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O povo diz a sua palavra

Posted abril 20th, 2007 in Ensaio and tagged , by ExtraLibris

ou a alfabetização em São Tomé e Príncipe

Paulo Freire
Primeira parte

Mais uma vez, ao longo dos anos, me ponho em frente de páginas em branco para escrever sobre o processo de alfabetização de adultos. Parece-me interessante salientar que o fato de haver tratado várias vezes este assunto não mata em mim nem sequer diminui um certo estado de espírito, típico de quem discute pela primeira vez um tema. É que, para mim, não há assuntos encerrados. É por isso que penso e re-penso o processo de alfabetização como quem está sempre diante de uma novidade, mesmo que, nem toda vez, tenha novidades sobre o que falar. Mas, ao pensar e ao re-pensar a alfabetização, penso ou re-penso a prática em que me envolvo. Não penso ou re-penso o puro conceito, desligado do concreto, para, em seguida, descrevê-lo.

Neste artigo, falarei da alfabetização de adultos no contexto da República Democrática de São Tomé e Príncipe,(1) a cujo governo venho dando, juntamente com Elza Freire, uma contribuição no campo da educação de adultos, hoje menos sistemática do que três anos atrás.

Antes de entrar na discussão de alguns pontos centrais que marcam a experiência de alfabetização de adultos em São Tomé e Príncipe, me parece importante fazer algumas considerações em torno de como venho entendendo e vivendo as relações entre mim, enquanto assessor, e o governo assessorado. Para nós, porque esta é também a posição de Elza, o assessor não é uma figura neutra, fria, descomprometida, disposta sempre a responder tecnicamente às solicitações que lhe sejam feitas. Para nós, pelo contrário, o assessor (ou assessora) é um político e sua prática, não importa no campo em que se dê, é política também. Por isso é que, do nosso ponto de vista, se torna indispensável uma concordância em torno de aspectos fundamentais entre o assessor e o governo assessorado. Me seria impossível, por exemplo, dar uma colaboração, por mínima que fosse, a uma campanha de alfabetização de adultos promovida por um governo antipopular. O meu respeito aos nacionais, a cujo governo assessoro, o meu cuidado para que a minha colaboração não se torne uma invasão disfarçada pressupõem um terreno comum em que caminhamos o governo e eu.

É neste terreno comum, nesta identidade de opções política, com prováveis e salutares divergências, que minha prática vai tornando um companheiro dos nacionais e não um puro aplicador de formular impossivelmente neutras. Eu não poderia assessorar um governo que, em nome da primazia da “aquisição” de técnicas de ler e de escrever palavras por parte dos alfabetizandos, exigisse de mim ou simplesmente sugerisse que eu fizesse a dicotomia entre a leitura do texto e a leitura do contexto. Um governo para quem a “leitura” do concreto, o desvelamento do mundo não são um direito do povo, que, por isso mesmo, deve ficar reduzido à leitura mecânica da palavra.

Todo o esforço que vem sendo feito em São Tomé e Príncipe na prática da alfabetização de adultos como na da pós-alfabetização se orienta neste sentido.(2) Os Cadernos de Cultura Popular que vêm sendo usados pelos educandos como livros básicos, quer na alfabetização quer na pós-alfabetização, não são cartilhas nem manuais com exercícios ou discursos manipuladores. Caderno de Cultura Popular é o nome genérico que vem sendo dado a esta série de livros de que o primeiro é o da alfabetização. Este primeiro caderno é composto de duas partes, sendo a segunda uma introdução à pós-alfabetização. Como reforço a este primeiro caderno há um outro de exercícios, chamado Praticar para Aprender.

O Segundo Caderno de Cultura Popular, como o qual se inicia ou se pretende iniciar a pós-alfabetização, é um livro de textos, escritos em linguagem simples, jamais simplista, que trata uma temática ampla e variada, ligada, toda ela, ao momento atual do país. O que se pretende com estes textos – entre os quais serão alguns transcritos na Segunda Parte deste trabalho – é que eles se entreguem à curiosidade crítica dos educandos e não que sejam lidos mecanicamente. A linguagem dos textos é desafiadora e não sloganizadora. O que se quer é a participação efetiva do povo enquanto sujeito, na reconstrução do país, a serviço de que a alfabetização e a pós-alfabetização se acham.(3)

Por isso mesmo os cadernos não são nem poderiam ser livros neutros. É que, na verdade, o contrária da manipulação nem é a neutralidade impossível nem o esponteneísmo. O contrário da manipulação, como do esponteneísmo, é a participação crítica e democrática dos educandos no ato de conhecimento de que são também sujeitos. É a participação crítica e criadora do povo no processo de reinvenção de sua sociedade, no caso a sociedade são-tomense, recém-independente do jugo colonial, que há tanto tempo a submetia.

