Lembre-se de compartilhar e brincar direito

Posted April 13th, 2009 in Ensaio by ExtraLibris

Por Meredith Farkas
Tradução de Moreno Barros

Minha mãe me diz que eu era terrível tratando-se de compartilhar quando era pequena. Meus brinquedos eram MEUS brinquedos. Eu era capaz de lamber biscoitos só pra que ninguém me pedisse um pedaço. Meu pai até possui uma filmagem minha com três anos de idade arrancando uns livros meus das mãos de minha melhor amiga Bonnie. Mas em algum momento eu aprendi a compartilhar, apesar de ainda não recomendar chegar muito perto dos meus biscoitos. Todos nós aprendemos a compartilhar quando crianças; dividir canetinhas, livros e outras possessões. Mas nós aprendemos a compartilhar idéias? Na verdade não. Nossos trabalhos normalmente eram compartilhados apenas com os professores e não com os colegas de turma. Em algumas aulas não era permitido colaborar e compartilhar idéias em projetos individuais. Na academia, sim, existe o diálogo acadêmico, mas também existe competição. Na busca pelo ofício, é bom ser o único expert em certos assuntos; ser indispensável. A primeira vez que eu senti uma cultura apaixonada pelo compartilhamento de informação (e não apenas pagando pau para a idéia) foi quando eu me envolvi com a blogosfera.

Compartilhamento é algo que eu tenho pensado muito a respeito ultimamente no trabalho. Tudo o que eu quero é compartilhar idéias o dia inteiro e eu quero criar novas maneiras que nos permitirão compartilhar idéias de um melhor jeito. Se algo que eu sei pode ajudar uma outra pessoa, eu fico ansiosa para ajudar. Eu fiquei tão excitada quando o decano do programa de graduação online me perguntou se eu poderia ensiná-lo sobre wikis, para que pudessem utilizar um para edição colaborativa de documentos. Hoje ele me mandou um e-mail para perguntar sobre o desenvolvimento de um blog para comunicação interna. Legal! Eu prefiro conferir a uma pessoa habilidades tecnológicas para que possa fazer coisas para ela mesma ao invés de tê-la em uma posição de dependência onde constantemente requisitaria minha ajuda.

Mas eu percebi que a academia não funciona dessa maneira. Parece que em muitas escolas, o departamento de TI controla todas as escolhas tecnológicas. Ao invés de educar os professores a como criar wikis e blogs e utilizar outras tecnologias interessantes em sala de aula, eles mantêm nos docentes uma coleira apertada. E talvez exista uma boa razão para isso. Talvez não se deva confiar nos professores porque o que eles vão fazer é estragar tudo. Mas essa não tem sido minha experiência ainda. Eu estou na estranha posição de ser uma bibliotecária e uma informata e a pessoa que é responsável em servir às necessidades do programa de graduação online. Como uma bibliotecária de educação à distância, meu trabalho não é na verdade de todo diferente do que pessoas na computação acadêmica fazem (além do trabalho de suporte e referência). Eles criam manuais e constroem websites. Eu também. Eu freqüentemente questiono quais são os limites do meu trabalho. Os caras do programa de graduação online sabem que eu sei muito sobre software social, então eles geralmente pedem minha opinião sobre algumas coisas. Eles também pediram que eu fizesse alguns projetos e apresentações tecnológicas pra eles. Isso tem causado uma certa tensão entre mim e o TI, especialmente porque eu estou fornecendo aos docentes ferramentas pra que eles criem suas próprias coisas (blogs e wikis). E algumas pessoas não gostam disso. Eu realmente não sei o que fazer em relação a isso. Será que eu deveria não fazer o que eu fui contratada para fazer? Será que eu deveria bancar a idiota? Será que eu deveria negar explicação sobre wikis quando as pessoas solicitam? O reitor da universidade acredita que o talento de todos os funcionários deve ser explorado ao máximo. E se os meus “talentos” são interessantes para um grupo e inconvenientes para outro? Eu não quero pisar no pé do chefe, mas também não quero sentir como se eu não pudesse dar conta do meu trabalho.

Por isso que é interessante perceber a dicotomia na academia. As bibliotecas todas têm na essência o compartilhamento, mas isso não parece funcionar tão naturalmente no resto da academia. Algumas pessoas se sentem ameaçadas pela idéia de todo mundo possuir as mesmas habilidades que elas possuem. Eles preferem ser especialistas, ao invés de compartilhar suas habilidades. Eu acho que a academia funciona na base das limitações. É por isso que ocorre toda a competição entre os bibliotecários. É importante fazer parte do clube, porque senão você não vai garantir o mesmo nível de acesso à informação. A cultura parece criar um sistema de castas com os que possuem informação e os que não possuem. É tudo uma besteira pra mim.

Eu fui para um encontro na Biblioteca Acadêmica de Vermont ontem, onde discutimos a possibilidade de desenvolver algumas atividades de consórcio. Na manhã os palestrantes (todos membros de outro consórcio) falaram sobre empréstimo dentro do consórcio e negociações coletivas para bases de dados. De tarde, nós nos separamos em oito grupos para discutir as três coisas que nós achamos que é mais importante a serem feitas como um grupo e quais são os primeiros passos a tomar para fazer isso acontecer. Obviamente, as duas questões discutidas na parte da manhã eram importantes para todos os grupos. Foi levantada por muitos grupos a necessidade de educação continuada e compartilhamento de habilidades. A maioria das bibliotecas em Vermont é de pequeno porte. Com aproximadamente 2.000 alunos, Norwich é considerada uma universidade de médio porte em Vermont. Algumas universidades possuem apenas 3 bibliotecários trabalhando na biblioteca acadêmica inteira! Obviamente, os bibliotecários acadêmicos em Vermont devem ser muito versáteis e eles não devem ter necessariamente todas as habilidades para fazer tudo o que são obrigados a fazer. Existem bibliotecas em Vermont sem catálogo online ou bases de dados e ninguém que sabe lidar com tecnologia. Apenas uma das bibliotecas do estados possui um profissional da área de preservação. No lado positivo, todos nós possuímos diferentes habilidades e diferentes áreas de especialidade. Talvez nós pudéssemos compartilhar essas habilidades. Talvez eu pudesse ajudar as pessoas em uma biblioteca a criar um blog e eles poderiam nos ajudar com os nossos manuais de treinamento profissional. Nós poderíamos conseguir mais verba para treinamento e trazer mais especialistas que podem nos ajudar com todos os problemas com que estamos preocupados. Nós somos muito mais fortes juntos do que separados. Então eu fiquei ansiosa quando ouvi as pessoas sugerindo a construção de uma comunidade online onde nós pudéssemos compartilhar informação e oferecer nossas habilidades para outras bibliotecas da região. Alguém até sugeriu um wiki (não eu!). Eu acho que em breve vou criar um wiki para a comunidade das bibliotecas acadêmicas de Vermont. Acho que nós precisamos de um espaço online onde podemos manter a comunicação. É bom participar desses encontros onde nós todos ficamos excitados com as coisas que podemos fazer. Mas as pessoas voltam aos seus trabalhos e as centenas de emails em suas caixas e a colaboração acabam se perdendo nas tarefas do dia-dia. Apesar da atividade de consórcio beneficiar todos nós, é difícil mobilizar pessoas para trabalhar e fazer acontecer. Então talvez um wiki ajudaria as pessoas a manter as idéias na cabeça. Pelo menos eu espero.

