Produção editorial em Biblioteconomia
Gustavo Henn
Dia desses li uma entrevista do professor Briquet de Lemos, um dos grandes nomes da biblioteconomia nacional, que comanda a editora homônima, única especializada em publicações nas áreas de biblioteconomia e ciência da informação neste país. O que mais me chamou a atenção, além de ter descoberto que ele é pai dos irmãos Lemos do Capital Inicial (acho que só eu não sabia disso), foi o que ele apontou como causa da produção editorial em CI no Brasil não ser satisfatória. Ele não culpou a falta de leitura dos bibliotecários, não culpou os preços dos livros, dois mitos ultrapassados e equivocados quando se trata de impressos. Ele reclamou foi da falta de autores, da falta de produção. Prova disso são os lançamentos do ano de 2005 da editora. Dos quatro livros novos no site, três são ou segunda edição ou relançamento.
Ao ser perguntado sobre a produção editorial da área no Brasil, respondeu:
“Pouco se publica. Pouco se escreve orientado para estudantes e profissionais. Os apelos que tenho feito para que os autores potenciais me apresentem originais de livros publicáveis não são respondidos. Parece que não há um compromisso dos professores, muitos portadores da indispensável qualificação e da desejável experiência, no sentido de dotar o ensino e a profissão de instrumentos de aprendizagem adequados e em variedade suficiente.”
É sobre essa afirmativa, tão alarmante quanto grave, que quero comentar.
Pouco se publica. É verdade. Sejam livros ou sejam artigos, muito pouco se publica em CI no Brasil. Não é preciso muito esforço para comprovar, basta fazer uma pesquisa no Google e ver que nem sequer há blogs em quantidade razoável sobre a área. Há, no entanto, ótimas experiências e iniciativas, entre as quais destaco o blog Bibliotecários sem fronteiras, o Portal do Profissional da Informação da UFMA (em fase de reestruturação), e o portal do professor Oswaldo Almeida Junior, além da ExtraLibris.
Pouco se escreve orientado para estudantes e profissionais. Não se publica por não haver o que publicar ou não se produz por não haver onde publicar? Um pode ser o corolário do outro. No entanto, ao se fazer um levantamento nos periódicos da área percebe-se que há sim produção e publicação orientada a estudantes(ainda que de pós-graduação). O problema é que boa parte dos novos autores que escrevem para periódicos científicos estão em busca de mais pontos no currículo, ou de cumprirem uma tarefa de casa da pós-graduação. Enquanto que os mais experientes pretendem consolidar seu nome em algum tema, ou dar retorno de suas pesquisas aos financiadores. Isso tudo resulta em artigos medianos, sem novidades nem sequer variações sobre o mesmo tema. De cabeça, sou capaz de afirmar que 90% das publicações da área são de professores universitários. E o restante fica com os pós-graduandos. Isso acarreta em dois sérios problemas. O primeiro: a linguagem(e o temário) academicista utilizada tanto por professores quanto por pós-graduandos afasta os profissionais e os estudantes da graduação dessas publicações. O segundo, e mais grave, é que desencoraja a produção de profissionais que possuem apenas experiência e não títulos. Como concorrer com um pós-doutorado?
“Os apelos que tenho feito para que os autores potenciais me apresentem originais de livros publicáveis não são respondidos. Parece que não há um compromisso dos professores.” Os problemas que apontei acima, recaem mais gravemente neste parágrafo. Parece-me explícita a idéia de que “autores potenciais” são professores. (O que é uma falácia, Felícia.) Mas contando que seja um desejo, os professores parecem então terem mais o que fazer do que ficar escrevendo livros. Ou será que, em verdade, eles admitam que não há o que escrever? Que tudo o mais já foi escrito? Sim, pois a biblioteconomia apesar de todos os esforços, ainda é bastante fechada a inovações, a invenções, a contestações. E escrever é, sobretudo, um ato de divergência, de questionamento, de dúvida, de subversão. E os bibliotecários ainda não estão acostumados com essas palavras.
É como se fossem suficientes os livros que já existem, e os autores que já existem. Tem-se que ir atrás de quem quer escrever e escreve, de quem quer produzir e produz. De quem pensa. De quem tem mais do que uma boa idéia na cabeça. Aos poucos, estamos nos encontrando.

Gustavo, concordo com vc..
Eu to tentando mudar um pouco isso, criei o Infocultura – Comunicação Científica ( http://infocultura.info/cc ), que é um espaço para a publicação de trabalhos que não seriam publicados por editoras, mas que são uma contribuição importante para a área. Dá uma olhada… Abraços..
Ah, esqueci de te falar, eu criei uma tag “Bibliografia de Concursos” com as indicações suas do blog de concursos…
olá tiago, ótima iniciativa. parabéns e obrigado pela força. força!