Esta participação consciente na reconstrução da sociedade, participação que se pode dar nos mais diferentes setores da vida nacional e em níveis diferentes, demanda, necessariamente, uma compreensão crítica do momento de transição revolucionária em que se acha o país. Compreensão crítica que se vai gerando na prática mesmo de participar e que deve ser incrementada pela prática de pensar a prática. Neste sentido, a alfabetização e a pós-alfabetização, através das palavras e dos temas geradores numa e noutra, não podem deixar de propor aos educandos uma reflexão crítica sobre o concreto, sobre a realidade nacional, sobre o momento presente – o da reconstrução, com seus desafios a responder e suas dificuldades a superar.

É preciso, na verdade, que a alfabetização de adultos e a pós-alfabetização, a serviço da reconstrução nacional, contribuam para que o povo, tomando mais e mais a sua História nas mães, se refaça na feitura da História. Fazer a História é estar presente nela e não simplesmente nela estar representado.(4) Pobre do povo que aceita, passivamente, sem o mais mínimo sinal de inquietação, a notícia segundo a qual, em defesa de seus interesses, “fica decretado que, nas terças-feiras, se começa a dizer boa noite a partir das duas horas da tarde”. Este será um povo puramente representado, já não presente na História. Quanto mais conscientemente faça a sua História, tanto mais o povo perceberá, com lucidez, as dificuldades que tem a enfrentar, no domínio econômico, social e cultural, no processo permanente da sua libertação.

Na medida e que a reconstrução nacional é a continuidade da luta anterior, do esforço anterior em busca da independência, é absolutamente indispensável que o povo todo assuma, em níveis diferentes, mas todos importantes, a tarefa de refazer a sua sociedade, refazendo-se a si mesmo também. Sem esta assunção da tarefa maior – e de si mesmo na assunção desta tarefa –, o povo abandonará a pouco e pouco a sua participação da feitura da História. Deixará, assim, de estar presente nela e passará a ser simplesmente nela representado. Este é um desafio histórico que o período atual de transição coloca, de um lado, ao povo de São Tomé e Príncipe, e, de outro, à lealdade revolucionária de sua liderança, e eu espero que ambos – o povo e sua liderança – respondam corretamente a este desafio.

A mobilização e a organização popular, e termos realmente participatórios, que são em si, já, tarefas eminentemente político-pedagógicas, às quais a alfabetização e a pós-alfabetização não poderiam estar alheias, são meios de resposta àquele desafio. Como meio de resposta a ele, é a informação formadora e não slogalizante, domesticadora, e torno dos mais mínimos problemas que tenham que ver com o destino do país.

A alfabetização de adultos enquanto ato político e ato de conhecimento, comprometida com o processo de aprendizagem da escrita e da leitura da palavra, simultaneamente com a “leitura” e a “reescrita” da realidade, e a pós-alfabetização, enquanto continuidade aprofundada do mesmo ato de conhecimento iniciado na alfabetização, de um lado, são expressões da reconstrução nacional em marcha; de outro, práticas impulsionadoras da reconstrução. Uma alfabetização de adultos que, em lugar de propor a discussão da realidade nacional e de suas dificuldades, em lugar de colocar o problema da participação política do povo na reinvenção da sua sociedade, estivesse girando em volta dos ba-be-bi-bo-bu, a que juntasse falsos discursos sobre o país – como tem sido tão comum em tantas campanhas – estaria contribuindo para que o povo fosse puramente representado na sua História. Em São Tomé e Príncipe, pelo contrário, o que vem interessando é o desvelamento da realidade. A educação com que o governo vem se comprometendo é a que desoculta e não a que esconde em função dos interesses dominantes.

