Crítica da informação: onde está?

Posted April 29th, 2009 in Ensaio by ExtraLibris

CRÍTICA DA INFORMAÇÃO: ONDE ESTÁ?

JACK ANDERSEN
Progressive Librarian 25, summer 2005

Diz-se que os praticantes da crítica literária são os críticos de literatura; isso é, aqueles que revisam e criticam trabalhos de ficção. Mas onde estão, alguém pode perguntar, os críticos da funcionalidade e legitimidade dos sistemas de organização do conhecimento? Estes são, por exemplo, bibliografias, sistemas de classificação, tesauros, enciclopédias e máquinas de busca – todos os sistemas que de uma maneira ou outra são os mediadores da parte registrada da sociedade e da cultura. Tais sistemas de organização do conhecimento são também as ferramentas profissionais dos bibliotecários. Por essa razão, nós deveríamos imaginar que os bibliotecários possuem muito a dizer sobre o papel e utilidade desses sistemas na mediação da sociedade e cultura, mas é difícil dentro da arena pública encontrar e escutar as vozes críticas de bibliotecários argumentando sobre os sistemas de organização do conhecimento. Nós estamos acostumados a ler e escutar as vozes dos críticos culturais, sociais e literários debatendo assuntos de ordem social e cultural – os tipos de crítica com histórias bem-estabelecidas e aderentes que existem na sociedade. Jürgen Habermas (1996) argumentou, em seu livro sobre a transformação cultural da esfera pública burguesa, que a crítica de arte, crítica social e crítica literária se desenvolveram em espaços públicos como bares, cafés e clubes, e se tornaram escolas do pensamento estabelecidas em gêneros de escrita como jornais e revistas. Elas se tornaram organizadas no senso de que a crítica desenvolveu formas particulares de comunicação para que pudesse falar e escrever sobre assuntos sociais, políticos e culturais da sociedade. Esses modelos de comunicação particulares se mantiveram devido ao seu apelo e crença na discussão racional dentro da esfera pública. As formas de comunicação e a esfera pública eram dialéticas por natureza. A esfera pública constituía o lugar e o espaço para formas particulares de comunicação, enquanto as formas particulares de comunicação contribuíam para materializar e dar forma à esfera pública. A noção de esfera pública burguesa, como argumentou Habermas (1996), recai na suposição de que os cidadãos possuem acesso livre e igualitário à esfera pública.

Os bibliotecários públicos incorporam essa noção de que eles fornecem ao público geral livre acesso à “informação” e conseqüentemente identificam as bibliotecas públicas como parte da esfera pública. Esse é um truísmo amplamente aceito, mas nós raramente ouvimos sobre a participação de bibliotecários na esfera pública através da escrita ou fala sobre assuntos que são relacionados com essa suposta liberdade de acesso à informação.

Considerando que os sistemas de organização do conhecimento exercem um papel na nossa sociedade moderna, nós poderíamos esperar que os críticos que soubessem disso pudessem estar interessados em discutir tais sistemas na esfera pública, revelando suas conseqüências sociais, políticas e culturais. Mas qualquer evidência explícita de tal crítica é, entretanto, invisível, isto é, ainda há de se desenvolver uma maneira de se falar e escrever sobre o papel dos sistemas de organização do conhecimento na sociedade e na cultura. Por falta de um nome mais apropriado, eu devo chamar tal pessoa de crítico da informação (ou “intelectual público”, ver Weisser, 2002) e tal atividade de crítica da informação. Assim, neste artigo eu vou argumentar para uma concepção de bibliotecário como crítico da informação. Começando com uma crítica sobre a falta de crítica da informação, a seguir aponto como deve parecer um crítico da informação, porque ele é necessário e como bibliotecário moderno pode cumprir essa função.

A falta da crítica da informação: a falta de uma disciplina

Os bibliotecários, a biblioteconomia e estudos da informação em geral, sempre tiveram um paradoxal auto-entendimento ou ideologia. Por um lado, eles se vêem como promotores da, por exemplo, democracia, acesso livre e público a informação, coragem civil e alfabetização. Black (2001, p.64; itálico do autor) escreve que

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Bibliotecários públicos são especialmente histéricos para exaltar uma correlação natural, como eles vêem, entre sua missão histórica de democratizar a disseminação do conhecimento e a expansão do acesso que a digitalização da informação promete trazer.
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Mas a aparente falta de bibliotecários ativos e críticos implica que eles não podem ser vistos como advogados da democracia porque a democracia como uma categoria histórica demanda constante análise e crítica para que evolua e se torne estável. A democracia não é uma dada condição, não importa o quanto de acesso à informação os cidadãos possuem.

Por outro lado, os bibliotecários normalmente promovem a imagem de si próprios como agentes neutros na comunicação social e cultural. Isto é, os bibliotecários afirmam que fazem diferença, mas são neutros a como essa diferença deve ser entendida. Uma razão para invocar neutralidade é, de acordo com Agre (1995, p.225), a ideologia da informação, na qual

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serve para posicionar a biblioteconomia como uma profissão neutra, em dois sentidos: (1) bibliotecários minimizam sua participação nas disputas internas de outras comunidades; e (2) biblioteconomia não se define em relação à ideologia de qualquer comunidade particular de usuários.
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Se os bibliotecários se orientassem para as literaturas e não a informação, argumenta Agre (1995), eles deveriam estar participando “nas disputas internas de outras comunidades” já que estas fazem uso das literaturas, e a literatura possui uma história e uma estrutura. Com as comunidades sendo constituídas pelas literaturas, elas fazem uso da literatura com sua história e estrutura em mente. Evocando a “informação”, os bibliotecários transcendem a história e estruturas das literaturas e, conseqüentemente, os são incapazes de se definirem “em relação à ideologia de qualquer comunidade particular de usuários”. Será que, se os bibliotecários tivessem que definir eles mesmos em relação à ideologia de comunidades particulares, eles sairiam do armário, se tornando agentes ativos, discutindo em favor de sua posição e ideologia em relação a outras ideologias?

O que tem contribuído para essa atitude supostamente superiora entre os bibliotecários? Partindo deste ponto nós podemos verificar de que tipo de tradição “acadêmica” os bibliotecários são parte ou produto.

A biblioteconomia [*] é o campo que educa os bibliotecários. Generalizando, a biblioteconomia se preocupa com a produção, distribuição e uso do conhecimento registrado, e o papel dos sistemas de organização do conhecimento nessa atividade. A maneira como os bibliotecários pensam, falam, escrevem, lêem e entendem seu campo é, claro, dependente do discurso hegemônico no qual eles estiveram inseridos durante sua educação. Isso é, o discurso prevalecente e escolas de pensamento nos cursos de biblioteconomia formam a ideologia dos bibliotecários. Em grande escala, os currículos e literatura profissional da biblioteconomia são hoje cheios de linguagem técnica e gerencial, e perspectivas e escritas técnicas e gerenciais. Então, Pawley (2003, p.246) diz que “…o estilo prevalecente do discurso da biblioteconomia usa linguagem técnica-administrativa para situar problemas técnicos e de gerenciamento”. Esse estilo de discurso é difundido na literatura na literatura acadêmica e inibe a habilidade do campo de atuar em compartilhamento com outras disciplinas acadêmicas. Cornelius (2003, p.612, ênfase adicionada) entre outros, comenta sobre isso quando diz que

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Se a biblioteconomia deve ser reconhecida como um membro constituinte de, digamos, as ciências sociais, então em algum nível nós devemos utilizar a mesma linguagem e casar com os mesmos debates teóricos. Não é como se não houvesse discurso da teoria, método e filosofia nas ciências sociais, ou que tais discussões são irrelevantes para a biblioteconomia.
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É vital para a biblioteconomia que se conecte discursivamente com outros campos acadêmicos de modo que isso pavimente o caminho para a biblioteconomia discutir sua relação com a, e papel na sociedade e cultura. Senão, a biblioteconomia se torna um campo flutuante sem significância.

Uma área principal de estudos da biblioteconomia é a organização do conhecimento, uma área cheia de discurso técnico e gerencial. Por exemplo, Andersen (2004, p.41-47) indica a tensão que procedimentos em conferências da sociedade profissional para a organização do conhecimento, ISKO, eram dominados, desde o começo das conferências em 1990, por problemas técnicos e práticos. Recentemente, Mcllwaine (2003) realizou levantamento sobre as tendências na pesquisa sobre organização do conhecimento. Essas “tendências” eram largamente técnicas, preocupadas com sistemas universais, mapeamento de vocabulários, preocupações de interoperabilidade, problemas de fontes, tesauro e representação visual. O levantamento claramente revelou que “tendências” recentes não discutiam ou mesmo questionavam o papel das atividades de organização do conhecimento na sociedade e cultura. A organização do conhecimento não pode agora engajar nesse nível, já que ainda não desenvolveu um discurso que privilegia as necessidades de informação da sociedade e cultura. É a natureza técnica e gerencial do discurso prevalecente da biblioteconomia que torna difícil o engajamento no discurso público. A falta de um discurso socialmente engajado resulta no que Andersen (2004, p.218-219) tem referenciado como “cirurgia informacional”:

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Se nós falarmos apenas no senso de técnicas, princípios ou métodos, nós corremos o perigo de apresentar uma imagem da organização do conhecimento para estudantes, pesquisadores e o público que a faz parecer o que poderia ser chamado de “cirurgia informacional”. Isto é, enxergar a organização do conhecimento como uma “cura intelectual” para a sociedade e seus membros e sua interação com sistemas de organização do conhecimento.
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Tal visão (“cirurgia informacional”) oculta toda atividade crítica e remove atenção da significância postulada das necessidades culturais e sociais.

Ainda, livros como os de Harter (1986), Lancaster (2002), Large, Tedd e Hartley (2001) e Svenonius (2000) podem ser caracterizados como textos que solidificam o uso da linguagem técnica e gerencial na biblioteconomia no senso de que estes são livros como-fazer, constantemente referindo a técnicas, padrões, princípios, métodos e regras. Se o conhecimento profissional de um indivíduo tem como base tais textos, nenhuma atitude crítica é desenvolvida ou demandada porque estes livros não questionam em nenhum momento o papel da busca por informação ou dos sistemas de organização do conhecimento na cultura e sociedade. Eles não fornecem aos estudantes uma linguagem, um entendimento, um conhecimento que os torna capazes de participar no discurso público, debatendo a funcionalidade e legitimidade desses sistemas. Estes livros apresentam, na melhor das hipóteses, uma ilusão aos estudantes enquanto promovem a impressão de que uma vez que o estudante de especializa em tais técnicas e princípios, ele/a se tornará indispensável para a sociedade. Mas alguém só se torna indispensável quando outros reconhecem a vital relação entre fornecedores de serviços de informação e usuários. Ninguém liga se um bibliotecário se especializou em técnicas particulares ou princípios, porque isso não significa que eles podem fazer diferença na vida do usuário. Para “fazer diferença”, receber o status de ser “indispensável”, é necessário um argumento e argumentar significa estar engajado no discurso. Mas compactuando com tal linguagem técnica desengajada, a biblioteconomia comunica uma atitude para os estudantes que diz: vocês não tem nada a ver com isso; vocês não são participantes desse discurso, simplesmente porque não existe discurso. Ainda, simplesmente invocar técnicas, padrões, princípios e regras para que se justifique uma certa prática não justifica essa prática, e sim esconde atrás da própria da prática. Técnica não é uma identidade, e se você não possui uma identidade, quem poderá identificá-lo para que veja se você faz diferença, que é realmente indispensável? Eu acredito que tal identidade reconhecida só pode ser alcançada quando se participa e direciona questões dentro do contexto de uma esfera pública.

O que está apresentado acima aponta para as razões por que os bibliotecários não se enxergam, e conseqüentemente não atuam, como críticos da informação. O discurso de sua bagagem disciplinar, a biblioteconomia, se preocupa mais com problemas prescritos do que problemas descritivos e analíticos. Durante seu treinamento, os bibliotecários não são introduzidos às teorias, escolas de pensamento, disciplinas acadêmicas e conhecimento necessário para engajar no discurso público simplesmente porque a biblioteconomia se coloca distante da sociedade e da cultura através de seu discurso técnico e gerencial, apesar de o campo claramente não hesitar em expor sua significância social e cultural. Dessa maneira, a biblioteconomia falha em produzir críticos da informação e, conseqüentemente, também falha em desenvolver uma posição crítica em razão dos objetos da disciplina. Na seção, argumentarei para a educação de um novo crítico da informação.

