EZEQUIEL THEODORO DA SILVA
Da Faculdade de Educação, UNICAMP.
Revisa Palavra-Chave, São Paulo, n.3, p.13-15, 1983.
O título deste texto traz em si uma noção que acho fundamental para o homem: a noção de falta. Acredito que o ser humano estabelece objetivos de vida, busca o seu auto-aperfeiçoamento exatamente no momento em que a noção de falta desponta em sua consciência. As nossas ações mais significativas, as nossas lutas individuais e grupais, os nossos movimentos em direção à verdade e as nossas caminhadas em busca da melhoria das coisas sempre apresentam, na sua essência, alguma coisa que falta – algo que deveria estar ali mas não está, que poderia ser nosso mas ainda não é, que gostaríamos de possuir mas não possuímos, que ainda se apresenta como uma utopia mas poderá tornar-se realidade.
Quando a falta envolve o nosso ser, ela nos impõe determinados desafios. Esses desafios nos deixam num estado de inquietação. Essa inquietação, para ser superada, nos impulsiona a ações concretas sobre o mundo. São essas mesmas ações as geradoras de cultura e de história, pois as superações dos desafios sempre deixam atrás de si as marcas do humano. Essas marcas, por sua vez, serão significativas e benéficas à medida que contribuírem para com o desenvolvimento da prática coletiva de uma sociedade em uma etapa específica de evolução. Todo este movimento transformador tem como raiz a noção de falta – sem essa noção as nossas necessidades de auto-avaliação constante, de criatividade, de novas responsabilidades assumidas dificilmente viriam à tona; teríamos, então, a rotina, a mecanização, a estagnação e outros fenômenos alienadores permeando as nossas atividades.
No campo da biblioteconomia e, portanto, na vida dos bibliotecários brasileiros esta noção de falta está visivelmente presente. Em verdade, chega a faltar tantas coisas na área específica de circulação de informações bibliográficas neste país, que impedem os especialistas envolvidos de crescerem e se auto-realizarem. Nestes termos, falta bibliotecas, falta livros para o povo, falta a atualização dos acervos, falta de mercado de trabalho aos nossos bibliotecários, falta salários condignos, falta respeito e reconhecimento profissional, falta união da classe, falta o hábito de leitura, falta lugares nas bibliotecas existentes etc… etc… A noção de falta, que, segundo já dissemos, deveria agir como um desafio para a realização do homem, no caso da biblioteconomia muitas vezes ganha um caráter extremamente frustrante, chegando a gerar apatia e falta de esperança. E baseado nas políticas de distribuição de informação escrita no Brasil, acredito que não estaríamos errados em colocar a seguinte afirmação – “no campo da circulação da cultura letrada temos pouco e falta muito”. No meio deste contexto tão negro e degradante, igual a tantos outros contextos em crise passada e presente (educação, saúde, política etc…), encontramos a figura de um profissional quase que completamente ou mesmo totalmente coisificado: “o bibliotecário”.
Mas, o surgimento de um elemento coisificador gera o seu elemento contrário, ou seja, o elemento descoisificador. Assim, a falta gera o procura e a posse, a alienação gera a conscientização, as forças opressoras geram as forças libertadoras, a estagnação gera o desenvolvimento, a dependência gera a independência etc… É por estar consciente desses contrários que os homens não convivem eternamente com as forças bloqueadoras de seu bem-estar social. Como já afirmei, os bibliotecários brasileiros encontram-se, neste momento histórico, dentro de um terreno repleto de estacas opressoras e, por isso mesmo, frustradoras. Eu até perguntaria: em termos de trabalho profissional, quantos bibliotecários efetivamente se auto-realizam neste país?