A compreensão do processo do trabalho, do ato produtivo em sua complexidade, da maneira como se organiza e desenvolve a produção, a necessidade de uma formação técnica do trabalhador, formação, porém, que não se esgote num especialismo estreito e alienante; a compreensão da cultura e do seu papel, tanto no processo de libertação quanto no da reconstrução nacional; o problema da identidade cultural, cuja defesa não deve significar a refeição ingênua à contribuição de outras culturas, tudo isso são temas fundamentais que se acham referidos à maioria das palavras que constituem o programa de alfabetização. Temas fundamentais que vêm sendo debatidos, toda vez que possível,(5) de forma introdutória, na etapa da alfabetização, e que se acham retomados e propostos de modo problematizador nos textos que compõem os Cadernos de Cultura Popular, empregados na pós-alfabetização.

No momento em que, escrevendo este artigo, a pouco e pouco, vou enchendo as páginas em branco à minha disposição, não posso deixar de pensar em São Tomé, sobretudo porque é a seu contexto que o que escrevo agora se acha referido. Me revejo, sem nenhum esforço de memória, visitando os Círculos de Cultura, da zona rural ou urbana, acompanhado sempre de meus amigos, os coordenadores da campanha ou do programa de alfabetização de adultos.(6) São visitas em que, juntos, vamos anotando os aspectos mais positivos da prática político-educativa dos animadores, ao lado, também, de algumas falhas, em que vamos observando o desenvolvimento intelectual dos grupos, sua capacidade de ler os textos e de compreender a realidade, sua curiosidade.

Entre as inúmeras recordações que guardo da prática dos debates nos Círculos de Cultura de São Tomé, gostaria de referir-me agora a uma que me toca de modo especial. Visitávamos um Círculo numa pequena comunidade pesqueira chamada Monte Mário. Tinha-se como geradora a palavra bonito, nome de um peixe, e como codificação um desenho expressivo do povoado, com sua vegetação, as suas casas típicas, com barcos de pesca ao mar e um pescador com um bonito à mão. O grupo de alfabetizandos olhava em silêncio a codificação. Em certo momento, quatro entre eles se levantaram, como se tivessem combinado, e se dirigiram até a parede em que estava fixada a codificação (o desenho do povoado). Observaram a codificação de perto, atentamente. Depois, dirigiram-se à janela da sala onde estávamos. Olharam o mundo lá fora. Entreolharam-se, olhos vivos, quase surpresos, e, olhando mais uma vez a codificação, disseram: “É Monte Mário. Monte Mário é assim e não sabíamos”. Através da codificação, aqueles quatro participantes do Círculo “tomavam distância” do seu mundo e o re-conheciam. Em certo sentido, era como se estivessem “emergindo” do seu mundo, “saindo” dele, para melhor conhecê-lo. No Círculo de Cultura, naquela tarde, estavam tendo uma experiência diferente: “rompiam” a sua “intimidade” estreita com Monte Mário e punham-se diante do pequeno mundo da sua quotidianidade como sujeitos observadores.

No Círculo de Cultura, enquanto contexto que costumo chamar teórico, esta atitude de sujeito curioso e crítico é o ponto de partida fundamental a começar na alfabetização. O exercício desta atividade crítica, na análise da prática social, da realidade em processo de transformação possibilita aos alfabetizandos, de um lado, aprofundar o ato de conhecimento da pós-alfabetização; de outro, assumir diante de sua quotidianidade uma posição mais curiosa. A posição de quem se indaga constantemente em torno da própria prática, em torno da razão de ser dos fatos em que se acha envolvido.

Na etapa da alfabetização, o que se pretende não é ainda uma compreensão profunda da realidade que se está analisando, mas desenvolver aquela posição curiosa referida acima; estimular a capacidade crítica dos alfabetizandos enquanto sujeitos do conhecimento, desafiados pelo objeto a ser conhecido. É exatamente a experiência sistemática desta relação que é importante. A relação do sujeito que procura conhecer com o objeto a ser conhecido. Relação que inexiste toda vez que, na prática, o alfabetizando é tomado como paciente do processo, puro recipiente da palavra do alfabetizador. Neste caso, então, não diz a sua palavra.