Construindo um crítico da informação

A sociedade é a unidade básica da organização do conhecimento. Possui estruturas e esferas particulares organizadas de acordo com interesses particulares e atividades (Habermas, 1996). Essas têm sido desenvolvidas e moldadas historicamente por um variedade de agentes humanos, e as estruturas e esferas em retorno, moldaram a atividade humana. Então, a sociedade consiste de formas de conhecimento organizado e mediado, que é produzido, distribuído e utilizado por humanos.

Sociedade e sua mediação textual

Organização social GERA
Religião, direito, política, ciência, economia, educação, arte, comércio, indústria e administração, que GERA
Documentos e informação afiliada com instituições que sustentam e mantêm estruturas sociais, poder e influência, que GERA
Produção e distribuição, através de uma variedade de gêneros: livros, artigos, jornais, leis, reportes, memorandos, propaganda, noticiários, panfletos e diferentes situações comunicativas, que GERA
Sistemas de organização do conhecimento

A representação da geração textual e organização na sociedade no esquema acima ilustra as formas do conhecimento organizado e mediado na sociedade. Apesar de o esquema ser apenas um esboço, ele mostra que formas amplas de conhecimento organizado constituem sistemas de organização do conhecimento. A parte da sociedade que mais importa para os bibliotecários é aquela onde o conhecimento ou a informação, materializados em uma variedade de gêneros, circula, e qual papel os sistemas de organização do conhecimento possuem em relação a essa circulação, que implica preocupação com o impacto que a circulação do conhecimento exerce sobre a sociedade. Se esse for o caso, significa que qualquer análise e crítica dos sistemas de organização do conhecimento devem ser direcionadas e compreendidas em relação às formas do conhecimento organizado na sociedade. Os bibliotecários não podem oferecer uma visão dos sistemas de organização do conhecimento isolados das estruturas de comunicação totais da sociedade. A prática da biblioteconomia precisa ser condicionada por um entendimento de como o conhecimento e documentos são organizados socialmente, porque essa organização social estrutura e influencia as possibilidades de organização do conhecimento. Atuando como críticos da informação, os bibliotecários devem demonstrar o que Warnick chamou de “aptidão crítica”, que é

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a habilidade de compreender textos, visualizando-os criticamente dentro de um contexto social e textual mais amplo… incluindo a capacidade de olhar sob a superfície do discurso entendendo ideologias e comprometimentos implícitos… (Warnick, 2002, p.6).
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Sistemas de organização do conhecimento são também um tipo de texto, pelo menos no senso de que fazem uso de características textuais para representarem e organizarem documentos. Isso significa que eles também estão circulando “dentro de um contexto social e textual mais amplo”. Esse contexto social e textual é o que constitui a funcionalidade dos sistemas de organização do conhecimento enquanto são desenvolvidos como uma resposta para outras atividades textuais organizadas da sociedade, ou seja, os críticos da informação devem se preocupar com a análise de que tipo de influência os sistemas de organização do conhecimento exercem sobre a sociedade, comparados com outros modos de organização do conhecimento expressados através de atividades textuais. A crítica da informação precisa olhar por trás das formas de conhecimento organizado e mediado na sociedade, “a superfície do discurso”, como Warnick (2002) chama, para apontar para como sistemas de organização do conhecimento particulares funcionam, e ver o que motiva formas particulares de conhecimento organizado. Isso deve fornecer aos cidadãos um entendimento de como eles podem aplicar tais sistemas quando procuram por informações ou conhecimento, ou sobre o que eles podem esperar desses sistemas de organização do conhecimento, ou seja, o que cada sistema pode ou não pode fazer.

As bibliografias fornecem um exemplo aqui. A mudança do registro e distribuição do conhecimento impresso para o eletrônico contribui para o desvencilhamento da bibliografia da ampla história de documentos e o seu papel na sociedade. Isso causou uma falta de aviso sobre o papel da bibliografia na sociedade, já que as bases de dados eletrônicas parece ser basear em uma ideologia de desvencilhamento que suplantou a fundação social das bibliografias como documentos com histórias específicas embasadas em atividades sóciopolíticas. Se essa atividade do passado da biblioteconomia não é mais reconhecida e compreendida, se torna difícil conceitualizar, muito menos discutir, o papel dos sistemas de organização do conhecimento em geral, na sociedade e na cultura.

Atuando como críticos da informação, os bibliotecários poderiam contribuir para a desmistificação dos sistemas de organização do conhecimento na esfera pública, discutindo e justificando por que os sistemas de organização do conhecimento, e sua funcionalidade são importantes para o público. Ou seja, a biblioteconomia precisa argumentar que esses sistemas fazem uma diferença dentro da sociedade, e também mostrar como eles afetam nossas atividades profissionais e diárias. Bibliotecários podem e deveriam fazer isso ativamente, atuando como críticos das estruturas de comunicação textualmente mediadas da sociedade.

Uma maneira de fazer isso é revisar e escrever sobre tais sistemas em revistas e jornais públicos, não apenas na literatura de pesquisa. Mas para que isso aconteça, os bibliotecários precisam desenvolver um vocabulário, um discurso, que não é técnico ou gerencial. Os bibliotecários como críticos da informação precisam direcionar e discutir os sistemas de organização do conhecimento na luz sobre o que estes fazem e não fazem na vida das pessoas. Esse diálogo pode contribuir para o desenvolvimento de uma concepção popular de que os sistemas de organização do conhecimento são uma importante – talvez até indispensáveis – parte da sociedade e da cultura. Quando algum dia isso for alcançado, os críticos da informação poderão fazer uma importante contribuição para o entendimento público de como as muitas atividades de organização do conhecimento existentes na sociedade funcionam, e como estas, ao longo do tempo, serviram ou oprimiram os propósitos democráticos. Essa tarefa deverá ser, claro, condicionada por como as atividades de organização do conhecimento são vistas pelos cidadãos os quais ações sociais dependem do acesso ao conhecimento materializado em documentos. Uma maneira de torna-los visíveis é falar sobre eles em um discurso público (ou esfera), para relacionar problemas dos sistemas de organização do conhecimento diretamente com problemas sociais e culturais. Só dessa maneira o público em geral conseguirá reconhecer o valor potencial e funções dos sistemas de organização do conhecimento. Se as pessoas puderem ver que a funcionalidade dos sistemas de organização do conhecimento está conectada com problemas sociais e culturais, então eles poderão compreender porque tais sistemas funcionam da maneira que funcionam, e assim, as pessoas poderão ver que como outros tipos de informação, os sistemas de organização do conhecimento estão sempre fundados em ideologias particulares. Possui uma ideologia particular não é necessariamente ruim. O problema é não ter ciência da presença da ideologia. A responsabilidade social e cultural básica do crítico da informação deve ser informar a sociedade sobre a existência de ideologias implícitas nos sistemas do conhecimento.

Tudo isso diz que analisar os sistemas de organização do conhecimento é muito mais do que meramente “avaliar”, por exemplo, bases de dados ou máquinas de busca e suas capacidades técnicas. Significa colocar a discussão sobre essas entidades em uma crítica da cultura e sociedade atual. Essa não é a primeira vez que tais discussões são propostas. Já foram sugeridas por Campbell (2002), por exemplo, em sua revisão para o livro de Richard Smiraglia A natureza de “um trabalho”: implicações para a organização do conhecimento (2001). Smiraglia argumenta que “o trabalho” é uma construção cultural. Campbell concorda, mas enfatiza que isso implica uma sensibilidade maior “…para os processos sociais que fabricam nossa concepção de “trabalho” (Campbell, 2002, p.109). Entretanto, esses processos não são, Campbell argumenta, articulados em catálogos. Eles são “…encontrados em, ou derivados de , leituras mais profundas e compreensivas da teoria social e cultural…” (Campbell, 2002, p. 109, ênfase adicionada). A chamada de Campbell para leituras da teoria social e cultural para que se entenda o que sistemas de organização do conhecimento como os catálogos articulam, isto é, o que os catálogos fazem, representa outra maneira de enfatizar a significância de estudos conectadas sobre a organização do conhecimento para expandir horizontes teóricos de modo que faça crescer a consciência sobre suas atividades.

O bibliotecário moderno visionado como um crítico da informação é extremamente necessário porque os sistemas de organização do conhecimento, em particular com o crescimento da internet, fazem parte da nossa vida e atividades humanas do cotidiano. Isso significa que nós estamos mais do que nunca dependentes destes sistemas, mas ao mesmo tempo, nós precisamos de uma percepção crítica sobre como tais sistemas funcionam e por que. Senão, nossa dependência se torna uma participação de escravidão, e não ativa. Assim, análises críticas e a crítica sobre a tendência desses sistemas à pretensão de agir como ferramentas naturalizadas são constantemente necessárias, porque eles dão forma à sociedade e cultura, e em retorno, são moldados pela sociedade e cultura. O bibliotecário moderno deve fornecer a crítica das bibliografias, catálogos, enciclopédias, etc. porque essas são suas ferramentas de trabalho, utilizadas diariamente quando se media sociedade e cultura. Dessa maneira, nós podemos considerar o bibliotecário moderno um crítico da informação.

Conclusão

A discussão acima focou na crítica da informação e nos críticos da informação. Eu tenho dito que os bibliotecários não devem ser penalizados por não apresentar uma atitude crítica frente aos sistemas de organização do conhecimento. A raiz está em sei treinamento profissional: a biblioteconomia [LIS]. Esse campo não pode se caracterizado como um campo que participa fortemente junto de outras disciplinas acadêmicas preocupadas com problemas sociais e culturais. Conseqüentemente, a biblioteconomia não compartilha um vocabulário com disciplinas relacionadas. A biblioteconomia se preocupa em criar seu próprio discurso “metafísico” que tende a favorecer o uso da linguagem técnica e gerencial. Tal linguagem não estimula consciência e análise crítica já que se mantêm distante do objeto sobre o que fala. De fato, a linguagem técnica e gerencial se mantêm normalmente em oposição às necessidades básicas humanas, e é mais preocupada em como fazer as coisas, ao invés de descrever e discutir criticamente como essas coisas (por exemplo, sistemas de organização do conhecimento) funcionam ou não. Nesse sentido, os bibliotecários não podem atuar como críticos da informação porque eles não possuem o vocabulário apropriado. A estrutura discursiva dos bibliotecários precisa mudar se eles buscam uma significância social e cultural, que sempre proclamaram possuir. Em outras palavras, se os bibliotecários atuarão como críticos da informação, eles devem engajar e direcionar seus problemas profissionais em relação ao discurso público. Só assim sua significância apropriada poderá ser estimada e reconhecida.

Referêcias

Agre, P. E. (1995). Institutional Circuitry: Thinking About the Forms and Uses of Information. Information Technology and Libraries, 14(4), pp. 225-230

Andersen, J. (2004). Analyzing the role of knowledge organization in scholarly communication: An inquiry into the intellectual foundation of knowledge organization. Copenhagen: Department of Information Studies, Royal School of Library and Information Science, 2004. x, 257 p. + appendixes. ISBN: 87-7415-278-5. (http://www.db.dk/dbi/samling/phd_dk.htm)

Black. A. (2001). The Victorian information society: surveillance, bureaucracy and public librarianship in nineteenth-century Britain. The Information Society, 17:1, pp.63-80

Campbell, G. (2002). Review of ‘The nature of “a work”: Implications for the Organization of Knowledge’ by Richard P. Smiraglia. Lanham, MD: Scarecrow Press, 2001. Knowledge Organization, 29(2), pp. 107-109

Cornelius, I. (2003). Review of ‘Current Theory in Library and Information Science’, issue of Library Trends, edited by William E McGrath. Journal of Documentation, vol. 59, no. 5, pp. 612-615

Gerhart, S. L. (2004). Do Web search engines suppress controversy? First Monday, vol. 9, no. 1 (http://firstmonday.org/issues/issue9_1/gerhart/index.html)

Habermas, J. (1996 [1962]). Structural Transformation of the Public Sphere: An Inquiry Into a Category of Bourgeois Society. Translated by Thomas Burger with assistance of Frederick Lawrence

Harter, S. P. (1986). Online Information Retrieval: Concepts, Principles and Techniques. Academic Press

Lancaster, F. W. (2003). Indexing and Abstracting in Theory and Practice. London: The Library Association. 3rd Edition

Large, A., Tedd, L. A. & Hartley, R. J. (2001). Information Seeking in the Online Age: Principles and Practice. K. G. Saur Verlag

McIlwaine, I. C. (2003). Trends in knowledge organization research. Knowledge Organization, 30(2), pp. 75-86

Pawley, C. (2003). Information literacy: a contradictory coupling. Library Quarterly, vol. 73, no. 4, pp. 422-452

Svenonius, E. (2000). The Intellectual Foundation of Information Organization. (1st ed). Cambridge, Massachusetts, and London: MIT Press.

