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Por uma política do corpo bibliotecário

Posted December 21st, 2005 in Ensaio and tagged by ExtraLibris

SOLANGE PUNTEL MOSTAFA

Revista Palavra-Chave, São Paulo, n.2, p.13-14, 1982.

Quem viu recentemente o filme Excalibur poderá entender bem o que seja a imagem do bibliotecário no mundo moderno. Embora o filme conte a lenda medieval do Rei Arthur na Bretanha, portanto numa época remota em que quase não existiam bibliotecários, alguns episódios na lenda remetem o bibliotecário moderno para o além, na busca incessante do Santo Graal. O Santo Graal na lenda arturiana representa um símbolo de pureza irmã da pureza do Cristo. O Graal é um curioso exemplo da fusão da lenda cristã com o lendário anterior ao Cristianismo.

Mas a história fica realmente interessante quando depois de ver o filme, a gente lê as maravilhosas analogias que Maurice Line faz com o bibliotecário, especialmente no episódio do cálice sagrado. Se a isso adicionarmos pitadas da filosofia de Rubem Alves, a imagem do bibliotecário fica mais ou menos assim:

Todas as profissões se apropriaram de um certo saber e assim tornaram-se profissões, criaram áureas de mistério para guardar seus objetos e pertences. A biblioteconomia ao tomar por objeto o conhecimento da humanidade sente logo que a responsabilidade é grande demais. Trata logo de classificar esse conhecimento que ela é incapaz de gerar (será? olha aí dica de tese para quem gosta de filosofar). Resulta um profissional organizado, estruturado, pouco criativo, sem tempo para poesia, sem tempo para o amor. Parece que sempre tem conhecimento sobrando nas salas herméticas do processamento técnico. Tudo fica ainda mais difícil porque esse conhecimento, depois de classificado, começa a circular e acaba gerando mais conhecimento, o que faz com que o bibliotecário fique velho antes do tempo. É conhecimento demais para nossa tenra idade.

Mas será que esses impasses não acontecem também em outras profissões?

Isso naturalmente causa determinadas posturas. O coração dói ao sentir a problemática e organiza o mundo de modo a poder enfrentá-lo. Não é assim com os animais? O tigre caçador tem olhos bem na frente da cara. Tem que enxergar longe a gazela; essa por sua vez tem que enxergar em círculo para não ser surpreendida por trás ou pelo lado: os seus olhos têm que ver em todas as direções; por isso pernas bem leves e olhos um pra cada lado do rosto. Nossos corpos animais são também históricos. Só que às vezes a gente se cansa de tanto se adaptar. O cansaço provoca alucinações e a gente sai do próprio corpo. Daí que cá pra nós, fantasiar é coisa nossa mesmo, coisa de gente.

As fantasias bibliotecárias foram suficientemente bem exploradas por Line. Os bibliotecários poderão ter sua auto-imagem retratada periodicamente em artigo publicado sob o título Demystification in librarianship and information science da coletânea Essays on information and libraries, editada por Keith Barr e Maurice Line, em 1975.

Apanas para facilitar daremos pinceladas em Line. Só que Line não se contentou em dar-nos pinceladas. Botou-nos em knockout já no primeiro round. Sem a pretensão de traduzir sua ironia, o que é impossível, resta-nos louvá-lo e apresentar alguns para poder acompanhá-lo.

Excalibur, a superprodução do cineasta John Boormanm, exibido recentemente no Brasil, conta a lenda do rei Arthur da Távola Redonda e é tão conhecida no mundo inteiro que, como comenta a Folha de S.Paulo, até as crianças sabem que Merlin é o mago, a rainha Guinevere é a amante do principal e mais famoso cavaleiro do rei, Lancelot; e que o rei Arthur foi criado (?) pelo mago e que era a única pessoa capaz de arrancar a espada da pedra onde fora enterrada; e que nessa miscelânea de verdades e fantasias todos buscam o Santo Graal, cálice sagrado onde Cristo bebeu o vinho com os apóstolos e no qual José de Arimatéia teria colhido as gotas de sangue de Jesus, por ocasião da morte. A popularidade da lenda é tanta que até Walt Disney antes de morrer, em 1963, evocou-a no desenho animado “A espada era a lei”. Portanto, as crianças sabem tudo de cabo a rabo. Quanto ao cálice, ninguém o vê de graça. Para vê-lo, há que ter pureza de coração e não há como esquecer o cálice que passa a ser a razão de vida daqueles cavaleiros.