Obviamente, nem tudo são flores no desenvolvimento de um trabalho como este, num país pobre, pequeno, recém-independente do jugo colonial, tendo seu povo e sua liderança de enfrentar um sem-número de dificuldades, entre elas as decorrentes da flutuação do preço internacional do seu principal produto, o cacau; tendo de superar legados fortemente negativos de séculos de colonialismo, entre os quais a escassez de quadros nacionais, hoje ainda quantitativamente insuficientes para as tarefas que a reconstrução nacional demanda. A escassez de quadros e de recursos materiais, refletindo-se necessariamente no plano da alfabetização de adultos, teria de constituir-se em obstáculo não apenas a sua programação mas também a seu desenvolvimento. Não foi por outra razão que a ex-ministra da Educação, Maria Amorim, optou por um programa humilde mas realista, à altura das reais possibilidades do país. Um programa a ser posto em prática durante quatro anos, dentro dos quais se fará a superação do analfabetismo em São Tomé e Príncipe, com o povo dizendo a sua palavra.
Segunda parte

Ao longo da Primeira Parte deste artigo foi dito várias vezes que os materiais elaborados quer para a fase de alfabetização quer para a de pós-alfabetização se caracterizavam por serem materiais desafiadores e não domesticadores. Numa tentativa de exemplificar o afirmado, serão transcritas aqui partes do Caderno de Exercícios, Praticar para Aprender, da fase de alfabetização, e alguns textos do segundo Caderno de Cultura Popular, da etapa de pós-alfabetização.(7)

A primeira página de Praticar para Aprender é composta de duas codificações (duas fotografias): uma, de uma das lindas enseadas de São Tomé, com um grupo de jovens nadando; a outra, numa área rural, com um grupo de jovens trabalhando. Ao lado da fotografia dos jovens nadando está escrito: “É nadando que se aprende a nadar”. Ao lado da fotografia dos jovens trabalhando está escrito: “É trabalhando que se aprende a trabalhar”. E, no fim da página: “Praticando, aprendemos a praticar melhor”.

Não me parece necessário, aqui, insistir demasiado no que esta primeira página do Caderno de Exercícios, que começa a ser usado quando os alfabetizandos já são capazes de ler pequenas sentenças, pode oferecer a educadora e educandos como reflexão em torno da importância da prática para o ato de conhecimento. Este momento é mais um em que se pode reforçar a idéia fundamental de que o povo tem um saber na medida mesma em que, participando de uma prática que é social, faz coisas.

[...]

Antes de iniciar a análise ou mais precisamente a transcrição de textos deste Caderno com alguns comentários, me parece importante salientar como a prática alterou os planos que tínhamos com relação ao Caderno de Exercícios e ao Segundo Caderno de Cultura Popular. Enquanto o primeiro tinha sido concebido como um auxiliar do alfabetizando, reforçando o Primeiro Caderno na fase de alfabetização, o Segundo Caderno fora pensado como o livro básico da primeira etapa da pós-alfabetização. Com o tempo se percebeu que este último papel caberia ao Caderno de Exercícios, enquanto o Segundo Caderno passaria a ser usado num nível mais adiantado da pós-alfabetização, ao lado dos outros Cadernos referidos no pé da página 4.(12) O Segundo Caderno começa com a seguinte

Introdução

Com o Primeiro Caderno de Cultura Popular e com o Caderno de Exercícios aprendeste a ler na prática da leitura. Aprendeste a escrever na prática da escrita. Praticaste a leitura e a escrita ao mesmo tempo que tiveste também a prática de discutir assuntos de interesse do nosso Povo. Para nós, não tinha sentido ensinar ao nosso Povo um puro b-a-bá. Quando aprendemos a ler e a escrever, o importante pe aprender também a pensar certo. Para pensar certo devemos pensar sobre a nossa prática no trabalho. Devemos pensar sobre a nossa vida diária. Quando aprendemos a ler e a escrever, o importante é procurar compreender melhor o que foi a exploração colonial o que significa a nossa independência. Compreender melhor a nossa luta para criar uma sociedade justa, sem exploradores nem explorados, uma sociedade de trabalhadores e trabalhadoras. Aprender a ler e a escrever não é decorar “bocados” de palavras para depois repeti-los.

Com este Segundo Caderno de Cultura Popular vais poder reforçar o que já sabes e aumentar os teus conhecimentos, que são necessários à luta de reconstrução nacional. Para isto, é preciso que te esforces e que trabalhes com disciplina. Se não sabes o significado de uma ou de outra palavra que encontres nos textos, consulta o vocabulário no fim deste Caderno. Se a palavra procurada não estiver lá, pergunta a um camarada ou fala com o animador cultural, tu camarada também.

