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Visita orientada à Biblioteca de Babel de Borges

Posted May 14th, 2007 in Ensaio and tagged by ExtraLibris


Gustavo Henn

Resumo: Apresenta conceitos e teorias a respeito do conto “A Biblioteca de Babel”, do escritor, poeta e bibliotecário argentino Jorge Luís Borges(1893-1986), mestre do realismo fantástico. Os livros, os símbolos e os meios de comunicação colocados pelo autor. Propõe tal texto como precursor da internet e da sociedade em rede. Faz comentários à luz de artigos publicados na web por pesquisadores de renome internacional, como John Sowa e Claudio Salpeter. Conclui que os bibliotecários precisam se familiarizar com as obras que contribuem e acrescentam para sua profissão.

1. Intróito

A Biblioteca de Babel, de Borges, talvez lembre a Biblioteca Nacional da Argentina, onde o escritor foi bibliotecário durante anos(período em que escreveu este conto), e em outro período foi o diretor. Seu espanto diante de tantas possibilidades pode tê-lo levado a escrever este texto que é um marco na literatura fantástica e que intriga e desafia arquitetos, engenheiros, astrônomos, físicos, lingüistas, historiadores e – surpresa! – bibliotecários, desde 1941, a expressarem suas verdades e concepções da verdade a respeito do universo(que outros chamam a biblioteca).

O escritor argentino põe à prova um pouco de cada ciência. São salas hexagonais repletas de estantes, vãos, escadas, latrinas, a confundir arquitetos e engenheiros, é o espaço absoluto a fazer o astrônomo pensar, são as vindicações a complicar os historiadores, são as idéias de livros circulares a envolver físicos e matemáticos; são os 25 símbolos para os lingüistas, e é toda a Biblioteca de Babel para o bibliotecário raciocinar e elucidar. Sowa diz que Borges acabou predizendo a web e a sociedade em rede, pois as salas hexagonais são interligadas por “estreitos vestíbulos” e por “escadas espirais que se abismam e se elevam ao infinito”.

“His imaginary library consists of an infinite array of hexagonal rooms with shelves of books containing everything that is known or knowable. Unfortunately, the true books are scattered among infinitely many readable but false books, which themselves are an insignificant fraction of the unreadable books of random gibberish. In the story by Borges, the library has no catalog, no discernable organization, and no method for distinguishing the true, the false, and the gibberish. In a prescient anticipation of the World Wide Web, Borges described people who spend their lives aimlessly searching through the rooms with the hope of finding some hidden secrets. But no matter how much truth lies buried in such a collection, it is useless without a method of organizing, evaluating, indexing, and finding the books and the theories contained in them.”

Essa afirmação é correta, mas é possível pensar na web e na sociedade em rede como evoluções das bibliotecas remotas, as primeiras bibliotecas, e de suas interligações e permuta de informação e conhecimento. O que Borges fez, com acuidade considerável de gênio, foi perceber a(s) biblioteca(s) isoladas ou conjuntamente, como universos capazes de abarcar todo o conhecimento possível – apenas o impossível está excluído.

Jorge Luís Borges observou que a biblioteca é um organismo vivo e pulsante(teria ele se inspirado na quinta lei de Ranganathan, a biblioteca é um organismo em crescimento?) que encerra em si o tempo e o espaço(que pode ser o espaço propriamente dito, ou o espaço do teclado), o ponto, a vírgula e as 22 letras do alfabeto, e através deles mostra aos homens como controlar o universo, a vida e a morte. São os 25 símbolos que combinados entre si levam ao infinito.

2. A teoria do universo como biblioteca

Comparar o universo e todas as suas possibilidades(excluído apenas o impossível) à biblioteca faz o leitor mediano pensar em como seria um mundo cheio de livros. No entanto, a Biblioteca de Babel proposta por Borges é o próprio universo. Os livros desconhecidos e escondidos, os ininteligíveis, os ilegíveis, misturados aos best-sellers, aos vindicadores, aos doutrinadores. Essa associação com o universo não é em momento nenhum obra do acaso ou um achado aleatório, é resultado de observação criteriosa de tudo o que uma biblioteca guarda e de como as pessoas reagem a ela.

