Por Paul B. Gandel
As bibliotecas têm tomado duros golpes nos últimos meses, levantando questões sobre se e como irão sobreviver a uma superfície de informação em constante mudança. O anúncio da Universidade do Texas sobre a digitalização da sua biblioteca – descartando os livros – recebeu grande atenção da mídia e foi usado pela imprensa para levar a imagem de uma “biblioteca vazia” a um novo nível [1]. Ainda, o plano do Google para digitalizar coleções especiais de bibliotecas adicionou combustível nas previsões de que as bibliotecas serão obsoletas em nosso crescente mundo digital.
Porém, questões relacionadas ao papel das bibliotecas, ou mesmo se as bibliotecas serão necessárias em um mundo digital, não são exatamente novas ou chocantes. Quase trinta anos atrás, F.W.Lancaster levantou as mesmas questões em um maravilhoso ensaio chamado “Bibliotecas aonde? ou bibliotecas transparentes” [Whiter Libraries? or Whiter libraries][2]. Desde então, a literatura continua a ser preenchida por artigos que fazem as mesmas perguntas.
Como Mark Twain, que disse que “as histórias sobre minha morte tem sido muito exageradas”, as bibliotecas continuaram a operar com eficiência apesar das previsões. O que é incrível é que mesmo com 30 anos de avanços tecnológicos, as bibliotecas permanecem relativamente imutáveis. Sim, os espaços das bibliotecas incorporaram lojinhas e computadores, mas qualquer um que entrar em uma biblioteca hoje perceberá que quase nada mudou.
Com as bibliotecas confrontando ondas de avanços tecnológicos, a presunção implícita permaneceu que os valores e estruturas tradicionais da biblioteconomia continuariam a servir como âncoras em um mar de mudanças. Os catálogos online de hoje se expandiram em escopo e abrangência, mas ainda preservam a estrutura básica dos catálogos de fichas de antigamente, na forma de registros MARC. As coleções rapidamente se expandiram a formatos digitais, e os métodos para acessar essas coleções digitais evoluíram. Mas o relacionamento entre acervo, consumidores e a biblioteca como mediadora permanece o mesmo. Em adição, as bibliotecas ainda estão organizadas a maneira que eram 30 anos atrás. Apesar de os títulos dos profissionais terem mudado, as divisões básicas dos serviços público-contra-técnicos, e bibliotecários profissionais contra paraprofissionais, permanecem – normalmente lembrando mais um sistema medieval de castas do que uma organização ágil moderna.
E também, como uma tempestade perfeita, a intrusão da Web pode alterar as bibliotecas de maneiras bem diferentes daquelas de mudanças tecnológicas anteriores. A Web já está alterando áreas nucleares dos serviços de biblioteca: (1) coleções, (2) preservação e (3) referência.
Vamos primeiro analisar as coleções – o coração e alma de uma biblioteca. Na perspectiva dos caçadores de informação, as coleções agora são web sites, criados por qualquer pessoa, editores e agregadores comerciais. Esses sites servem como direcionadores de informação [hubs], assumindo o papel de bibliotecários ao direcionar visitantes para informação em termos específicos ou áreas de interesse.
Ainda, a agregação comercial dos recursos de informação na Web tem diminuído a flexibilidade que as bibliotecas possuem em tomar decisões sobre assinaturas de jornais eletrônicos individuais e bases de dados.
Essas decisões são cada vez menos sobre títulos e jornais individuais e mais sobre obter o maior número de títulos pelo menor preço, estabelecendo contratos com grandes agregadores de materiais eletrônicos. Como Paul Kobulnicky apontou em seu artigo sobre conteúdo eletrônico no EDUCAUSE Review, as bibliotecas estão cada vez mais concentrando suas energias no tipo de assinatura “grande negócio” – essencialmente comprando coleções de materiais eletrônicos compilados por outros, uma proposição tudo ou nada [3]. Para a maioria das bibliotecas, assinar publicações eletrônicas está se tornando um exercício em negociação e compra ao invés de um processo de tomar decisões sobre as coleções. Esse serviço está rapidamente se tornando tão cômodo, que o papel da biblioteca está simplesmente se tornando um agente de compras atuando em nome de sua comunidade.
Se mais coleções são “adquiridas” por agregadores comerciais residindo em várias locações remotas, as questões de administração e preservação de materiais se tornam críticas. Tradicionalmente, tem sido função das bibliotecas preservar nossa herança intelectual. Quanto mais essa herança se torna digitalizada e depositada nas mãos de donos “privados”, isso não levanta a questão de que modo assegurar que a informação continue a existir mesmo se o fornecedor dela sair do mercado?
Muitos acreditam que a única maneira de assegurar que nossa herança digital seja preservada é que as bibliotecas, tanto coletiva como individualmente, mantenham cópias duplicadas de todo material digital – mesmo se as cópias estiverem prontamente disponíveis em sites comerciais. Uma proposta alternativa é se criar políticas para preservação desse material independente de onde ele reside fisicamente. Muito parecido com a maneira com que nós tombamos distritos históricos e preservamos cemitérios, nós poderíamos desenvolver políticas que levariam à preservação de materiais digitais importantes.
Sem considerar que os materiais digitais cada vez mais residem em web sites comerciais, a próxima questão envolve o papel dos bibliotecários. Os bibliotecários não deveriam exercer um papel chave na avaliação e determinação da qualidade desses novos direcionadores de informação? Os bibliotecários não serão necessários para ajudar as pessoas a navegar dentro desses sites e separar o joio do trigo? De fato, os bibliotecários podem continuar a servir essa função. Mas um modelo concorrente parece estar ganhando campo. O modelo do Amazon.com, que utiliza revisão de pares por indivíduos e painéis de especialistas, poderá preencher o lugar dos bibliotecários na função do controle de qualidade. Isso parece muito provável quando se considera a facilidade que é para os web sites fornecerem tais revisões e/ou endossos e quanto de incentivos competitivos esses sites possuem para promover tal função.