As palavras com que se introduz o vocabulário são igualmente palavras de desafio e não de acomodação:

Neste vocabulário encontras o significado de algumas palavras e de grupos de palavras que aparecem nos diferentes textos deste Caderno. Ela é uma ajuda de que te podes servir no teu esforço de compreensão dos textos que foram escritos para ser estudados e não para ser simplesmente lidos, como se fossem puras “lições de leitura”. O vocabulário sozinho não resolve as tuas dificuldades. Tu tens de trabalhar para compreender o próprio vocabulário. Não é por acaso que o primeiro tema tratado no Segundo Caderno de Cultura Popular é o ato de estudar, apresentado em duas partes, como ocorre com a maioria deles, entre os quais alguns são discutidos em três partes. Parecia necessário começar este Caderno provocando um debate em torno do ato de estudar cuja significação pudesse ser apreendida do relato de uma estória simples e de trama provável.

O ato de estudar A

Tinha chovido muito toda a noite. Havia enormes poças de água nas partes mais baixas do terreno. Em certos lugares, a terra, de tão molhada, tinha virado lama. Às vezes, os pés apenas escorregavam nela. Às vezes, mais do que escorregar, os pés se atolavam na lama até acima dos tornozelos. Era difícil andar. Pedro e Antônio estavam transportando numa camioneta cestos cheios de cacau para o sítio onde deveriam secar. Em certa altura, perceberam que a camioneta não atravessaria o atoleiro que tinham pela frente. Pararam. Desceram da camioneta. Olharam para atoleiro, que era um problema para eles. Atravessaram os dois metros de lama, defendidos por suas botas de cano longo. Sentiram a espessura do lamaçal. Pensaram. Discutiram como resolver o problema. Depois, com a ajuda de algumas pêras e de galhos secos de árvores, deram ao terreno a consistência mínima para que as rodas da camioneta passassem sem se atolar. Pedro e Antônio estudaram. Procuraram compreender o problema que tinham a resolver e, em seguida, encontraram uma resposta precisa. Não se estuda apenas na escola. Pedro e Antônio estudaram enquanto trabalhavam. Estudar é assumir uma atitude séria e curiosa diante de um problema.

O ato de estudar B

Esta atitude séria e curiosa na procura de compreender as coisas e os fatos caracteriza o ato de estudar. Não importa que o estudo seja feito no momento e no lugar do nosso trabalho, como no caso de Pedro e Antônio, que acabamos de ver. Não importa que o estudo seja feito noutro local e noutro momento, como o estudo que fazemos no Círculo de Cultura. Em qualquer caso, o estudo exige sempre esta atitude séria e curiosa na procura de compreender as coisas e os fatos que observamos.

Um texto para ser lido é um texto para ser estudado. Um texto para ser estudado é um texto para ser interpretado. Não podemos interpretar um texto se o lemos sem atenção, sem curiosidade; se desistimos da leitura quando encontramos a primeira dificuldade. Que seria da produção de cacau naquela roça se Pedro e Antônio tivessem desistido de prosseguir o trabalho por causa do lamaçal?

Se um texto às vezes é difícil, insiste em compreendê-lo. Trabalha sobre ele como Antônio e Pedro trabalharam em relação ao problema do lamaçal. Estudar exige disciplina. Estudar não é fácil porque estudar é criar e recriar e não repetir o que os outros dizem. Estudar é um dever revolucionário!


Parecem óbvias as preocupações que este texto sobre o ato de estudar revela – a de combater, por exemplo, a posição ideológica, por isso mesmo nem sempre explicitada, de que só se estuda na escola. Daí que seja ela, a escola, considerada, deste ponto de vista, como a matriz do conhecimento. Fora da escolarização não há saber ou o saber que existe fora dela é tido como inferior sem que tenha nada que ver com o rigoroso saber do intelectual. Na verdade, porém, este saber tão desdenhado, “saber de experiência feito”, tem de ser o ponto de partida em qualquer trabalho de educação popular orientado no sentido da criação de um conhecimento mais rigoroso por parte das massas populares. Enquanto expressão da ideologia dominante, este mito penetra as massas populares provocando nelas, às vezes, autodesvalia por se sentirem gente de nenhuma ou de muito pouca “leitura”.(13) Se faz preciso, então, enfatizar a atividade prática na realidade concreta (atividade a que nunca falta uma dimensão técnica, por isso, intelectual,(14) por mais simples que seja) como geradora de saber. O ato de estudar, de caráter social e não apenas individual, se dá aí também, independentemente de estarem seus sujeitos conscientes disto ou não. No fundo, o ato de estudar, enquanto ato curioso do sujeito diante do mundo, é expressão da forma de estar sendo dos seres humanos, como seres sociais, históricos, seres fazedores, transformadores, que não apenas sabem mas sabem que sabem.