Se este estado de coisas pode agir como um fator de rotina e estagnação, ele pode também funcionar como um fator de luta e transformação, pois o homem não convive eternamente com a insatisfação. Seguindo este raciocínio, vejo como tarefas primordiais dos bibliotecários nacionais – 1º: a identificação consciente e crítica daquelas forças que bloqueiam a mudança na sua área de trabalho; 2º: o estabelecimento de projetos concretos, dirigidos à superação dessas forças de resistência e 3º: a mobilização e organização da classe, no sentido de conseguir respaldo para suas reivindicações. E aqui vai uma palavra de alerta: a práxis humana envolve sempre dois elementos fundamentais – reflexão e ação, teoria e prática. Daí não adiantar a listagem verbal das frustrações e dos problemas; é necessário uma ação concreta sobre eles. Falar não basta, é necessário ação. Quem sabe esta jornada venha a se transformar em mais um impulso para a mudança e para projetos concretos de transformação…
Não gostaria que o tema central desta minha comunicação – “teoria e prática da leitura” – fosse visto ou tomado como uma prioridade fundamental, como um objetivo em curto prazo no campo da biblioteconomia brasileira. Entendo que existem outros problemas, talvez até mais significativos (pois orientados para a conscientização política dos nossos disseminadores de informação), que devem ser solucionados em primeiro lugar. Isto porque as necessidades voltadas ao “ter” condições satisfatórias de trabalho são aquelas que garantem a infra-estrutura para sustentar a segurança profissional do indivíduo para garantir um fazer conseqüente e transformador e para facilitar o exercício da criatividade, novas aprendizagens e crescimento constante.
Explicando melhor esta proposição, de nada adianta “abarrotarmos” o bibliotecário com novos conhecimentos (sejam eles de qualquer origem), quando o que ele concretamente necessita é de uma biblioteca para trabalhar, de um salário condigno para se sustentar, de reconhecimento social e outros fatores para garantir a sua existência. O conhecimento que o bibliotecário deve buscar agora deve naturalmente decorrer de uma reflexão sobre aqueles fatores que impedem a prática concreta no âmbito de seu trabalho e o transformam num mero robô dentro do sistema social alienante em que vivemos. Assim, as leituras do bibliotecário brasileiro devem dirigir-se à sua própria realidade, mesmo porque é aí que nascem os projetos concretos de mudanças. Alerto que a realidade vivida, por ser tão opressora, às vezes é difícil de ser analisada; porém, quanto maiores os desafios, maior a inquietação e o desejo de transformação.
Às vezes fico espantado com as contínuas sessões de lamentações e frustrações dos nosso bibliotecários. Os sentimentos recalcados, as tensões acumuladas são aliviadas através de diferentes mecanismos de defesa: hostilidade, racionalização e apatia são alguns deles. Assim, os horizontes de mudança ficam quase que totalmente ofuscados pela perda das esperanças e por comportamentos de esquiva – diz o bibliotecário: “A mudança não depende do meu trabalho, mas de condições geradas por outros órgãos sociais”. Por exemplo, se não existem leitores neste país, a culpa é da escola e não da biblioteconomia. Vejo este fenômeno como uma fuga ao trabalho integrado e coletivo; em situações de crise (como a da leitura) todos os profissionais, agindo em suas áreas específicas de atuação, devem cooperar no sentido de superar os problemas, a benefício da sociedade global.
A freqüente atitude do “nada posso fazer” deveria ser revista pela classe dos bibliotecários e talvez ser substituída pelas atitudes do “parar para pensar” (neste caso, as condições existentes para a sua prática social) e do “agir para transformar”. Um outro espanto de minha parte está voltado à ausência de movimentos reivindicatórios dos bibliotecários brasileiros. A contestação parece ficar presa na garganta, a insatisfação parece estar sempre reprimida, a união para as justas reivindicações parece nunca se concretizar, resultando num “tudo como antes na casa de Abrantes”. Lembrando, Geraldo Vandré – “quem sabe faz a hora, não espera acontecer!” E vamos ver até onde vão os bibliotecários na sua espera por promessas não cumpridas. E vamos ver quando o nosso bibliotecário vai sair do círculo do “blá-blá-bla” inconseqüente a fim de repensar o seu papel de agente social crítico e transformador…
Ninguém poderia refutar a idéia de que os ingredientes básicos da biblioteconomia são: bibliotecário, livro (ou outro tipo de veículo da cultura) e usuário. São estes três elementos, em processo de interação, a própria razão de ser de uma biblioteca. Sem o bibliotecário, com os seus conhecimentos organizacionais e de orientação, o espaço dos livros torna-se altamente caótico e tende a perecer rapidamente. Sem livros, o espaço torna-se inútil. Sem usuários, o espaço da biblioteca não se dinamiza, perde o seu valor e morre. Talvez eu esteja batendo sobre o óbvio, falando, como agora, sobre a importância do bibliotecário, do livro e do leitor – três elementos que devem receber a mesma quantidade de ênfase e força, caso a leitura queira realmente de desenvolver no território nacional.
