O antepassado esquecido: Paul Otlet
por Alex Wright
tradução de Moreno Barros
Em uma tarde chuvosa de 1968, um jovem universitário australiano chamado Boyd Rayward entrou em um escritório vazio no Parque Leopold em Bruxelas, Bélgica. Dentro, ele descobriu “um escritório bagunçado, com cheiro de mofo e cheio de teias de aranha, com goteiras da chuva - e que um dia foi inundado - causando ao então responsável pela organização quase um ataque epilético”¹. Havia pilhas e pilhas de livros, arquivos e manuscritos empoeirados: os restos sobreviventes intelectuais de um estudioso aparentemente desorganizado.
O antigo morador, Paul Otlet, havia morrido cerca de vinte e cinco anos antes. Como bibliógrafo, pacifista e empreendedor, Otlet havia sido em seu auge, celebrado como um grande homem, aproveitando a companhia de premiados pelo Nobel e até mesmo exercendo um papel na formação da Liga das Nações. Até sua morte em 1944, ele havia vivido o suficiente para ver sua reputação se degradar à quase obscuridade, ver sua grande ambição falhar e sofrer a humilhação final, com os nazistas roubando e destruindo muitos dos seus trabalhos. Quando ele finalmente morreu alguns meses antes do final da guerra, poucas pessoas notaram.
Quem foi Paul Otlet? Conheça o avô esquecido da arquitetura da informação.
A web que não era
Em 1934, anos antes de Vannevar Bush sonhar com o memex, décadas antes de Ted Nelson conceber o termo “hypertexto”, Paul Otlet visionou um novo tipo estação de estudos: uma mesa móvel construída como uma roda, ligada por uma rede de raios de roda dobradiços sob uma série de superfícies móveis. A máquina permitiria que os usuários pesquisassem, lessem e escrevessem através de uma imensa base de dados mecânica armazenada em milhões de fichas 3×5.²
Esse novo ambiente de pesquisa faria mais do que apenas permitir que os usuários recuperassem documentos; permitiria também a anotação de relacionamentos entre um e outro documento, “as conexões que cada documento possui com outros documentos, formando a partir deles o que se poderia chamar de Livro Universal”.³
Otlet imaginava um dia em que os usuários distantes poderiam acessar a base de dados, através de um “telescópio elétrico” conectado a uma linha telefônica, recuperando uma imagem fac-simile para ser projetada em uma tela plana remota.
No tempo de Otlet, essa noção de rede documentária era ainda tão recente que ninguém havia nenhuma palavra para descrever essas relações, até que ele inventou uma: “links”.
Otlet visionou o empreendimento como um grande “réseau”—teia [web]—de conhecimento humano.
A Classificação Decimal Universal
Apesar de gerações de filósofos terem tentado resolver o problema da classificação do conhecimento humano - incluindo Bacon, Wilkens e Linnaeus - não foi antes da metade do Séc. XIX que o problema alcançou um nível prático. A industrialização do comércio editorial, impulsionada com o advento dos materiais de gravação baratos, causou uma explosão de publicações não menos inovadora do que o advento de Gutenberg, 400 anos antes.
Frente a um mundo de novos textos, estudiosos e bibliógrafos do Séc. XIX começaram a lutar contra o problema da classificação. Catalogadores como Panizzi, Dewey e Ranganathan todos desenvolveram elaborados esquemas de assuntos, formando a base da biblioteconomia moderna [modern library and information science].
Em 1895, Otlet e Henri La Fontaine estabelecera o Repertoire Bibliographique Universel (RBU), uma ambiciosa tentativa de desenvolver uma bibliografia-mestre do conhecimento mundial acumulado. Otlet reconheceu do início que o sucesso da iniciativa dependeria muito da utilidade de seu software conceitual, o sistema de classificação.
Depois de avaliar os sistemas de classificação utilizados então, como o Decimal de Dewey e o sistema do British Museum, Otlet concluiu que todos eles compartilhavam um erro fatal: eles foram concebidos para guiar os leitores tão somente até o livro individual - mas não além disto. Ranganathan deu voz ao caráter da catalogação moderna quando disse: “a cada leitor, seu livro, e a cada livro, seu leitor”. Mas quando um livro e um leitor se encontravam, eles eram deixados basicamente aos seus próprios artifícios.
Otlet queria ir além. Ele queria penetrar dentro dos livros, para revelar a “substância, fontes e conclusões” dentro deles.
