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Em defesa do powerpointismo

Posted May 29th, 2007 in Ensaio and tagged by ExtraLibris

Christopher Fahey

Tradução de Moreno Barros.
O PowerPoint da Microsoft é freqüentemente responsabilizado pela qualidade pobre de muitas apresentações e por um suposto estado desastroso da comunicação tanto nas esferas privada quanto pública. Palestrantes são ignorados por sua presença mumificada no palco, imobilizados por sua própria superconfiança em slides e projeções sem sentido. Os próprios slides são, também, abundantes em atentados ao design, variando de diarréia de clip-art à verborragia impenetrável.

Devido ainda à ubiqüidade da ferramenta e da técnica, porque palestrantes de Al Gore aos membros do Parlamento Australiano usam apresentações de slides para dar suporte aos seus discursos, o software ele mesmo transformou-se em alvo de facto da crítica. Eu não acredito que isto seja muito justo.

(Para os fins desta argumentação, o Keynote no Mac é basicamente animal da mesma espécie que o Powerpoint, então com desculpas à Microsoft assim como à Apple, usarei apenas o termo “Powerpoint” para indicar qualquer ferramenta ou método de apresentação de slides).


As críticas

O crítico mais contundente do Powerpoint é Edward Tufte. Em seu ensaio “O estilo cognitivo do Powerpoint“, Tufte argumenta que o Powerpoint é inerentemente defeituoso porque fornece um vocabulário específico, demasiadamente limitado, de métodos de comunicação, forçando nossas idéias se conformarem a um meio que não se aplica a pensamentos complexos. Para Tufte, deve-se culpar a própria ferramenta.

O clássico artigo “Política e a língua inglesa” de George Orwell capta perfeitamente a relação entre a qualidade de pensamento e o estilo cognitivo da apresentação: a língua inglesa torna-se feia e imprecisa porque nossos pensamentos são tolos, mas o relaxamento de nossa língua facilita que tenhamos pensamentos tolos. Imagine Orwell escrevendo sobre PP: o “Powerpoint torna-se feio e impreciso porque nossos pensamentos são tolos, mas o relaxamento do PowerPoint facilita que tenhamos pensamentos tolos.”

Tufte foca em muitas características específicas do PowerPoint, como bullet points (*), organização dos slides e animações/transições gratuitas (em especial considerando que o Powerpoint naturalmente o induz a utilizar estes recursos queira você ou não). Mas o conceito básico de falar e ter figuras próximas de si não é contradito por qualquer de seus argumentos. Na verdade, Tufte dirige muito de seu ataque ao uso do Powerpoint para a criação de documentos estáticos para distribuição digital e impressa sem acompanhamento – poucos de seus argumentos discutem o uso do Powerpoint no contexto de uma apresentação ao vivo.

Outro estudo crítico, entretanto, aborda este aspecto do uso do Powerpoint. Este estudo (PDF completo aqui) alega que mesmo quando usado como parte de uma apresentação ao vivo o Powerpoint causa mais mal do que bem, em razão de sua modalidade típica de uso — onde o apresentador simplesmente lê, repetindo os conteúdos de cada slide enquanto eles se sucedem —, o que causa interferência na maneira como o cérebro humano funciona. O autor do estudo, professor John Sweller, argumenta que os seres humanos têm um limite em sua carga cognitiva, que a informação apresentada simultaneamente em modos visual (como texto) e oral (como palavras faladas) agrega menos que a soma de suas partes, e que a comunicação e a retenção resultantes são na verdade piores do que se as palavras, ou os slides, fossem apresentados separadamente.

A exceção, Sweller admite, é quando os próprios slides ilustram algo que é comunicado mais eficazmente como imagem, ou quando possuem palavras que ao invés de distrair do ponto verbal em questão na verdade ajudam a somar de um modo que permita à audiência compreender e reter melhor a informação. Em suma, os slides deveriam enfatizar, não enfraquecer.

Não é de todo mal

Eu concordo com os argumentos pontuais, isoladamente, de ambos esses críticos, mas discordo da interpretação geral que compartilham de que o Powerpoint compromete uma comunicação eficaz. Quando Tufte e Sweller argumentam, resumidamente, que nós devemos jogar o Powerpoint fora, eu penso se eles não estão atirando fora o bebê junto à água do banho.

Primeiro eu me pergunto se a maioria das piores apresentações do mundo não continuaria tão ruim, ou mesmo muito pior, se o apresentador não tivesse os slides para utilizar como suporte. O próprio Tufte indaga se a estupidez no uso do PowerPoint não se dá por ser ele um “ímã de estupidez”, atraindo pessoas estúpidas para o seu todo-fácil kit de ferramentas. Naturalmente, pessoas inteligentes usam o Powerpoint o tempo todo, mas talvez aquelas pessoas sejam simplesmente péssimas comunicadoras não obstante o Powerpoint, e fariam mal com qualquer outra ferramenta de comunicação ou mesmo com nenhuma sequer.

