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A anti-intelectualidade na biblioteconomia

Posted April 15th, 2009 in Ensaio and tagged , , by ExtraLibris

Alho, vodca e políticas de gênero:
anti-intelectualidade na Biblioteconomia americana

Michael Winter

O tópico pode surpreender, afinal os bibliotecários são tão obviamente intelectuais, ou pelo menos são amantes dos livros, ainda que tenham sido chamados, talvez injustamente, inimigos dos livros (Adams 1937). Eles são, para usar a agradável frase neutra de Seymour Martin Lipset, distribuidores de cultura (Lipset 1981:333). Mas como Richard Hofstadter apontou em seu famoso livro de 1963, Anti-intelectualidade na vida americana, os intelectuais às vezes demonstram uma profunda hostilidade à vida da mente, mesmo que isto seja alegadamente mais comum nas pessoas de ação. Ninguém fica chocado quando executivos tacham os estudos de história como perda de tempo ou quando políticos ridicularizam os esforços dos pesquisadores em compreender o comportamento humano (Shaffer 1977). Entretanto, os intelectuais ocasionalmente também agem assim, e às vezes os escritores travam essas batalhas nos escritórios das editoras. De fato, parece ser uma das ocupações favoritas da classe intelectual demonstrar ocasionalmente sua anti-intelectualidade como uma espécie de selo de autenticidade frente aos mediadores da cultura de massas. Recentemente, David Bromwich (1996) sugeriu que parte do legado do McCarthismo – um assunto favorito também de Hofstadter – foi a internalização desta hostilidade (ver também Woolf 1964).

A discussão de Hofstadter, contudo, tem uma abrangência mais ampla. Ele está preocupado com os ciclos recorrentes de anti-intelectualidade que pervadem a vida americana e documenta esta tendência em quatro campos básicos: religião, política, negócios e educação. Esta tendência é, em alguns períodos, muito mais prevalente do que em outros (por exemplo, as eras Jackson, Harding, Nixon e Reagan, em oposição às eras Jefferson, Roosevelt, Truman e Kennedy). E mesmo que não seja assim tão revelador procurar seus indícios na política e nos negócios, alguns narizes se torceram por conta das discussões de Hoftstadter sobre religião e educação. Se há realmente algum espaço em nossa sociedade para o pensamento emotivo é aqui, mas como ele mostra de modo bastante convincente, em uma narrativa que não é apenas altamente estimulante mas cuidadosamente discutida e rigorosamente documentada, mesmo na igreja e na escola um pragmatismo fechado e limítrofe freqüentemente extermina a reflexão mais aprofundada.

Hofstadter e outros são rápidos, naturalmente, em indicar que há razões para isto. O período que se seguiu à Revolução [*] foi tumultuoso ao extremo e a famosa desunião resultante ficou marcada como uma pluralidade altamente competitiva de interesses. Em nenhuma outra parte isto é mais evidente do que em nossa história religiosa, onde as novas denominações substituíram as igrejas estabelecidas da Europa. Com um grande número de pessoas sem religião definida, uma competição freqüentemente brutal para conversões tornou-se a regra: “Em uma sociedade tão movediça e fluida, com tantas pessoas sem religião definida a serem ganhas para a fé, a finalidade básica das denominações era conquistar conversos.”

Este é o coração do famoso zelo entusiástico do protestantismo americano, que sobrevive hoje em muitas formas. Uma de nossas preferidas, em termos profissionais, é a Igreja Evangélica da Alta Tecnologia, com sua Liturgia do Sublime Digital. Mas mais sobre isto adiante.
Na semente americana: utilidade e decadência

Um tema prevalece por toda a argumentação de Hofstadter: na América, o valor supremo é a utilidade; nós bancamos os filisteus como parte de nossa emancipação do espectro da decadência européia. Isto era verdade no século 18, quando um federalista chamado Joseph Dennie atacou o ideário de Thomas Jefferson como o equivalente filosófico de defumar alho, e em épocas mais recentes, quando círculos de direita acusavam quaisquer uns de tendências esquerdistas mesmo as mais vagas de terem estragado seus cérebros com demasiada vodca russa barata. Para o filisteu americano, Hofstadter sugere, o europeu é o Outro completo, um tipo de boneca voodoo a se agulhar com infinito escárnio.