Tomando o Sistema Decimal de Dewey como ponto de partida, Otlet começou a desenvolver o que se tornou conhecido como a Classificação Decimal Universal, agora amplamente reconhecida como a primeira - e uma das únicas - implementação completa de um sistema de classificação facetado.
Enquanto Ranganathan honrosamente recebe créditos como o antepassado filosófico das facetas, Otlet foi o primeiro a colocá-los para uso prático.
Facetas da Classificação Decimal Universal
Fatos: Observações empíricas ou afirmações.
Interpretação: Análises ou conclusões, derivadas de “fatos”.
Estatísticas: Dados quantificados, medidos.
Fontes: Citações ou referências.
Hoje, a CDU compreende mais de 62.000 classificações individuais, traduzidas em mais de 30 línguas (uma razão para sua popularidade fora dos Estados Unidos). As principais classes atuais da CDU incluem:
0 Generalidades. Ciência, conhecimento, organização, Ciência da Computação
1 Filosofia. Psicologia
2 Religião. Teologia
3 Ciências Sociais. Direito
4 [Em construção]
5 Matemática e ciências naturais
6 Ciências aplicadas. Medicina. Tecnologia
7 Artes. Lazer. Entretenimento.Esporte
8 Línguas. Linguística. Literatura
9 Geografia. Biografia. História
Então, por exemplo,
004 Ciência da Computação
004.8 Inteligência artificial
004.89 Sistema aplicados de inteligência artificial
004.891 Sistemas Expert
004.891.2 Consulta a sistemas expert4
Em adição às chamadas Tabelas Principais de cabeçalho de assuntos, a CDU também suporta uma série de Tabelas Auxiliares permitindo a adição de facetas. Essas tabelas fornecem notações para lugar, língua, características físicas, e denotar relações entre tópicos utilizando um conjunto de sinais “conectores” como “+”, “/” e “:”.
A capacidade da CDU de mapear relações entre idéias - para a construção do “espaço social” de um documento - fornece uma dimensão de uso não suportada em outros esquemas de classificação puramente de tópicos. Como o Consórcio CDU [Universal Decimal Classification Consortium] expressa:
A característica da CDU mais inovadora e influenciadora é sua habilidade de expressar não apenas simples assuntos, mas relações entre assuntos…Na CDU, o universo de informação (todo o conhecimento registrado) é tratado como um sistema coerente, construído de partes relacionadas, em contraste a uma classificação especializada, onde assuntos relacionados são tratados como subsidiários mesmo que em seu próprio direito eles sejam de importância superior.5
O Mundaneum
Em 1910, no início da feira mundial em Bruxelas, Otlet e LaFontaine criaram uma instalação no Palais du Cinquantenaire do Palais Mondial.
Originalmente concebida como a peça principal de uma nova “cidade do intelecto”, o Mundaneum era pra ser o centro de uma cidade utópica que abrigava uma sociedade das nações do mundo.
Em 1919, pouco depois do final da Primeira Guerra Mundial, Otlet convenceu o Rei Albert e o governo belga a construir uma nova casa pra o Mundaneum, consumindo mais de 150 quartos no Cinquantenaire de Bruxelas. Na mesma época, não coincidentemente, a Bélgica estava fazendo lobby para sediar as novas instalações da Liga das Nações. Esperando colocar seu país no centro das atenções para seduzir a nova organização, Otlet lançou seu novo projeto como a peça central de uma nova “cidade global”. Dentro do Mundaneum, ele começou a criar sua vasta “edificação documentária”, eventualmente compreendendo mais de 12 milhões de fichas de catálogo individuais e documentos.
Naquele tempo, a ficha de catálogo 3×5 representava o que havia de mais avançado na tecnologia de armazenamento de informação: um recipiente padronizado, de fácil manipulação para armazenamento de partes individuais de dados. Então, o réseau de Otlet começou a tomar forma como uma enorme coleção de fichas de catálogo, arquivadas em uma série de gavetas que se estendiam, abrindo e fechando.
O esforço alcançou sucesso rapidamente, atraindo até mesmo negócios lucrativos com serviços de pesquisa via correio, onde os usuários poderiam submeter pesquisas por uma quantia (27 francos por 1000 fichas recuperadas). O serviço atraiu mais de 1500 pedidos por ano, de assuntos sobre bumerangues até finanças na Bulgária. 6
Mas por volta de 1924, o governo belga perdeu a paciência com o projeto, especialmente depois que a nova Liga das Nações escolheu Genebra sobre Bruxelas como sua cidade sede - e conseqüentemente roubando o Mundaneum de um de suas primeiras raisons d’etre. Otlet teve que abandonar sua localização original, movendo o Mundaneum para sucessivos espaços menores, até mesmo ficando por algum tempo, em um estacionamento. Depois de uma série de batalhas fiscais e erros de administração, Otlet finalmente enfrentou a difícil, mas inevitável escolha de encerrar as operações em 1934. Alguns anos depois, as tropas nazistas chegaram e confiscaram as remanescências - para fazer uma exibição da arte do Terceiro Reich.
