MARLENE SOUZA SANTOS
Bibliotecária-chefe da Biblioteca do Colégio Rio Branco, SP. Professora de Biblioteconomia.
LÉA FISS CARMONA
Bibliotecária do Colégio Rio Branco, SP.
Revista Palavra-Chave, São Paulo, n.1, p.09-10, 1982.
Ao iniciarmos qualquer discussão sobre este tema, é impossível fugir a um problema básico: como falar a respeito de bibliotecas escolares em um país onde, na maioria das regiões, faltam as próprias escolas? E como pensar em pesquisa na biblioteca escolar, se leitura chega quase a ser um palavrão no repertório do brasileiro? Os temas biblioteca, escola, pesquisa, leitura, são verdadeiros oásis no deserto da Educação brasileira. Isto, entretanto, não é novidade. Assim como dizer que o brasileiro não lê, ou, quando o faz, lê mal, sem compreender e assimilar metade das informações. Também é repetitivo dizer que grande parte das bibliotecas públicas (quando existem) são freqüentadas por estudantes de 1º. e 2º. Graus, suprindo assim a falta de bibliotecas escolares.
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É mais do que sabido que são os estudantes, principalmente os de ensino fundamental, o mais representativo grupo de usuários da biblioteca pública. Estudos realizados mostram que eles correspondem a cerca de 90% do total de freqüentadores da biblioteca. Este fato não é, em si mesmo, negativo ou contraproducente. Reflete determinadas características da realidade social e de como objetivos atribuídos à bibliotecas, transplantados de uma outra cultura para o meio brasileiro, são negados ou alterados pela própria prática social. (1)
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A situação, porém, continua; logo, as representações também.
Nosso propósito, neste breve trabalho, será, portanto, levantar alguns problemas centrais relativos à biblioteca escolar atual, bem como apontar algumas sugestões de soluções. Mais uma vez, é preciso salientar, a teoria distancia-se da prática, esta sim fonte real de mudanças.
Escrevem-se páginas sobre a avalanche de informação que soterra o homem em todos os momentos de sua vida. Teorizam sobre a informação, medem-na, dissecam-na, enfim, é um verdadeiro objeto de laboratório. No entanto, o que se percebe é que o problema não está exatamente na informação, e sim em quem dela precisa e se utiliza. Na biblioteca, o usuário. Na biblioteca escolar, o estudante de 1º. e 2º. graus.
Na maioria das vezes ele tem dificuldade em encontrar o que procura, porque não sabe realmente o que deseja. Se orientado, encontra o material, mas não sabe trabalhar convenientemente com ele. O objeto da leitura tanto pode ser para lazer, como para estudo. No caso da leitura de lazer, a busca e a obtenção são relativamente fáceis, desde que haja interesse. Neste caso, o problema básico é a falta de motivação. Quando para estudo, a situação se modifica. “O estudo não é, como ao tempo dos gregos antigos, encarado como algo que por si mesmo possa satisfazer um coração, na medida em que serve de instrumento ao homem para seu progresso e o conhecimento a partir de si mesmo. Passa a ter um valor, a partir do momento que atende a uma expectativa externa de motivação materialista e de luta por melhoria da condição social do indivíduo. A motivação é de fora para dentro, não de dentro para fora” (2). Mas ainda falta a motivação. É o grande drama da pesquisa em que, das escolas às universidades, o leitor se limita a copiar trechos nem sempre apropriados, ou, às vezes, toda a informação das fontes sem digeri-la e reelaborá-la para um objetivo definido. Na prática diária, os alunos chegam à biblioteca como a um labirinto insondável. Quando se aproximam do bibliotecário (os mais corajosos), querem sempre material de letra grande, linguagem fácil e na medida certa do número de páginas do trabalho a ser entregue. É mais do que sabido que a maioria dos alunos brasileiros está a fim de nota e passar de ano, não de aprender. “Os estudantes, disciplinada e mecanicamente, copiam de esfrangalhadas enciclopédias as suas ‘pesquisas’, com indicador esquerdo percorrendo as linhas do texto enquanto a direita transcreve os passos considerados relevantes. Mãos e braços movem-se com a articulação de um pantógrafo. As mentes estão distantes” (3).