Como que nós fazemos as pessoas compartilharem? Não é tão fácil como no jardim de infância, não é? E criar um wiki e pedir pras pessoas compartilharem não vai atingir o centro do problema – a cultura. Dave Pollard tem algumas idéias interessantes sobre a razão das pessoas não compartilharem informação e como modificar isso no ambiente empresarial. Muitas de suas observações são aplicáveis a qualquer organização. Eu estou interessada em ouvir a sugestão de qualquer pessoa para avançar sobre as barreiras psicológicas e culturais do compartilhamento de informação e habilidades, ou como eu deveria lidar com a estranha posição em que me encontro no trabalho.

Texto original em Information wants to be free – remeber to share and play nice
Traduzido e publicado com autorização da autora
Translated and published with permission of the author

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As mudanças nas tecnologias e usuários de bibliotecas mudarão a biblioteconomia?

Posted March 26th, 2009 in Ensaio by ExtraLibris

Por Richard Akerman

O blog “It´s all good” da OCLC publicou um interessante post sobre o futuro da biblioteca

O espaço da biblioteca está se transformando:

“Aquisição-catalogação-circulação” se transforma em um novo modelo de “Integração-gerenciamento-análise” (obrigado Robin Murray da OCLC por esse excelente quadro conceitual – veja o post de Alane e ouça o podcast de Robin para maiores detalhes).

Superfície imperceptível – o conteúdo e os serviços da biblioteca irão/deverão aparecer em espaços além da biblioteca (ex. internet, aplicações administrativas [office], sistemas de aprendizagem de administração) para satisfazer as demandas dos usuários no seu ponto mais inicial [point of need].

Novos modelos (ex.FRBR – Functional Requirements for Bibliographic Records) para se construir, novas experiências de usuários para desenvolver e disponibilizar – modos mais leves, fáceis e relevantes de disponibilização/acesso D2D (discovery to delivery) irão surgir.

Espaços além da biblioteca vão informar os espaços de biblioteca e vice-versa muito mais no futuro do que já ocorreu no passado. Como exemplo, perceba como os editores, livrarias, catálogos de biblioteca estão começando a mostrar a convergência entre qualidades e conteúdo (ex. conteúdo enriquecido, capas protetoras, tabela de conteúdo) e uma qualidade comum crescente, normalmente expressa em forma e conteúdo.

Acho que um dos grandes desafios que me foram apresentados na discussão da biblioteca de pesquisa é que existem três áreas principais de potencial mudança (para o bem da discussão), e devemos estar esclarecidos sobre qual está sendo discutida:

1. Mudanças na tecnologia das bibliotecas
2. Mudanças na biblioteconomia – o que os bibliotecários vão fazer no futuro
3. Mudanças nos clientes de bibliotecas

Acho que eu provoquei muitas pessoas porque elas leram meu post anterior falando sobre número 2, biblioteconomia, quando na verdade estou muito mais interessado no número 1, tecnologia. Agora, as duas são direcionadas para uma extensão substancial do que você acredita que os clientes de biblioteca vão querer no futuro (número 3). A mensagem que eu recebi dos bibliotecários foi “as pessoas continuarão a pedir ajuda, e os bibliotecários vão continuar a ajudá-los”. Em um comentário sobre esses assuntos, Rachel Walden apresenta dessa maneira:

Os bibliotecários de pesquisa possuem um significante papel para exercer na maximização do tempo dos pesquisadores assistindo-os com buscas e filtragem para encontrar os melhores e mais relevantes estudos. [A discussão] também assume que os pesquisadores 1) preferem fazer suas próprias pesquisas; 2) possuem tempo para realizar suas próprias pesquisas; 3) são no mínimo tão capazes quanto os bibliotecários profissionais treinados para encontrar materiais relevantes. Não está evidente que qualquer um desses seja necessariamente o caso, particularmente considerando os sistemas terminológicos um tanto quanto contraintuitivos e confusas interfaces na web para adicionar ao problema de recuperação sem mencionar a questão do excesso de informação.

Então acho que existem alguns problemas expostos:

Em qual extensão a transformação do lado tecnológica nas bibliotecas está relacionada com as mudanças na biblioteconomia? Essa é uma questão que eu não estou capacitado a responder, eu sou uma pessoa da tecnologia, não um bibliotecário.

Em qual extensão os pesquisadores da geração do milênio [jovens nascidos ou que fazem parte do contexto social referente ao novo milênio]- vão eliminar a necessidade de um profissional bibliotecário, e em qual extensão eles desejarão servir a si mesmos, acessando a tecnologia da biblioteca diretamente?