Acredito que responsabilizar o Powerpoint ou o Keynote reduz a tecnologia ao conceito de apresentação multimídia. Nenhuma destas duas críticas tem sucesso em desacreditar a idéia básica de que imagens podem ajudar a tornar uma apresentação falada muito melhor, ilustrando conceitos, resumindo fatos-chave ou fornecendo entretenimento. E nenhum dos argumentos dá conta adequadamente das aplicações óbvias onde a imagem exerce um papel central na apresentação, tal como ao discutir um portfólio de design, um gráfico de informação ou um mapa de campo de batalha.
Algumas dicas de apresentação

Reduza. Se você é um bom apresentador, sim, considere limitar dramaticamente o uso de slides para ajudá-lo a recordar o que quer dizer. Planeje cada slide pela perspectiva da platéia: os slides ajudam-lhes a recordar o que você diz? Os mantêm alertas e mais receptivos às suas palavras e argumentos? Isto poderia significar limitar o número de slides que você usa, ou limitar a quantidade de conteúdo em cada slide, ou ambos. A idéia é tentar se libertar dos suportes e confiar mais no seu próprio discurso. Você pode precisar fazer isso gradualmente ao longo do tempo, removendo paulatinamente os textos e os slides de suas apresentações até que alcance um nível confortável e elegante.

Você pode até mesmo vir a descobrir que seus conceitos podem algumas vezes ser melhores sem nenhum slide. Muitas vezes eu levei slides a minhas apresentações somente para decidir na última hora deixar o projetor desligado e apenas conversar despretensiosamente sobre minhas idéias.

Você e seus slides são inseparáveis. A menos que sua plataforma de projeção precise funcionar de modo absolutamente autônomo sem você por perto para falar sobre os slides, não se preocupe se cada um deles faz sentido por si ou não. As melhores apresentações, na verdade, são quase completamente sem sentido fora do contexto da apresentação ao vivo (ver o exemplo de Will Wright acima). É por isso que atualmente tenho suspeitas quanto a sítios como o SlideShare, que em seu formato atual abriga precisamente este tipo de publicações de slides isolados, sem a presença dos apresentadores. O SlideShare em breve permitirá a inclusão de áudio, o que em minha opinião melhorará dramaticamente a qualidade e a utilidade da ferramenta.

Se você precisa que sua plataforma de projeção exista separadamente de você, tente gravar uma apresentação em áudio ou vídeo dos slides sendo apresentados pelo palestrante e faça deste arquivo multimídia o documento formal para distribuição — e não a plataforma de projeção ela própria. Antecipe-se antes de fazer qualquer apresentação e certifique-se de que alguém está gravando. (Eu cometi este erro no evento sobre IA, esquecendo de apertar o botão ‘ligar’ em meu microfone.)

Explore uma variedade de estilos alternativos de apresentação. O sítio do TED oferece uma página lotada de palestrantes que utilizam slides das mais diferentes maneiras.

Veja Hans Rosling, cujos rápidos comentários sobre estatísticas de desenvolvimento revelam padrões desconhecidos que podem mudar nossa compreensão do mundo. Ou David Poque, um jornalista tecnológico que é capaz de transformar uma apresentação séria em uma espécie de cabaré. Joshua Prince-Ramus utiliza softwares de visualização para fazer um passeio por suas mais novas construções. Frans Lanting usa suas fotos para contar a história da própria vida, do Big Bang aos dias atuais. E o favorito do TED, Ze Frank, que usa softwares, músicas, imagens, emails — qualquer meio necessário — para arrancar risadas.

Evolua. Eu descobri que meu estilo evoluiu ao longo do tempo especialmente porque tenho assistido e imitado outros apresentadores que admiro. Todas as apresentações ou palestras de que participo, não importando quão chatas ou cansativas, normalmente oferecem algum insight sobre coisas que eu devo evitar no futuro, ou melhor ainda, coisas que eu poderia tentar fazer na minha próxima apresentação. Eu tento modificar minha apresentação toda vez que palestro, apenas para manter meus pés no chão e tentar algo novo, além de eliminar qualquer tendência a apenas ler os slides.
Christopher Fahey
Tradução de Moreno Barros.
Revisão de Alex Lennine.

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(*) Bullet points são as projeções em que os slides passam ao clique do mouse (Nota do tradutor).

Original: FAHEY, Cristopher. In defense of PowerPointism. Graphpaper.com, 2007. Disponível em: <http://www.graphpaper.com/2007/04-29_in-defense-of-powerpointism>. Acesso em: 28 maio 2007. Traduzido e publicado sob autorização do autor.

3 Responses so far.

  1. Erico Sengik says:

    Gostei muito dos seus comentários. Em um determinado curso quando cheguei humildemente com minhas transparências de retroprojetor os alunos falaram: Até que enfim não teremos data shows! E cada vez fico mais convencido que a melhor aaula é com giz e quadro negro.

  2. [...] Recursos especiais Teoria da Biblio Usabilidade Imprimi para ler (noutro lado*) os artigos: Em defesa do Powerpointismo de Christopher Fahey Tradução de Moreno [...]

  3. Alexandra says:

    Certo dia, fui ministrar um curso e me preparei e fiz alguns slides. O que percebi apos o curso foi que fiquei presa aos slides e nao falei o que tinha na verdade a dizer a mais que os slides continham. Ou seja, tenho um data show mas nao uso para dar cursos. Acho que castra a apresentação.

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