Será, entretanto, o aluno o único vilão da história?
Se o professor solicita temas de trabalho, não teria, também, a responsabilidade de orientar como fazer esse trabalho, sugerindo fontes possíveis para a pesquisa e, principalmente, explicando que informação é meio e não fim?
O que vale, mesmo em trabalhos de nível primário e secundário, são as idéias surgidas a partir da informação. É a tão discutida criatividade do aluno e também do professor que normalmente limita-se a títulos de trabalhos fazendo com que o estudante venha para a biblioteca esperando encontrar material pronto com o mesmo título. Se, por acaso, algum aluno mais interessado volta ao professor pedindo-lhe sugestões bibliográficas, ou ele se esquiva para não dar “a dica”, ou simplesmente livros de texto, quando não, enciclopédias genéricas. “Como insistir num método de ensino que se baseia na memorização para o acúmulo inútil de dados? O ato de estudar guarda em si o segredo de insuspeitadas revelações para o espírito humano, mas seu valor não pode ser descoberto enquanto estudar for sinônimo de acumular e aprender, para simplesmente estar apto ao bom exercício de uma profissão, independentemente das responsabilidades morais e sociais envolvidas” (4).
Outro grande “pecado capital” dos professores quanto a trabalhos, refere-se à quantidade de folhas exigidas, sempre em prejuízo da qualidade dos textos apresentados. Trabalhos enormes ou simplesmente “bonitinhos” escondem, muitas vezes, o que se chama “encher lingüiça”.
Como coadjuvante no drama da pesquisa, entra em cena o bibliotecário ou deveria entrar de acordo com o Decreto-Lei nº. 7.709, de 18 de março de 1976: toda escola que mantém um mínimo de 20 classes tem que ter um bibliotecário (5). Em algumas bibliotecas escolares será ele mesmo, ou um atendente sem a devida qualificação profissional? “É muito sério você colocar pessoas inadequadas para realizar um determinado trabalho – diz a professora Nina de Melo. Como professora, considero a biblioteca essencial na vida do aluno, e ela deve ser coordenada pela pessoa certa, a bibliotecária, que estudou para isso” (6).
Seu papel, dependendo de como atua, pode ser o de vilão, prejudicando a pesquisa, ainda que inconsciente disso. Por preguiça, falta de estímulo ou baixos salários, limita-se a indicar os catálogos que nem todos sabem utilizar. Por outro lado, há também uma falta de entrosamento bibliotecário-professor. Neste caso, a pessoa que atende indica uma linha diferente na pesquisa ou limita-se a dizer que não dispõe do assunto procurado.
No outro extremo da questão, encontramos alguém que literalmente afoga o estudante de informações, deixando-o perdido e assustado, afugentando-o, às vezes, para sempre, da biblioteca. Por isso, é fundamental o conhecimento do usuário na sua totalidade (faixa etária e sócio-econômica, escolaridade etc.).
A biblioteca não pode contar no seu quadro de funcionários com enciclopédias-ambulantes, mas é preciso que os profissionais junto ao público tenham noções básicas das matérias solicitadas pelos estudantes, para melhor orientá-los, além de seu conhecimento técnico específico.
No drama da pesquisa e da biblioteca, há também bastidores fervilhantes, onde artistas influentes atuam decidindo o grande final: são os pais, a família, que, por seu exemplo cotidiano no hábito da leitura, serviriam de modelo e estímulo. No entanto, a realidade é diferente. Os pais, a família, são os que primeiro desestimulam o hábito de leitura e o uso de bibliotecas. Em contrapartida, pais pseudo-zelosos que supervalorizam notaras, prejudicam seriamente os filhos fazendo trabalhos por, ao invés de com eles.