Acho que existe uma grande desconexão, porque pelo lado da tecnologia, alguns de nós estão dizendo que “as mudanças na tecnologia (especificamente conteúdo digital e Internet) são uma ruptura transformadora das atividades das bibliotecas, particularmente considerando que os milenais estarão mais inclinados a interagir diretamente com serviços de tecnologia ao invés de usar intermediários” e o lado dos bibliotecários, que eu ouço dizer “a tecnologia pode adicionar algumas capacidades interessantes para nós em favor da interação com os usuários, mas fundamentalmente nossos trabalhos continuarão os mesmos”. Também acredito que existe um desafio em termos de horizontes de tempo. Estou tentando visualizar pelo menos 5 anos, porque estou interessado no plano estratégico para 2010. Isso é uma perspectiva muito diferente se comparada a uma projeção para o ano seguinte somente, um período de tempo em que normalmente as coisas parecem que vão continuar mas ou menos iguais.

Não tenho as respostas para essas perguntas, mas acho que é bastante útil expor e discuti-las.

Texto original, disponível em Science Library Pad

Copyright 2006 Richard Akerman.
Translated and reprinted with permission

Tradução de Moreno Barros

Conectando os pontos: software social e bibliotecas

Posted March 14th, 2009 in Artigos e Estudos by ExtraLibris

Conectando os pontos:
software social e a natureza social das bibliotecas

Geoffrey Harder

Tradução de Moreno Barros.
As bibliotecas sempre conectaram pontos. Nós conectamos pessoas com informação, conectamos idéias às imaginações e conectamos indivíduos às comunidades. É por isso que o software social continua sendo um item bastante abordado nos programas de conferência em bibliotecas e nas publicações relacionadas a bibliotecas, tanto online como offline. Mesmo com as discussões sobre o movimento da Web 2.0 e sua cria, a Biblioteca 2.0, o software social – a conexão de pessoas a outras pessoas utilizando softwares e Internet – continua a ser um grande fator nas discussões sobre o que são agora e o que virão a ser as bibliotecas e o cenário mais amplo de informação.

Software social, sucintamente definido, é o “software que dá suporte à interação em grupo”. Ele também conecta os pontos entre pessoas e pessoas, entre pessoas e seus interesses e entre o que pode vir a ser e o que já é. O ano é 2006, e a estréia do navegador de internet em 1993 parece história antiga, especialmente para muitos calouros agora iniciando (ou lamentando) seu primeiro ano de universidade. Para aqueles um pouco mais velhos, nós saímos de um tempo onde, para a maioria, a web permanecia uma tecnologia de “somente leitura”, para uma era onde muitos podem “ler-escrever-participar”. Mas o que isso realmente significa para bibliotecas, pesquisadores, autores e editores? Como nos situamos no novo mundo dos blogs, wikis e usuários de etiquetas que ousam questionar a praticidade dos nossos cuidadosamente elaborados cabeçalhos de assunto?

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Bibliotecas: na plataforma errada, esperando pelo trem errado?

Posted March 12th, 2009 in Ensaio by ExtraLibris

Por Paul B. Gandel

As bibliotecas têm tomado duros golpes nos últimos meses, levantando questões sobre se e como irão sobreviver a uma superfície de informação em constante mudança. O anúncio da Universidade do Texas sobre a digitalização da sua biblioteca – descartando os livros – recebeu grande atenção da mídia e foi usado pela imprensa para levar a imagem de uma “biblioteca vazia” a um novo nível [1]. Ainda, o plano do Google para digitalizar coleções especiais de bibliotecas adicionou combustível nas previsões de que as bibliotecas serão obsoletas em nosso crescente mundo digital.

Porém, questões relacionadas ao papel das bibliotecas, ou mesmo se as bibliotecas serão necessárias em um mundo digital, não são exatamente novas ou chocantes. Quase trinta anos atrás, F.W.Lancaster levantou as mesmas questões em um maravilhoso ensaio chamado “Bibliotecas aonde? ou bibliotecas transparentes” [Whiter Libraries? or Whiter libraries][2]. Desde então, a literatura continua a ser preenchida por artigos que fazem as mesmas perguntas.

Como Mark Twain, que disse que “as histórias sobre minha morte tem sido muito exageradas”, as bibliotecas continuaram a operar com eficiência apesar das previsões. O que é incrível é que mesmo com 30 anos de avanços tecnológicos, as bibliotecas permanecem relativamente imutáveis. Sim, os espaços das bibliotecas incorporaram lojinhas e computadores, mas qualquer um que entrar em uma biblioteca hoje perceberá que quase nada mudou.

Com as bibliotecas confrontando ondas de avanços tecnológicos, a presunção implícita permaneceu que os valores e estruturas tradicionais da biblioteconomia continuariam a servir como âncoras em um mar de mudanças. Os catálogos online de hoje se expandiram em escopo e abrangência, mas ainda preservam a estrutura básica dos catálogos de fichas de antigamente, na forma de registros MARC. As coleções rapidamente se expandiram a formatos digitais, e os métodos para acessar essas coleções digitais evoluíram. Mas o relacionamento entre acervo, consumidores e a biblioteca como mediadora permanece o mesmo. Em adição, as bibliotecas ainda estão organizadas a maneira que eram 30 anos atrás. Apesar de os títulos dos profissionais terem mudado, as divisões básicas dos serviços público-contra-técnicos, e bibliotecários profissionais contra paraprofissionais, permanecem – normalmente lembrando mais um sistema medieval de castas do que uma organização ágil moderna.

E também, como uma tempestade perfeita, a intrusão da Web pode alterar as bibliotecas de maneiras bem diferentes daquelas de mudanças tecnológicas anteriores. A Web já está alterando áreas nucleares dos serviços de biblioteca: (1) coleções, (2) preservação e (3) referência.

Vamos primeiro analisar as coleções – o coração e alma de uma biblioteca. Na perspectiva dos caçadores de informação, as coleções agora são web sites, criados por qualquer pessoa, editores e agregadores comerciais. Esses sites servem como direcionadores de informação [hubs], assumindo o papel de bibliotecários ao direcionar visitantes para informação em termos específicos ou áreas de interesse.

Ainda, a agregação comercial dos recursos de informação na Web tem diminuído a flexibilidade que as bibliotecas possuem em tomar decisões sobre assinaturas de jornais eletrônicos individuais e bases de dados.