O universo da Biblioteca de Babel é formado por galerias hexagonais idênticas, que se interligam por vestíbulos e escadas. Nada há além disso. O universo está nas possibilidades infinitas, capazes inclusive de predizer o destino de uma pessoa. Algumas das teorias criadas por Borges trazem à tona a importância de se saber o que se procura e onde, evitando assim tempo perdido. A eterna busca pelo “Catálogo dos catálogos” – sugerida através de vários métodos, o mais aceito era um método regressivo, onde para se achar o livro A, achasse primeiro o livro B que contivesse o lugar de A; para achar o livro B, achar primeiro o livro C que contivesse o lugar de B e assim por diante – e também por sua própria vindicação, mostra a importância dos bibliotecários neste universo, embora a solidão tenha diminuído consideravelmente a quantidade deles.

O catálogo é o instrumento que guarda a representação de todos os livros da biblioteca. A classificação é a afinidade filosófica do que trata o livro. Na Biblioteca de Babel, os livros são uniformes fisicamente – mesmo tamanho, mesmo número de letras, mesma capa, mesma lombada – e as chances de alguém decifrar o seu conteúdo – em qualquer idioma ou dialeto conhecido – são pequenas, é possível imaginar o desprezo pela classificação de assuntos.

Os livros da biblioteca estão ordenados por ordem de criação, e o catálogo dos catálogos, caso seja encontrado, revelará o exato paradeiro de cada um. Pode-se afirmar isso com base na seguinte passagem do texto borgeano: “… um (livro) que meu pai viu no hexágono de circuito quinze noventa e quatro…”. A partir do momento que existe um endereço para um hexágono, infere-se que haja endereço para todos, e conseqüentemente também para cada livro. O arranjo dos livros nas estantes pouco preocupa os bibliotecários, pois todo tipo de mudança de lugar ou mesmo de destruição já está prevista por algum livro e já consta no catálogo dos catálogos.
3. O bibliotecário

Não é pretensão demais pensar que um dos maiores enigmas do universo seja quem nasceu primeiro: se o bibliotecário ou a biblioteca. Talvez as bibliotecas tenham surgido das mãos de bibliotecários engenhosos. Na Biblioteca de Babel, o bibliotecário deve ter sido o primeiro ser humano, o primeiro a explorar e a conhecer os mistérios do universo e o conteúdo dos livros. “Antes, a cada três hexágonos existia um bibliotecário. Os suicídios e as enfermidades destruíram essa proporção”. Este fato, somado às seitas e aos inquisidores, transformou a desordem em regra para o universo. Também está nele, ainda que disfarçadamente, uma característica comum aos bibliotecários: a solidão.

Mas qual o papel dos bibliotecários na Babel? Mais de guardião e orientador do que de pesquisador. O serviço de referência era o principal labor dos bibliotecários de Babel. Conversar com todos e informar a todos, sem preconceitos. Desde a criança que busca ávida ler todos os livros, ao mais alucinado inquisidor da biblioteca.
4. Os hexágonos e os livros indefesos

Claudio Salpeter, docente de análise matemática na Universidade de Buenos Aires, explica, em seu texto La Matematica Biblioteca de Babel, a razão de Borges para a escolha das formas hexagonais para preencherem o espaço do universo:

“Es dable suponer que estos hexágonos son regulares, es decir, tienen todos sus lados y sus ángulos iguales. Existen ciertos polígonos regulares que cubren, geométricamente hablando, todo el plano; esto es, puede rellenarse una superficie con ellos sin que queden huecos. Sólo tres figuras logran esta hazaña: los triángulos equiláteros, los cuadrados y los hexágonos regulares.”

No texto, Borges diz que as salas hexagonais são uma forma necessária do espaço absoluto, ou, pelo menos, de nossa intuição do espaço. Por essa razão é inconcebível uma sala triangular ou pentagonal. Continua Salpeter:

“Podemos, si es paciente el lector, razonar el cubrimiento de los hexágonos regulares. Existe una sencilla fórmula matemática que nos brinda, dado el número de lados de un polígono regular (que llamaremos n), la suma de todos sus ángulos interiores: S=180º(n-2). No es difícil ver que para el hexágono (n=6) la suma de los ángulos interiores es 720º. Dado que hay seis ángulos iguales, cada uno medirá 120º. Una figura ayudará a comprender esta situación: En cada vértice, como se ve, confluyen tres ángulos de 120º cada uno, que suman en total 360º; no hay sitio para los huecos. Tengo entendido que las abejas construyen sus panales en celdas hexagonales. Puede demostrarse que dada un área determinada, de los polígonos regulares que cubren el plano, el hexágono es el de menor perímetro. Esto indicaría una cierta capacidad de economía en el Constructor de la Biblioteca, y en las abejas.”