Como cenário para o drama da pesquisa, acervos impróprios, muitas vezes em mau estado de conservação (para não dizer, literalmente, caindo aos pedaços), comprometem de pronto uma biblioteca escolar. Para minimizar isto, só uma verba adequada, o que raramente acontece, até mesmo para a criação ou fase inicial da biblioteca. Um ponto de apoio, para quem se propõe iniciar ou desenvolver uma biblioteca escolar, são as instituições, quase sempre governamentais, que oferecem material bibliográfico gratuito ou por preço abaixo do custo. Esta seria a solução, se não fossem as medidas incompreensíveis que gradativamente vão exterminando serviços deste teor, como o exemplo recentemente citado nos principais jornais brasileiros sobre a extinção dos serviços dos postos da Fename (Fundação Nacional de Material Escolar do MEC) em São Paulo e Belo Horizonte. Para muitos a biblioteca dentro da escola é um acessório de luxo, até um supérfluo.
Na teoria, a realidade nacional aparece de maneira diferente, similar, apenas no papel, às bibliotecas escolares estrangeiras. Já em 1927, Lorenzo Luzuriaga afirmava que “as bibliotecas escolares constituem uma das instituições essenciais da escola. Consideradas no princípio como mero complemente da vida escolar, como um apêndice desta, até chegar a ser reconhecidas como parte integrante da própria escola. Em muitos países é obrigatório a criação de uma biblioteca própria para cada escola. E na realidade a quase totalidade das escolas européias e norte-americanas possuem uma” (7).
Propostas suntuosas de dinamização do hábito de leitura, orientação bibliográfica personalizada e outros mais não vêm ao encontro do nosso dia a dia, conforme comprovam solicitações freqüentes de pessoas bem intencionadas, raramente bibliotecários formados, que pretendem criar ou levar adiante bibliotecas escolares. Isto porque as propostas teóricas estão muito além das humildes solicitações que ocorrem de norte a sul do país, como podem exemplificar trechos de correspondência recebida (8).
“… possuímos uma biblioteca que tem necessidade de melhor organização. No entanto estamos impossibilitados de fazê-lo devido à falta de conhecimentos. Para tanto, solicitamos sua colaboração…”
“… nosso colégio possui um paupérrimo acervo de obras anteriores a 1971. Estamos em um município carente social, econômica e culturalmente. Assim não podemos obter verba. Agradeceria muitíssimo se nos orientasse na organização e na aquisição gratuita de livros de referência, didáticos e literários…”
“… solicitamos informações detalhadas sobre organização, registro e maneiras de melhorar qualitativamente e quantitativamente nossa biblioteca escolar…”
“… para melhoria do funcionamento e da biblioteca de nossa escola solicito sua contribuição enviando-me informações sobre:
- Biblioteca em geral,
- Sugestão de promoções culturais,
- Formação de acervo,
- Endereços de todas as editoras, entidades e empresas que fazem doações de livros e revistas,
- Critérios de seleção de livros,
- Sugestões de listas de livros com editoras e endereços (livros didáticos e de literatura infantil)…”
Seria monótono pela repetição das necessidades e pelo caráter dos pedidos que envolvem quase um curso de biblioteconomia por correspondência, continuar citando trechos de correspondência.
Apesar do teor dos pedidos, percebemos o valor da imensa boa vontade de cada uma das pessoas que se propõe a incentivar e disseminar o uso da biblioteca escolar. Ao mesmo tempo fica presente a pobreza cultural que ocorre nos mais diferentes pontos do país.
Felizmente, algumas localidades possuem além de excelentes bibliotecas públicas, algumas bibliotecas escolares, que suprem boa parte da necessidade da região. São casos em que a realidade se aproxima cada dia mais dos sonhos teóricos.
Há bibliotecas escolares com caráter de verdadeiros centros de informação dispondo de vários tipos de documentos, disseminando o hábito da leitura. O acervo destas bibliotecas, com material impresso (obras didáticas, de referência, periódicos etc.), é acrescido de materiais audiovisuais, complemento necessário a um ensino dinâmico atuante. Detalhes sobre biblioteca escolar e pública infanto-juvenil estão exemplificados no Boletim Informativo do Conselho Regional de Biblioteconomia (9) e no artigo “Dimensão atual da biblioteca infanto-juvenil” de Yvete Zietlow Duro (10).