Essas decisões são cada vez menos sobre títulos e jornais individuais e mais sobre obter o maior número de títulos pelo menor preço, estabelecendo contratos com grandes agregadores de materiais eletrônicos. Como Paul Kobulnicky apontou em seu artigo sobre conteúdo eletrônico no EDUCAUSE Review, as bibliotecas estão cada vez mais concentrando suas energias no tipo de assinatura “grande negócio” – essencialmente comprando coleções de materiais eletrônicos compilados por outros, uma proposição tudo ou nada [3]. Para a maioria das bibliotecas, assinar publicações eletrônicas está se tornando um exercício em negociação e compra ao invés de um processo de tomar decisões sobre as coleções. Esse serviço está rapidamente se tornando tão cômodo, que o papel da biblioteca está simplesmente se tornando um agente de compras atuando em nome de sua comunidade.

Se mais coleções são “adquiridas” por agregadores comerciais residindo em várias locações remotas, as questões de administração e preservação de materiais se tornam críticas. Tradicionalmente, tem sido função das bibliotecas preservar nossa herança intelectual. Quanto mais essa herança se torna digitalizada e depositada nas mãos de donos “privados”, isso não levanta a questão de que modo assegurar que a informação continue a existir mesmo se o fornecedor dela sair do mercado?

Muitos acreditam que a única maneira de assegurar que nossa herança digital seja preservada é que as bibliotecas, tanto coletiva como individualmente, mantenham cópias duplicadas de todo material digital – mesmo se as cópias estiverem prontamente disponíveis em sites comerciais. Uma proposta alternativa é se criar políticas para preservação desse material independente de onde ele reside fisicamente. Muito parecido com a maneira com que nós tombamos distritos históricos e preservamos cemitérios, nós poderíamos desenvolver políticas que levariam à preservação de materiais digitais importantes.

Sem considerar que os materiais digitais cada vez mais residem em web sites comerciais, a próxima questão envolve o papel dos bibliotecários. Os bibliotecários não deveriam exercer um papel chave na avaliação e determinação da qualidade desses novos direcionadores de informação? Os bibliotecários não serão necessários para ajudar as pessoas a navegar dentro desses sites e separar o joio do trigo? De fato, os bibliotecários podem continuar a servir essa função. Mas um modelo concorrente parece estar ganhando campo. O modelo do Amazon.com, que utiliza revisão de pares por indivíduos e painéis de especialistas, poderá preencher o lugar dos bibliotecários na função do controle de qualidade. Isso parece muito provável quando se considera a facilidade que é para os web sites fornecerem tais revisões e/ou endossos e quanto de incentivos competitivos esses sites possuem para promover tal função.

A Web também transformou o papel da biblioteca como um repositório para coleções tradicionais impressas. Livros, tanto no formato impresso como eletrônico estão se tornando ampla e facilmente (apesar de não necessariamente a baixo custo) disponíveis. Não é mais incomum ouvir sobre pessoas que preferem comprar um livro online e recebe-lo diretamente em suas casas, ao invés de ter de atravessar o campus para pegar emprestado o mesmo livro na biblioteca. Apesar desses “Amazonenses” ainda serem a exceção ao invés da regra, no mundo atual de rastreamento de eletrônico de produtos e entregas mundiais, parece apenas natural que nós devemos começar a esperar por entregas diretas de material impresso vindas de qualquer lugar, e para qualquer lugar. Porém, as bibliotecas têm sido lentas para reagir a essas mudanças. Equivocados procedimentos de empréstimos entre bibliotecas são ainda uma norma. A não ser que as bibliotecas desenvolvam e expandam serviços que forneçam aos seus usuários uma maneira de acesso direto e rápido a uma grande variedade de materiais impressos, mundialmente, com o clicar de um mouse, mais e mais pessoas vão começar a pagar por serviços do Amazon.com ou GooglePrint.

Finalmente, em adição a áreas nucleares de acervos e preservação, as bibliotecas tradicionalmente têm sido as solucionadoras de problemas da comunidade, a fonte das referências. Antigamente, quando as crianças estavam na escola e tinham dúvidas, os professores as mandavam para a bibliotecária. Isso não acontece mais. Até mesmo a função de referência das bibliotecas está enfrentando crescentes desafios da Web. O Google se tornou a ferramenta mais utilizada para responder todos os tipos de questões. Seja para fazer uma aposta ou responder uma pergunta de pesquisa, o Google e o GoogleScholar são geralmente os recursos de primeira escolha. Além do Google, um crescente número de serviços de informação fornecerá respostas específicas para quase qualquer questão.

Muitas bibliotecas tentaram enfrentar esses desafios fornecendo novos serviços de referência online. Mas não está claro se esses serviços redesenhados podem competir com os serviços comerciais em rápida expansão disponíveis na Web. A economia de balanceamento pode dar aos sites comerciais a vantagem de maior acesso em nível de especificidade, permitindo que guiem serviços a uma ampla variedade de necessidades especializadas. Não é difícil imaginar um cenário em que as universidades deslocarão seus recursos para pagar um serviço nacional de informação personalizado às necessidades da instituição individual ao invés de dar suporte ao serviço de referência da sua biblioteca local.

Em resposta a Web, muitas bibliotecas, individual ou coletivamente, começaram a criar seus próprios direcionadores de informação – repositórios digitais – usando o conteúdo intelectual de suas instituições. Infelizmente, muitos desses repositórios são construídos com base em métodos tradicionais de organização da informação, ao invés dos novos modelos de disseminação da informação evoluindo na Web. Potenciais contribuidores e usuários desses repositórios estão achando os sistemas de organização e tageamento de metadados impostos pelas bibliotecas muito complicados. Ainda, ao desenhar muitos desses novos repositórios digitais, as bibliotecas ignoram o importante papel que as pessoas exercem. A maioria das iniciativas de repositórios digitais é concebida para servir apenas como caminho para documentos e artefatos. Poucos repositórios são criados para servir como verdadeiros direcionadores de informação, fornecendo aos usuários acesso tanto à informação relevante, como especialistas.

