Normas, normalidade e normatização

Posted April 10th, 2007 in Ensaio by ExtraLibris

Normas, normalidade e normatização

Alex Lennine
Normas não são coisas “normais”. As regras humanas de convívio social, por exemplo, são por definição anti-naturais. Todas as matérias e ciências normativas, a exemplo da Ética e do Direito, procuram prescrever e proscrever comportamentos. Em ciência, isto é ainda mais evidente: o método científico, quando não chega a contrariar por completo ao menos refina as crenças e práticas do senso comum.

É preciso, assim, distinguir as atividades do âmbito da normalidade daquelas da esfera da normatividade, quer dizer, o que seja desenvolver trabalhos segundo os conceitos comuns (por assim dizer “normais”) daqueles mais elaborados, refinados, prescritivos (ditos normativos). Em suma, é preciso diferenciar “normalização” de normatização.

Neste sentido, o termo “normalizar” toma ares suspeitos: o que viria a ser, exatamente, um trabalho “normalizado”? Um trabalho “comum”, desenvolvido “normalmente”, segundo as regras tidas por “normais”? Mas como vêm a ser as tais regras, quaisquer que sejam, “normais”? Já ‘normatizar’ assumiria de todo o sentido que lhe damos ao referi-lo, contra-intuitivamente, como fazer segundo normas.

O ponto é que ao entendermos que fazer segundo normas é fazer contrariamente às idéias de normalidade (coisas comuns, corriqueiras), conforme colocado, não se segue usar estes termos, normalização e normatização, como sinônimos, segundo o uso corrente da língua.

É popular e academicamente aceito, hoje, o uso do termo “normalização” como o ato de tornar conforme as normas. Mas normas, e isto é evidente, não são normais conquanto são procedimentos artificiais, deliberadamente desenvolvidos para fins específicos que, no mais das vezes, podem mesmo ser anti-naturais. É no mínimo pedagógico que, face a isto, reconheçamos e demonstremos aos estudantes o que vem a ser normatizar um trabalho. Não se trata de o fazermos segundo idéias comuns e populares, de acordo com as noções mais simples – e simplistas – de estruturação de trabalhos, mas em concordância às prescrições do método científico e em observância às necessidades de uniformidade da produção acadêmica internacional e as possibilidades de compartilhamento de recursos e materiais no uso das modernas tecnologias de informação e comunicação.

Existem razões para que trabalhos e pesquisas sejam estruturados e divulgados deste ou daquele modo; suas formatações observam critérios acadêmicos e normas científicas, não idéias do senso comum. E seria desde já produtivo, de início inclusive como meio de o demonstrar aos estudantes, que o encarássemos como é: uma questão de normatização, em lugar de “normalização”.