Warnick, B. (2002). Critical Literacy in a Digital Era: Technology, Rhetoric and the Public Interest. Lawrence Erlbaum Associates

Weisser, C. R. (2002). Moving Beyond Academic Discourse. Composition Studies and the Public Sphere. Southern Illinois University Press

Tradução de Moreno Barros
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[*] O texto original refere-se a LIS, Library and Information Studies. [EL]

Original: ANDERSEN, Jack. Information criticism: where is it? Progressive librarian, 2005. Disponível em: <http://libr.org/pl/25_Andersen.html>. Acesso em: 09 maio 2006.

* Imagem: Information desk tokyo Tokyo International Forum

Information Desk, Tokyo

Panorama crítico da Biblioteconomia brasileira

Posted April 19th, 2009 in Ensaio by ExtraLibris

Panorama crítico da Biblioteconomia brasileira

Edson Nery da Fonseca
Conhecido pela violência com que tenho atacado os falsos valores da Biblioteconomia brasileira; acusado de traidor da classe, por criticar a ignorância de muitos bibliotecários; apontado como derrotista, por tentar impedir que novos serviços públicos sejam criados em vez de reformar e pôr em funcionamento os antigos – foi com surpresa que recebi o convite graças ao qual aqui me encontro como Paraninfo de novos bibliotecários.

Por isso, embora sensível a tão honroso convite, pensei muito em recusá-lo. Acabei aceitando-o porque me convenci de que, se as concluintes da Escola de Biblioteconomia de Minas Gerais escolheram para paraninfar sua festa de formatura, não um profissional acomodado e satisfeito que aqui viesse para entoar louvores à situação brasileira, em matéria de bibliotecas, mas um crítico por vezes feroz dessa situação, é que desejaram retirar deste ato o aspecto convencional das solenidades acadêmicas, dando-lhe um sentido de luta contra os erros da nossa organização bibliotecãria.

Essa disposição de luta vai muito bem com o espírito das novas gerações brasileiras, caracterizado pelo inconformismo e pelo anseio de reformas. Reforma agrária, reforma bancária, reforma tributária, reforma eleitoral, reforma constitucional, reforma universitária. Por que não uma reforma bibliotecária?

O vosso convite, se bem o interpreto, impõe-me o dever de discutir convosco alguns aspectos dessa desejável reforma. Não sei de missão mais nobre, para uma nova geração de bibliotecários, do que esta de repensar os valores estabelecidos, de lutar contra a obsolescência, de retificar os erros cometidos pelas gerações anteriores.

Para muitos, a Biblioteconomia brasileira vai muito bem. São os bovaristas, vivendo pela imaginação, como a personagem de Flaubert, situações inexistentes; são os basbaques: pessoas boquiabertas diante de tudo; são vítimas da detestãvel doença do “ufanismo” provocada pelo Conde de Afonso Celso com seu livro Porque me Ufano do meu País. Essas pessoas, para as quais tudo vai bem, me lembram a história da marquesa. Longe de casa, resolve telefonar ao mordomo para saber se tudo estava em ordem, “Tudo está em ordem, Madame”, mas, adiantava o mordomo, “os cavalos morreram queimados”. “Morreram queimados? Mas como?” “Porque o incêndio destruiu as cavalariças. Mas tudo vai bem”. “Mas que incêndio?” “O que da mansão propagou-se por toda a propriedade. Mas tudo vai bem”. “Mas a mansão incendiou-se?” “Pois sim, com o cigarro que o marquês deixou acesso sobre sua cama. Mas tudo vai bem”. “E o marquês, Deus do céu, está passando bem?” “O marquês morreu no incêndio, mas tudo vai bem, senhora marquesa.”

Parafraseamos a historieta e perguntamos: a Biblioteconomia brasileira vai bem? Vai muito bem, dirão os bovaristas e os basbaques. Só que a Biblioteca Nacional – isto é, a mais importante biblioteca de uma nação e, no caso da nossa, graças às coleções trazidas por D. João VI, a mais rica da América Latina – está instalada num edifício quase em ruínas, que não comporta mais o seu acervo: fora disso tudo vai bem, porque o Governo construirá outra Biblioteca Nacional em Brasília.

E a propósito de Brasília, qual a situação das bibliotecas na famosa e bela Capital, cuja construção, em 5 anos, foi considerada como “o acontecimento do século”? Ah, em Brasflia tudo vai bem. Só que as bibliotecas dos Ministérios e autarquias estão se transferindo sem nenhum plano, com as coleções lamentavelmente duplicadas, mas, fora disso, tudo vai bem. E o Congresso? Que fez o Congresso quando viu as bibliotecas da Câmara e do Senado transferidas para a sua nova e bela sede? Reuniu-se, certamente, criando a Library of Congress brasileira? Oh, no Congresso tudo vai bem, só que as bibliotecas continuam separadas, como se as duas Casas continuassem no Monroe e no Tiradentes, comprando as mesmas revistas e, o que é pior, classificando, catalogando e indexando tudo isso separadamente. Diga-se de passagem que a duplicação não é só de bibliotecas: há dois serviços médicos, dois arquivos, duas diretorias de pessoal, duas diretorias de material e até duas áreas de estacionamento de automóveis, sendo rigorosamente proibido o estacionamento de automóveis de funcionários da Câmara na área do Senado. Os Senadores transformaram em salinhas catitas os amplos salões projetados por Oscar Niemeyer, e até já quiseram dividir em dois o corredor que liga o edifício principal aos anexos. Mas isso já é outra história. Voltemos a caso geral de Brasília.

Que tal o Plano Piloto? Ah, uma beleza, tudo vai bem. O genial Lúcio Costa tudo previu. Há supermercados, hospitais, igrejas, colégios, quartéis. Há até um ambiente de meia-luz, nas superquadras, para favorecer os namoros. Nem as bancas de revista e jornal foram esquecidas. Mas o genial Lúcio Costa confessou-me que esqueceu por completo as bibliotecas. Esqueceu as bibliotecas? Sim, mas tudo vai bem, porque D. Lydia de Queiroz Sambaquy já projetou, como foi dito antes, a Biblioteca Nacional de Brasília. De acordo com projeto em tramitação no Congresso, esta Biblioteca; fazendo ouvidos de mercador à divisão do trabalho e à especialização, inevitáveis numa época de produção bibliográfica vertiginosa, terá coleções sobre todos os assuntos e atenderá a lodos os tipos de leitores: cientistas, estudantes, trabalhadores, crianças e até aos deficientes da visão. Vai ser um “show” de Biblioteca Nacional. Tudo vai bem. Mas, como boa repartição pública, ficará ela fechada a partir de 8 horas da noite e aos sábados, domingos, feriados e dias de “ponto facultativo”. De modo que a população de Brasília, não tendo para onde ir, nessas ocasiões, continuará enchendo os bares, as boates, os bilhares e os “inferninhos” onde já não faltam os fumadores de maconha e aspiradores de cocaína. Mas tudo vai bem. Quando eu disse a Lúcio Costa que a falta de bibliotecas nas superquadras fazia com que os jovens de Brasma enchessem os botequins que se multiplicavam em proporção assustadora, um dos seus assistentes sentenciou, do alto de sua sabedoria, que a multiplicação de botequins é explicada pelos economistas como fenômeno inflacionário. E o assunto “bibliotecas” foi encerrado.

E a Bibliografia brasileira, como vai? Vai muito bem. Só que o registro do que se publica no Pais é feito, ao mesmo tempo, pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro – em seu Boletim Bibliográfico – pelo Sindicato dos Editores – em seu Boletim Bibliográfico Brasileiro – e pelo Instituto Nacional do Livro, em duas bibliografias diferentes: a Bibliografia Brasileira e a “Bibliografia Brasileira Corrente”, na Revista do Livro. Quem deseja saber o que se publica no Brasil dispõe, assim, de 4 instrumentos bibliográficos. Mas se quisermos saber qual o último relatório de uma repartição pública ou de uma autarquia, ficaremos, por assim dizer, “num mato sem cachorro”, porque não há nenhum registro sistemático das publicações oficiais. Ainda recentemente, escrevia-me James Childes, diretor da Seção de Publicações Oficiais da Library of Congress, perguntando o que fazer para manter-se informado a respeito das publicações oficiais do Brasil. E eu tive de responder: por enquanto, nada, meu caro Childs. Esperemos dias melhores.

Deixemos, agora, a organização geral da Biblioteconomia e da Bibliografia brasileiras e voltemos os olhos para os processos. Afinal, a sala de visitas pode estar desarrumada, mas a cozinha funciona. Vejamos, então, como vai a cozinha biblioteconômica brasileira. Como os livros são tombados, classificados e catalogados? Tudo muito bem, dirão novamente os bovaristas e os basbaques. Só que, na época das fichas perfuradas e dos computadores eletrônicos, o tombamento é feito, em quase todas as bibliotecas do Pais, por meio de escrituração manual, em livros de formato in-folio, tudo como no tempo dos amanuenses sentados em altos bancos e curvados sobre mesas de tampo inclinado. Fora disso, tudo vai bem. E a Classificação? Ah, neste particular, tudo vai bem, realmente, muito bem. Só que a maior parte das bibliotecas usa um sistema de classificação – o decimal de Melvil Dewey – que desde o aparecimento, no começo do século, da Classificação Decimal Universal, conhecida como de Bruxelas, tornou-se um arcaísmo desprezível.

Bem, pode ser que os livros sejam tombados e classificados de modo obroleto, mas cataloga-se muito bem, no Brasil. A primeira geração de bibliotecános formados nos Estados Unidos trouxe de lá, para as nossas bibliotecas, um tipo de catálogo – o catálogo-dicionário – que os próprios norte-americanos – tão saudavelmente dispostos à experimentação e à renovação – já substitulram pelo que chamam de “catálogo dividido”. Pois os bibliotecários “daspianos” – cujo apego a rotinas só pode ser explicado pela preguiça mental – insistem na manutenção do catálogo-dicionário e chegam ao despautério de substituir por ele os bons catálogos sistemáticos das bibliotecas mais antigas. Foi o que aconteceu na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Foi o que se tentou fazer, na Biblioteca da Câmara dos Deputados, o mesmo grupo de bibliotecários “daspianos” que ali andou por volta de 1946, graças a Deus sem nenhum sucesso.

Mas alguém poderá dizer-me que estou investigando os processos pelas suas formas, sem verificá-los substancialmente. Pode ser que as formas sejam obsoletas, mas, dentro dessa obsolescência, os processos estejam sendo bem aplicados. Admitamos a hipótese. Dentro das limitações do sistema, os livros estão bem classificados. Classifica-se muito bem, no Brasil. Só que o livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, foi classificado em Botânica; o romance São Bemardo, de Graciliano Ramos, foi classificado como vida de santo; o Gog, de Papini, foi classificado como vida de Van Gogh; a Correspondência de Fradique Mendes, foi classificada como se o personagem de Eça de Queiroz houvesse, realmente, existido. Fora disso, tudo vai bem…

Os catálogos, por exemplo. Vi, recentemente, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro obras de José Bonifácio, o Moço, catalogadas pelo nome de José Bonifácio, o Patriarca da Independência. Mas as fichas estavam perfeitas, do ponto de vista da técnica catalográfica. Nem faltavam os três pontinhos e o número de folhas não numeradas! Tudo, portanto, vai muito bem. Abre-se a segunda edição brasileira das Normas para Catalogação de Impressos, da Biblioteca Vaticana, e vê-se, em nota do tradutor, como catalogar as diversas Constituições Brasileiras. E lá vem, nessa nota infeliz, a informação, não consignada pelos constitucionalistas patrícios, de que houve uma Constituição brasileira em 1924. Telefonei para a Biblioteca do D.A.S.P., em Brasllia, e perguntei se havia alguma edição da Política, de Aristóteles. “Só o senhor dizendo o sobrenome do autor”, respondeu a bibliotecária, “porque no nosso catálogo os autores aparecem pelos sobrenomes”. Creio que basta. Os bovaristas, os ufanistas e os românticos continuam a dizer que tudo vai bem. Mas não é tanto assim, como acabamos de ver.