Com a Web em contínuo crescimento e expansão, criando uma grande gama de direcionadores de informação, a questão a ser feita é: As bibliotecas serão um elemento chave nessa rede de informação? Se a história servir como guia, a resposta é “talvez”. Sim, as bibliotecas se adaptaram e incorporaram novas tecnologias e mídia no passado enquanto também procuram permanecer, em grande proporção, fiéis a práticas e considerações centenárias. Isso pode não ser mais possível em um mundo de informação dominado pela Web. As bibliotecas podem se encontrar um dia na mesma situação dos usuários de trens. Só porque o horário dos trens permaneceu o mesmo durante 30 anos, não significa que viajantes desatentos estejam livres de um dia se encontrarem na plataforma errada, esperando pelo trem errado, depois de uma mudança de horários.

Notas

1. Katherine S. Mangan, “Packing Up the Books,”Chronicle of Higher Education, July 1, 2005, .

2. F. Wilfrid Lancaster, “Whither Libraries? or, Wither Libraries,” College and Research Libraries, vol. 39 (1978): 345–57.

3. Paul Kobulnicky, “Pork Bellies and Silk Purses,”EDUCAUSE Review, vol. 39, no. 3 (May/June 2004),
.

Paul Gendel é vice-presidente de Tecnologia de Informação e CIO da Universidade de Syracuse. Anteriormente, foi consultor de serviços de informação, decano das bibliotecas universitárias e professor de biblioteconomia e estudos de informação na Universidade de Rhode Island. Ele trabalha como editor do departamento de conteúdo eletrônico da EDUCAUSE Review.

Originalmente publicado em EDUCAUSE Review, vol. 40, no. 6 (Novembro/Dezembro 2005): 10-11. traduzido e publicado com permissão do autor <http://www.educause.edu/er/erm05/erm05610.asp>.

Originally published in EDUCAUSE Review, vol. 40, no. 6 (November/December 2005): 10-11. translated and posted with permission of the author <http://www.educause.edu/er/erm05/erm05610.asp>.

Tradução de Moreno Barros

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As bibliotecas importam? O surgimento da Biblioteca 2.0

Posted March 11th, 2009 in Artigos e Estudos by ExtraLibris

Por Ken Chad e Paul Miller

O reinado da biblioteca como fornecedora de informação está decadente. Por justiça ou não, as bibliotecas atuais estão cada vez mais sendo vistas como ultrapassadas, comparadas com serviços modernos baseados na internet, como Google e Amazon, desejosos por assumir o trono. Mesmo assim, em Talis [fornecedora de produtos e serviços para bibliotecas públicas e acadêmicas no Reino Unido e Irlanda] nós acreditamos que ainda existe muita vida na biblioteca. Entretanto, essa sobrevivência demanda mudanças. Inevitavelmente, com o mundo avançando, a biblioteca precisa evoluir e começar a disponibilizar seus serviços na maneira como os usuários modernos esperam. A Biblioteca 2.0 é o conceito de um serviço de biblioteca bem diferente que opera de acordo com as expectativas dos usuários das bibliotecas de hoje. Nessa visão, a biblioteca torna a informação disponível quando e onde quer que o usuário requisite. Em alguns momentos, essa visão será difícil de ser alcançada. Mas nós achamos que também trará euforia e preenchimento. No final, nós esperamos que seja uma prova de que a biblioteca continua importando.

Parte 1: O contexto da Biblioteca 2.0

1.1 As bibliotecas importam?

A questão da relevância talvez seja o maior desafio enfrentado pelas bibliotecas atualmente. Apesar de não haver dúvidas quanto ao valor que as pessoas agregam aos serviços tradicionais das bibliotecas, será que o crescimento de serviços na internet, como Google, Amazon e similares, representa um grande desafio? Vamos enfrentá-lo. Esses serviços com base na internet oferecem métodos para encontrar informação que são de alta qualidade e fáceis de usar. Uma pessoa pode ser facilmente perdoada por acreditar que encomendar um livro do conforto de sua casa, e tê-lo entregue direto na sua porta dentro de poucos dias, é muito mais cômodo do que uma visita à biblioteca local. Com a informação agora tão livremente disponível, particularmente na internet, será que as bibliotecas importam de verdade? Em Talis nós argumentamos que a resposta é um sonoro sim. As bibliotecas fornecem um valor único. Nós acreditamos que uma lista de links em uma máquina de busca, ainda que útil, não possui o mesmo valor que o conhecimento que uma biblioteca pode fornecer. Isso mostra que os reportes sobre o fim das bibliotecas são exagerados. Porém, o vertiginoso sucesso de sites como Amazon e Google mostram que, para ir de acordo com as expectativas do mundo moderno, as bibliotecas devem mudar dramaticamente.

O que significa “expectativas do mundo moderno”?

Internet integrada ao cotidiano

A internet contribuiu profundamente para a vida moderna. Hoje, a Web possui centenas de milhares de usuários. Para muitos, ela é onipresente. Ela nunca “morre”, e quanto mais usuários de banda larga surgirem, mais “viva” ela permanecerá.

A internet mostrou as limitações de um serviço oferecido em um espaço físico, com limitadas horas de funcionamento. Mais fundamentalmente, os usuários da internet simplesmente esperam ser capazes de acessar qualquer informação que quiserem, de qualquer parte do mundo, em qualquer momento. Na verdade, eles apenas se dão conta quando as coisas não acontecem dessa maneira.

A “necessidade da gratuidade”

Mais significante talvez é o fato de que, para muitos, a Web parece ser totalmente gratuita. Muito do que existe nela é de livre acesso e não requer pagamentos tradicionais. Mesmo serviços comerciais como Google e Amazon oferecem acesso e buscas gratuitas.

Qual é o impacto?

Nós podemos ver a “necessidade da gratuidade” em muitas indústrias hoje. As gravadoras de música combatem a onda do compartilhamento de músicas. O Google e o movimento de Open Access enfrentam o modelo editorial para livros e revistas. As pessoas até mesmo esperam que os telefones celulares, que são equipamentos razoavelmente caros, sejam fornecidos de graça (apesar dos contratos com as operadoras). Essencialmente, existe uma real expectativa entre os usuários mais jovens da internet que argumentam que eles possuem um direito de usar, modificar e compartilhar conteúdo que encontram.