Porém, o que visivelmente se nota na nossa prática de vida é que, por falta de visão de alguns e por “burrice de outros”, bibliotecário, livro e leitor não se encontram sob a forma de uma trilogia integrada e indivisível, mas sob a forma de elementos segmentados. É comum detectarmos casos em que existem livros e leitores, com a ausência do bibliotecário para organizar a biblioteca e orientar a leitura. Outras vezes existem bibliotecário e leitores, mas o acervo é ultrapassado e insuficiente. Freqüentemente existe bibliotecário e existem livros, mas não há leitores, e assim por diante. Esse tipo de política “caolha”, que põe ênfase em elementos segmentados, dividindo a ação global da biblioteconomia, somente contribui para com a permanência do nosso subdesenvolvimento no campo da fruição dos produtos culturais escritos. Não será esta uma das causas que geram apatia e frustração na área da biblioteconomia? Será que esta política frustradora não atende a determinados interesses, principalmente aqueles que objetivam deixar a sociedade exatamente como está, ou seja, dividida em termos duais enrijecidos?
Mais recentemente a biblioteconomia parece ter redescoberto a importância do usuário-leitor. De fato, algumas bibliotecas, mesmo com bibliotecário formado e acervo “decente”, não conseguiam atender a seus objetivos devido ao número restrito da procura, isto é, á falta de leitores. Com isso (ausência de dinamização), essas bibliotecas passaram a funcionar como adornos de determinadas instituições – não foram poucas as faculdades particulares que embelezaram suas bibliotecas a fim de obter reconhecimento do MEC. Neste caso, a aquisição aleatória de livros, a fim de “exibir” o interesse pela cultura, foi enfatizada, permanecendo o leitor como uma cortina de fundo, uma entidade vazia sem perfil e sem interesses específicos. Nesses espaços, os quais batizei com o nome de “sarcófagos da cultura”, apodrecem livros por falta de uso e esquemas objetivos de utilização, ou, permanecem fechados/trancados numa sala a fim de serem exibidos, como apelo de venda, quando uma autoridade aparece.
O oposto também parece ser verdadeiro, ou seja, muitos usuários para poucos bibliotecários, livros e espaços. Não vou discorrer sobre este problema – que também revela um desequilíbrio total sobre os três elementos fundamentais, essenciais à dinamização de uma biblioteca – porque os aqui presentes já devem ter experenciado os casos de falta de exemplares, de ambientes impropícios ao processo de leitura, de normas super-restritivas, de acervos desproporcionais por falta de verbas, de número insuficiente de lugares etc…
Agora, deixando o pessimismo um pouco de lado, também existem casos em que mesmo com bibliotecários, acervo adequado e leitores em potencial uma biblioteca não se dinamiza, permanecendo com aquela imagem de apêndice secundário da instituição. Nestes casos, por razões que não cabem aqui, o bibliotecário responsável assume o papel de “dono” do local – para ele, a simples existência da biblioteca já basta e que os usuários visitem o lugar quando quiserem. Tal tipo de atitude, tão comum em nossa realidade, coloca a ênfase no bibliotecário e na existência de livros; o usuário, neste caso, aparece como um elemento sem muita importância – é aquele indivíduo que necessariamente vai aparecer nos momentos em que exames, provas e monografias começarem a apertar… Assim, o espaço da biblioteca fica superlotado em certos dias do mês ou do semestre; nos outros, recebe aqueles “gatos pingados” que não lêem somente em função de obrigações baixadas por professores.
A letargia de certas bibliotecas em promover a leitura causa-nos muito espanto. Isto porque num país de não-leitores todas as agências (incluindo principalmente a biblioteca) devem agir no sentido de fazer com que o hábito de leitura realmente seja instalado. As bibliotecas que se agrupam dentro desta categoria de “espera” somente contribuem para alimentação da crise da leitura no território nacional. Se analisarmos o número de bibliotecas que realmente se interessam pela análise objetiva do usuário e pelo estabelecimento de projetos concretos de ação, em busca da formação de leitores, veremos que as iniciativas são mínimas. Isso nos faz pensar que a função do bibliotecário é eminentemente técnica (isto é, tombar, classificar e catalogar livros e periódicos), não envolvendo aspectos pedagógicos de formação e ensino de leitores e nem de relações humanas.