[...]
Notas

(*) Este artigo, que foi primeiramente publicado num número especial da Harvard Educational Review, em fevereiro de 1981, número que tratou do tema: “Education as Transformation: Identity, Change and Development”, aparece agora entre nós acrescido de uma segunda parte.

(1) Recentemente independe do jugo colonial português, as ilhas de São Tomé e Príncipe ficam no golfo da Guiné, na costa ocidental da África. A superfície total do país é 1001 km2, tendo a ilha de São Tomé 859 km2 e a de Príncipe 142 km2. A distância entre uma ilha e outra é de 140 km. Em 1970, calculava-se a população do país em 73.811 pessoas. A ilha de Príncipe com 4.662 e a de São Tomé com 69.149. A capital do país, cuja população é de 17.400 habitantes, é a cidade de São Tomé, na ilha do mesmo nome. A independência do país se deu a 12 de julho de 1975.

(2) Isto não significa, porém, que seja fácil viver, em termos críticos, uma tal relação entre a leitura da palavra e a “leitura” da realidade, numa sociedade que se experimenta historicamente como São Tomé e Príncipe. A forte tradição colonial, que não poderia deixar de estar presente à sua prática social, bem viva ainda em muitos aspectos, é um obstáculo àquele tipo de “leitura”.

(3) Há um Terceiro Caderno de Cultura Popular, sobre o ensino de aritmética; um Quarto, sobre Saúde; um Quinto, que se constitui por uma série de textos com os quais se aprofundam as análises de alguns temas discutidos no Segundo, já referido. No momento, dois mais estão sendo impressos. Um deles é um repertório de estórias, de lendas, que expressam a alma popular. O outro, uma introdução ao estudo das riquezas naturais do país. O Quinto e o Sexto cadernos, este último sendo impresso, são de autoria do professor chileno Antonio Faúndez, que vem dando sua contribuição ao país através do Conselho Mundial de Igrejas.

(4) Saliente, com satisfação, que as expressões estar presente na História e nela simplesmente estar representado, no sentido usado no texto, escutei de meu amigo Maurício Tragtemberg, num debate de que participei na PUC, em 1981.

(5) É importante sublinhas o toda vez que possível, no texto, no sentido de chamar a atenção do leitor para as limitações, de resto compreensíveis, dos animadores culturais no desenvolvimento de uma tarefa como esta.

(6) De acordo com informações recentes que me foram dadas pela jovem educadora paulista Kimiko Bakamo, que vem dando uma excelente contribuição ao país, no quadro do IDAC estão funcionando 394 círculos de cultura com a participação de perto de 14 mil alfabetizandos. Trabalhadores rurais e urbanos, com 704 animadores culturais e 25 coordenadores do departamento de alfabetização de adultos. O programa prevê a superação do analfabetismo em quatro anos.

(7) Matabala é uma espécie de batata bastante apreciado na dieta do povo são-tomense. [...]

(12) Sobre como trabalhar com este Caderno, mais uma vez ver Freire, Paulo, “Quatro Cartas aos Animadores de Círculos de Cultura de São Tomé e Príncipe”. In: Brandão, Carlos (org.). A Questão Política da Educação Popular. Brasiliense, São Paulo, 1980.

(13) A autodesvalia tende a ser superada por um sentimento de segurança e confiança na medida em que largos setores populares, mobilizando-se em torno de reivindicações que lhe são fundamentais, se organizam para concretizá-las. A partir daí se sabem sabendo e exigem saber mais. Mesmo em situações como esta, como em parte, pelo menos, é o caso de São Tomé e Príncipe, propor uma reflexão sobre o tema é indispensável.

(14) “(…) en cualquier trabajo físico aunque se trate del más mecánico y degradado, siempre existe un mínimo de calidad técnica, o sea un mínimo de actividad intelectual creadora”. Gramsci, Antonio, Cuadernos del Cárcel: Los intelectuales y la organización de la cultura. México D. F., Juan Pablos Editor, 1975, p.14. [...]
Paulo Freire

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Original: O povo diz a sua palavra ou a alfabetização em São Tomé e Príncipe. In: _____________. A importância do ato de ler: em três textos que se completam. 3.ed. São Paulo: Autores Associados: Cortez, 1983. (Coleção Polêmicas do nosso tempo.) p.42-96.

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