Um acervo diversificado exige também um bibliotecário dinâmico e atuante que, por meio de entrosamento com os professores, consiga fazer da biblioteca um elemento vital na didática do ensino.
É fundamental neste caso a preparação (doutrinação mesmo) do usuário de biblioteca desde a mais tenra idade. E que seja de uma forma lúcida, atraente, que faça a criança freqüentar a biblioteca de maneira natural, habituando-a espontaneamente a ler e utilizar fontes de informação.
Recursos recomendados para crianças das primeiras séries do 1º. Grau como hora do conto, concursos, aulas de bibliotecas dramatizações, entrevistas com escritores, tudo isto com liberdade de movimento e atuação independente da criança, agem como catalisadores dentro da biblioteca escolar.
Ainda no 1º. Grau, mais adiante, o adolescente recebe um atendimento personalizado seja para leitura de lazer ou pesquisa bibliográfica. Constata-se nesta faixa etária um desinteresse maior pelo material impresso; um quase desprezo pelo livro face aos mais atraentes apelos de outros meios de comunicação. Assim, na medida do possível (e da verba), inverte-se a situação, aproveitando-se os meios de comunicação atraentes para conservar o usuário conquistado na primeira infância. Aquele mesmo usuário que não gosta de ler continua vindo à biblioteca interessado em discos, fitas, filmes, jornais, revistas esportivas etc…
A partir do 2º. grau faz-se necessário um trabalho mais completo de orientação bibliográfica ao estudante, visando à formação do futuro usuário da biblioteca universitária. Seguindo os padrões da orientação dada neste tipo de biblioteca deve-se adaptar de forma simplificada o mesmo sistema.
Esta é a ocasião propícia para que o professor solicite trabalhos de pesquisa dentro de padrões, conforme as normas estabelecidas. O mínimo a ser exigido, nas primeiras séries do 2º. grau, é a indicação de bibliografia utilizada. Aí acontece um entrosamento maior entre professor e bibliotecário, a fim de orientar o estudante na execução de seus trabalhos.
Gradativamente o aluno começa a freqüentar e sentir a biblioteca, na sua função real como parte integrante de sua vida escolar.
Descobrindo o potencial informativo da biblioteca, e conseqüentemente o potencial de sua própria criatividade, passa a sentir, aos poucos, que “estudar é investigar. Estudar, investigar o mundo e o ‘eu’. O ato de estudar, quando representa uma escolha, transforma-se na vida que poderá levar o viajante ao conhecimento, por um processo de constante mutação” (11).
Notas bibliográficas
1. BRIQUET de LEMOS, Antônio Agenor. A biblioteca pública em face da demanda social brasileira. Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, São Paulo, 12 (3/4): 203-10, jul/dez. 1979.
2. ALFAYA, Ricardo. Estudar; para poucos um prazer, para muitos um castigo. Perspectiva Universitária, 11 nov. 1981.
3. BRIQUET de LEMOS, Antônio Agenor. A biblioteca pública…
4. ALFAYA, Ricardo. Estudar; para poucos…
5. QUEM cuida das bibliotecas? Jornal da Tarde, São Paulo, 18 fev. 1982, p. 15.
6. Idem.
7. LUZURIAGA, Lorenzo. Bibliotecas escolares. Revista de Pedagogia, Madri, 1927. 15 p.
8. Estes trechos foram extraídos de correspondência recebida de diferentes regiões do Brasil por Marlene Souza Santos, que vem estudando as bibliotecas escolares.
9. BOLETIM Informativo. CRB-8. São Paulo, 5(2): 43, abr/jun. 1981.
10. DURO, Yvette Zietlow. Dimensão atual da biblioteca infanto-juvenil. Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, São Paulo, 12 (3/4): 211-22, jul/dez. 1979.
11. ALFAYA, Ricardo. Estudar; para poucos…
Marlene Souza Santos;
Léa Fiss Carmona
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Original: SANTOS, Marlene Souza; CARMONA, Léa Fiss. Biblioteca escolar. Palavra-chave, São Paulo, n.1, p.09-10, 1982.