Podemos levantar suspeitas sobre isso a partir do fato de que nossa maior contribuição à filosofia é um movimento chamado pragmatismo, mas Hofstadter vai muito além disso, e penso que devemos segui-lo ao menos por uma parte do percurso a fim de vermos como isto pode aplicar-se a nossa própria situação. A utilidade é um valor de muita importância e ninguém, Hofstadter muito menos, desdenharia dela. Mas em algum momento da busca pela praticidade pragmática uma mudança de atitude ocorre, e então passamos do reconhecimento do útil para sua adoração, tomando-o como algum tipo de substituto do pensamento. Este é obviamente o interesse central de Hofstadter, e algo que devíamos compartilhar com ele.

Hoftstadter delineia uma distinção bastante marcante entre dois tipos de intelectuais: o ideólogo e o especialista. Os bibliotecários têm muito menos problemas com o primeiro tipo, e chegam mesmo a demonstrar uma espécie de constante afeição pelo moralista (considere nosso compromisso com várias formas de políticas de identidade e nossa paixão pela liberdade intelectual), mas têm suspeitas sobre a especialização que se mostram mais dramaticamente em nossas atitudes frente à educação profissional e em nossa prontidão por adotar serviços gerais de administração como alguma forma de sistema de valores.
Bibliotecários nas escolas de Biblioteconomia

Somos um grupo de tamanho considerável; fontes de dados a relatar as distribuições ocupacionais mostram que há algumas centenas de milhares de nós, uma parte substancial dos quais é membro da American Library Association (a ALA conta com, aproximadamente, entre 40.000 e 56.000 membros). E como em qualquer grupo desse tamanho, há uma variação razoável de opinião em matérias profissionais e outras entre nós. Mas por mais diferentes que possamos ser, uma coisa é certa: muitos de nós não se importavam e não se importam muito com as escolas de biblioteconomia, como costumavam ser chamadas, ou com a educação em biblioteconomia e ciência da informação, como é mais geralmente nomeada atualmente, ou com os estudos em gerência de informação, como as últimas tendências dos “digerati” a chamam agora.

Em certo sentido isto não surpreende, uma vez que a educação na América é costumeiramente vista como uma viagem sem volta rumo à prosperidade. E, naturalmente, nenhum profissional morre de amores pelos treinamentos acadêmicos que teve de freqüentar. Ainda assim, causa surpresa aprender com Samuel Rothstein que esta lamentação sobre as escolas de biblioteconomia tem-se arrastado por bons cem anos; até pode mesmo ser nossa tradição mais longeva. Um estudante anônimo da escola de Albany, em 1902, sentiu que a exigência de um segundo ano de instrução era um convite ao colapso nervoso. Praticamente tudo, notou um professor em 1949, foi dito sobre as escolas de biblioteconomia nos últimos cinco anos exceto uma palavra amigável. Seria um dia glorioso para as escolas de biblioteconomia, ajuntou um graduando de 1966 em uma pesquisa para um periódico da área, se um fogaréu público com os velhos materiais-texto dos professores fosse aceso (Rothstein 1985:4). Outros continuam em uma veia menos incendiária, mas a ladainha de lamentações, como Rothstein a chama, continua.

Em se olhando estes achados mais de perto, há uma suspeita persistente sobre a teoria que é inconfundível. Se parece como o equivalente profissional do alho e da vodca que tanto incomodaram os anti-intelectuais de nossa cultura política. Em 1906, por exemplo, um estudante confessou em uma carta a um periódico profissional que o problema com as escolas de biblioteconomia são professores e cursos pouco práticos. Queixas similares são encontradas em 1946 (teoria em demasia), 1949 (a escola não está educando para a liderança gerencial), 1960 (demasiado teórico), 1966 (demasiado acadêmico). Outros ainda culpam as escolas profissionais pela perene crise de auto-estima da biblioteconomia. Não estranha Phyllis Dain ter concluído, escrevendo em 1980, que uma das marcas registradas da biblioteconomia é o desdém pelos teóricos da torre de marfim que não habitam o mundo real.
Três tipos de anti-intelectualidade