No meu ponto de vista, as bibliotecas nacionais deveriam se preocupar mais incisivamente com a problemática da educação do usuário. E aqui explicito um pouco melhor o que entendo pela expressão “educação do usuário”: para mim, “educação” é sempre um projeto de existência, sustentado por uma ideologia e voltado ao benefício da coletividade (povo). Educar o usuário é, então, travar encontros significativos com ele, tendo como motivo os referenciais inscritos nos veículos da cultura. Subjacente a esta definição, coloca-se uma visão humanística de biblioteconomia, envolvendo dois seres humanos (bibliotecário e usuário) numa interação de conhecimento cognitivo e afetivo mútuo.
Disseminar ou fazer circular a cultura não é simplesmente “encontrar” o livro na prateleira e entregá-lo ao leitor, mas orientar esse leitor no sentido de ler bem e ler mais. A interação afetiva entre bibliotecário e usuário é, em minha opinião, fundamental ao desenvolvimento de uma atitude positiva para com o processo-projeto de leitura. Acredito que todos nós tivemos experiências negativas em algumas bibliotecas deste país, principalmente quando nos deparamos com um bibliotecário “seco, frio e distante” em relação às nossas inquietações e buscas.
Não devemos confundir “educação do usuário” com a simples divulgação das normas estabelecidas pela biblioteca. Educar um usuário é significativamente encontrar-se com ele dentro de um projeto de busca, é participar de suas dificuldades, é dialogar, é orientá-lo na fruição de diferentes tipos de literatura. Para que isso ocorra, quais seriam alguns quesitos a serem demonstrados pelos bibliotecários?
Um primeiro, e fundamental, parece-me ser o conhecimento sobre o processo de leitura. Já encontrei bibliotecários por este Brasil afora que não sabiam, eles mesmos, ler. Pergunto: como pode alguém orientar e compreender o usuário se ele mesmo não possui habilidades de leitura? Como preparar programas de incentivo ao hábito de leitura sem conhecer os aspectos fundamentais, inerentes ao ato de ler? Deve o bibliotecário conhecer apenas as habilidades instrumentais de utilização da biblioteca? Será que uma compreensão mais profunda do ato de ler não viria enriquecer o trabalho do bibliotecário, visto aqui como um agente social, exercendo, também, uma ação pedagógica concreta?
Cabe neste ponto, uma severa crítica aos atuais currículos de biblioteconomia, que parecem privilegiar o estritamente “técnico” em detrimento do “comunicacional”, do “social”, do “político” e do “histórico”. Como estão, esses currículos nos levam a pensar que as funções do bibliotecário se resumem ao tombamento, classificação e catalogação de livros bem como à fiscalização das bibliotecas através de normas rígidas. Será que não estaria aqui um outro motivo para a submissão e frustração dos bibliotecários? Esperamos que a proposta de modificação curricular, enviado ao MEC pela Universidade Federal de Minas Gerais e da Paraíba, realmente produza bons frutos em termos de formação dos nossos futuros bibliotecários. Um desequilíbrio curricular, que distancia os aspectos técnicos dos aspectos humanos de uma determinada profissão, quase sempre resulta em alienação e falta de criatividade e distanciamento da criticidade. Desnecessário dizer que, não desprezando a importância dos conhecimentos técnico-especializados, somos a favor de uma transformação dos currículos de biblioteconomia de modo que as “ciências sociais” venham preencher as lacunas existentes.
Em minha tese de doutoramento, defendida na PUC de São Paulo em 1979, cheguei a estabelecer um paradigma psicológico para o ato de ler. A minha preocupação básica consistiu da formalização daqueles elementos significativos, pertinentes e relevantes que os leitores críticos colocam em ação, quando da leitura de diferentes tipos de textos. Em outras palavras, estabeleci um quadro no qual um indivíduo, depois de um encontro significativo com o documento impresso, passa a existir como leitor. Tentei, ainda, questionar os princípios behavioristas aplicados à análise da leitura, buscando na psicologia fenomenológica e existencial alguns pressupostos que permitissem ver mais humanisticamente o ato de ler.
Seria difícil detalhar nesta exposição os percalços ultrapassados em minha tese, sem o risco de torná-los lacônicos e superficiais. Por isso mesmo, selecionei alguns aspectos que, no me entender, poderiam trazer algum enriquecimento aos participantes desta jornada de biblioteconomia. Antes de enumerar e descrever tais aspectos seria relevante destacar alguns dos meus pressupostos:
1. O homem, na inacabável busca de sua existência, deve situar-se com outros seres humanos nos diferentes horizontes da cultura.