Também exista um outro impacto da “necessidade da gratuidade”. Os fornecedores de serviços estão agora sob crescente pressão para encontrar novas maneiras de ganhar valor monetário com suas concessões. Na industria da telefonia celular, por exemplo, um telefone grátis parece ser um pequeno preço a pagar em retorno ao relacionamento que o usuário estabelece com a operadora a qual ele paga por chamadas e mensagens de texto (sem mencionar produtos lucrativos como ringtones e fotografias) [No Brasil os celulares ainda não chegaram ao patamar de serem oferecidos de graça em troca de contratos de uso, apesar de muito próximo disso. Um exemplo recente é o preço de venda atribuído aos consoles de vídeo-game Xbox, da Microsoft, considerado menor do que o seu custo de produção. A empresa afirma que os lucros são gerados através da venda dos jogos propriamente, as “fitas”].

As bibliotecas parecem estar livres dessa pressão. Afinal, os catálogos disponíveis na rede já oferecem acesso e uso livre, não é? Mas esse não é caso. Os usuários de biblioteca podem possuir acesso livre a esse serviço, mas as bibliotecas têm que pagar pelos dados. As bibliotecas pagam pela assinatura de muitas fontes e sistemas de compartilhamento como o WorldCat da OCLC, e LinkUK ou UnityWeb da Talis. [Como a Bireme, no Brasil] Esses serviços agregam dados bibliográficos e conteúdo de muitas bibliotecas diferentes, cada uma fornecendo seus dados de graça, e cobrando dessas mesmas bibliotecas pela utilização do serviço. Algumas organizações atribuem restrições aos “seus” registros bibliográficos. Quando o Google é atualizado ou melhorado, nós simplesmente nos beneficiamos desses aprimoramentos de acordo quando acontecem. Não existe a necessidade dos fornecedores de distribuir atualizações para nós. Não é necessário que nós instalemos algo novo. Na verdade, a maneira como nós acessamos esses serviços é completamente transparente sem nenhuma noção de lançamentos formais ou “novas versões”. Alguém alguma vez perguntou: qual versão do Google ou do Amazon você usa? Ao contrário de aplicações como o Microsoft Office, o qual as pessoas devem comprar, instalar, e manter e atualizar localmente, nós agora esperamos simplesmente acessar e utilizar essa nova geração de serviços sem interferências.

O que essas experiências do mundo moderno significam para as bibliotecas?

A pressão sobre as bibliotecas para que modernizem a maneira que oferecem serviços agora é menos intensa e isso se deve às experiências que as pessoas estão desfrutando com esses fornecedores de serviços na internet. Os usuários da Amazon ou do Google vêem esses serviços fornecendo essencialmente ricos catálogos, para que possam acessa-los em qualquer momento, livremente. Não é surpresa que a expectativa de que as bibliotecas forneçam catálogos (e outros serviços) de qualidade, compreensíveis, fáceis de usar e disponíveis vem crescendo cada vez mais.

1.2 O mercado de software

Em essência, o que nós estamos testemunhando com o crescimento da Amazon e do Google é uma completa transformação no mercado de softwares. Esse mercado hoje está voltado cada vez mais na direção dessa nova geração de serviços de softwares baseados na internet “em tempo real”. Até a Microsoft está considerando oferecer aplicações dessa maneira e, como conseqüência, causar uma mudança radical no modelo de negócios tradicional.

Então como é o novo modelo de aplicação? Bem, pra começar, imagine as aplicações do Amazon e do Google. Estas são aplicações da nova geração que não são mais construídas sobre a “four layer stack” [?] e acessada ou conectada a outras aplicações via rede. Ao contrário, elas são na verdade construídas no topo da internet. Isso significa que as aplicações são feitas de uma série de componentes de base na web, que podem rodar em qualquer máquina, em qualquer lugar. Isso é possível porque os padrões tecnológicos sobre os quais estão baseados são especificações web como o XML (ao invés de padrões dominantes complexos, como o Z39.50 ou o MARC no mundo das bibliotecas). A implicação mais importante disso é que a web conecta os componentes e, diferente de aplicações tradicionais instaladas em máquinas individuais, não existe necessidade de compra ou instalação de hardware, sistemas operacionais, bases de dados e servidores de aplicação. Uma aplicação complexa pode ser construída e executada em um browser ativo em um PC simples conectado à internet. Graças a isso, a maneira como as aplicações da nova geração são construídas se modificou completamente. Estas aplicações são flexíveis e modulares, com cada componente criado para lidar com uma área específica de complexidade (por exemplo, informação geoespacial no caso do Google Maps). As capacidades desse componente são então disponibilizadas para qualquer outro componente através de uma Interface de Aplicação de Programação (Application Programming Interface – API). Isso significa que os componentes podem ser reutilizados em diferentes combinações para se construir novas e diferentes aplicações. Os desenvolvedores das aplicações podem alavancar os dados, interface e poder por trás do (por exemplo) mapeamento do Google, ao invés de ter que construir sua própria versão dele. Então o que isso significa na verdade? O que as aplicações da nova geração permitem é a criação de uma “plataforma” participativa que emprega tanto os usuários como os desenvolvedores de aplicações. No mundo da web, o crescente interesse nessa idéia tem sido chamado de Web 2.0.

1.3 Aplicações participativas

Existe um ditado que diz que o conjunto é maior do que a soma das partes individuais. As aplicações da Web 2.0 compram essa idéia por completo. Componentes individuais são disponibilizados para todos os desenvolvedores de aplicações para “mexer e combinar” e criar novas aplicações com valor acrescido. Na verdade, um indivíduo meramente experiente pode combinar (mash-up) esses diferentes componentes para criar rápida e facilmente aplicações sofisticadas. Em uma recente entrevista para a BBC, Tim O`Reilly coloca essa idéia em um contexto mais amplo: “Toda essa idéia de mash-ups é como uma idéia central da Web 2.0. A idéia que você pode construir serviços – você pode construir novos sites pegando coisas de outros sites, e também os blogs e a tecnologia associada de RSS, que é uma tecnologia de sindicância, que significa que você pode publicar algo em seu site e então enviá-la para seus assinantes”. Significa que pessoas e organizações que anteriormente competiam entre si agora podem trabalho em conjunto em prol de um ganho maior e compartilhado. Também indica que a expectativa do usuário de possuir informação disponível em qualquer aplicação (em qualquer lugar, em qualquer momento) se torna alcançável. O uso de padrões abertos permite que essas aplicações atinjam proporções globais, tomando vantagem das arquiteturas distribuídas e uma grande gama de desenvolvedores apropriadamente qualificados.

