Busca e resgate
Por Tim O’Reilly
Tradução de Moreno Barros
Autores lutam, normalmente em vão, contra sua predestinada obscuridade. De acordo com Nielsen Bookscan, que acompanha as vendas das maiores editoras [americanas], apenas 2% de 1,2 milhão de títulos únicos vendidos em 2004 obtiveram vendas superiores a 5.000 cópias. Por trás desse cenário, o recente processo promovido pelo Authors Guild contra o Google Library Project é pungentemente errôneo.
O Authors Guild afirma que o plano do Google para tornar as coleções de cinco grandes bibliotecas disponíveis online viola leis de direitos autorais e então atinge os interesses dos autores. Como autor e editor, eu acho que a posição do Guild está exatamente invertida. A biblioteca do Google promete ser uma alavanca para autores, editores e leitores se o Google se manter fiel à sua meta de criar uma ferramenta que ajuda as pessoas a encontrar (e potencialmente pagar por) trabalhos protegidos pela lei autoral. (Aviso: eu sou membro de conselho editorial do Google Print. Como o nome implica, é apenas um grupo conselheiro, e o Google pode acatar ou não nossas sugestões).
O que está causando todo o pânico? O Google se uniu as Universidades de Michigan, Harvard, Stanford, a Biblioteca Pública de Nova York e a Universidade de Oxford. Google vai escanear e indexar as coleções de suas bibliotecas, de modo que um leitor procure no Google Print por, digamos, “direitos autorais”, os resultados apontem para livros que contêm aquele termo. Em um formato que lembra os atuais resultados das buscas na Web, Google vai mostrar pedacinhos (tipicamente, menores do que três sentenças de textos, de cada página, de cada livro) que incluem o termo de busca, mais informação sobre o livro e onde encontra-lo. O Google assegura que disponibilizando esse volume limitado de conteúdo está protegido pela doutrina de “uso justo” sob as leis americanas de direitos autorais; o Authors Guild reclama que isso é uma infração, porque a tecnologia de busca por termos requer uma cópia digitalizada da obra completa.
Eu estou com o Google nesta. Seria certamente considerado uso justo, se, por exemplo, eu circulasse um catálogo dos meus livros favoritos, incluindo uma série de citações de cada livro que ajudaria as pessoas a decidir se devem comprar uma cópia. Na minha cabeça, fornecer tais pedacinhos algoriticamente sob demanda, como o Google faz, não modifica a dinâmica. O Google permite clicks de mouse sobre o livro apenas se for um de domínio público ou se os editores estiverem de acordo com o programa. Se não é claro quem detêm os direitos sobre o livro, então apenas os pedacinhos são mostrados.
Uma máquina de busca para livros será revolucionária em seus benefícios. Obscuridade é uma ameaça para os autores maior do que o infringimento das leis autorais, ou mesmo pirataria. Enquanto os editores investem em cada um de seus livros, eles dependem dos bestsellers para continuarem vivos. Normalmente jogam seus produtos no mercado para ver o que vende, e retiram aqueles que falham, significando que um autor tem apenas uma chance para alcançar os leitores. Até agora.
O Google promete uma alternativa para obscuridade imposta na maioria dos livros. Ele torna essa grande massa dos abaixo-dos-bestsellers disponíveis para todos. Apontando para um imenso volume de trabalhos impressos online, Google oferecerá um meio de promover livros que os editores descartaram, criando uma oportunidade para os leitores encontrá-los e comprá-los. Mesmo vendedores online como Amazon oferecem apenas uma pequena fração dos títulos das bibliotecas universitárias. Enquanto existem muitas perguntas sem respostas sobre como o negócio irá ajudar os consumidores a comprar livros que eles encontraram através de uma máquina de busca para materiais impressos, tão poderosa quanto o atual sistema de buscas do Google na Web, é muito provável que o Library Project do Google Print irá criar um mercado novo para conteúdo esquecido. Em outras palavras garrafais, o Google dará novo valor para milhões de trabalhos órfãos.
Eu lamento ver autores comprando a idéia do velho protecionismo do Authos Guild, sem perceber que eles estão agindo contra seus próprios interesses. Sua resistência vem apenas de uma falha no entendimento da natureza do programa. A Biblioteca do Google pretende ajudar os leitores a descobrir trabalhos com direitos autorais, e não distribuir cópias. É um tremendo serviço para os autores que irá ajuda-los a combater as mazelas do mercado editorial atual.
Google também está resolvendo um grande problema para o mercado editorial. Já que ninguém sabe quem é dono de muitos das obras em questão, o trato inovador do Google com as bibliotecas é a única aproximação prática. Elimina todas as pontas perdidas, direitos esquecidos e trabalhos ignorados. Quando o público perceber o valor dessas obras, os editores e autores serão incentivados a voltar atrás e conceder suas autorias para garantir as rendas compartilhadas oferecidas pelo serviço do Google Print.
Tim O’Reilly, editor de livros de computação, é co-produtor do recém realizada Web 2.0 Conference.
Texto original disponível em: http://radar.oreilly.com/archives/2005/09/ny_times_op_ed_on_authors_guil.html