2. O situar-se do homem no mundo somente é possível de ser realizado através de linguagens específicas, que fazem circular o sentido.
3. Essas linguagens expressam significados, produtos culturais e históricos, gerando comunicação. Então, para participar da História e da Cultura, o Homem deve compreender os significados através das linguagens presentes na cultura.
4. O ato de ler é uma necessidade concreta para a aquisição de significados e, conseqüentemente, de experiência nas sociedades onde a escrita se faz presente.
Leitura crítica – explicitação
A leitura crítica é condição para a educação libertadora, é condição para verdadeira ação cultural que deve ser implementada junto a todas as instituições voltadas à disseminação da cultura. A explicitação desse tipo de leitura, que está longe de ser mecânica, ou seja, não-geradora de novos significados, é feita através da caracterização do conjunto de exigências com o qual o leitor crítico se defronta, quando sua consciência estabelece projetos de leitura.
As exigências que se colocam ao leitor crítico são constatação, cotejo e transformação. É importante ressaltar aqui que essas exigências não são colocadas em termos de um conjunto de habilidades segmentadas; pelo contrário, trata-se de uma constelação complexa de atos da consciência, que são acionados durante o encontro significativo do leitor com uma mensagem escrita, ou seja, quando o leitor se situa no ato de ler. É este situar-se (isto é, estar presente com e na mensagem) que garante o caráter libertador do ato de ler – o leitor se conscientiza de que o exercício/atividade de sua consciência sobre o material escrito não visa o simples reter ou memorizar, mas o compreender e o criticar.
A constatação do significado do documento escrito nada mais é do que uma recuperação primeira daquilo que o documento-fonte diz. O leitor crítico, movido por intencionalidades seqüenciadas, desvela os significados pretendidos e indiciados no documento, mas não permanece nesse nível – ele reage, questiona, problematiza, aprecia com criticidade. Como empreendedor de um projeto existencial, o leitor crítico necessariamente e faz ouvir – ele não é um receptáculo passivo de idéias. A criticidade faz com que o leitor não só compreenda as idéias veiculadas por um determinado autor, mas leva-o a posicionar-se diante delas, dando início ao cotejo das idéias evidenciadas na constatação.
Através dos atos de evidenciar e refletir, novos horizontes abrem-se para o leitor, pois ele experiencia outras alternativas. Mas o encontro e estabelecimento de novas alternativas somente pode ser plenamente efetivado na transformação, ou seja, na ação sobre o conteúdo do conhecimento, neste caso o documento escrito, escolhido ou proposto para leitura.
Caracterizar a práxis da leitura em termos de constatação, cotejo e transformação por parte do leitor nada mais é do que excluir qualquer aspecto opressor de uma mensagem escrita (ou do uso que se faz dela); é, ao contrário, colocá-la em termos de uma possibilidade para a fruição, reflexão e criação.
A leitura crítica sempre leva à produção ou construção de um outro texto: o texto do próprio leitor. Em outras palavras, a leitura crítica sempre gera expressão, ou seja, o desvelamento do ser leitor. Assim, este tipo de leitura é muito mais do que um simples processo de apropriação passiva de significados evocados; a leitura crítica deve ser caracterizada como um projeto, pois concretiza-se numa proposta pensada pelo ser-no-mundo dirigida ao outro e à dinamização da cultura.
Não gostaria de terminar esta minha comunicação com formalidades ou com uma chave de ouro. Gostaria, isto sim, que meu texto gerasse outros textos com maior profundidade de crítica e de desvelamento da realidade. Precisamos, todos nós, analisar com acuidade a prática da biblioteconomia no território nacional – o que fazer é volumoso, mas não intransponível. Antevejo uma nova organização social nesta terra, com mais justiça social e com o devido equilíbrio no usufruto dos diversos veículos de comunicação. E o meu sonho é expresso no poema “Isto” de Fernando Pessoa.
Isto
Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
Ezequiel Theodoro da Silva
______________________________
SILVA, Ezequiel Theodoro da. Teoria e prática da leitura: eis o que falta ao nosso bibliotecário. ExtraLibris, 2006. Disponível em: <http://academica.extralibris.info/educacao/teoria_e_pratica_da_leitura_ez.html>. Acesso em: 30 jan. 2006.
Original: SILVA, Ezequiel Theodoro da. Teoria e prática da leitura: eis o que falta ao nosso bibliotecário. Palavra-chave, São Paulo, n.3, p.13-15, 1983.