A Web também transformou o papel da biblioteca como um repositório para coleções tradicionais impressas. Livros, tanto no formato impresso como eletrônico estão se tornando ampla e facilmente (apesar de não necessariamente a baixo custo) disponíveis. Não é mais incomum ouvir sobre pessoas que preferem comprar um livro online e recebe-lo diretamente em suas casas, ao invés de ter de atravessar o campus para pegar emprestado o mesmo livro na biblioteca. Apesar desses “Amazonenses” ainda serem a exceção ao invés da regra, no mundo atual de rastreamento de eletrônico de produtos e entregas mundiais, parece apenas natural que nós devemos começar a esperar por entregas diretas de material impresso vindas de qualquer lugar, e para qualquer lugar. Porém, as bibliotecas têm sido lentas para reagir a essas mudanças. Equivocados procedimentos de empréstimos entre bibliotecas são ainda uma norma. A não ser que as bibliotecas desenvolvam e expandam serviços que forneçam aos seus usuários uma maneira de acesso direto e rápido a uma grande variedade de materiais impressos, mundialmente, com o clicar de um mouse, mais e mais pessoas vão começar a pagar por serviços do Amazon.com ou GooglePrint.
Finalmente, em adição a áreas nucleares de acervos e preservação, as bibliotecas tradicionalmente têm sido as solucionadoras de problemas da comunidade, a fonte das referências. Antigamente, quando as crianças estavam na escola e tinham dúvidas, os professores as mandavam para a bibliotecária. Isso não acontece mais. Até mesmo a função de referência das bibliotecas está enfrentando crescentes desafios da Web. O Google se tornou a ferramenta mais utilizada para responder todos os tipos de questões. Seja para fazer uma aposta ou responder uma pergunta de pesquisa, o Google e o GoogleScholar são geralmente os recursos de primeira escolha. Além do Google, um crescente número de serviços de informação fornecerá respostas específicas para quase qualquer questão.
Muitas bibliotecas tentaram enfrentar esses desafios fornecendo novos serviços de referência online. Mas não está claro se esses serviços redesenhados podem competir com os serviços comerciais em rápida expansão disponíveis na Web. A economia de balanceamento pode dar aos sites comerciais a vantagem de maior acesso em nível de especificidade, permitindo que guiem serviços a uma ampla variedade de necessidades especializadas. Não é difícil imaginar um cenário em que as universidades deslocarão seus recursos para pagar um serviço nacional de informação personalizado às necessidades da instituição individual ao invés de dar suporte ao serviço de referência da sua biblioteca local.
Em resposta a Web, muitas bibliotecas, individual ou coletivamente, começaram a criar seus próprios direcionadores de informação – repositórios digitais – usando o conteúdo intelectual de suas instituições. Infelizmente, muitos desses repositórios são construídos com base em métodos tradicionais de organização da informação, ao invés dos novos modelos de disseminação da informação evoluindo na Web. Potenciais contribuidores e usuários desses repositórios estão achando os sistemas de organização e tageamento de metadados impostos pelas bibliotecas muito complicados. Ainda, ao desenhar muitos desses novos repositórios digitais, as bibliotecas ignoram o importante papel que as pessoas exercem. A maioria das iniciativas de repositórios digitais é concebida para servir apenas como caminho para documentos e artefatos. Poucos repositórios são criados para servir como verdadeiros direcionadores de informação, fornecendo aos usuários acesso tanto à informação relevante, como especialistas.
Com a Web em contínuo crescimento e expansão, criando uma grande gama de direcionadores de informação, a questão a ser feita é: As bibliotecas serão um elemento chave nessa rede de informação? Se a história servir como guia, a resposta é “talvez”. Sim, as bibliotecas se adaptaram e incorporaram novas tecnologias e mídia no passado enquanto também procuram permanecer, em grande proporção, fiéis a práticas e considerações centenárias. Isso pode não ser mais possível em um mundo de informação dominado pela Web. As bibliotecas podem se encontrar um dia na mesma situação dos usuários de trens. Só porque o horário dos trens permaneceu o mesmo durante 30 anos, não significa que viajantes desatentos estejam livres de um dia se encontrarem na plataforma errada, esperando pelo trem errado, depois de uma mudança de horários.
Notas
1. Katherine S. Mangan, “Packing Up the Books,”Chronicle of Higher Education, July 1, 2005, .
2. F. Wilfrid Lancaster, “Whither Libraries? or, Wither Libraries,” College and Research Libraries, vol. 39 (1978): 345–57.
3. Paul Kobulnicky, “Pork Bellies and Silk Purses,”EDUCAUSE Review, vol. 39, no. 3 (May/June 2004),
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Paul Gendel é vice-presidente de Tecnologia de Informação e CIO da Universidade de Syracuse. Anteriormente, foi consultor de serviços de informação, decano das bibliotecas universitárias e professor de biblioteconomia e estudos de informação na Universidade de Rhode Island. Ele trabalha como editor do departamento de conteúdo eletrônico da EDUCAUSE Review.
Originalmente publicado em EDUCAUSE Review, vol. 40, no. 6 (Novembro/Dezembro 2005): 10-11. traduzido e publicado com permissão do autor <http://www.educause.edu/er/erm05/erm05610.asp>.
Originally published in EDUCAUSE Review, vol. 40, no. 6 (November/December 2005): 10-11. translated and posted with permission of the author <http://www.educause.edu/er/erm05/erm05610.asp>.
Tradução de Moreno Barros