O hexágonos são formas necessárias de espaço absoluto – entenda-se os hexágonos regulares(os da Biblioteca de Babel são idênticos uns aos outros, tal perfeição só seria possível a partir de hexágonos regulares) – e, juntamente com o triângulo eqüilátero e o quadrado, são as três figuras que cobrem todo o plano. Porém, dentre eles, o hexágono é o de menor perímetro. Constitui assim uma economia de tempo e de espaço. Para o desenho deste universo, impossível evitar a associação com as colméias das abelhas. Entretanto, o universo conhecido está além da terra, é o espaço sideral, com seus sistemas, seus sóis, suas plêiades, nebulosas, astros que ainda brilham mas que, na verdade, já se extinguiram.

Dois lados de cada hexágono são livres, os outros, cobertos por estantes. A altura é a das estantes, nada além do que a altura de um bibliotecário normal. Cada estante encerra 5 prateleiras; cada prateleira, 32 livros de formato uniforme; cada livro é de 410 páginas; cada página, de quarenta linhas; cada linha, de umas oitenta letras de cor preta. Também há letras na lombada de cada livro, ainda que estas letras não indiquem o conteúdo do livro.

A biblioteca de babel é total, e suas estantes guardam todas as possíveis combinações dos vinte e tantos símbolos ortográficos(número ainda que vastíssimo, não infinito). Para exemplificar, alguns estudiosos dizem que é como se alguém resolvesse digitar indiscriminadamente infinitas páginas, preocupando-se apenas com as dimensões uniformes do livros. Em algum momento os caracteres passariam a se repetir por duas, três ou mais páginas. Borges então fala de um livro que continha linhas homogêneas e que depois de séculos teve seu conteúdo decifrado: tratavam de análise combinatória, e era ilustrado por exemplos de variações com repetição ilimitada. Para explicar o arranjo da biblioteca, Salpeter escreveu:

El análisis combinatorio, o simplemente, la Combinatoria, es una parte de la Matemática que se encarga de las técnicas de conteo. Suele describírsela como el arte de contar sin enumerar. Por ejemplo, supongamos que queremos hacer una tira de 3 casilleros utilizando sólo las letras A y B. Las posibilidades son: AAA, AAB, ABA, ABB, BAA, BAB, BBA, BBB. Es decir, 8 formas. Esto puede verse así: en el primer casillero pueden ir A ó B; por cada una de estas dos posibilidades, en el segundo casillero pueden ir A ó B; y por cada una de estas dos últimas posibilidades pueden ir en el tercer casillero A ó B. Es decir, tenemos 2.2.2 = 23=8 . En general, si tenemos una tira de n casilleros y podemos utilizar m letras, la cantidad total de posibilidades es: mn. Estos grupos de elementos (en el ejemplo, tiras de letras) se denominan variaciones con repetición. Se llaman con repetición porque cada elemento puede intervenir varias veces en cada agrupación. Como ejemplo, puede calcularse el número de patentes posibles de los autos: 273.103, es decir, 19 683 000. Creo ya haber adelantado que el narrador de La biblioteca de Babel había indicado algunos números referidos al contenido de las galerías: A cada uno de los muros de cada hexágono corresponden cinco anaqueles; cada anaquel encierra treinta y dos libros de formato uniforme; cada libro es de cuatrocientas diez páginas; cada página, de cuarenta renglones, cada renglón, de unas ochenta letras de color negro. Permítame el lector aburrirlo con algunas cuentas. Cada libro tiene 410 páginas. Cada página tiene 40 renglones, esto es, hay 16400 renglones en un libro. Cada renglón tiene 80 letras, esto es, hay 1 312 000 letras en un libro. Ya que sólo pueden utilizarse 25 símbolos, el número total de posibilidades de combinación de esos símbolos en los 1 312 000 “casilleros” es: 251312000 (número, aunque vastísimo, no infinito).

Os 25 símbolos são: o espaço, o ponto, a vírgula e as 22 letras do alfabeto. Salpeter comprova que as possibilidades são finitas para um único livro: 251 312 000, número, ainda que vastíssimo, não infinito. Porém não se arriscou a expandir suas contas para a prateleira, o que o obrigaria a elevar o número supracitado à 32ª potência. Quando fosse passar para os hexágonos, a enésima potência teria que ser considerada. Portanto, as chances das letras constantes na lombada predizerem o que a combinação dos símbolos internos do livro significa, em qualquer uma das línguas já existentes no universo, são remotas. Explicado isso, é importante passar para a devastação dos livros da biblioteca. É necessário entender porquê os livros são caçados, rasgados e adorados.