Tem-se indicado mais recentemente que Hofstadter, havendo distinguido entre o ideólogo e o especialista, identificou três estilos genéricos de anti-intelectualidade e é instrutivo que os vejamos aqui. A discussão de Daniel Rigney de 1991 identifica o 1) anti-racionalismo religioso, o 2) anti-elitismo populista e o 3) instrumentalismo irrefletido. O primeiro destes não se aplica muito aqui, a não ser no sentido figurado acima mencionado da Liturgia do Sublime Digital, mas o populismo e o instrumentalismo são muito mais relacionados a desdobramentos na biblioteconomia contemporânea e, de fato, por vezes andam juntos. Os populistas querem servir à ditadura da maioria que escritores como De Tocqueville e John Mashall temiam (para um exemplo extremo ver Pearl 1996); e os instrumentalistas são freqüentemente tecnocratas ou membros de um grupo grande e crescente que apresenta os sintomas de uma violenta desordem epidêmica a que podemos nos referir aqui como SEC, ou Síndrome do Embusteiro Corporativo.
O caso de amor da Biblioteconomia com a América corporativa

Se os bibliotecários não gostam muito das escolas de biblioteconomia, há um bajoujo popular com a América corporativa e seu foco no cálculo exacerbadamente utilitarista, na burocratização e na atenção limítrofe aos resultados de curto-prazo. No modelo impessoal e frio do ethos corporativo, e incentivado por pronunciamentos oficiais, deve-se amar a abordagem taylorista de Richard M. Dougherty (1966, 1982) das bibliotecas como empresas, embora muitos bibliotecários, sem dúvida, prefeririam ver sua idéia fordista restringida a dar suporte a trabalhadores e assistentes de biblioteca. A história da administração de bibliotecas desde os recentes anos 1960 é em parte uma sucessão de estereotipadas e homogeneizantes filosofias de gerência: lembrem-se da “gerência por objetivos”, o culto da excelência e a mais recente “gerência de qualidade total” e os mais variados hábitos dos altamente bem sucedidos. Seriam os programas de doze passos tão diferentes? Quando vamos começar a cuidar de nossa verdadeira essência?

Sinais típicos da SEC incluem o Visual Sala de Reuniões, a admiração por lustrosas revistas que relatam as incríveis façanhas e os enormes salários de CEOs, uma excessiva preocupação com a imagem, muita ênfase na reclusão oficial e uma suspeita profundamente enraizada acerca da reflexão e do pensamento crítico. Outros sinais sintomáticos podem também ser percebidos pelo diagnosticador alerta e entram em categorias familiares. Eu tenho coletado alguns destes durante os anos. “Códigos são para covardes”, ouvi uma vez de um aspirante a administrador. Mas meu favorito é: “Não posso me encontrar com você nas tardes de quinta porque é a hora da minha massagem”. Considere ainda alguns comportamentos típicos (mover-se livremente por toda uma grande empresa mas exigir de todos os visitantes a um espaço particular que percorram um batalhão de supervisores de escritório enquanto se anuncia publicamente uma política de portas abertas); ocupar escritórios pessoais palacianos de onde se contemplam gramados verdejantes e jardins de árvores alinhadas enquanto se enjaula os demais em cubículos sem janelas que permitem o melhor patrulhamento de suas atividades; e naturalmente, o benefício econômico de um salário apenas três ou quatro vezes superior à renda média de seus empregados. Não esquecendo das velhas observações auto-condescendentes sobre como os executivos conseguem fazer muito mais no setor corporativo.
Os bibliotecários e o Sublime Digital: o encanto das novas tecnologias

Relacionando-se de perto com a SEC, acabamos por adotar o amor acrítico da América pela alta tecnologia. Tomando aqui emprestado dos historiadores americanos David E. Nye e Roland Marchand, nós fizemos a transição entre a visão da tecnologia como algo útil para algo sublime. Com sua luminosa promessa de efeitos místicos ela adquiriu um significado totêmico, um talismã que guardamos e tocamos a intervalos regulares.