Depois da morte de Otlet em 1944, o que sobreviveu do Mundaneum original foi deixado lânguido em um antigo prédio de anatomia da Universidade Livre no Parc Leopold, completamente esquecido. Ao longo da metade de século seguinte, mais de 70 toneladas de seus componentes originais foram destruídos. Finalmente, no meio da década de 1990, um grupo de voluntários começou a recuperar a visão original de Otlet, esperando preservar e reconstruir o Mundaneum original.
Em 1996, o novo Mundaneum abriu em Mons, Bélgica, servindo primeiramente como um museu para preservar o legado de Otlet e sua visão do “Livro Universal”. Apesar de hoje o Mundaneum servir essencialmente como um museu e centro de estudos, ao invés de uma reencarnação do plano original de Otlet, a nova instituição exerce um maravilhoso trabalho na perpetuação de seu legado, e nos lembrando da visão premonitória de Otlet sobre um ambiente informacional em rede mundial.
O Traité
Com certa ironia, o fechamento do Mundaneum em 1934, coincidiu quase exatamente com a publicação do trabalho maior de Otlet, o Traité de documentation, um manifesto cristalizando 40 anos de escrituras e pesquisa sobre as possibilidades das estruturas de informação em rede.
O biógrafo de Otlet, Boyd Rayward descreve o Traité como ”talvez, a primeira discussão sistemática e moderna dos problemas gerais da organização da informação”.7
Com a filosofia facetada da CDU como pano de fundo, o Traité postulou uma “lei de organização” universal, declarando que nenhum documento simplesmente poderia ser apropriadamente entendido, mas que o seu significado se torna claro através da influência de outros documentos, e vice-versa. “Toda criação bibliográfica”, ele disse, “não importando o quão original ou poderosa, implica em redistribuição, combinação e novas amalgamações”. 8
Apesar de esse sentimento parecer pós-modernista em espírito, Otlet não era semiótico; ao invés, ele simplesmente acreditava que os documentos poderiam ser melhores compreendidos como tri-dimensionais,9 com a terceira dimensão sendo seu contexto social: seu relacionamento com o lugar, tempo, língua, outros leitores, escritores e tópicos. Otlet acreditava na possibilidade da verdade empírica, ou o que ele chamava de “facticidade” - uma propriedade que emergiu com o tempo, através da constante colaboração entre leitores e escritores. No mundo de Otlet, cada usuário deixaria uma impressão, um rastro, que poderia então se tornar parte da história explícita de cada documento.
Vannevar Bush e Ted Nelson posteriormente deram voz à idéias precisamente similares sobre a noção de “rastros” associativos entre documentos. Distinguindo a visão de Otlet da de Bush-Nelson (e Berners-Lee), modelo é a convicção dentro da possibilidade de uma classificação temática universal trabalhando em conjunto com as forças sociais mutáveis do conhecimento.
A visão de Otlet sugere um cosmo intelectual iluminado tanto por classificação objetiva e pela influência direta dos leitores e escritores: um sistema simultaneamente ordenado e auto-organizado, e infinitamente re-configurável pelo leitor individual ou escritor.
Otlet ainda importa?
A Biblioteca de Babel de Jorge Luis Borges era um lugar contendo “todas as combinações possíveis dos vinte e tantos símbolos ortográficos… a tradução de cada livro em todas as línguas, a interpolação de cada livro em todos os livros”. 10
Para Borges, a biblioteca universal era um conceito literário, mas para Otlet era um sonho possível: um “edifício contendo juntos todos os livros e informações, com todos os recursos de espaço necessários para registrá-los e gerenciá-los”. 11
Otlet também reconheceu a importância prática da “pesquisa e recuperação realizada por uma equipe permanente apropriadamente qualificada”. Substitua a palavra “Google” por “equipe permanente”, e a visão de Otlet começa a soar muito como a World Wide Web.
Apesar de ser um exagero aclamar que Otlet exerceu influência direta no posterior desenvolvimento da Web, não seria exagero dizer que ele antecipou muito dos problemas que estamos tentando resolver: a explosão da informação publicada, as limitações dos mecanismos de armazenamento e recuperação, a busca desesperada por um modelo classificatória que nos auxilie a armazenar, administrar e interpretar o capital intelectual coletivo da humanidade - e talvez, os limites dos sistemas de auto-organização.