Tudo isso é o resultado de uma formação profissional defeituosa, caracterizada pela hipertrofia da técnica, com prejuízo da filosofia biblioteconômica, da cultura que é ingrediente indispensável no treinamento de bibliotecários. Ensina-se um know-how deficiente e capenga, porque desligado do contexto natural da Biblioteconomia, que é a cultura. Ensina-se “como fazer”, sem explicar “porque” e “para que” fazer, de tudo resultando bibliotecários que fazem fichas como o pobre do Carlitos manipulava as chaves de parafuso: criando automatismos puramente animais.

Conversando recentemente, em São Paulo, com Rubens Borba de Moraes, disse-me esse eminente pesquisador e bibliotecário brasileiro que, quando se começou a formar bibliotecários naquela cidade, em 1930, pensou-se em atender primeiro à necessidade imediata que era de classificadores e catalogadores. Em fase posterior, seriam formados bibliotecários de alto nível para as tarefas de planejamento e direção de bibliotecas. Mas o fato é que a segunda fase nunca foi tentada, continuando os cursos de Biblioteconomia a formar o que ele chama de “operários de bibliotecas”.

A situação assume proporções de caricatura, quando vemos essas centenas de “operários” adquirir consciência profissional, fundando associações, pleiteando a direção de bibliotecas e serviços de documentação e até arrancando do Congresso Nacional uma lei completamente divorciada da realidade brasileira. Uma realidade que foi muito bem caracterizada pelo sociólogo Roger Bastide como de “contrastes”, onde a coexistência de áreas super e subdesenvolvidas exigiria uma legislação diferenciada. O resultado ai está: a Biblioteca do Estado da Paraíba sem diretor há mais de um ano, porque, de acordo com a lei, o diretor deve ser bibliotecário e não há bibliotecários naquele Estado, nem o seu Governo dispõe de recursos para importá-Ios.

Como a consciência profissional nem sempre coexiste com a consciência das próprias limitações, os bibliotecários de formação “daspiana” assumiram uma atitude ridícula em face da Documentação. Em toda a parte – na Europa, nos Estados Unidos, na Índia, na União Soviética – foi reconhecido o fracasso das bibliotecas na solução do mais difícil problema que se coloca perante o pesquisador moderno, que é o da dificuldade de tomar conhecimento de tudo o que se publica no campo de sua especialização. Por isso escreveu Suzanne Briet que “la Science trouve son Waterloo dans les bibliothéques”.

Para eliminar ou, pelo menos, diminuir essa dificuldade, surgiram os centros de documentação, com um novo tipo de técnico, o documentalista. Pois bem: em vez de colaborar com os novos serviços, os bibliotecários passaram a hostilizá-Ios e até a negá-Ios – como aquele homem da anedota negava a existência de zebras, mesmo depois de vê-Ias – afirmando que Documentação e Biblioteconomia são a mesma coisa.

Salvo melhor juízo, é esta, em síntese talvez dramática, mas real, a situação da Biblioteconomia brasileira. Não nego os aspectos positivos dessa situação, pois, graças a Deus, a volúpia com que denuncio erros e ataco os falsos valores não prejudica – desculpem a nota pessoal – minha capacidade de admirar ilimitadamente os que são realmente grandes e o que merece admiração.

Admiro sem limites, por exemplo, as figuras de Ramiz Galvão e Manoel Cícero Peregrino da Silva, os dois maiores diretores da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Admiro, entre os vivos, um Rubens Borba de Moraes, uma Sully Brodbeck, uma Etelvina Lima, uma Bernadette Neves, um Manoel Adolpho Wanderley, um Orlando Ferreira, um Abner Vicentini, uma Elvira Strang. Louvo o trabalho profícuo do Serviço de Bibliografia e do Catálogo Coletivo do 1.8.B.D. Enalteço a obra de Cordélia Robalinho Cavalcanti no Serviço Central das Bibliotecas da Universidade do Recife. Sou um admirador do esforço honesto que se faz na Escola de Biblioteconomia de Minas Gerais – esforço honesto que contrasta com a impostura do ensino superior no Brasil.

Mas não temos o direito de enganar os jovens – nós que já atingimos “o meio do caminho de nossa vida” a que se referia o poeta – como o mordomo enganava a marquesa, dizendo-lhe “tudo vai bem”. Não, nem tudo vai bem na Biblioteconomia brasileira, minhas caras concluintes. E se vos falo assim, não é com a intenção de desanimar-vos, pois sei muito bem que os jovens não desanimam facilmente. O mundo de amanhã não será construido pelos conformistas e pelos otimistas, mas pelos que, tendo consciência dos erros do passado e do presente, procuram superá-Ios. Nessa luta é que eu gostaria de ver-vos engajadas. Já o padre celebrante da missa desta manhã lembrou-vos que a missão dos jovens não é conservar velhas estruturas, mas renová-Ias. Essa luta exige coragem – moral de ser minoria, de ficar só contra todos, coragem louvada em livro profético por um estadista diante de cuja memória me inclino e cujo nome pronuncio com emoção: John Fitzgerald Kennedy.

Os burocratas, os preguiçosos, os conformistas, os medíocres, os que vêem tudo cor de rosa – podem chamar-nos de tudo, inclusive de loucos. Não responderemos, porque a resposta já foi dada pelo poeta Fernando Pessoa:

“Louco, sim, louco por
que quiz grandeza
Qual a sorte não dá”.


Original: FONSECA, Edson Nery. Ser ou não ser bibliotecário e outros manifestos contra a rotina. Brasília: ABDF, 1988. p.22-27.

Reflexões sobre a situação do bibliotecário

Posted April 16th, 2009 in Ensaio by ExtraLibris

Otto Maria Carpeaux

A Biblioteconomia é uma técnica; aprende-se em cursos teóricos – os atuais são perfeitamente suficientes – e em estágio prático numa biblioteca bem organizada. O curso universitário de Biblioteconomia não poderia dar mais, se não fosse mais teoria biblioteconômica; teoria de cujo valor prático muitos entendidos duvidam. Contudo, seria possível, numa Faculdade, melhorar as outras disciplinas que ensinam no curso de Biblioteconomia: Literatura geral, conhecimentos de outras ciências etc.; mas essa esperança é ilusória. Literatura, Filosofia, Ciências sociais e naturais, todas elas exigem um estudo sério e especializado; não é segredo, absolutamente, que até o ensino especializado daquelas ciências nas nossas escolas superiores não é ainda, até hoje, perfeitamente satisfatório. O ensino das mesmas ciências como “acessório”, como “complemento”, produzirá só diletantes.

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A anti-intelectualidade na biblioteconomia

Posted April 15th, 2009 in Ensaio by ExtraLibris

Alho, vodca e políticas de gênero:
anti-intelectualidade na Biblioteconomia americana

Michael Winter

O tópico pode surpreender, afinal os bibliotecários são tão obviamente intelectuais, ou pelo menos são amantes dos livros, ainda que tenham sido chamados, talvez injustamente, inimigos dos livros (Adams 1937). Eles são, para usar a agradável frase neutra de Seymour Martin Lipset, distribuidores de cultura (Lipset 1981:333). Mas como Richard Hofstadter apontou em seu famoso livro de 1963, Anti-intelectualidade na vida americana, os intelectuais às vezes demonstram uma profunda hostilidade à vida da mente, mesmo que isto seja alegadamente mais comum nas pessoas de ação. Ninguém fica chocado quando executivos tacham os estudos de história como perda de tempo ou quando políticos ridicularizam os esforços dos pesquisadores em compreender o comportamento humano (Shaffer 1977). Entretanto, os intelectuais ocasionalmente também agem assim, e às vezes os escritores travam essas batalhas nos escritórios das editoras. De fato, parece ser uma das ocupações favoritas da classe intelectual demonstrar ocasionalmente sua anti-intelectualidade como uma espécie de selo de autenticidade frente aos mediadores da cultura de massas. Recentemente, David Bromwich (1996) sugeriu que parte do legado do McCarthismo – um assunto favorito também de Hofstadter – foi a internalização desta hostilidade (ver também Woolf 1964).

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Biblioteconomia e comunicação mediada por símbolos

Posted April 13th, 2009 in Artigos e Estudos by ExtraLibris

H. CURTIS WRIGHT
School of Library and Information Sciences – BYU, 1989.

Resumo

Esse trabalho sai da visão Kaplaniana de informação como estrutura formal das idéias, para a visão Meadiana de comunicação intersubjetiva e daí para a compreensão de realidade de Popper. Apresenta um modelo de Biblioteconomia, identifica seus componentes com os três mundos de Popper e conclui que Biblioteconomia é uma tecnologia de ação intelectual, não uma tecnologia de ação.

“Quando….criticar a filosofia de uma época, não [direcione]… atenção para aquelas posições intelectuais na qual seus expoentes sentem a necessidade … de defendê-las … [Concentre-se nas] presunções fundamentais que aderentes de todos … os sistemas presentes na época inconscientemente pressupoem. Tais suposições parecem tão óbvias, que as pessoas [que as constroem] não sabem o que estão assumindo, porque jamais nenhuma outra maneira de colocar as coisas os ocorreu.” Alfred North Whitehead [1]

Introdução

Esse trabalho, advoga uma filosofia humanística da ciência em um tempo acostumado a quatro séculos de pensamento mecânico para as filosofias científicas do humanismo, é crítico dos pressupostos materialistas tanto em Biblioteconomia como na Ciência da Informação. Em consequência, elabora algumas introspecções às formas filosóficas de Abraham Kaplan, George Herbert Mead e Karl Popper, que representam, menos ou mais, uma oposição leal ao tópico-filosófico que é subjacente à perspectiva científica em comunicação. Nenhum desses filósofos é sensu stricto anti-científico. Todavia, por compartilharem uma perspectiva humanística na comunicação, eles (e outros como eles) oferecem uma real alternativa à teoria dos sistemas, que, não precisa dizer, domina a Biblioteconomia e a Ciência da Informação hoje. Foi Mead quem criou o interacionismo simbólico, que é a visão humanística da comunicação mediada por símbolos, que direta ou indiretamente informa virtualmente todas as teorias da comunicação humana.[2] Mas Mead foi educado na Alemanha e teve inclinações européias. Ele era essencialmente um filósofo da forma [form-philosopher] que se tranformou num intelectual pragmatista como C. S. Pierce (o fundador do pragmatismo) e C.I. Lewis, para os quais pragmatismo era essencialmente uma humanística teoria de significado, com grande relevância para todas as formas de comunicação intersubjetiva.[3] Ele não era um filófoso da matéria [matter-philosopher] que se tornou um pragmatista empírico como William James, por quem o pragmatismo foi transformado em uma científica teoria de ação, relevante apenas para o sistema de comunicação.[4] Kaplan, ao que parece, é também um pragmatista intelectual de classes, com mais afinidades à Mead do que James.[5] Enquanto discursava em uma conferência da American Library Association-ALA, em 1964, enfatizou (1) o papel central dos símbolos comunicativos em criar todas as concernências intelectuais, que estão implícitas no problema informacional moderno, e (2) absoluta familiaridade com a história das idéias,[6] como um modo de entendimento e tratamento, com essas concernências-qualquer coisa, que os bibliotecários e educadores da biblioteconomia nunca consideraram seriamente e outros especialista da informação estão apenas começando a reconhecer. Seu discurso permanece singular na literatura da biblioteconomia, não contendo nada, mesmo remotamente semelhante, à sua importância filosófica, tanto antes ou desde 1964. O pensamento de Popper é também estranhamente similar à Mead,[7] apesar de muitas diferenças: Mead por exemplo, é menos compreensivo e menos ainda prolífico que Popper, para quem o pensamento consiste em duas partes definidas – sua filosofia sistemática e um sumário tri-mundial de sua filosofia sistemática. Munz considera o anterior mais importante do que o último no entendimento do crescimento do conhecimento humano.[8] Mas esse trabalho pega precisamente a visão oposta: é a elaboração de Popper para a realidade de três mundos de Platão, não a filosofia sistemática de Popper, que têm o potencial de criação de uma compreensiva teoria da comunicação capaz de explicar todas as subjetivas e objetivadas formas de conhecimentos em termos de ambientes naturais e culturais e o uso humano de símbolos.[9] A filosofia de Popper de três mundos interativos têm sido explicada nas suas próprias extensivas palavras.;[10] mas a sua mais clara exposição, talvez, veio do mundialmente conhecido neurofisiologista, Sir John C. Eccles,[11] co-autor científico de Popper e a única pessoa autorizada por Popper a discutir sua filosofia publicamente.