Para os livros serem entendidos ou pressupostos, precisam ser lidos por alguém capaz de decifrá-los. Todavia, as chances de alguém encontrar um de que seja capaz de decifrar, ou então de ler e estudar livros bastantes para poder decifrar a maioria, também são remotas. Os homens não se conformaram com este fato. Surgiram então os inquisidores dos livros, que caçam e destroem os livros julgados à sua própria revelia como desnecessários. Surgiram também seitas, de vários tipos, algumas capazes de louvar os livros como deuses; outras, de perseguí-los sem piedade e sem cansaço. Mas como a Biblioteca é infinita, qualquer redução de origem humana é infinitesimal. Convém lembrar que cada livro é único, porém possui milhares de cópias perfeitas ou quase perfeitas. O que corrobora para a redução ser ainda mais infinitesimal.
5. A (des)ordem do universo

A existência de catálogos na Biblioteca de Babel é sugerida quando o narrador diz ter peregrinado “em busca de um livro, talvez do catálogo dos catálogos”. Essa afirmação prefigura que, em termos de organização, havia alguns catálogos contendo as obras de cada hexágono ou de circuitos de hexágonos. O que não se pode inferir é se esses catálogos conteriam apenas as palavras constantes no dorso do livro – que como já foi visto não dizem nada sobre o conteúdo do livro – ou se pelo conteúdo do livro, após este haver sido examinado por um especialista. Podendo assim serem feitos até resumos e uma indexação detalhada. Afinal, um catálogo contendo apenas títulos como “Trono Penteado”, “A Cãibra de Gesso” e “Axaxaxas Mlö” não seria um meio de recuperação da informação confiável. Em outras passagens do texto, Borges também colabora com a idéia de que existissem realmente catálogos nos hexágonos, capazes de indicarem o lugar de outros livros. Porém, em nenhum momento é dito algo sobre a disposição dos livros nas estantes. Entende-se que essa organização era feita sem ordem, posto que os livros eram de formato uniforme e diferiam apenas pelos símbolos constantes na lombada.

Borges conclui seu conto fantástico:

“Atrevo-me a insinuar esta solução do antigo problema: A Biblioteca é ilimitada e periódica. Se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes de repetem na mesma desordem (que, reiterada, seria uma ordem: a Ordem). Minha solidão alegra-se com essa elegante esperança.

Esses conceitos de ordem e desordem podem ser entendidos como ruídos dentro da imensidão da Biblioteca de Babel, onde a organização e a catalogação são tão misteriosas e intrigantes quanto os 25 símbolos e as formas hexagonais. Francelin(2003) afirma que:

Parece que, quando ocorre certo tipo de evento caracterizado como ruído, a informação se fragmenta, e parte desses fragmentos pode perder seu sentido, provocando desordem em um processo supostamente ordenado. Não querendo entrar na discussão sobre a questão de existir ou não ruído em todo o processo informacional, parte-se do pressuposto utilizado por Morin sobre ordem e desordem, por meio do qual o ruído também pode ser uma informação dentro de outra informação, ou seja, a informação dentro da informação. Sendo o ruído possível uma possível desordem, isto quer dizer que ele possui uma ordem (ordem a partir do ruído) e, dessa maneira, o ruído também pode ser uma informação.

Francelin(2003) baseou-se em Edgar Morin(apud FRANCELIN, 2003) e nas suas teorias de pensamento complexo onde há “ordem dentro da desordem” e “certeza da incerteza”.
6. Conclusão

A leitura e o conhecimento de obras deste vulto por bibliotecários e estudantes de Biblioteconomia pode ser uma grande aliada para melhorar a auto-estima desta profissão, tão antiga quanto os registros do conhecimento, cada vez mais olhada de viés pela sociedade e que, com os avanços tecnológicos, vem paulatinamente perdendo sua identidade e se distanciando do que um dia Ortega y Gasset disse ser sua missão: servir de filtro entre o conhecimento e a humanidade.
Referências

BORGES, J.L.(1972) Título: Ficções. São Paulo: Abril.

FRANCELIN, M.M.(2003) A epistemologia da complexidade e a ciência da informação. Ciência da Informação, v. 32, n. 2, p. 64-68, maio/ago.

SALPETER, C.(2003) La Matematica Biblioteca de Babel. Disponível em: <http://www.temakel.com/artborgesbabel.htm>. Acesso em: 15 out. 2003.

SOWA, J.F.(2003) Process and Causality. Disponível em: <http://users.bestweb.net/~sowa/ontology/causal.htm>. Acesso em: 15 out. 2003.

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