Na encarnação atual da Web, “autores individuais” (significando tanto pessoas como instituições) mantêm documentos fixos, no qual eles exercem controle direto. Cada documento é essencialmente um fato consumado, com seus próprios conjuntos auto-determinados de relações com outros documentos. É necessária uma meta-aplicação como Google ou Yahoo!, para descobrir as amplas relações entre documentos (normalmente através da combinação de sintaxe, semântica e reputação). Mas essas relações, independente de quão sofisticado é o algoritmo para determiná-las, permanecem em grande parte indisponíveis para o usuário final, nunca se tornando uma parte explícita da história do documento.
Será que a rede de Otlet demonstraria algo diferente? Nós ainda teremos que descobrir. Com o advento da Web Semântica e tecnologias relacionadas como RDF/RSS, FOAF, e ontologias, nós estamos caminhando na direção de um ambiente onde o contexto social está se tornando tão importante quanto o conteúdo temático. A visão de Otlet carrega uma impressionante possibilidade: o casamento do determinismo das facetas com o relativismo das redes sociais.
No último livro de Otlet, Monde, ele articulou uma visão final do grande “réseau” que pode também servir como suas últimas palavras:
Tudo no universo, e tudo do homem poderiam ser registrado na distância em que foi produzido. Dessa maneira uma imagem móvel do mundo poderia ser estabelecido, um verdadeiro espelho de sua memória. De uma distância, todos poderiam ler textos, ampliados e limitados ao assunto desejado, projetado em uma tela individual. Dessa maneira, qualquer pessoa sentada em sua cadeira poderia ser capaz de contemplar a criação, como um todo ou em certas partes. 12
Notas
1- Rayward, “The Case of Paul Otlet, Pioneer of Information Science, Internationalist, Visionary: Reflections on Biography,” Journal of Librarianship and Information Science 23 (Setembro 1991):135-145
2 - Rayward, “Visions of Xanadu: Paul Otlet (1868-1944) and Hypertext,” JASIS 45 (1994):235-250
3 - Otlet 1934 citado em Rayward 1994
4 - Universal Decimal Classification Consortium, UDC flyer
5 - Universal Decimal Classification Consortium, “About the UDC.”
6 - Rayward, “Visions of Xanadu”
7 - Otlet citado em Day, “Paul Otlet’s Book and the Writing of Social Space “
8 - Buckland, “Information Retrieval of More than Text” JASIS 42, 586-588
9 - Rayward, “Anticipating the Digital World: Paul Otlet and his Paper Internet”
10 - Borges, “A Biblioteca de Babel” em Labirintos, p. 54
11 - Otlet, Traité de Documentation
12 - Otlet, Monde, pp. 390-391
Bibliografia
Borges, Jorge Luis. “The Library of Babel,” in Labyrinths. New Directions, 1962. pp. 51-58.
Buckland. Michael. Information retrieval of more than text. Journal of the American Society for Information Science 42 (1991): 586-588
Day, Ron. “Paul Otlet’s Book and the Writing of Social Space.“ Journal of the American Society for Information Science, April 1997. http://www.lisp.wayne.edu/~ai2398/newpage4.htm
Otlet, Paul. Traite de documentation. Brussels: Editiones Mundaneum, 1934.
Otlet, Paul. Monde: essai d’universalisme: connaissance du monde, sentiment du monde, action organisée et plan du monde. Brussels: Editiones Mundaneum, 1935.
Rayward, W. Boyd. “The Case of Paul Otlet, Pioneer of Information Science, Internationalist, Visionary: Reflections on Biography,” in Journal of Librarianship and Information Science 23 (September 1991):135-145.
Rayward, W. Boyd. “Anticipating the Digital World: Paul Otlet and his Paper Internet,” Bartels Lecture at the University of Leeds, 2002.
Rayward, W. Boyd. 1994. Visions of Xanadu: Paul Otlet (1868-1944) and hypertext. Journal of the American Society for Information Science 45 (1994): 235-250.
Rayward, W. Boyd. 2002. “Anticipating the Digital World: Paul Otlet and his Paper Internet,” Bartels Lecture at the University of Leeds.
Universal Decimal Classification Consortium flyer. http://www.udcc.org/UDCC_Flyer_2001.doc
Universal Decimal Classification Consortium, “About the UDC.” http://www.udcc.org/about.htm
texto original disponível em boxes and arrows
Tags: história
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