Do caos à Kaplan[12]

A Biblioteconomia está sempre em condição crítica. Mas sua crise atual, de acordo com Abraham Kaplan, não resulta de demandas excessivas na execução de suas funções: ocorre porque “a profissão propriamente está insegura sobre quais exatamente suas funções são”, e porque seus educadores e praticantes estão “inseguros também em relação à realização de qualquer função a que são designados…ou que adotam”. [13] A ambivalência ocupacional de biblotecários e outros profissionais da informação, deriva da moderna explosão do conhecimento, que transformou o Século XX em uma era de símbolos, onde “enormes mudanças em qualquer nível de … sociedade podem ser associadas com o conceito de informação.” [14] Kaplan cita três razões para essa importante transformação. São, primeiramente “o volume íngreme de informação,” [15] o que torna virtualmente impossível para qualquer pessoa manter desenvolvimentos em qualquer área. “Têm havido também um fantástico crescimento tecnológico, [na maneira em que] a informação é produzida, processada e transmitida” no mundo físico. [16] Mas a causa básica dessas duas coisas, a razão tanto para o desgovernado volume de informação como para o crescimento imprecedente na tecnologia de informação, é o crescente envolvimento dos tempos modernos com o simbolismo. Em longas conversas telefônicas no começo da década de 1980, eu discutia com Jesse Shera esses elementos dos argumentos de Kaplan. Shera concordou que o “problema geral da informação possui três aspectos” e que nós “apresentamos apenas dois deles”, os quais, o genuíno dilúvio de informação descontrolada sobre nós e as nossas tentativas para lidar com isso através de alta tecnologia [17]. Não existia dúvida na cabeça de Shera que “símbolos … ocupam uma grande parte de nossas vidas hoje, mais do que nunca” e que “o tamanho dessa parte … está crescendo exponencialmente” [18]. A massiva porção de informação disponível para nós exerce um grande impacto na vida moderna. Mas “teorias sobre informação” onde Kaplan explicitamente diz “teorias sobre processos simbólicos”, continuaram a “exercer força similar” [19] e de fato constituem uma básica realidade cultural do séc. XX – onde a letra impressa e suas tecnologias são meramente expressões. “Do ponto de vista da teoria das idéias”, que é o ponto de vista definitivo de Kaplan, tudo sugere que “a nossa é a era dos símbolos” [20].

A profissão da Biblioteconomia nunca investigou o uso humano dos símbolos, que gerou todos os seus problemas intelectuais. Esses problemas entretanto, não podem mais ser evitados, porque o século XX testemunhou uma mudança profunda na natureza do esforço humano. Essa mudança constitui a mais básica transição cultural da era moderna, que certamente fugiu pra longe do intenso trabalho mental de talentosos amoladores ambulantes e inspirou mecânicos[Mecânica] em direção ao intenso trabalho intelecutal de teoristas e filósofos.

A primazia do conhecimento teórico … [constitui] … o eixo principal [da cultura moderna] … A sociedade industrial é a coordenação de máquinas e homens para a produção de bens. [Mas] a sociedade pós industrial é organizada pelo conhecimento, [que é utilizado] em razão de …. direcionar … inovação e mudança … O que é distintivo sobre o [Século XX] … é a mudança no caráter do conhecimento propriamente … O que se tornou decisivo … é a centralidade do conhecimento teórico – A primazia da teoria sobre o empirismo e a codificação do conhecimento em abstratos sistemas de símbolos que podem ser utilizados para a iluminar muitas … [se não todas] áreas da experiência [21].

Como evidência desse fundamental desvio na essência do trabalho, que conta para o nosso eterno envolvimento profundo com símbolos, Kaplan aponta para as “muitas disciplinas intelectuais” que recentemente “aparecem envolvidas em processos de simbolização ou começam a focar … [em] linguagem e simbolismo.”[22] Mas essa observação sobre as disciplinas intelectuais, que explora o ambiente simbólico do pensamento humano, pode ser apenas entendida em contraste com as disciplinas empíricas, que estudam o ambiente não-simbólico da matéria e da energia. As disciplinas empíricas produzem conhecimento das realidades físicas que podem ser observadas através dos sentidos, enquanto as disciplinas intelectuais criam conhecimento das realidades formais que não podem ser observadas através dos sentidos, apesar de poderem ser pensadas e comunicadas como pensamentos. O matematicamente declarado conteúdo de sensação, assim dito, constitui a única referência temática da ciência empírica; [23] mas a mentalização, que precisa ser estudada filosoficamente ou não estudada em outras hipóteses, pode ser declarada apenas verbalmente (em linguagem natural) ou através de imagens indescritíveis (na linguagem de objetos de arte). Aí está uma distinção crucial que a Biblioteconomia tem negligenciado. Confundiu conhecimento de ordem primária sobre os fenômenos, ou o conhecimento intelectual de realidades físicas requisitadas pela ciência, com conhecimento de ordem secundária sobre o conhecimento ou o conhecimento de realidades intelectuais requisitadas por bibliotecários. Assim, bibliotecários e educadores da Biblioteconomia precisam de alguma maneira se livrar do vício pela empírica matéria-filosófica da ciência e passar a valorizar a intelectual forma-filosófica do humanismo crítico. “A base humanística [da Biblioteconomia] está lá”, diz Kaplan, e “irá e precisa permanecer como base”. [24] Por isso que a necessidade que os bibliotecários tem de saber sobre os usos reais que as pessoas fazem do conhecimento “precisa sempre permanecer fundamental” para a Biblioteconomia. Mas essa necessidade não pode ser saciada através de conhecimento científico sobre a natureza física. Clama por conhecimento da natureza humana, e isso, diz Kaplan, “não é nada mais do que conhecimento das pessoas”, ou mais especificamente, conhecimento “sobre as variadas maneiras … [que as pessoas] geram, transmitem e interpretam idéias ou informação”.[25] Kaplan certamente não está falando em termos de engenharia sobre a informação como dado físico na forma de caracteres visuais, sons pronunciados audíveis ou impulsos elétricos. Ele está pensando na informação como idéias e luta para entender (1) como as pessoas trazem idéias para a existência, (2) como elas comunicam as idéias que trazem à existência e (3) como utilizam as idéias que trazem à existência e se comunicam.

De Abraham Kaplan à George Herbert Mead

Da “filosofia da educação bibliteconômica” de Kaplan, diz Jesse Shera, “precisam ser derivadas os objetivos da educação em Biblioteconomia”. [26] Esse estranho endosso das visões simbólicas de Kaplan, é intimamente relacionado à última recomendação feita por Shera para a profissão da Biblioteconomia.”Eu submeto”, ele diz, “que bibliotecários precisam enxergar o “interacionismo simbólico” para a fundação apropriada de uma teoria da Biblioteconomia. [27] Interacionismo simbólico foi criado pro George Herbert Mead, que rejeitou os estudos dos fenômenos sociais por métodos mecanicistas legados para o estudo científico dos fenômenos e trouxe ciências sociais da física. A ordem natural é uma unidade monística que inclui tudo físico e nada mais; mas a ordem social é um dualismo ontológico constituído por uma ordem social empírica , que consiste nas pessoas como treinados que executam coisas, e uma ordem social ideativa, que consiste nas pessoas como pensadores que conhecem coisas. Humanistas consideram instrumental a ordem social empírica, porque constitui seu único instrumento de acesso para a ordem social ideativa; mas os cientistas tratam a ordem social ideativa como não-existente e consideram a ordem social empírica com uma sub-classe da ordem natural. Dessa maneira, a ciência estuda o comportamento humano sem referência aos seus pensamentos; mas o humanismo estuda seu comportamento como único meio de acesso para os pensamentos. A natureza dual do fenômeno social consequentemente direciona para os seguintes assuntos típicos do interacionismo simbólico.

1. O intelecto humano é vigorosamente ativo. Locke estava completamente errado: a mente não é ambientalmente controlada como uma tábua de escrita que passivamente recebe idéias vindas de fora: é o gerador ativo de suas próprias idéias; e utiliza estímulos humanos como símbolos que permitem à mente comunicar suas idéias com outras mentes e controlar todos os tipos de atividades racionais. Assim, a mente humana está constantemente observando, pensando, tomando decisões e agindo ao mesmo tempo – como um ciclista ou um piloto de avião.

2. As realidades formais da mente não podem ser conhecidas empiricamente porque elas não podem ser observadas: podem ser apenas pensadas, comunicadas como pensamento e reconhecida como pensamento considerando símbolos observáveis.

3. Homens são sujeitos inteligentes vivendo em dois ambientes. Esses são o ambiente físico, que inclui toda a matéria e energia do cosmo; e o ambiente cultural , que inclui todas as idéias disponíveis para estudo fora da consciência subjetiva dos indivíduos. Desse modo, as pessoas vivem na paisagem física de um universo objetivo; mas elas também vivem no “clima” cultural de seus parceiros humanos.

4. Tópicos inteligentes ativamente selecionam, interpretam e modificam seus ambientes através da seleção de direções e motivos para o comportamento racional e do controle da sua construção. Essa proposta constitui “um importante dogma da maioira das visões humanísticas da conduta [racional]”, que assume que os “Homens são … participantes na criação de seus próprios destinos”. [28]

5. Acesso ao ambiente cultural humano só é fornecido apenas por símbolos “O Homem tem uma distintiva capacidade para a comunicação simbólica” [29] o que lhe permite pensar abstratamente e codificar idéis subjetivas em informações objetivas que vão ao mundo para outros contemplarem. A objetificação do pensamento é então uma consumação do uso humano dos símbolos. Já que “pensar é estritamente um processo simbólico” [30] e o símbolo físico é o único significado objetivo da comunicação racional, a loja cultural do conhecimento objetificado é acessível apenas através de símbolos.

6. Todos aspectos de específico comportamento racional são simbólicos. Interação humana consigo mesmo e com outros é sempre carregada na razão de símbolos e suas interpretações. Comportamento racional não pode ser explicado, consequentemente, a não ser que pensamento e linguagem sejam considerados, porque humanos inserem significados aos estímulos simbólicos e agem em razão desses significados, que “são socialmente derivados através da interação com outros e não na inerência dos estímulos propriamente”. [31]

7. O significado subjetivo dos símbolos podem ser aprendidos pelos humanos apenas através da comunicação de abstrações. Conduta racional, que é “especificamente aprendida na comunicação simbólica” [32], por um indivíduo ativo, pode ser observada. Mas os significados adquiridos por um indivíduo são abstrações que não podem ser observadas: eles precisam ser comunicados à outros ou permanecer pra sempre com o indivíduo. A comunicação de abstrações, que categoriza a comunicação de todos os significados, é então essencial para a exploração de questões subjetivas.