Aplicações de baixo custo

Tornar componentes disponíveis para reuso em qualquer aplicação destrava o potencial da indústria de software de fornecer aplicações de baixo custo. Removendo a barreira dos custos básicos, você também remove o efeito sufocante do acesso e da inovação. As tecnologias podem ser licensiadas para exploração e reuso, através de licensas Open Source, amplamente conhecidas. E o fato de aplicações não terem que começar a ser desenvolvidas sempre do zero significa que a habilidade de oferecer acesso a elas pode ser grátis, ou a custos muito baixos. Os fornecedores de informação podem então ir de encontro à “necessidade da gratuidade” dos usuários.

Aplicações disponíveis gratuitamente

A mudança do modelo de software que precisa ser instalada em todas as máquinas significa que qualquer aplicação poderia, como o Google e o Amazon fazem, fornecer atualizações transparentes para os seus serviços. Os usuários realizam suas expectativas de possuir acesso à melhor tecnologia disponível sem ter que manter seus sistemas locais sob manutenção.

1.4 E o que tudo isso significa para a biblioteca?

Simplesmente, as bibliotecas precisam começar a utilizar essas aplicações Web 2.0 se elas quiserem provar a si próprias que são tão relevantes quanto outros fornecedores de informação, e começar a fornecer experiências que vão de encontro com as expectativas dos usuários.

Introduzindo Biblioteca 2.0

Em Talis, nós acreditamos que esse amplo movimento está ajudando a dar forma as maneiras em que o mundo da biblioteca pode descrever e fornecer um conjunto de serviços de biblioteca facilitados na/pela Web (tanto físicos como virtuais) nos parâmetros do Século XXI. Uma Biblioteca 2.0, em que as bibliotecas trabalham em conjunto, para e com suas comunidades. A Biblioteca 2.0 requer uma mudança evolucionária em torno de uma variedade grande de sistemas, processos e atitudes. Talis está trabalhando para entende-los, e expressar os requisitos de maneira clara e explícita.

Parte 2: Nossa visão dos princípios da Biblioteca 2.0

2.1 A biblioteca está em todos os lugares

A Biblioteca 2.0 está disponível quando necessária, visível em uma larga gama de artifícios, e integrada com serviços que vão além da biblioteca, como portais, aplicações de Ambientes de Aprendizagem Virtual e comércio eletrônico. Com a Biblioteca 2.0, as bibliotecas vão além da noção de “bibliotecas sem paredes”, na qual elas ofereciam um website de destino que tentava reproduzir online a experiência total da biblioteca. Ao contrário, aspectos relevantes dessa experiência da biblioteca deveriam ser reproduzidos em qualquer lugar, em qualquer momento que os usuários requisitarem, sem a necessidade de visitar um site separado da biblioteca. Informações sobre empréstimos, por exemplo, deveriam estar disponíveis dentro de um portal autoridade local ou em um Ambiente de Aprendizagem Virtual (Virtual Learning Environment – VLE) de uma universidade ou Sistema de Gerenciamento de Curso (Course Management System – CMS). Entretanto, a biblioteca penetrante não é apenas sobre assegurar que uma biblioteca é capaz de oferecer seus serviços para você em maneiras e locais que são de seu interesse e se integram com o seu fluxo de trabalho. O conceito também reconhece como avanços tecnológicos nos permite mover além do altamente fragmentado oferecimento disponível atualmente para os cidadãos britânicos em comparação com as noções do oferecimento de uma verdadeira biblioteca nacional [?].

A biblioteca penetrante

Hoje em dia, se um usuário mora em Essex e descobre que um livro está na estante de uma biblioteca na Escócia, não existe um mecanismo eficiente promovido pela biblioteca para atuar nesse caso. Os atuais mecanismos de empréstimo entre/nas bibliotecas (Inter Library-Loan) são falhos, na melhor das hipóteses. Certamente, a grosseria dos ILLs contrastam ferozmente com as facilidades que o usuário pode obter um livro novo ou usado no Amazon. Será que existe valor na integração das bibliotecas com mecanismos totalmente diferentes, como os oferecidos pelo Amazon ou eBay? Por que as informações sobre livros e outros recursos disponíveis para empréstimo não podem aparecer em livrarias online como uma alternativa à compra? Da mesma maneira, por que informação sobre livros e outros recursos disponíveis não podem aparecer em sistemas de bibliotecas como uma alternativa à espera por um item que já foi emprestado ou apenas disponível através do ILL? Qual papel terá a biblioteca na mediação dessas escolhas com ou em favor do usuário? O diagrama 1 mostra um demonstrador de prova de conceito da Talis que engloba um componente web em uma página do Amazon para mostrar se um livro se encontra em alguma biblioteca do Reino Unido. A disponibilidade é apresentada, diretamente, através do serviço UnityWeb da Talis. Uma biblioteca penetrante é uma biblioteca visível. E quando uma biblioteca está em todos os lugares, pode auxiliar os usuários a fazer escolhas da melhor maneira. Esses usuários se beneficiam da biblioteca em muitas maneiras, e adquirem valiosas habilidades transferíveis, na manipulação de recursos online.

2.2 A biblioteca não possui barreiras

A Biblioteca 2.0 garante que recursos de informação gerenciados pela biblioteca estejam disponíveis sempre que necessário, e suas barreiras de uso, minimizadas. Na Biblioteca 2.0, existe uma presunção ativa de que o uso e reuso de recursos é tanto permitido como ativamente encorajado. Em acordo com a legislação recente e a melhor prática emergente, existe uma expectativa que os recursos de informação gerenciados pela biblioteca em favor de seus usuários estejam disponíveis para eles utilizarem e reutilizarem sempre, em qualquer lugar e de qualquer forma que lhes for cabível. Ao invés de estarem escondidos em catálogos com uma única interface web, armazenados em bases de dados proprietárias visíveis apenas através do web site de um projeto, ou acessíveis apenas para usuários com certas máquinas fisicamente conectadas a redes particulares, os recursos da Biblioteca 2.0 devem ser mais expostos quanto possível. Eles devem estar disponíveis na web em ampla escala, visíveis para máquinas de busca como o Google, e recuperáveis em novas aplicações e serviços construídos pela biblioteca, e por terceiros.