De onde então o bibliotecário de Line, que também é nosso, retira essa candura d’alma e afinal, o que vem a ser o cálice do bibliotecário? Librarians continually seek the holy grail… some day, the legend goes, if sufficient people search hard enough… they will find the holy grail. [*]

Dos códigos de catalogação passamos às maravilhas da classificação facetada e dessas às mais facetadas, mas não se cansa nunca de buscar e rebuscar facetas? Line tem razão quando diz que a pureza de coração, o bibliotecário a consegue de fora da realidade. Todo contato com a realidade é pernicioso. Contagia e faz mal. E nesse cansaço internacional o bibliotecário não consegue mais ver a simplicidade da biblioteca, agora algo extremamente complexo: para operá-la temos que ser também complexos e são nossos complexos que fazem o cálice passar de geração a geração sem que nunca o possamos tocar. Cada nova geração complica mais um pouquinho. As antiquíssimas (porém atuais) tabelas de classficação e códigos de catalogação foram substituídos por coisas mais modernas: bom mesmo é avaliar serviços, publicar artigos, estudar a comunicação (mas onde estão as bibliotecas para que as avaliemos, onde estão as pesquisas para que as publiquemos e quem é que se comunica no mundo de hoje?). Alguém já expermentou escrever artigos? As revistas aceitam artigos mas suas idéias não podem aparecer ou se você tem algo a dizer só pode fazê-lo pela boca de outrem. O corpo do outro tem sempre um valor inquestionável. Seu corpo! Quem é você? Tem que sair correndo à cata de outro alguém; vivo ou morto não importa, melhor se for de bem longe daqui. As tais bibliografias… inseridas no texto, coladinhas. Se acontecer de você ter idéias que ainda outros corpos não tiveram, terá que esperar… dizem que a idéia da coisa está sempre no ar: pirâmides no Egito, pirâmides no Peru, mas sempre pirâmides… quando a idéia explode, alguém já pegou: seu trabalho de pesquisa é descobrir quem pegou primeiro. Cientificamente.

Precisa ter braços firmes para esse sol, para esse mar, tudo é perigoso, tudo é divino maravilhoso, cuidado: temos de estar atentos, o núcleo bradfordiano pode estar por perto. Há que impor restrições, sei lá, maximizar a minimização, coisas de programação linear, vai contando as citações até que o cio vence o cansaço. Só que no amor a gente tem que ficar como rei, corpo inteiro bem junto do sol, perto do mar. E aí o corpo não pode ter estrutura de coisa nenhuma. Apenas abandono.

Todos conhecem a história de Andersen: um certo rei chamou costureiros famosos no palácio, que lhe fizeram roupas maravilhosas, com o prêmio de receber o peso das roupas em ouro. Os costureiros passaram a tecer roupas encantadoras, só que de mentirinha: ao rei, eles iam dizendo que as roupas lhe caíam muito bem. O rei, de tão orgulhoso, não conseguia enxergar sua nudez. O povo nas ruas era proibido de contrariar o rei. Pelado na carruagem e crendo que vestia roupas maravilhosas, ao som de elogios da população, o rei começar a desfilar até que uma criança da platéia grita: o rei está nu!

As roupas excessivas da biblioteconomia não deixam de ser mecanismos de defesa, constructos de personalidade para formar a imagem de que o biliotecário também é cientista, também é corpo estruturado de conhecimentos.

Todas as estruturas vivas são autopreservativas, não é isso que aprendemos da teoria de sistemas? Qualquer estrutura viva se autoreproduz: estrutura psiquíca, estrutura da comunicação científica, estrutura econômica, estrutura cultural. Se ela se autoreproduzir, ela morre. Fica mole. Já viu esturutra mole? Lembra-me o caso da entropia negativa. Entropia engativa? E ainda em inglês! Uma semana pra entender que isso aí era isso aqui. Meu Deus, precisamos formar pessoas que falem simples, que possam decodificar, trocar em miúdos. Se o método é complicado, a gente troca de método, mas importa mais o menu. Não adianta esconder o menu. Tem de estar às claras para a gente fazer o pedido. Está difícil o pessoal entender o discurso da Vera: primeiro o conteúdo e depois o método. O conteúdo é que precisa ser trabalhado. Coisa natural é bom. Currículos sem conservativos na formação profissional do bibliotecário. Alimentação fibrosa: maçãs com casca, laranja com bagaço, milho cozido na praia não é bom?

Morrer para viver. Vamos ser menos estruturados? É o corpo que pede. Diz pro universitário, o escolar, o público e o especializado fazer o mesmo. O mundo é bom. A felicidade até existe…

Solange Puntel Mostafa
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[*] Os bibliotecários incessantemente procuram pelo santo graal… algum dia, a lenda passa… se pessoas o suficiente procurarem com persistência… elas irão encontrar o santo graal. [EL]

Original: MOSTAFA, Solange Puntel. Por uma política do corpo bibliotecário. Palavra-chave, São Paulo, n.2, p.13-14, 1982.

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