8. Línguas naturais pode referir para as realidades subjetivas da mente; mas a subjetividade humana não pode ser descrita pela matemática aplicada nem explorada pela matemática pura. Em outras palavras, as linguagens naturais são essenciais, enquanto a matemática é descritiva. Isso significa que as linguagens naturais podem encaminhar a mente para idéias sobre qualquer coisa; mas a matemática é seguramente atada ao universo material; somente pode descrever atualidades físicas ou explorar possibilidades físicas. Matemática é então “um instrumento para aplicação à problemas físicos”. [33] Foi inventada para compreender os objetos físicos e processo da matéria e energia, o que não pode adequadamente ser descrito em palavras. “Os axiomas da aritmética e geometria são baseadas nos processos físicos da contabilização de objetos e medidas de distâncias”; [34] e o cálculo diferencial “é uma tentativa direta de colocar noções físicas de velocidade e aceleração em termos precisos”. [35] Matemática é então a tecnologia intelectual do materialismo, uma linguagem artificial cujas “máximas abstrações são as verdadeiras armas que controlam nosso pensamento do fato concreto” [36] – que explica porque a matemática não pode controlar nosso pensamento sobre a forma abstrata. Linguagem natural, por outro lado, “é o mecanismo primário que conduz à mente e natureza do indivíduo”; [37] e suas abstrações verbais consequentemente constituem nossa melhor compreensão de comunicação intersubjetiva.

De George Herbert Mead à Karl Popper

Fazendo a distinção entre os componentes subjetivos e objetivos do universo formal, Karl Popper classifica o todo da realidade em três mundos separados, que ele chama Mundo 1, 2 e 3. [38]

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Os três mundos de Popper

Assim, Mundo 1 inclui tudo que é físico: contêm todas as realidades naturais e sociais – tudo que é feito de matéria e energia, que inclui (1) todos os objetos físicos, processos, força e campos de força; (2) todas as configurações orgânicas e inorgânicas de matéria e energia (incluindo cérebro humano); e (3) todos os artefatos criados por humanos. Tudo não-físico, por outro lado, é encontrado nos mundos 2 e 3, que contêm todas as formas noetic [tradutor-?]. Mundo 2 inclui tudo não-físico e subjetivo: contêm todas as realidades filosóficas – todos os processos subjetivos do pensamento no mundo privado da individual mente humana; é o mundo pessoal da sua própria inteligência, “o mundo da sua vida espiritual íntima, o mundo que você conhece e vive em todos os momentos que você está consciente, do momento que você acorda, até a hora de dormir. Esse é o Mundo 2,” [39] o mundo da mente humana; é um vigoroso mundo ativo que inclui tudo o que você pode pensar, sentir, criar, lembrar e imaginar; e pode ser “conhecido nos outros apenas através de inferências de comunicações simbólicas.”[40] Mundo 3 inclui tudo não-físico e objetivo: contêm todas as realidades culturais; todos os produtos objetivos do pensamento, que inclui todas as idéias de todos os tipos, que são disponíveis para estudo fora da consciência individual; engloba tudo que é humano a nossa volta e tudo que é criado e objetificado por mentes humanas, incluindo todas as úteis e belas artes. “Nós vivemos no ambiente cultural do Mundo 3”, que é tanto quanto objetivo e “cada pedaço tão real como o ambiente físico do Mundo 1”. [41] Você exibe o comportamento Mundo 3 sempre que comunica qualquer coisa através da línguagem, ou em qualquer outro meio, porque o Mundo 3 é o conjunto da cultura civilizada.

Mundo 3 é o mundo do [conhecimento objetificado, ou] conhecimento no senso objetivo… ele inclui… [todas] idéias … preservadas em formas codificadas… em todos os registros da cultura humana. Na sua composição material de papel e tinta, os livros situam-se no Mundo 1, mas o conhecimento codificado na impressão [de livros] está inserido no Mundo 3, [e a situação é similar]… para imagens e todos os outros artefatos… Mundo 3 inclui os registros dos esforços intelectuais de toda humanidade ao longo dos anos … [é] a herança cultural [da raça humana].[42]

De acordo com Popper, seres humanos podem interagir diretamente com o seu ambiente físico e indiretamente com o seu ambiente cultural (utilizando dados de seu ambiente físico como símbolos comunicativos); mas estes ambientes podem interagir um com o outro “apenas por meio da intervenção humana”. [43] Ele rejeita paralelismo psico-físico, a visão monística do materialismo científico, porque isola as ordens natural e formal, os considera como diferentes aspectos da mesma coisa e os previne de influenciar um ao outro de maneiras significativas; e ele aceita interacionismo psicofísico, também conhecido como interacionismo dual, ou “o senso comum de que as pessoas são constituídas de duas separadas e distintas entidades”. [44] Assim, “a entidade não-material do Mundo 2, o mundo do espírito, é a mente auto-consciente – a alma ou psique que constituem o ser;” e “a entidade material do Mundo 1, o mundo das realidades físicas, é a mente humana e o corpo, que ele controla.” [45] Isso amarra o problema da filosofia corpo-mente à “ligação cérebro-mente” Popperiana, [46] a fronteira de interação entre a mente e seu cérebro, que permite à mente manipular seu ambiente físico controlando o cérebro que controla seu corpo: isso explica como a mente pode criar conhecimento subjetivamente no Mundo 2, expressar as evidentes manifestações de conhecimento no Mundo 1 (codificando-o nos símbolos físicos de relatórios subjetivos), e armazena seus referenciais ideativos objetivamente no Mundo 3; e o processo é reversível – você pode observar os símbolos físicos do conhecimento objetivo no Mundo 1, reconhecer seus referenciais ideativos no Mundo 3, e reconstruí-los como seu próprio conhecimento subjetivo no Mundo 2. Desse modo nós vemos como os imperceptíveis significados, conceitos, memórias, imagens, sentimentos e crenças que constituem nossa experiência pessoal podem ser expressadas para outros comtemplarem, como nós podemos comtemplar as expressões de outras pessoas, “e assim como novos complexos de pensamentos e entendimentos podem ser criados;” [47] e nós também podemos ver como a Biblioteconomia é derivada da habilidade humana de criar e manipular idéias na razão de símbolos.

O palco teatral da Biblioteconomia – todas as funções profissionais do bibliotecário estão implícitas na interface mente-documento, que cria sete elementos e duas visões da Biblioteconomia. [48]

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Os sete elementos incluem três indispensáveis componentes (usuários, conhecimento objetivos e bibliotecários), três interfaces necessárias (as interações entre usuário-conhecimento, bibliotecários-conhecimento e usuários-bibliotecários) e um resultado integrado (o sistema que emerge dos componentes essenciais e interfaces da Biblioteconomia). Tudo começa com o Homem como um animal informacional: o ambiente cultural, que faz ascender a Biblioteconomia, é criada somente porque as pessoas são pensadores que precisam saber todos os tipos de coisas para que vivam de acordo com o que sabem e controlar suas ações por meio do conhecimento; contêm os produtos objetivos do conhecimento nascidas de inúmeras mentes humanas de todas as áreas e períodos; e existe apenas porque “todas as civilizações humanas dependem de um tipo de ‘livro’ cultural, isto é, na capacidade de colocar informação em armazenamento para que se possa reutilizá-la”. [49] A função dos bibliotecários é mediar essa interface entre o Homem e a informação codificada no livro cultural, ou em outras palavras, maximizar a interação humana com conhecimento cultural através de símbolos. Essa função não pode ser executada corretamente até que bibliotecários compreendam as duas pontas da interface mente-documento e a natureza simbólica da interação humana.

Então, eles precisam entender as (1) pessoas como mentes comprometidas no pensamento, (2) a necessidade humana de conhecimento objetivo (que sempre trasncede a mente que o estudam), e (3) o uso humano de símbolos, como meio de as pessoas se comunicarem uma com as outras e com seus ambientes culturais. A importância dessa interface mente-documento não pode ser superenfatizada. Ela fornece os três primeiros elementos da Biblioteconomia; os bibliotecários constituem o quarto elemento; o quinto e sexto elementos constituem de tudo envolvido nas interações entre bibliotecários com conhecimento objetivo e com usuários; o sétimo elemento é a própria Biblioteconomia – o sistema, bom ou mal, que os bibliotecários criaram integrando os cinco elementos na sua disposição. Essa interface básica também revela duas visões, dois modos de indagação e nove áreas-problema da Biblioteconomia. [50] As duas visões são a visão teorética dos educadores da Biblioteconomia, [library educators] que precisam entender a totalidade da Biblioteconomia e e explicá-la como campo de estudo e a visão pragmática dos praticantes da Biblioteconomia [profissionais liberais], para os quais a Biblioteconomia é uma atividade ocupacional. Os dois modos de indagação são pesquisa básica, que constrói conhecimento conceitual da Biblioteconomia como um conjunto integrado com relação à todas suas partes e funções e investigação ad hoc [específica], que objetiva resolver os problemas de serviço dos profissionais liberais. E as nove áreas-problema, que indicam os tipos de problema que surgem dos sete elementos e duas visões da Biblioteconomia, sugerem a visão de Shera de que alta tecnologia pode não somente forçar bibliotecários “a examinar as implicações filosóficas da Biblioteconomia mas também condicioná-los à acomodar “áreas de indagação que não foram previamente … relacionadas com seu trabalho.”[51]

Se bibliotecários…estão dispostos a tomar vantagem das novas tecnologias eles precisam primeiro extender os limites de seu pensamento…e aceitar no corpo de seu conhecimento profissional idéias que a princípio podem parecer estranhas, senão hostís [para a Biblioteconomia]. A profissão precisa estar particularmente alerta às suas margens e ser sensível e responsável para mudar [de maneira] a assegurar uma comunicação clara e aberta com todas as fontes relevantes de inovação.[52]

Essas áreas-problema, que virtualmente geram todos os problemas da Biblioteconomia, podem fatalmente requerer soluções desenvolvidas por todos os campos da ciência e do conhecimento. Os problemas específicos dos bibliotecários, consequentemente, são melhores resolvidos por meio de indagações sistemáticas sobre a natureza de nove problemas, que são listados a seguir.

1. O Homem como uma mente pensante que constantemente cria, usa, armazena, resgata e reutiliza idéias porque requer um contínuo suprimento de conhecimento para que se viva de acordo com o que sabe (ou acredita que sabe). Engloba todos os problemas de conhecimento pessoal, ou os processos subjetivos de conhecer qual deles ocorrem dentro das mentes dos indivíduos.

2. O ambiente cultural humano, que inclui todas idéias criadas e objetificadas como objetos formais pelas mentes humanas. Engloba todos os problemas do conhecimento público, ou os produtos subjetivos de conhecer quais estão disponíveis para estudo como idéias existentes fora da mente que os estuda.

3. A interface mente-documento que inclui todos os problemas derivados da comunicação intrasubjetiva dos humanos com os objetos formais do conhecimento cultural. Preocupa-se com todas as maneiras que uma mente humana pode interagir com objetos formais criados por outras mentes humanas e manisfestadas na ordem social como expressões físicas do conhecimento, expressões consistindo tanto em processos temporais (como discursos e música) como em estados permanentes (pinturas e palavra impressa). A palavra “documento” se refere a qualquer meio natural ou artificial de consulta de idéias objetificadas, colocando-as em espera, para que se possa reutilizá-las quando necessário.[53] Os tipos de conhecimento objetificado que podem ser comunicados por meio de documentos escritos, possuem significado especial para as formas literatas da Biblioteconomia.

4. O bibliotecário como um profissional da informação, que tem por função mediar a interface mente-documento, colocando mentes e documentos juntos e maximizando interações úteis entre eles.

5. A interface bibliotecário-usuário, ou todos os problema derivados da comunicação intersubjetiva de bibliotecários com seus usuários. Incluem todos os serviços diretos à leitores, como recomendações de referência e leitura, e obriga bibliotecários a determinar as necessidades informacionais específicas dos usuários para que os referencie à itens relevantes do conhecimento no ambiente cultural.

6. A interface bibliotecário-documento, ou todos os problemas derivados da comunicação intrasubjetiva de bibliotecários com as idéias que constituem os objetos formais do conhecimento cultural. Incluem todos os serviços indiretos aos leitores, ou operações de coleção, como aquisição e catalogação, e obriga bibliotecários a entender a estrutura intelectual do conhecimento objetificado para que se oriente usuários à objetos formais no ambiente cultural.

7. O sistema integrado da Biblioteconomia criado por bibliotecários baseado nos cinco elementos comuns a performance de suas funções em todas as operações da biblioteca.

