.

Finalmente, veio a bancarrota de toda essa escola e desse método. Pois em Hegel e seus comparsas, a petulância de escribas, por um lado, e a autopromoção inescrupulosa, por outro, junto com o evidente propósito de todo o grande tumulto, atingiram tamanhas proporções que os olhos de todos tinham que abrir frente a toda essa charlatanice, e quando, em conseqüência de determinadas revelações, foi retirada a proteção superior, abriu-se também a boca do todos. Os antecedentes fichteanos e schellingianos dessa pseudofilosofia, a mais miserável que já existiu, foram arrastados por ela ao abismo do descrédito. Por causa disso aparece agora à luz do dia a total incompetência filosófica da primeira metade do século que seguiu a Kant na Alemanha, enquanto que, face ao exterior alardeiam-se os dons filosóficos dos alemães, – sobretudo depois que um autor inglês teve a maliciosa ironia de chamá-los de um povo de pensadores.

Quem quiser provas da história da arte para o esquema geral dos epiciclos aqui exposto, que considere a escola escultórica de Bernini, ainda florescente no século passado, sobretudo em sua continuação francesa, que em vez da beleza da antiguidade representava a natureza vulgar e, em vez da simplicidade e da graça dos antigos, representava maneiras de minueto francês. Esta escola entrou em bacarrota quando, depois da crítica de Winckelmann, seguiu-se uma volta à escola dos antigos. – Outra prova da história da pintura é dada pelo primeiro quartel deste século, que considerava a arte como um mero meio e instrumento de uma religiosidade medieval e que, conseqüentemente, escolheu assuntos eclesiásticos como único tema, os quais hoje, contudo, são tratados por pintores a quem falta a verdadeira sinceridade da fé, que, porém, em conseqüência da mencionada idéia fixa, tomaram como modelos a Francesco Francia, Pietro Perugino, Ângelo da Fiesole e outros como eles e que consideravam a estes mais do que os verdadeiros grandes mestres que vieram depois. Referindo-se a esse desvio, e porque ao mesmo tempo se impunha uma tendência análoga na poesia, Goethe escreveu a parábola “Pfaffenspiel”. Também essa escola foi em seguida considerada como fundamentando-se em caprichos, entrou em bancarrota e foi seguida pela volta à natureza, expressando-se através de pinturas de costumes e todo tipo de cenas de vida, ainda que se perdendo também, de vez em quando, na vulgaridade.

Similar à marcha do progresso humano acima descrita, a história da literatura é, em sua maior parte, o catálogo de um gabinete de abortos. O álcool no qual esses fetos são conservados durante mais tempo é couro de porco. Os poucos nascimentos bem sucedidos, no entanto, não devem ser procurados ali: eles continuam vivos e se encontram em toda parte do mundo, onde eles caminham em uma juventude eternamente fresca. Só eles constituem a literatura verdadeira, indicada no parágrafo anterior e cuja história pobre em personalidades aprendemos, desde a juventude, da boca de todas as pessoas cultas e não, em primeiro lugar, dos manuais. – Contra a monomania, hoje dominante, de ler a história da literatura para poder discorrer sobre tudo sem conhecer nada de fato, recomendo uma passagem de Lichtenberg(2), que bem merece ser lida, do volume II, p. 302 da antiga edição.

Eu gostaria muito que alguém, algum dia, tentasse uma história trágica da literatura, que explicasse como as diferentes nações, que se mostram tão orgulhosas dos grande autores e artistas que produzem, trataram-nos durante sua vida; que também nos revelasse a luta interminável que o bom e o verdadeiro de todos os tempos e países tiveram que travar contra o errado e o mais sempre dominantes, que pintasse o martírio de quase todos os verdadeiros iluminadores da humanidade, quase todos os mestres, de todo tipo e arte; que nos mostrasse como eles, salvo poucas exceções, se atormentaram sem reconhecimento, sem retribuição, sem discípulos, na pobreza e na miséria, enquanto os indignos gozam de fama, honra e riqueza, acontecendo-lhes o mesmo que a Esaú, que caçava para seu pai, enquanto Jacó, em sua casa, roubava o direito de primogenitura, disfarçado em suas vestes; como apesar de tudo, como todos que o amor de suas coisas mantém de pé, até que enfim cessa a árdua luta de tal educador da humanidade, o louro imortal lhe acena e soa a hora em que também para ele se aplica:

A pesada armadura se torna manto alado,
Breve é a tristeza e infinita a alegria.

Notas

(1) Na prática, o fluxo contínuo e forte de novas leituras só serve para acelerar o esquecimento do já lido.

(2) A passagem de Lichtenberg diz: “Acho que em nossos dias se persegue a história das ciências demasiado minuciosamente, para grande detrimento da própria ciência. Ela é de leitura agradável, mas deixa a cabeça não exatamente vazia mas, de fato, sem força; justamente porque a enche tanto. Todo aquele que já sentiu em sua vontade de não encher sua cabeça, mas sim de fortalecê-la, desenvolver suas forças e aptidões, expandir-se, terá notado que não há nada mais chocho que conversar com um dos chamados literatos científicos sobre algo em que ele mesmo não meditou, mas de que sabe mil circunstâncias histórico-literárias. É quase como ler um livro de receitas quando se está com fome. Acho também que, entre as pessoas que pensam, que sentem seu próprio valor e o da verdadeira ciência, da assim chamada história literária nunca os empolgará. Essas pessoas usam mais a razão do que se preocupam em saber como os outros usaram as deles. O que é mais triste neste caso, como se comprova, é que quanto mais aumenta a tendência para as pesquisas bibliográficas em uma ciência, mais diminui a força para aumentar a própria ciência, e só cresce o orgulho pela posse da ciência. Pessoas desse tipo pensam mais na possa das ciências do que seus verdadeiros possuidores. É certamente uma observação com fundamento que a verdadeira ciência nunca torna seu possuidor orgulhoso; ao contrário, só se deixam inflar de orgulho aqueles que, por incapacidade de aumentar a própria ciência, dedicam-se ao esclarecimento de seus detalhes mais obscuro, ou sabem recontar o que os outros fizeram, pois consideram essa ocupação principalmente mecânica como o próprio exercício da ciência. Eu poderia provar isto com exemplos, mas os exemplos são coisas odiosas.”
Arthur Schopenhauer
Tradução de Philippe Humblé e Walter Carlos Costa.

Original: SCHOPENHAUER, Arthur. Sobre livros e leitura. Porto Alegre: Paraula, 1994.