A democratização da informação

A Biblioteca 2.0 é sobre trabalhar com parceiros e fornecedores para aumentar a disponibilidade de informação, desafiando presunções sobre as restrições vigentes relacionadas ao uso e reuso. Uma grande questão para as bibliotecas deveria ser por que não existe um único catálogo bibliográfico global (e grátis), não como um fim em si mesmo, mas como base para a hospedagem de um melhor e totalmente novo conjunto de serviços. Existe uma imensa gama de sistemas locais, regionais, nacionais e até internacionais funcionando em uma variedade de diferentes plataformas. Isso é um grande custo por duplicação, e nenhum deles é suficientemente ubíquo para oferecer qualquer serviço relevante para uma população de usuários finais. Porém, utilizando o tipo de tecnologia distribuída em escala que o Google, Amazon e outros aplicam, nós podemos criar um catálogo mundial genuíno com muitas vertentes; locais, regionais, nacionais e lingüísticas. As bibliotecas devem se posicionar no centro da “democratização da informação” – ajudando a derrubar os muros que as cercam e permitir uma participação maior. Um grande passo adiante e a base para uma construção, que deverá derrubar os muros em volta de nossos próprios sistemas e nossa própria informação.

2.3 A biblioteca convida para participação

A Biblioteca 2.0 facilita e encoraja a cultura da participação, apresentando as perspectivas e contribuições da equipe de funcionários da biblioteca, parceiros de tecnologia e a ampla comunidade. Blogs, wikis e RSS geralmente são expostos como manifestações exemplares da Web 2.0. Ao leitor de um blog ou um wiki são oferecidas ferramentas que permitem adicionar um comentário ou mesmo, no caso do wiki, editar o conteúdo. Isso é o que chamamos de rede ler/escrever. Talis acredita que a Biblioteca 2.0 significa arrear esse tipo de participação de forma que as bibliotecas se beneficiem de um crescente esforço de catalogação colaborativa, como a inclusão de contribuições de bibliotecas parceiras e a adição de ricos produtos, como capas protetoras de livros ou arquivos de filmes, até registros de editores e outros. A Biblioteca 2.0 é sobre encorajar e permitir que uma comunidade de usuários de uma biblioteca participe, contribuindo com suas próprias visões sobre recursos que ele utilizam e novos que eles desejam acessar. Com a Biblioteca 2.0, uma biblioteca continuará a se desenvolver e estabelecer os padrões descritivos ricos do domínio, ao mesmo tempo que abraça mais iniciativas participativas que estimulam a interação entre e a formação de comunidades de interesse.

2.4 A biblioteca utiliza os melhores e flexíveis sistemas

A Biblioteca 2.0 requer uma nova relação entre as bibliotecas e uma ampla gama de parceiros tecnológicos; um relacionamento em que todas as partes trabalhem juntas em forçar ao limite do que é possível enquanto assegura que serviços centrais continuem a trabalhar com confiabilidade. Uma biblioteca engrandecida com a Biblioteca 2.0 desafia o paradigma tradicional. O modelo antigo, onde um processo formal que tipicamente inclui uma especificação detalhada de requisitos de um contrato complexo é concedido a um único fornecedor que constrói e entrega a aplicação ao longo de muitos meses ou até anos, é substituída. Ao contrário, os componentes são misturados – eles não são subordinados por contrato a um ou outro. A solução é flexível e estimulante. Ela se adapta a tecnológicas e requisitos em mudança, e a biblioteca está livre para trocar componentes mais novos e mais apropriados de acordo com sua entrada no mercado. Conseqüentemente, essas bibliotecas não podem pensar em termos de um “ILS” monolítica, mas muitas utilizam os melhores componentes que aderem aos padrões, permitindo que os módulos interoperem. Essa biblioteca precisa engajar e participar ativamente com uma ampla gama de parceiros tecnológicos, assegurando que um conjunto de sistemas centrais modulares e interoperantes permaneça confiável e robusto. Ao mesmo tempo, a biblioteca deve procurar continuamente por oportunidades para direcionar serviços da biblioteca existentes através de canais aos novos usuários, e se engajar com usuários existentes e potenciais em diferentes maneiras que faça sentido para eles. Através do programa “Connexions”, a Talis já tomou alguns passos iniciais estabelecendo acordos colaborativos com aqueles que no passado seriam vistos simplesmente como nossos concorrentes.

A biblioteca importa

As bibliotecas importam. Nós, em Talis, acreditamos nisso. Muitos membros da comunidade das bibliotecas lendo esse texto acreditam nisso. Mas e o grande público? Aqueles que tomam as decisões que afetam as bibliotecas, acreditam nisso? Um grande número de bibliotecas atualmente pode ser considerado como servente a um segmento em envelhecimento e em redução da sociedade. Elas são gastas, sem brilho: a casa de livros empoeirados. Apesar de certamente não justificado, no mundo do Google e do Amazon, as bibliotecas podem parecer ser irrelevantes. O conceito de Biblioteca 2.0 se constrói sobre o que há de melhor em relação as bibliotecas até hoje, subordina potencial tecnológico e capacidade comunitária em ordem para fornecer serviços valiosos e com qualidade global diretamente para aqueles que se beneficiam deles, quer estejam (ou alguma vez seque entrem) em um prédio de biblioteca ou não. A Biblioteca 2.0 coloca a biblioteca de volta no coração do negócio da informação; fornecendo conteúdo e serviços de acordo com que requisitados, onde, quando e de qualquer forma que seja. Em recompensa, os sistemas da Biblioteca 2.0 fornecem acesso para um força de trabalho valiosa, dedicada e talentosa, capaz de auxiliar novos e antigos usuários em perceber seu completo potencial. Nós receberemos seus comentários sobre a Biblioteca 2.0, e convidamos para se unir a nós na caminhada em direção ao fornecimento de serviços de biblioteca eficientes, relevantes, efetivos e engajados.

Texto original disponível em http://www.talis.com/downloads/white_papers/DoLibrariesMatter.pdf

Tradução de Moreno Barros