8. A visão teorética da Biblioteconomia (visão de cima) Defendida pela maioria dos educadores em Biblioteconomia, cuja função é reduzir os primeiros princípios da Biblioteconomia à um sistema de regras teoréticas que governa todas as suas explicações e aplicações e pode ser aprendida em um programa de instrução prática. Essa visão é sustentada pela faculdade intelectual do entendimento, que criando conhecimento básico da Biblioteconomia como um campo de estudo, fornece a fundação para a prática da Biblioteconomia como uma atividade profissional.

9. A visão pragmática da Biblioteconomia (visão de baixo). Defendida pela maioria dos profissionais liberais e administradores da Biblioteconomia, que precisam lidar com as urgências imediatas das operações específicas da biblioteca. Requer o exercício constante do julgamento prático pelos bibliotecários, porque, aplicando as regras gerais da Biblioteconomia em situações concretas, eles precisam saber o que fazer em situações específicas e como investigá-las para que se resolva os milhares de problemas e serviço que ocorrem em todas as operações de biblioteca.

Uma perspectiva adicional para a Biblioteconomia, que pode ser chamada “visão bem de cima”ou “visão de fora”, é a visão idealizada daqueles consumados bibliotecários e educadores em Biblioteconomia que, na sua onisciência e onipotência, podem integrar todas as realidades abstratas e concretas da sua profissão em uma única metafísica compreensiva fundada na mente humana e no ambiente cultural que cria.[54] É a visão filosófica que dá vida aos primeiros princípios da Biblioteconomia, que em retorno cria o conhecimento teorético aplicado pelo exercício de bibliotecários em todos os tipos específicos de operações da biblioteca. Assim, a interface mente-documento constitui a preocupação central dos bibliotecários e seus educadores. Engloba tudo o que sabem e fazem: não existiria a Biblioteconomia se ela não fosse absolutamente real; e sua tremenda significância exige séria atenção e merece exploração intensiva.

Biblioteconomia e os três mundos de Karl Popper

As realidades físicas da matéria e da energia pertencem à primeira classe de todas as disciplinas empíricas. Em disciplinas intelectuais como a Biblioteconomia, entretanto, elas possuem status apenas de segunda classe como instrumentos simbólicos para que se comunique abstrações formais. A natureza intelectual da Biblioteconomia, pode ser revelada claramente, identificando seus elementos básicos com os três mundos de Karl Popper. Os usuários como animais caçadores de informação, como pensadores pesquisando por conhecimento fora deles mesmos, são sujeitos inteligentes conscientes pertencentes ao Mundo 2; o conhecimento objetivo buscado pelos usuários pertence ao ambiente cultural do Mundo 3; e os bibliotecários como profissionais da informação – especialistas que precisam entender tanto a busca do conhecimento subjetivo, como a busca pelo conhecimento objetivo pelos usuários – são também sujeitos conscientes inteligentes que pertencem ao Mundo 2. Isso levanta a mais reveladora questão. Onde está o Mundo 1?, o mundo físico de matéria e energia estudado pelos métodos empíricos da ciência? Mundo 1, lembre-se, contêm apenas as particulas [item de informação] concretas de matéria e energia, enquanto os Mundos 2 e 3, consistem somente das universais. Mundo 1, consequentemente, não pertence diretamente aos compenentes básicos da Biblioteconomia, porque suas partículas físicas não incluem os processos subjetivos nem os produtos objetivos do conhecimento. Assim, sua significância é completamente confinada às três interfaces da Biblioteconomia onde funciona instrumentalmente como maquinário comunicativo, já que os dados físicos que permitem humanos comunicarem-se entre si e com seus ambientes objetivos são todos derivados do Mundo 1; e o papel do Mundo 1 na Biblioteconomia desse modo, é reduzido a equipar pessoas com matéria-prima para a construção dos instrumentos simbólicos da comunicação humana. [55] Deve ser notado que, além disso, a função profissional dos bibliotecários, que é intimamente envolvida com o modo sujeito-sujeito de comunicação duas vias [two-way], e com o modo forma-à-sujeito de comunicação via única [oneway], tão familiar aos humanistas, virtualmente não possui envolvimento com o modo fato-à-sujeito de comunicação via única que é absolutamente indispensável ao cientista.[56] Você não pode explicar um barco furado ao oceano, em outras palavras, nem pode comunicar nada aos livros que leu ou ao fenômeno que estuda. E a razão para tudo isso é básica: a Biblioteconomia não se preocupa com as realidades; preocupa-se com os relatos humanos subjetivos sobre as realidades. Bibliotecários deveriam entender isso claramente, porque os relatos subjetivos humanos sobre realidades formais ou físicas precisam tanto ser comunicadas diretamente pelos próprios humanos ou indiretamente através de objetos formais criados por humanos. Não existem outros meios de se comunicar relatos humanos subjetivos.

Conclusão

Biblioteconomia é o gerenciamento do conhecimento, não o gerenciamento da natureza.[57] É controlada pelas idéias, não pelos fenômenos, já que responde a necessidade objetiva das mentes no Mundo 2 para conhecimento objetivo no Mundo 3. Mas as abstrações formais de conhecimento subjetivo e objetivo não podem ser observadas: não podem ser vistas, ouvidas, sentidas, tocadas, ou de qualquer maneira detectadas pelos sentidos. Assim, conhecimento, que sempre transcende as realidades físicas do Mundo 1, precisa ser estudado filosoficamente: não pode ser estudado científicamente porque a mente humana, que constitui a fonte e a matéria subjetiva da Biblioteconomia, “é danosamente invisível e uma ciência com conteúdo invisível tende a se transformar em uma ciência invisível.”[58] Isso significa que as abstrações formais do conhecimento precisam ser comunicadas utilizando-se os recursos físicos do Mundo 1 como instrumentos simbólicos que referem a mente à ideías nos Mundos 2 e 3. A comunicação do conhecimento, dessa maneira, não pode ser confundida com os instrumentos físicos pelos quais o conhecimento é comunicado.

O uso humano de símbolos engloba todos os problemas com relação à informação do Século XX. Causou a explosão moderna do conhecimento, que esmaga todos com suas tsunamis de informação; e lançou um esforço sofisticado para trazer nossos profundos oceanos de símbolos sob o controle da tecnologia de eletrônicos. As preocupações informacionais que penetram todos os aspectos da sociedade recaem sobre o coração da Biblioteconomia; mas os bibliotecários e seus educadores tentaram lidar com elas através da Ciência da Informação, que super-enfatiza o aspecto mecânico da tecnologia das comunicações e ignora o aspecto específicamente humano da comunicação, reduzindo conhecimento à sinais físicos. O refinamento da tecnologia, certamente, é uma excelente maneira de gerenciar conhecimento; mas não é o gerenciamente do conhecimento. A construção de maiores e melhores intimidadores para que se empurre a difusão das manifestações físicas da comunicação ou descobrir o potencial comunicativo de raios laser e pacotes de fibra de vidro, pode ser um tremendo impulso para a comunicação; mas eles não são comunicação. É simples e completamente impossível gerenciar conhecimento a não ser que o complexo relacionamento de sinais comunicativos com seus significados subjetivos seja entendido e controlado; e entendido que relacionamento psicofísico clama por uma teoria dualística que é compreensiva o suficiente para explicar exatamente como símbolos físicos são interligados com seus referênciais metafísicos e os seres humanos. Esse tipo de teoria da comunicação compreensiva é precisamente o que está faltando à Biblioteconomia nos dias de hoje.

Antes de falecer em 1982, Shera reverteu seus pensamentos anteriores sobre Ciência da Informação nessas palavras.

Vinte anos atrás, eu pensei sobre o que é hoje chamada de Ciência da Informação como fornecedora das fundações intelectuais e teoréticas da Biblioteconomia, mas agora estou convencido de que estava errado… Eu questiono seriamente se existe uma real interdisciplinaridade entre a Biblioteconomia e a Ciência da Informação… Nós precisamos olhar para outras disciplinas para suas relações interdisciplinares e o núcleo da sua teoria. [59]

Shera posteriormente recomendou interacionismo simbólico para a profissão da Biblioteconomia porque ele sabia que monística “confusão entre dados e idéias,” que entende dados como idéias, “leva à confusão entre sistemas de dados e sistemas de idéias” que embriaga a comunidade da informação hoje. [60] “Essa confusão de idéias e dados,” ele diz “pode ser consertada apenas através da distinção entre sistemas de dados e sistemas de idéias” [61] – uma insustentável distinção que monistas cientistas não pretendem ou podem fazer. Assim, a insistência de Shera no começo dos anos de 1980 que o “problema geral da informação possui três aspectos e [que] nós apresentamos apenas dois deles” é essencialmente correto: a explosão informacional foi amplamente divulgada pela sua escola de Biblioteconomia em Western Reserve; e a profissão da Biblioteconomia finalmente aceitou a tecnologia como uma forma de lidar com isso.[63] Mas para tudo isso, os profissionais da informação, que são largamente comprometidos com o materialismo empírico da ciência, nunca enfrentaram as realidades intelectuais derivadas do uso humano de símbolos.

Os problemas fundamentais da Biblioteconomia não são tecnológicos, nem possuem soluções empíricas: eles são problemas intelectuais que requerem soluções filosóficas. A examinação crítica da comunicação mediada simbólicamente, além disso, oferece à bibliotecários e cientistas da informação a chance de aprender a lidar com os problemas. Mas o interacionismo simbólico também nos confronta com duas alternativas: nós podemos investigar as realidades intelectuais da comunicação simbólica e aprender a limpar a sujeira em que estamos, ou podemos apenas nos preparar para aprender a viver dentro da sujeira. O antigo é o melhor caminho – - não há dúvidas nisso; mas segui-lo será difícil, porque o novo é até agora a única coisa experimentada pelos profissionais da informação.

Notas

[1] Science and the Modern World (“Lowell’s Lectures,” 1925; New York: Macmillan, 1962), 71.

[2] Interacionismo simbólico se espreita no pano de fundo de virtualmente tudo exceto teoria de sistemas, por exemplo, nas duas edições de Stephen W. Littlejohn, Theories of Human Communication (1st ed., Columbus, Ohio: Charles E. Merrill, 1978; and 2d ed., Belmont, Calif.: Wadsworth Publishing Co., 1983). Esse trabalho é um maravilhoso índice para a literatua da teoria da comunicação, mas as vezes desaponta nas suas próprias discussões da comunicação.

[3] “Peirce introduziu o termo ‘pragmatismo’ em 1878 como o nome da teoria do significado,” William L. Reese, Dictionary of Philosophy and Religion: Eastern and Western Thought (Atlantic Highlands, N.J.: Humanities Press, 1980), 419. “Pragmatismo conceitual’ de Lewis, como ele chamou sua posição…inclui…intenções de criar uma filosofia crítica do conhecimento e comunicação,” H.S. Thayer, Meaning and Action: a study of American Pragmatism (New York, Bobbs-Merrill, 1973), 148. Lewis também insistiu que o elemento pragmático do conhecimento é o elemento a priori (o que a mente contribui para o conhecimento), não o elemento empírico (o que o mundo traz ao conhecimento), ibid., 154, 158, 163, 172.

[4] Sobre James como popularizador e pervertor do pragmatismo, veja ibid., 127. “O julgamento usual é que James compreendeu errado, aplicou errado e direcionou errado o pragmatismo de Pierce,” somando que “Pierce certamente tinha o direito de protestar contra o que James estava fazendo.” Nas vastas diferenças entre Pierce e James, veja ibid., 13, 21-22, 74, 76-78, 81-82, 86-88, 97-98, 105, 109 e n. 7, 216-128, etc. Peirce, lembre-se, recristinou pragmatismo em 1905 como “pragmaticismo,” um termo feio suficiente, ele cismou, para proteger dos sequestradores – como James e extendendo um pouco, como Dewey. Sobre as diferenças de James com o pragmatismo recente, veja ibid., 218: “Os recentes pragmatistas, especialmente Dewey, Mead e Lewis, encontraram séria imperfeições na maneira em que James enxergava a mais larga cena filosófica na qual o pragmatismo foi introduzida.” Dewey rejeitou o “anti-intelectualismo na filosofia em James, sua descrença de abstrações científicas e sua inabilidade de ver o significado do método científico como parte vital do questionamento filosófico e interpretações do comportamente,” ibid. Mead satirizou noções populares dos pragmatistas, indubitávelmente com James em mente, Hans Joas, G. H. Mead; a Contemporary re-examination of his Thought, tr. R. Meyer (Cambridge, Mass.: MIT Press, 1985), 36 , citando a The Philosophy of the Act, de Mead, ed. Charles W. Morris (Chicago: University of Chicago Press, 1959), 97. E o “pragmatismo percentual” de William James poderia ser constantemente tratado pelo “pragmatismo conceitual” de C. I. Lewis com sua ênfase sobre “pragmático apriori” e sua insistência de que a filosofia propriamente “é o estudo do a priori,” C. I. Lewis, Mind and the World Order: Outline of a Theory Knowledge (New York: Dover, 1956), 36 e passim.