De acordo com Nye e Marchand, as raízes deste processo encontram-se nas transformações culturais que marcaram o estabelecimento da sociedade industrial moderna nos anos 1920, com a chegada de tecnologias fabulosas moldadas e encenadas pelo teatro político de grandes anúncios, mais tarde aproveitadas pelo rádio, cinema e televisão. Que americano não é comovido, argumentam, pela visão da ponte Golden Gate, da represa Hoover e dos espetáculos extraordinários de Hollywood e da Broadway? Por extensão, quem não admira as autoestradas, os transatlânticos, os trens, os aviões e os arranha-céus das megalópoles americanas? Eles nos induzem um sentimento de admiração reverencial; esta é nossa resplandecente Babilônia, nossa cidade no alto da colina.

E agora, justo quando começávamos a nos sentir desamparados e exaustos, eis um deus ex digita a socorrer-nos, oferecendo-nos um novo santuário. A excitação com que se saudou a chegada destas novas tecnologias tem um forte componente erótico, mas este é claramente assunto de outra discussão, improvável de ser convocada. Gostaria de encerrar com uma sugestão de revisão histórica, mesmo sabendo que nisso eu não posso me igualar a Hofstadter, e não vou sequer tentar. Mas não posso resistir a fantasiar sobre a idéia de que um dos paradoxos mais óbvios do ambiente tecnológico atual é o retorno da política de gênero da Biblioteconomia.

O trabalho de Dee Garrison nos fez lembrar que esta era parte de uma ampla feminização da cultura americana em nosso passado próximo. Em alguns dos trabalhos mais recentes relacionando Biblioteconomia e gênero há uma sugestão de que o processo de feminização pode ter atingido seu ponto máximo e talvez mesmo ter revertido (Williams 1995). E, naturalmente, esta reversão, se for o que parece ser, está relacionada ao advento das novas tecnologias, nos modos como escritores qual Roma Harris indicaram. Em seu livro Biblioteconomia: a erosão de uma profissão feminina este assunto é discutido com alguma atenção, e pode melhor ser sintetizado aqui pelo uso que faz da observação de Michael Gorman de que um ‘cientista da informação’ é um homem que não quer ser chamado de bibliotecário (Gorman 1990:463; Harris 1992:36). Isto sugere que nosso desagrado para com idéias e teorias, e nosso fascínio atual pela cultura corporativa podem ser mais do que espasmos temporários de anti-intelectualidade; podem mesmo ser o indício de algum deslocamento sísmico do que tem sido, nos últimos cem anos, os fundamentos de nossa política de gênero.

O que parece claro é que as mais novas áreas de nosso campo, aquelas que envolvem tecnologia digital em rede, parecem estar muito mais dominadas pelo universo masculino do que os tipos mais antigos de atividade informacional. Em um conjunto recente de estudos de caso, por exemplo, Schneider (1994) relata que as mulheres que tentam adentrar estas áreas encontram muito mais resistência do que quando permanecem em especialidades tradicionais. Os empregos orientados para a tecnologia, Suzanne Hildenbrand notou recentemente, são vistos como masculinos, enquanto os empregos orientados para serviços seriam femininos (Hildenbrand 1997:45). E enquanto Schneider é certamente progressista em incitar as bibliotecárias a que se tornem amazonas com laptops, é evidente que muitos homens do lado computacional do tratamento da informação não compartilham de seu entusiasmo. Isto não é de se surpreender, dada a afiliação da informática com a engenharia, que permanece ainda hoje como um bastião firmemente controlado da reacionária política de gênero. Daí que a busca por estas novas tecnologias altamente avant-garde pode, em contrapartida, estar nos fazendo retroceder.

Referências

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Michael Winter
Tradução de Alex Lennine.

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[*] “Revolução” refere-se à guerra pela independência americana (Nota da EL).

Original: WINTER, Michael. Garlic, vodka and the politics of gender: anti-intellectualism in American Librarianship. Progressive Librarian, n. 14, 1998. Disponível em: <http://libr.org/pl/14_Winter.html>. Acesso em: 27 junho 2007. Traduzido e publicado sob autorização da Progressive Librarian.

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