[5] Estou certo de que Kaplan alguma vez se descreveu como ”positivista por treinamento, pragmatista por inclinação”, apesar de eu não saber onde. Suas afinidades com Mead, entretanto, estão aparentes em qualquer lugar ao longo de sua discussão sobre pragmatismo no The New World of Philosophy (New York: Random House, 1961), 13-52, esp. 18, 22, 25, 30, 50.

[6] O estudo moderno da história intelectual, ou a história das idéias, foi criada por Arthur O. Lovejoy na Johns Hopkins University. Lovejoy examinou, e descobriu querendo, uma revolta no primeiro quarto deste século [XX] contra os dualismos ontológicos e epistemológicos em que filósofos como Russel, Whitehead e todos os pragmatistas americanos estavam envolvidos. Isso explica em parte, talvez, porque pragmatistas intelectuais como Mead e Kaplan geralmente mostram inclinaçõs monísticas que parecem ser mais aparentes do que reais. Kaplan, por exemplo, não pode fazer seguir a história das idéias sem acreditar que as idéias existam. Porém, ele parece negar sua existência rejeitando as duas culturas, e afirmando sua existência argumentando que bibliotecários precisam se preocupar com substância e conteúdo ou com ordem, estrutura e forma. Mas Lovejoy lançou a história das idéias especificamente porque a revolta dos monistas espetacularmente não obteve sucesso, como afirmada na conclusão de seu The Revolt Against Dualism: na Inquiry Concerning the Existence of Ideas (2d ed. “The Paul Carus Lectures,” 2; La Salle, Ill.: Open Court, 1960) 328-29: “A revolta…contra dualimo, tanto psicofísica como epistemológica, falharam. A essência da nossa experiência atual não consiste completamente, e é improvado e improvável que qualquer parte consista, de titulações que, sobre qualquer teoria plausível da constituição do mundo físico, podem supor ser membras daquele mundo; consiste de partículas que..estão presentes apenas dentro dos campos privados de consciências individuais…são destituídas…das propriedades e relações essencias implícitas tanto pelo conceito histórico de físico ou pelo seu conceito fisicista contemporâneo e possui propriedades que coisas físicas não possuem. Eles são, reduzidamente, essencialmente da natureza das ‘idéias’… E é através dessas entidades ideativas que qualquer conhecimento o qual nós podemos nos prender…do mundo físico e de quaiquer outras realidades externas aos nosso diversos campos de consciência, precisam ser mediados”.

[7] Veja, por exemplo, Karl R. Popper e John C. Eccles, The Self and its Brain (New York: Springer International, 1978), 11 n.7: “Existem certas similaridades entre minhas idéias [sobre o caráter e as idéias]…do pragmatista americano G. H. Mead”. Tais similaridades são frequentes e bem pronunciadas entre esses dois filósofos.

[8] Peter Munz, Our Knowledge of the Growth of Knowledge: Popper or Wittgenstein? (Boston: Routledge & Kegan Paul, 1985), 225-26.

[9] Aqueles que discutiram que Popper é irrelevante e ultrapassado, consequentemente, precisam encarar o fato de que não há virtualmente nada em Popper que não aparece, pelo menos implicitado, em Platão, e que Platão definitivamente não é irrelevante também, nem nunca irá desaparecer da tradição intelectual ocidental. Todos estes argumentos, são argumento com Platão, não com individuais filósofos da forma [form-philosophers] como Popper, Kaplan ou Mead.

[10] Especialmente em Karl R. Popper, Objective Knowledge: an Evolutionary Approach (Oxford: Clarendon Press, 1972), que possui nove capítulos e um apêndice sobre o tema, e em Popper e Eccles, The Self and Its Brain.

[11] Em Popper e Eccles, The Self and Its Brains; em duas monografias por John C. Eccles, The Human Mistery (“Gifford Lectures,” 1977-78; New York: Springer International, 1979) e The Human Psyche (“Gifford Lectures,” 1978-79; New York: Springer International, 1980); em John C. Eccles e Daniel N. Robinson, The Wonder of Being Human; Our Brain and Our Mind (New York: Free Press, 1984); em um maravilhoso e sucinto sumário do livro acima entitulado “The Mistery of Personal Existence,”que eu pessoalmente editei para Scholar and Educator, vo. 7, n. 1 (Spring, 1983), 5-18, porque eu o considero o melhor resumo da filosofia dos 3 Mundos de Popper; e em muitas outras fontes.

[12] Essa seção é baseada em meu artigo “From Chaos to Kaplan; a Sga of Library Literature, Scholar and Educator, vol. 8, n. 1 (Spring, 1984), 11-31, que também está incluso em “The Symbol and its Referent; na Issue for Library Education,” Library Trends, vol. 34, n. 4 (Spring 1986), 729-76.

[13] Abraham Kaplan, “The Age of the Symbol—a Philosophy of Library Education,” em Don R. Swanson, ed., The Intellectual Foundations of Library Education … (Chicago: University of Chicago Press, 1965), 7.

[14] Ibid. Itálico

[15] Ibid.

[16] Ibid., 8.

[17] Veja H. Curtis Wright , “Shera as a Bridge between Librarianship and Information Science,” Journal of Library History, vol. 20, no. 2 (Spring, 1985), 149.

[18] Kaplan, “The Age of the Symbol,” 7.

[19] Ibid., 8.

[20] Ibid. Itálico

[21] Daniel Bell, The Coming of Post-industrial Society: a Venture in Social Forecasting. (New York: Baic Books, 1973), 18-20. Itálico

[22] Kaplan, “The Age of the Symbol,” 8.

[23] Veja George Herbert Mead, “Herr Lasswitz on Energy and Epistemology,” Psychological Review, 1 (1894), 173.

[24] Kaplan, “The Age of the Symbol,” 12.

[25] Ibid.

[26] Jesse H. Shera, The Foundations of Education for Librarianship (New York: Becker and Hayes, 1972), 358.

[27] Jesse H. Shera, “Librarianship and Information Science,” em Fritz Machlup e Una Mansfield, eds., The Study of Information: Interdisciplinary Messages. (New York: Joh Wiley and Sons, 1983), 386. Para uma visão recente de interacionismo simbólico, veja Vernon W. Larsen e H. Curtis Wright, “Symbolic Interacionism Theory”, Scholar and Educator, vol. 11, n. 1 (Spring 1987), 49-71.

[28] Jerome G. Manis e Bernard N. Meltzer, eds., Symbolic Interaction: a Readir in Social Psychology (3d ed.; Boston: Allyn and Bacon, 1978), 8.

[29] Arnold M. Rose, “A Systematic Summary of Symbolic Interaction Theory,”em Arnold M. Rose, ed., Human Behavior and Social Processes: na Interactionist Approach. (Boston: Houghthon Mifflin, 1962), 6.

[30] Rose, “Systematic Summary,”12.

[31] Manis e Meltzer, eds., “Symbolic Interaction”, 6.

[32] Rose, “Systematic Summary,”9.

[33] Alfred North Whitehead, Science and the Modern World (New York: Macmillan, 1962), 81.

[34] P. T. Matthews, The Nuclear Apple: Recent Discoveries in Fundamental Physics (London: Chatto and Windus, 1971), 144.

[35] Ibid.

[36] Whitehead, Science and the Modern World , 48.

[37] Stephen W. Littlejohn, Theories of Human Communication (Columbus, Ohio: Charles E. Merrill, 1978), 76.

[38] Veja figura 1, onde a filosofia dos 3 Mundos de Popper está diagramada segundo informações presentes na fig. 7-2 de Eccles, The Human Psyche, 171, com informações auxiliares tiradas das figs. 1-2, 1-4, e 1-7 de ibid., 7, 8 ,19, e das figs. 10-1, 10-2 e 10-8 de Eccles, The Human Mistery, 211, 212, 223.

[39] John C. Eccles, “The Mistery of Personal Existence,” Scholar and Educator, 7 (Spring, 1983), 7.

[40] John C. Eccles, The Human Psyche (New York: Springer-Verlag, 1980), 168.

[41] Eccles, “The Mistery of Personal Existence”, 7.

[42] Eccles, The Human Psyche, 168.

[43] Popper e Eccles, The Self and its Brain, 47.

[44] Eccles, “The Mistery of Personal Existence”, 8.

[45] Ibid.

[46] Popper e Eccles, The Self and its Brain, 37.

[47] Eccles, “The Mistery of Personal Existence”, 10.

[48] A interface mente-documento está diagramada na Figura 2, e elaborada no sistema completo da Biblioteconomia na Figura 3. Essas figuras, que são modificas do diagrama de círculos em Conrad H. Rawski, ed., Toward a Theory of Librarianship: Papers in Honor of Jesse Hauk Shera (Metuchen, N.J.: Scarecrow Press, 1973), 128, deve ser consultado juntamente com a discussão que segue.

[49] Eric A. Havelock, Preface to Plato (Cambridge, Mass.: Belknap Press, 1963), vii.

[50] Um problema crescente em qualquer lugar na Biblioteconomia pode então ser considerado sob duas perspectivas, indicadas pelas sub linhas indicadas em pesquisa basic e investigação ad hoc aos problemas típicos da interface “c”. Outras sub linhas, que foram omitidas para que se simplificasse o diagrama, devem ser entendidas relacionando os dois modelos de indagação a todas as áreas-problemas em Biblioteconomia.

[51] Jesse H. Shera, “Librarians Against Machines,” Wilson Library Buletin, vol. 42, n. 1, (September, 1967), 71-72.

[52] Ibid., 72.

[53] Existem entretanto “documentos” orais e escritos. Exemplos são os poemas Homéricos, as sagas Islandesas, e a constituição oral de Sparta, que foi chamada de rethra (do grego reo, “flutuar”, como em rios, discurso, retórica, etc.)

[54] Essa é a visão endeusada do homo perfectus que pode ser um bem conhecido onipotente leitor flutuando distante sobre um diagrama por exemplo, enxergando-o objetivamente desligado através e fora do diagrama propriamente.

[55] Veja dois dos meus artigos sobre esse tema, “The Informational Function of the Physical Datum in Human Communication,” Scholar and Educator, Spring, 1979, 27-34; e “The Instrumentality of Data,” NLA Newsletter, 6 (May, 1981), 4-9.

[56] O modo fato-à-sujeito de comunicação intrapessoal é consequentemente confinada à função administrativa do bibliotecário, que é profundamente envolvida com os instrumentos comunicativos da Biblioteconomia.

[57] Veja Jesse H. Shera, Libraries and the Organization of Knowledge, ed. D.J. Foskett (Hamden, Conn.: Archon Books, 1965), 176.

[58] G. A. Miller, E. Galanter e K. H. Pribam, Plans and the Structure of Behavior (New York: Holt, 1960), 6.

[59] Shera, “Librarianship and Information Science,”383.

[60] Ibid., 384.

[61] Ibid., 386.

[62] Ibid., 135.

[63] O comércio de computadores [computer business] está vivo e florescendo na Biblioteconomia hoje, apesar da Biblioteconomia definitivamente não estar no comércio de computadores.

H. Curtis Wright
Tradução de Moreno Barros
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WRIGHT, Curtis H. Biblioteconomia e comunicação mediada por símbolos. ExtraLibris, 2005. Disponível em <http://academica.extralibris.info/teoria_da_biblio/comunicacao_mediada_por_simbol.html>. Acesso em: 11 out. 2005.